Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

 

Comentários a diversos trechos da Mensagem de Nossa Senhora em Fátima

 

 

Encerramento do Encontro para Correspondentes e Esclarecedores, 5 de junho de 1994

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério tradicional da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

 

Constato, com satisfação, que o nosso auditório de Nossa Senhora Auxiliadora está tão cheio quanto poderia estar, e que a ele confluíram, portanto, Correspondentes e Esclarecedores do norte do estado do Rio, de Minas Gerais, de outros lugares enfim. E assim, amigos e admiradores da TFP de várias fontes e várias origens, mostrando cada vez mais como este movimento que é todo existente para a glória de Nossa Senhora e para a implantação do Reino dEla nessa Terra, para a derrota dos inimigos dEla, portanto, nesta Terra e para o esmagamento total da Revolução gnóstica e igualitária que arrasta o mundo todo para o mal, como nós vemos nos dias de hoje, como a mensagem de Fátima eloqüentemente nos ensina.

Tendo isto em consideração e visto que o burburinho se aquieta, visto que também começamos tarde a nossa reunião, eu já começo a falar desde agora e me empenharei em tratar do assunto de que tratarei com a maior brevidade possível, tomando em consideração os horários que os senhores têm para o regresso aos respectivos lugares de origem para voltarem amanhã para a vida de todos os dias.

Esses dias de presença em São Paulo com os Correspondentes de todos os lugares representa uma espécie de parênteses luminoso na vida de cada um. Na vida de cada um nós estamos postos  –  está dito na expressão "vida de cada um"  – , estamos imersos na vida cotidiana, no tran-tran da vida de todos os dias, enfrentando os mesmos obstáculos, passando pelas mesmas tentações, tendo que vencê-las com os mesmos riscos, com os mesmos esforços, com os mesmos sacrifícios, recebendo também de Nossa Senhora as mesmas ou até crescentes graças, e alcançando assim de cada vez mais esmagar a cabeça do demônio. Nós vamos nesta caminhada tentando trucidar a Revolução e afirmar a vitória da Contra-Revolução.

Mas isto no cotidiano, isto na vida de todos os dias apresenta aspectos difíceis, aspectos cansativos, aspectos por assim dizer poeirentos, porque há qualquer coisa de poluído, qualquer coisa de fuliginoso na atmosfera de nossos dias, por onde as pessoas se sentem como que envolvidas numa trama, na qual não gostariam de estar, que tenta arrastá-las para onde não querem ir, que tenta levar os acontecimentos para onde não devem ir, e é nessa luta contínua que os nossos dias vão se escorrendo tediosamente, grandiosamente.

Grandiosamente porque é magnífica essa luta; tediosamente porque o tédio é um dos aspectos dessa luta. A pontinha de encrenca, a pequena dificuldade com aquela colega, com aquele conhecido, com aquele parente, com aquele filho semi-extraviado pelos erros modernos, com aquela filha que começa a delirar diante dos costumes modernos e da atração da vida moderna, o querer segurar continuamente junto a Nossa Senhora ou fazer voltar para junto a Nossa Senhora aqueles que querem delirantemente às vezes saltar as barreiras e cair no mundo de pecado, tudo isto é difícil.

Por causa disso, eu julguei que o melhor seria nós nos animarmos por essa vida contínua que amanhã nos estará  –  gloriosamente eu digo, porque isto é uma glória  –  emergindo nesta batalha contínua mas sempre vitoriosa.

Eu achei que valia a pena nós conversarmos no nosso último colóquio a respeito de um tema que, debaixo de certo ponto de vista, é o tema dos temas. É Nossa Senhora de Fátima, sua aparição, suas comunicações, e fazermos alguns comentários colaterais. [Aplausos]

Eu vejo bem que dado o volume das revelações de Fátima, difundidas no esplêndido volume de coletânea e ordenação destas aparições pelo meu amigo e valoroso sócio da TFP, Dr. Antônio Augusto Borelli Machado.

Seja dito entre parênteses que é um motivo de alegria para nós saber que, nesse mundo de hoje, esse trabalho nas várias línguas em que foi traduzido está para alcançar dois milhões de exemplares difundidos.

É extraordinário que num mundo onde a literatura pornográfica, a literatura atéia, a literatura revolucionária alcança tanta saída, entretanto, pela graça de Nossa Senhora de Fátima, um livro sobre um tema tão nobre, tão elevado, tão puro, tão austero, consegue um sucesso desses. Sendo que em grande parte isto se deve ao trabalho dos senhores Correspondentes e das senhoras Correspondentes do Brasil, que tão valorosamente têm trabalhado pela propagação desse volume aqui entre nós.

Eu dou graças a Nossa Senhora por toda essa expansão, e peço a Ela em nome de todos os que estão aqui presentes que alcance ainda uma expansão muito maior, para que se possa dizer que, no meio da tempestade de hoje, a TFP foi a grande arauta da mensagem dEla nos povos de hoje.

O método que eu vou adotar para a exposição é o seguinte: eu não vou ler todas as partes da mensagem, mas vou só ler aquelas que eu resolvi destacar para comentar. Então não vai a mensagem inteira, composta pelo texto de várias aparições. Eu não vou ler nenhum texto de aparição inteiro, eu vou ler fragmentos que mais provocam, mais convidam a um certo comentário, em nossos dias, particularmente útil. E peço, para maior variedade no desenvolvimento do tema, que um eremita já encarregado para isso se levante para ler os textos, e eu, por minha vez, irei fazer um comentário a cada texto.

Antes de começar a leitura da primeira mensagem, da primeira comunicação a que Fátima deu ocasião  –  comunicação entre o Céu e a Terra  –  da parte de Nossa Senhora, quer dizer, a aparição do Anjo, eu gostaria de fazer um pequeno comentário a respeito do seguinte: mais ou menos a partir da Revolução da Sorbonne nós notamos uma difusão pelo mundo de uma espécie de revolução que já tomou nome, todo o mundo sabe que ela está se espraiando pela Terra inteira. Ela tem o nome de que os senhores já ouviram falar, pelo menos a maior parte dos senhores já ouviu falar com certeza. É a revolução dita Revolução Cultural, cuja característica consiste no seguinte: toda a Revolução é uma mudança, uma mudança violenta e contra a ordem. Uma mudança pode não ser contra a ordem, pode não ser violenta. A Revolução é uma mudança, mas ela é uma mudança que se caracteriza das outras por ser violenta e por ser contra a ordem.

A Revolução da Sorbonne, no famoso instituto de cultura da França, um dos mais famosos do mundo, foi uma explosão de indignação, de inconformidade da juventude daquele tempo contra especificamente tudo quanto é ordenado, tudo quanto é belo, tudo que é conforme ao bom senso. Foi uma explosão de anti-bom senso, uma explosão de anti-senso estético, que fez com que começasse a nascer, a partir daí, manifestações ditas artísticas, mas que só podem ser chamadas artísticas no sentido de que versam sobre a arte, que têm a arte como tema. Porque, de fato, se nós reconhecemos como verdadeiro sentido da arte a expressão do belo, são revoluções antiartísticas, antipulcras, anticulturais, portanto, são portadoras de uma cultura anticultural.

Essa Revolução da Sorbonne se caracterizou pela adoção imediata de modas masculinas e femininas proletarizantes, que não visavam de nenhum modo  –  no que diz respeito à moça  –  realçar de forma cheia de pudor, o recato e o encanto que Deus quis pôr no sexo ao qual pertence à Sua indizivelmente perfeita, santa e boa Mãe, Nossa Senhora.

Pelo contrário, essa Revolução lançou uma moda que masculiniza a mulher, que lhe tira, portanto, a delicadeza e a beleza, tanto quanto possível. Introduz sistemas de vestir-se, sistemas de decorar espantosos, meio surpreendentes, meio estertorosos, dando origem a toda uma estética deformada, que nós podemos chamar de contra-estética, de antiestética.

Logo depois começou o rock and roll, que está para a Revolução Cultural, mais ou menos como a "Marseillaise" está para a Revolução Francesa, a famosa marcha dos expedicionários do Reno de Rouget de Lisle, composta durante a Revolução Francesa. Os acordes dela de tal maneira se conjugam com o espírito maldito da Revolução Francesa, que basta a gente ouvir os primeiros acordes da "Marseillaise", que já compreende que está em presença da música da Revolução por excelência.

Embora nessa música converge traços de beleza, ela de si tem qualquer coisa que é, dentro da beleza, um qualquer esgar, uma qualquer caricatura de sua própria beleza, e qualquer coisa de estertorante, qualquer coisa que faz pensar nos tormentos eternos do Inferno, dentro mesmo da marcha cadenciada e cheia de ânimo que caracteriza os acordes da "Marseillaise".

Assim também o novo hino da nova Revolução se caracterizou pela mesma coisa. É um hino com dança. A "Marseillaise" não é dançada, é marchada, é uma marcha militar. Essa é, pelo contrário, uma dança, e é a dança da loucura, do esfilparramento, da desagregação de todas as coisas. É o Rock and roll around the clock, que deu origem a uma série de sistemas musicais, modificações, e que originou essa barulheira chamada a música moderna.

Nós poderíamos multiplicar os exemplos assim mais ou menos ao infinito, com as extravagâncias da arquitetura moderna e de tudo aquilo que de lá para cá se tem consignado com o adjetivo de moderno.

Nós devemos notar que em Fátima a primeira manifestação do interesse, da bondade de Nossa Senhora e do desvelo de Nossa Senhora pelo gênero humano, especialmente pela Igreja Católica, se deu com uma extraordinária manifestação de beleza. E enquanto o mundo se preparava para entrar na IV Revolução, essa extraordinária manifestação de beleza se apresenta como um último chamado, uma última clarinada, um último brado materno: "Meu filho, não sejas tão louco, não te atires por lá. A beleza tem outros rumos, tem outro sentindo. Vou-lhe apresentar um figurino disso".

Esse é um dos sentidos da aparição do Anjo. As palavras que o Anjo disse para os três pequenos pastores são como que autônomas neste sentido. Ele fala outras coisas que veremos daqui a pouco, mas de qualquer maneira esta beleza com que ele aparece é uma espécie de protesto mudo e de convite: "Beleza é por aqui, é nesta escola, é nesta linha. Abandonai as hediondeses da loucura, com estas não se vai".

 

 

 

PARTE I

 

Aparições do Anjo de Portugal

 

"Antes das aparições de Nossa Senhora, Lúcia, Francisco e Jacinta  –  Lúcia de Jesus dos Santos, e seus primos Francisco e Jacinta  –  tiveram três visões do Anjo de Portugal, ou da Paz".

 

Por que um Anjo? Porque sempre Deus é o Senhor supremo, Rex regnum et Dominus dominantium, Rei dos reis e Dominador dos que possuem qualquer forma de domínio, Ele está acima de todos. E por causa disso, em grande número de manifestações do Céu, Ele aparece não falando diretamente, não tratando diretamente, mas mandando falar ou tratar por meio de emissários dEle. Emissários altíssimos, são Anjos, superiores aos mais altos homens a perder de vista, mas infinitamente abaixo do trono de Deus, com O qual ninguém tem comparação.

Nós notamos esse princípio nas aparições de Fátima.

Aparece primeiro um Anjo. Um Anjo que é tal, que se nós o víssemos assim poderíamos à primeira vista talvez imaginar que é o próprio Deus. Não era, e ele disse claramente que se tratava de um Anjo.

Depois de aparecer três vezes o Anjo, vem Nossa Senhora, Regina angelorum, Rainha de todos os Anjos, superiores a eles sem conta, porque Ela é Mãe de Deus. Mas, apesar de tudo, Ela não é Deus.

No fim, de um modo maravilhoso, alguma coisa do próprio Deus aparece.

É a hierarquia que nos deve ser tão cara, a hierarquia de todas as criaturas, que se desdobra a partir da supremacia, da majestade suprema dAquele que é tudo. É a ordem hierárquica do universo que se manifesta nestas aparições ordenadas de Fátima, e que me compraz acentuar aos senhores, porque nos ajuda a amar esta ordenação, que faz com que precisamente nas lutas desta Terra, nossa luta legal, ideológica e pacífica pode definir-se em boa medida nessas palavras: é a luta da ordem contra a desordem, da hierarquia contra a Revolução, do bem contra o mal, de Deus contra aquele que se revoltou contra Deus, esse que não queria que houvesse seres superiores a ele: Satanás.

Então vamos ver como é essa primeira manifestação de pulcritude, de beleza, na primeira clarinada dessa série de graças que o mundo decadente  –  e que decaiu até onde decaiu agora  –  estava.

 

Primeira aparição do Anjo

 

"A primeira aparição do Anjo deu-se na primavera ou no verão de 1916, numa loca (ou gruta) do outeiro do Cabeço, perto de Aljustrel, e desenrolou-se da seguinte maneira, conforme narra a Irmã Lúcia:

"Alguns momentos havia que jogávamos, e eis que um vento forte sacode as árvores e faz-nos levantar a vista para ver o que se passava, pois o dia era sereno. Então começamos a ver, a alguma distância, sobre as árvores que se estendiam em direção ao nascente, uma luz mais branca que a neve, com a forma de um jovem transparente, mais brilhante que um cristal atravessado pelos raios do sol.

"À medida que se aproximava, íamos-lhe distinguindo as feições: um jovem dos seus 14 a 15 anos, de uma grande beleza. Estávamos surpreendidos e meio absortos. Não dizíamos palavra.

"Ao chegar junto a nós, disse:

 –  Não temais. Sou o Anjo da Paz. Orai comigo.

"E ajoelhado em terra, curvou a fronte até o chão. Levados por um movimento sobrenatural, imitamo-lo e repetimos as palavras que lhe ouvimos pronunciar:

 –  Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e Vos não amam.

"Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse:

 –  Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas.

"E desapareceu.

"A atmosfera sobrenatural, que nos envolveu, era tão intensa, que quase não nos dávamos conta da própria existência, por um grande espaço de tempo, permanecendo na posição em que nos tinha deixado, repetindo sempre a mesmo oração. A presença de Deus sentia-se tão intensa e tão íntima, que nem mesmo entre nós nos atrevíamos a falar. No dia seguinte, sentíamos o espírito ainda envolvido por essa atmosfera, que só muito lentamente foi desaparecendo.

"Nesta aparição, nenhum pensou em falar, nem em recomendar o segredo. Ela de si o impôs. Era tão íntima, que não era fácil pronunciar sobre ela a menor palavra. Fez-nos talvez também maior impressão, por ser a primeira assim manifesta".

 

Os senhores estão vendo a beleza de tudo. Três criancinhas num prado, diz aí "jogávamos". “Jogávamos” é uma expressão daquela zona para indicar que brincavam jogos infantis. Eles brincavam quando o vento soprou.

O vento soprou e elas levantaram a cabeça para ver o que era. Ao levantar a cabeça, um certo núcleo luminoso começou a lhes aparecer no fundo do horizonte e foi ficando mais perto, de maneira tal que, em determinado momento, puderam ver que aquilo tinha uma forma humana. Tinha forma humana de um jovem, e de um jovem de uma extraordinária formosura. Não feito de carne, não feito de osso; parecia feito de uma matéria que se diria quase matéria sobrenatural. A descrição está muito bem feita: era como se ele fosse de cristal.

Pode-se imaginar mais adequada descrição de um Anjo do que imaginado de cristal? Puro como o cristal, leve como o cristal, encantador como o cristal, mas essencialmente transparente. De maneira tal que é como o cristal, feito para se ver além dele. O Anjo é um cristal, uma lupa para se ver mais de perto a Deus, para se ter uma melhor idéia de Deus. Mas isso em que expressões de beleza.

Na realidade, a Irmã Lúcia conclui que a presença de Deus... – Deus não apareceu, mas Ele deixou sentir Sua presença – a simples presença de Deus naquelas crianças, entretanto muito criancinhas e, portanto, ignorantes de tudo quanto é um pouco mais desenvolvido de nossa religião, produziu um tal efeito nas crianças, que elas primeiro compreenderam que era para não falar com ninguém, se bem que a aparição não lhes recomendou o segredo. Não recomendou, mas fez muito mais do que recomendar.

Impôs? De algum modo sim. Elas não conseguiriam falar porque a presença de Deus estava de tal maneira ainda marcando as suas almas, que elas entendiam que sobre essa presença não se fala com ninguém. Mais ainda: o que está dado a entender é que se sobre isto falaram uns com os outros, as três crianças, falaram muito pouquinho. A voz do silêncio era o melhor comentário para aquilo que se tinha passado.

Mas era o primeiro fulgor do quê? Contra a revolução da feiúra, do hediondo, do pecado, a contra-revolução da castidade, a contra-revolução da pureza, a contra-revolução de tudo que é transparente para Deus e através do que a luz de Deus se comunica aos outros homens.

Haverá uma coisa mais bela, mais convidativa do que isto para formar o espírito num sentido contrário à Revolução que estamos presenciando atualmente, aRevolução Cultural?

 

Segunda aparição do Anjo

 

"A segunda aparição deu-se no verão de 1916. Assim narra a Irmã Lúcia o que o Anjo lhes disse:

 –  Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações Santíssimos de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.

 –  Como nos havemos de sacrificar?  –  perguntei.

 –  De tudo que puderdes, oferecei a Deus um sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores. Atraí assim sobre a vossa pátria a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar.

"E desapareceu."

 

Não diz "que vos enviará", diz "que vos enviar", para não assustar as crianças. Mas evidentemente esta preparação para o sofrimento se dá porque tudo fala de sofrimento nessa aparição. Aparece, na primeira vez, um Anjo esplendoroso; na segunda aparece algo de mais esplendoroso do que um Anjo, mas por detrás de véus. O que é que aparece? Aparece a cruz.

O Anjo na sua pulcritude, na sua beleza, prepara as almas com alegria para um grande ideal. É o ideal da santidade.

Mas na segunda aparição está dito: "Realmente, é belíssimo. Mas, prestai atenção, primeiro Deus Vos ama de um modo especial. Ele Vos ama de um modo especial e por isso tem as vistas com olhares de misericórdia sobretudo sobre vós". Isso faz compreender o começo das palavras do Anjo: "Não temais".

É que esse Anjo era tão esplêndido, a natureza angélica é tão esplêndida, que quando o Anjo Gabriel apareceu a Nossa Senhora e falou a Ela, Ela que era Ela, Ela teve uma reação pela qual o Anjo disse: "Não temas, ó Maria". Quer dizer, procurou dissuadí-la, a Ela que tudo não é senão perfeição, procurou dissuadí-la do temor, tal a grandeza e o esplendor do Anjo. Aí ele disse quem ele era e qual era a mensagem de que ele estava encarregado.

Aqui também, ele apareceu, os senhores estão vendo que as crianças não ficaram propriamente amedrontadas, mas ficaram imponentizadas, por assim dizer. A imponência do Anjo, o esplendor do Anjo os fez sentirem-se pequeninos. Sem ficarem humilhados, ficaram humildificados. A humildade os encheu, o recolhimento abateu neles a natural distração e superficialidade da infância.

O Anjo fala a respeito de várias coisas, Deus quer isto, quer aquilo, quer aquilo outro. É o preço que Deus pede. Ele começou dizendo tudo quanto dá, mas depois ele diz: "Mas eu peço algo".

Pede o quê? Em última análise é a cruz. O dia inteiro estarem pensando nessa mensagem, estarem pensando nos pecados dos homens que levaram a tornar necessária essa reparação, o quanto Deus é ofendido, e, portanto, no valor que tem todo o ato de reparação que uma pessoa pode oferecer.

Ele deixa bem claro um ponto que causa surpresa, mas que tem um sentido psicológico profundo.

Ele mostra aos meninos que eles têm na reparação um papel profundo, têm muito que ajudar para reparar. Mas é por que eles são muito bons? É por que eles têm grandes qualidades?

Dir-se-ia que o Anjo teme a megalice deles. É Deus, que através do Anjo, conhecendo a fraqueza humana, sabe quanto o homem é sujeito a toda a forma de megalomania, e por causa disso, Pastor eterno e vigilante, se lembra de dizer as coisas de maneira a evitar os delírios da mente do homem nascido no pecado original. Então deixa bem claro que Deus tem os olhos voltados sobre eles, mas por desígnio de misericórdia, é por bondade de Deus.

Não dá como razão que eles são muito puros, não dá como razão que eles são muito piedosos, não dá como razão que eles guardaram a inocência. Não. É porque Deus é bom, que olhou para eles.

As outras razões existirão, e a gente vê que existem, que é evidente que Deus amou a pureza deles, que Deus amou a inocência, que amou neles tudo quanto é patente que amou, mas não quis dizer isto a eles. Disse a eles que é da bondade de Deus, que nos convida muito mais a amá-Lo do que toda a glorificação de nossa bondade.

Com efeito, se eu dissesse: "Deus é bom para mim porque eu fiz muito por Ele", suposto que eu tivesse feito muito, eu estaria dizendo: "Eu comecei por ser nas relações Deus-eu o bom, eu fiz muita coisa. Agora, Deus como é bom, me agradeceu a mim e me ficou querendo bem. O benfeitor inicial fui eu e aí seguiram-se as relações com Ele".

É um absurdo! O benfeitor inicial é sempre Deus, e nós somos uma consequência, nós somos um ressoar daquilo.

Isto fica dito muito ligeiramente, mas fica patente nesse diálogo, nessa dialogação.

Depois vem então, a Lúcia, se não me engano é ela, faz a pergunta:

 –  Mas como nós havemos de fazer sacrifícios?

A resposta é:

 –  De todos os modos.

É possível que ouvindo essas expressões, é possível que os senhores também se tenham perguntado: "Mas como nós havemos de nos sacrificar?"

Eu, fazendo eco  –  como todo o fiel deve fazer  –  à voz do Anjo, diria: "De todos os modos". Mas eu acrescentaria: "Para nós, da TFP, existe um modo especial, existe uma reparação especial. Esta nós a devemos oferecer torrencialmente". E eu daqui a pouco direi no que é que é que consiste isso.

Onde eu quero chegar no momento é essa idéia de que a reparação sendo muita, pode obter de Deus uma atenuação, uma dulcificação dos castigos que Ele prepara para a Humanidade [caso esta continue a não dar ouvidos à Mensagem de Nossa Senhora em Fátima]. Não fala propriamente em perdão, Ele fala em dulcificação. Mais adiante a linguagem se torna mais próxima do perdão; por enquanto ela é muito discreta, ela fala de dulcificação.

Uma dulcificação se apresenta e pede a eles que concorram, que contribuam, e que contribuam de todas as maneiras e a todos os instantes. Depois fala da doença.

É curioso que a doença cai dentro de não muito tempo sob duas das crianças: Jacinta morre e morre o Francisco. Lúcia, que haveria de viver até agora e até quando Deus quiser, Lúcia, pelo contrário, não se fala de doença. Não se fala, portanto, de uma espécie de martírio para sofrer logo; fala-se de alguma outra coisa misteriosa, que depois se compreenderá o que é.

É o cumprimento da missão dela, que deve fazê-la sofrer muito. A missão de ser a portadora do segredo de Deus, deste segredo que os homens não querem ouvir, ou se querem ouvir, querem na esperança de que seja um segredo agradável de ouvir, porque o homem de hoje só quer saber de coisas agradáveis, não quer saber de outras coisas. Ela tem a incumbência de levar esse segredo incólume até ao momento em que seja preciso rasgar o envelope em que o segredo está escrito e será lido.

Mas esse segredo jaz no Vaticano num móvel ou num armário, do qual disse – se não me engano – o Cardeal Otavianni que é um desses poços profundos onde as coisas caem e não saem. Ali está esse segredo. É um modo de dizer que só sairá por ordem expressa do Papa em circunstâncias muito especiais.

Quantas vezes a Irmã Lúcia terá sido interrogada? Quantas vezes ela terá recebido consultas diretas do Vaticano sobre um ponto ou outro do segredo? Quantas vezes ela terá tido que lutar para manter que o segredo dizia A e não B? Pecável como ela é, ela terá lutado sempre com a energia de quem cumpre indomavelmente a sua missão?

São problemas para os quais nós não temos resposta, só a teremos em momento oportuno. Mas fica ali à mostra esta idéia: que é preciso uma grande penitência para reparar os pecados dos homens.

Eu pergunto: para nós, no que é que consiste essa penitência?

Se os senhores prestarem atenção em torno de si  –  e o senhores é no plural, que naturalmente envolve também as senhoras, e, portanto, significa os senhores e as senhoras  –  vão notar o seguinte: que se os senhores a todos os momentos procederem de um modo completamente reto, em pouco tempo se notará que são católicos. Não que são católicos de água de barrela, destes que se encontram à saída de certas missas com as famílias trajadas indecentemente, eles próprios com umas roupas esportivas que degradam a natureza humana, porque são esportivas de um modo degradante. Não por que são esportivas, mas porque o são de um modo degradante. Saem do Santo Sacrifício, onde se aproximaram da mesa eucarística nesses trajes inconvenientes, saem e lá vão se espichando pelas delícias da vida de um dominguinho morno. Não é desses que eu quero falar. Esses aí pertencem a outra grei. Eu quero falar de outra coisa.

Por toda a parte onde os senhores se manifestarem católicos declarados, os senhores vão encontrar gente que lhes será inimiga.

Alguns serão inimigos ostensivos, então dizem alguma coisa na hora:

 –  Ah, eu não acho.

Por exemplo, o quê?

 –  Eu proíbo os meus filhos de assistirem televisão.

Uma senhora diz:

 –  Ah, não diga. Coitadinhos, já tão pequininhos e uma proibição?

 –  Não, mas a proibição é para [o bem] deles.

 –  Não, coitadinhos, eles são inocentinhos. Eu não penso assim de meus filhinhos, eu penso que eles são tão inocentinhos que podem ver qualquer coisa, e por isso não privo a eles desse prazer.

O que quer dizer de um modo viperino o seguinte: "Seus filhos podem ser ruins, os meus são uns anjinhos. E como são anjinhos  –  os Anjos não são assim  – , eles gostam de ver cena de crime, gostam de ver cenas de imoralidade, se distraem em ver tudo aquilo que não deve ser visto e não sentem a mínima atração. Os seus não, são uns vermezinhos ruins, eles vêem qualquer coisa ruim e já se atiçam. Mas eu sou a mãe boa e feliz, e tenho os filhos bonzinhos que não precisam de reprimenda".

O que equivale a dizer: "Você é ruim, atrasada, rançosa, enquanto eu sou boa, sou liberal e sou arejada. Felizes os filhos que têm uma mãe como eu e infelizes os filhos que têm uma mãe como você". Isto é o fundo do dito.

O que equivale a dizer em outros termos: "Felizes os filhos... [Vira a fita] ...uma mãe que segue uma religião antiga e rançosa que já acabou, que já não existe mais e que sofrem, portanto, o jugo da moral. A moral é um jugo. Na imoralidade e na liberdade os meus filhos encontram a santidade".

Aqueles que têm encontrado uma insinuação assim no seu caminho queiram levantar o braço.

A sala quase inteira. Vejam como isto é freqüente.

Qual é o sacrifício que a gente tem que oferecer aí? Qual é o ato de reparação?

Aquela pessoa pensando de um modo revolucionário como pensa, faz uma injúria a Deus, porque a doutrina católica verdadeira é a doutrina católica tradicional. E se uma pessoa adota uma doutrina pseudocatólica, a doutrina progressista, ela faz uma ofensa a Deus. Então Deus quer que um filho que O ame nesta hora tome a posição oposta e diga com coragem: "Eu não penso assim. O Profeta Isaías diz: ‘O pai que poupa a vara a seu filho odeia seu filho’. Você, Fulana, tome cuidado com o Profeta Isaías, hein! Ele de repente aparece com a vara em cima de você. Se você aparece assim tão ‘boa’ e tão ‘boa’, ele diria que você é má, hein! Será que o Profeta Isaías está errado e você é que está certa, é? Ehehe!... [Aplausos]

Os senhores sabem que isto daria uma verdadeira indignação a algumas pessoas.

A resposta que eu dou para mim e que os senhores devem dar para si é: "Eu estou atraindo sobre mim ódios? Estou. Então estou imitando Nosso Senhor Jesus Cristo. Vamos para a frente".

Quando os senhores quiserem à noite fazer seu exame de consciência, perguntem quantas vezes enfrentaram assim a Revolução, oferecendo a Nosso Senhor por meio de Nossa Senhora, sem cujo o intermédio nada chega a Ele que Lhe agrade. Por meio de Nossa Senhora oferecemos ou não oferecemos o sacrifício de, em todas as ocasiões em que encontramos o demônio encastelado atrás de um pretexto, nós [rechaçarmos um e outro].

Quer dizer, [no que consiste este rechaço]? É a nossa resposta. Uma resposta polida mas inteligente, que rechaça mesmo e que ajuda a fazer afugentar o adversário.

 

 

 

Terceira aparição do Anjo

 

"Logo que aí chegamos, de joelhos, com os rostos em terra, começamos a repetir a oração do Anjo: ‘Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-Vos, etc.’ Não sei quantas vezes tínhamos repetido esta oração, quando vemos que sobre nós brilha uma luz desconhecida. Erguemo-nos para ver o que se passava, e vemos o Anjo trazendo na mão esquerda um cálice e suspensa sobre ele uma Hóstia, da qual caíam dentro do cálice algumas gotas de Sangue."

 

É o precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

"Deixando o cálice e a Hóstia suspensos no ar, prostrou-se em terra junto de nós e repetiu três vezes a oração:

 –  Santíssima Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelo méritos infinitos do seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores".

Depois, levantando-se, tomou de novo na mão o cálice e a Hóstia, e deu-me a Hóstia a mim e o que continha o cálice deu-o a beber à Jacinta e ao Francisco, dizendo ao mesmo tempo:

 –  Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus".

De novo se prostrou em terra e repetiu conosco mais três vezes a mesmo oração: "Santíssima Trindade... etc." e desapareceu.

Levados pela força do sobrenatural, que nos envolvia, imitávamos o Anjo em tudo, isto é, prostrando-nos como ele e repetindo as orações que ele dizia. A força da presença de Deus era tão intensa, que nos absorvia e aniquilava quase por completo. Parecia privar-nos até do uso dos sentidos corporais por um grande espaço de tempo. Nesses dias fazíamos as ações materiais como que levados por esse mesmo ser sobrenatural que a isso nos impelia. A paz e a felicidade que sentíamos era grande, mas só íntima, completamente concentrada a alma em Deus. O abatimento físico que nos prostrava também era grande".

 

Está terminada a descrição desta coisa sublime, que é a preparação feita por um Anjo de três almas incumbidas de uma missão profética para o mundo contemporâneo. Ele preparou por esta forma, dizendo essas coisas, aparecendo desta maneira, e ele mesmo, por missão divina, deu a primeira comunhão a essas almas inocentes.

Está indicado, por esta forma, qual é o caminho pelo qual as almas devem preparar-se para a vida eucarística. Devem preparar-se para a vida eucarística todos os dias, preparando-se pela idéia do sofrimento, pela idéia da luta [como acima foi explicada]. E não é só pela idéia, mas é pela luta efetivamente realizada, pelo que eu chamaria de corpo-a-corpo invencível contra a Revolução.

Se em todos os lugares do mundo onde se ama a Deus se faz por toda a parte isto contra a Revolução, esse perfume deste sacrifício oferecido tem diante de Deus um bom odor tal, que a Contra-Revolução pode vencer.

Então, o que resta para nós é ver depois Nossa Senhora o que tem que recomendar a essas almas.

 

II

 

Aparições da Santíssima Virgem

 

"Primeira aparição: 13 de maio de 1917

 

"Brincavam os três videntes na Cova da Iria quando observaram dois clarões como de relâmpagos, após os quais viram a Mãe de Deus sobre a azinheira. Era "uma Senhora vestida toda de branco, mais brilhante que o sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente", descreve Lúcia. Sua face, indescritivelmente bela, não era "nem triste, nem alegre, mas séria", com ar de suave censura. As mãos juntas, como a rezar, apoiadas no peito e voltadas para cima. Da mão direita pendia um rosário. As vestes pareciam feitas só de luz. A túnica era branca, e branco o manto, orlado de ouro, que cobria a cabeça da Virgem e Lhe descia aos pés. Não se Lhe viam os cabelos e as orelhas. Os traços da fisionomia, Lúcia nunca pôde descrevê-los, pois foi-Lhe impossível fitar o rosto celestial, que ofuscava. Os videntes estavam tão perto de Nossa Senhora  –  a um metro e meio de distância, mais ou menos  –  que ficavam dentro da luz que A cercava, ou que Ela espargia".

 

Imaginem um metro e meio de Nossa Senhora... Os senhores não acham extraordinário um metro e meio de Nossa Senhora? Está bem, e Nosso Senhor dentro de nós todo o dia?  Se pensássemos nisso na hora da Comunhão...

 

"Os videntes estavam tão perto de Nossa Senhora  –  a um metro e meio de distância, mais ou menos  –  que ficavam dentro da luz que A cercava, ou que Ela espargia. O colóquio desenvolveu-se da seguinte maneira..."

 

Seria melhor, apesar da pressa em que estamos, de dizer uma palavra de comentário sobre isso que se poderia chamar em francês mise en scène, da encenação, quer dizer, do cenário que Nossa Senhora compôs para aparecer adequadamente dentro dele.

Tudo é branco, tudo é alvo, de maneira que está dito de todos os modos possíveis: pureza. Ela é a Virgem das virgens, Ela é pura, Ela – segundo o "Ave Maris Stella" – se tornou porta do Céu permanecendo sempre virgem. Quer dizer, por Ela penetrou no mundo Cristo, Nosso Senhor, descido do Céu, e a virgindade dEla não foi atingida em absolutamente nada. Então pura completamente, querendo atrair pela pureza, querendo encantar pela pureza.

Os senhores vejam bem, então, como são  –  eu prometi comentários colaterais, eu estou fazendo os comentários colaterais  –  as táticas de apostolado verdadeiras. Nossa Senhora querendo aparecer e querendo atrair, Ela faz valer a pureza e faz sentir a beleza da pureza.

Nós não devemos cair no erro de vestir coisas duvidosamente puras e, portanto, positivamente impuras, para atrair, para as pessoas simpatizarem conosco. Não, o apostolado da pureza para levar as pessoas a serem puras consiste em mostrar a beleza da pureza.

Alguém poderia dizer: "Mas, Dr. Plinio, nós nem o reconhecemos no primitivismo desse seu comentário. Então, para uns pastoresinhos cândidos da Serra [Cova] da Iria, Nossa Senhora se apresentava na pureza. Eles eram puros, os puros gostam dos puros; era natural que Ela aparecesse para eles pura. Mas para este mundo impuro Ela deveria pelo menos não levantar a questão da pureza. Isso é diferente, a interlocução dEla com pastoresinhos e a interlocução dEla com este oceano de impureza que já era o mundo em 1917 quando Ela apareceu e quando Ela se queixou da impureza que dominava a Terra".

Eu respondo: Ela apareceu na Cova da Iria certa de que aquelas crianças a descreveriam como Ela estava ali. E, portanto, contariam como tudo nEla era branco, tudo nEla era alvo, mais alvo do que a neve, está descrito. Era alvo e era luminoso. A impureza é cheia de trevas, ela procura as trevas para fazer mais à vontade a abominação das suas obras. A pureza não, a pureza ama a luz do dia, a pureza é correlata com a claridade, é correlata com o ar livre, é correlata com as coisas que são arejadas. Esta é a pureza.

Então Nossa Senhora falava para um mundo impuro usando todos os símbolos da pureza. Era para convidar os três pastoresinhos só, ou era para que os pastoresinhos contassem os trajes magníficos e suntuosos de pureza que Ela usou? Pureza que era feita de luz. Nossa Senhora por assim dizer estava vestida de luz.

Lembra o elogio que Nosso Senhor fez dos lírios do campo: "Nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como os lírios dos campos". Ninguém em toda a sua glória se vestiu como Nossa Senhora vestida de luz.

 

"O colóquio desenvolveu-se da seguinte maneira:

NOSSA SENHORA: "Não tenhais medo, Eu não vos faço mal".

LÚCIA: "Donde é Vossemecê?"

 

A pergunta primitiva. Primeiro trata Nossa Senhora de "Vossemecê" o tempo inteiro, depois "de onde é Vossemecê?" Ela não estava vendo que era a Mãe de Deus?...

 

"NOSSA SENHORA: "Sou do Céu" (e Nossa Senhora ergueu a mão para apontar o céu).

 

É a resposta que nós devemos aos impuros, aos inimigos da Contra-Revolução. Se nos perguntarem: "Mas você do que é que é?", dizer: "Sou do Céu". [Aplausos]

 

LÚCIA: "E que é que Vossemecê me quer?"

NOSSA SENHORA: "Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez".

 

Dois pequenos comentários ainda do tópico anterior.

Está escrito aí que o lado de dentro do vestido de Nossa Senhora era dourado. Eu não conheço uma imagem de Nossa Senhora onde o lado de dentro que se vê, alguma coisa do lado de dentro do véu aparece dourado.

Não sei por que isto. Era uma coisa para insistir que tudo seja como Ela absolutamente fez. E se Ela quis que um pouco de ouro aparecesse, não foi para que se compreendesse que o ouro não tem melhor emprego do que do culto a Ela nas coisas católicas? Não há aí um grande ensinamento?

 

NOSSA SENHORA: "Estará no Purgatório até o fim do mundo.

Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?"

LÚCIA: "Sim, queremos".

NOSSA SENHORA: "Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto".

Foi ao pronunciar estas últimas palavras (a graça de Deus, etc.), que abriu pela primeira vez as mãos comunicando-nos  –  é a Irmã Lúcia quem escreve  –  uma luz tão intensa, como que reflexo que delas expedia, que penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazia-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz mais claramente do que nos vemos no melhor dos espelhos. Então, por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetimos intimamente: "Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento".

Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:

 –  Rezem o terço todos os dias para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.

Em seguida  –  descreve a Irmã Lúcia  –  começou a elevar-Se serenamente, subindo em direção ao nascente, até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros".

 

É difícil fazer um comentário ao esplendor desse contato.

Os senhores viram que Nossa Senhora em certo momento abre os braços num gesto, que é um gesto nobre, sem dúvida, mas familiar a quem conversa. Mas no momento em que Ela abre os braços emite uma luz com uma claridade extraordinária. E, se entendi bem o texto, elas se sentiram como que sugadas por essa luz para dentro da luz, e esta luz mais intensa que estava para dentro da luz, se eu entendi bem o texto, era o próprio Deus.

Quer dizer, Ela por um gesto da mão teria aberto o caminho do Céu. E até hoje não se consegue chegar onde está Deus, onde chega Ela, porque Ela é Ela. Ali os três meninos entraram inundados por essa luz.

Pode haver uma coisa mais bela, mais admirável?

Mas vem a compensação. Ela descreve tudo quanto eles vão ter que sofrer, e Ela é muito mais positiva do que o Anjo. Ela distribui muito mais graças, as graças que jorram sobre as crianças são mais abundantes, mas Ela torna muito mais claro que em última análise  –  não está dito assim, mas é a impressão que fica no espírito de quem lê  –  elas vão ter que sofrer tudo aquilo que pessoas nas condições delas podem sofrer. Quer dizer, elas vão ser cálices cheios de dor.

É esse cálice cheio de dor que é oferecido como um cálice cheio de aroma, de perfume magnífico ao próprio Deus para reparar os pecadores.

Agora, vejam que importância Deus dá à reparação de três crianças. Que importância e que valor Deus dá à reparação de todas as almas que estão aqui. E se todos nós oferecermos aquilo que nos faz sofrer, se todos nós oferecermos a Ela, para por meio dEla ser dado a Deus, que magnífico combate da Contra-Revolução!

Então lembrem-se bem (eu costumo dizer algo que eu tomo a liberdade de lembrar aqui porque muitos o terão ouvido de mim): para trabalhar pela causa católica e rezar há muitos. Simplesmente para rezar há menos do que para trabalhar. Para sofrer, rezar e trabalhar é o que há menos. Ainda que seja só para sofrer, a palavra "dor" deixa o homem espavorido. E o próprio sinal da alma chamada por Deus, é aquela alma que diante do sinal da cruz não foge, mas se aproxima para [a] beijar.

(...) Sofrer é vencer. Rezar é vencer. Trabalhar é vencer. Mas dos três caminhos da vitória, o mais glorioso é o caminho da dor.

No momento que eu estou falando, se houvesse tempo, eu aconselharia que fizéssemos nada mais do que três minutos de silêncio, para que cada um pensasse na coisa que mais lhe dói no momento e dissesse: "Isto, meu Deus, pelas mãos de Maria eu Vos ofereço. Essa dor eu quero", de tal maneira isto é bom.

Mas vamos andando.

 

Segunda aparição: 13 de junho de 1917

 

"Antes da segunda aparição, os videntes notaram novamente um clarão, a que chamavam relâmpago, mas que não era propriamente tal, e sim o reflexo de uma luz que se aproximava. Alguns dos espectadores, que em número de aproximadamente cinqüenta tinham acorrido ao local, notaram que a luz do sol se obscureceu durante os minutos que se seguiram ao início do colóquio. Outros disseram que o topo da azinheira, coberto de brotos, pareceu curvar-se como sob um peso, um momento antes de Lúcia falar. Durante o colóquio de Nossa Senhora com os videntes, alguns ouviram um sussurro como se fosse o zumbido de uma abelha.

LÚCIA: "Vossemecê que me quer?"

NOSSA SENHORA: "Quero que venhais aqui no dia 13 do mês que vem, que rezeis o terço todos os dias, e que aprendais a ler. Depois direi o que quero".

Lúcia pediu a cura de uma pessoa doente.

NOSSA SENHORA: "Se se converter, curar-se-á durante o ano".

LÚCIA: "Queria pedir-Lhe para nos levar para o Céu".

NOSSA SENHORA: "Sim, à Jacinta e ao Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. A quem a abraçar, prometo a salvação; e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o seu trono".

LÚCIA: "Fico cá sozinha?"

NOSSA SENHORA: "Não, filha. E tu sofres muito? Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus".

Foi no momento que disse estas últimas palavras  –  conta a Irmã Lúcia  –  que abriu as mãos e nos comunicou pela segunda vez o reflexo dessa luz imensa. Nela nos víamos como que submergidos em Deus.

 

Quer dizer que essa impressão é um contato com Deus, "como que submergidos em Deus".

 

“A Jacinta e o Francisco pareciam estar na parte dessa luz que se elevava para o Céu e eu na que se espargia sobre a terra. À frente da palma da mão direita de Nossa Senhora estava um Coração cercado de espinhos que pareciam estar nele cravados. Compreendemos que era o Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que queria reparação".

 

Esse trecho é, naturalmente, dos culminantes das aparições. Não comporta comentários, ele se comenta por si mesmo. Eu vou comentar deles apenas coisas pequenas que talvez escapem à atenção de um observador menos meticuloso.

A primeira coisa que chama atenção aí é o que Nossa Senhora diz da devoção ao Imaculado Coração dEla. Ela promete formalmente o Céu a quem praticar essa devoção, isso está dito aí formalmente.

Não sei... é interessante ler.

 

Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. A quem a abraçar, prometo a salvação; e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o seu trono".

 

É categórico. A quem abraçar a devoção ao Seu Imaculado Coração, Ela promete a salvação.

Essa promessa é feita à Lúcia, é feita à Jacinta, ao Francisco, mas é feita para a Humanidade inteira, é feita para nós, é feita para aqueles que ao longo dos anos tomassem conhecimento, aqueles milhões de pessoas que tomassem conhecimento dos livros do Dr. Borelli e daí para a frente, onde essa promessa está. Onde quer que essa promessa ecoe pela Terra, essa promessa está feita. Está feita, por exemplo, nesse momento mais uma vez a todos os senhores que estão lendo isso.

Que alegria e que júbilo se nós recebêssemos essa promessa sozinhos trancados num quarto. Ela ainda é mais solene feita aqui num auditório desses diante de um tão grande número de filhos de Nossa Senhora. [Aplausos]

Mas então corramos, vamos desde logo dizer que nós aceitamos. É Ela que promete. Se Ela pedisse de nós uma promessa... mas não é. Ela pede muito menos: "Se fizerem, eu darei. Se não fizerem não quer dizer que eu não vos quererei, mas quanto mais vos quererei se fizerdes uso, se fordes sequiosos em aproveitar esta promessa do Meu Imaculado Coração. Vinde!"

Agora, nós ficarmos sentados?...

Tanta gente toma uma atitude assim diante de promessas dessas. Promessa do Sagrado Coração de Jesus das nove sextas-feiras, promessa do escapulário do Carmo de ser tirado do fogo do Purgatório no primeiro sábado, promessas magníficas com que Nossa Senhora parece que se empenha em multiplicar os meios de nos atrair para o Céu. Mas há uma coisa qualquer maldita no homem contemporâneo, pelo qual diante das promessas mais magníficas ele se interessa menos do que nas condições de uma apólice de um seguro de saúde.

 –  "Está prometido é? Ãhmm?!"

Agora, vejam que linda comparação de Nossa Senhora: as almas que fizerem isto Ela colocará, no Céu, junto ao trono de Deus, como uma senhora coloca as flores no altar junto ao próprio Santíssimo Sacramento. É uma beleza imaginar a nossa alma colocada como uma flor junto a Deus no Céu.

Haverá uma coisa comparável a essa? Mas as pessoas ouvem falar disso e passam.

Não me levem a mal se sobre isso eu faço uma pequena insistência.

Vamos adiante.

 

 

 

Acima, Lúcia, Francisco e Jacinta, depois que Nossa Senhora lhes fez ver o inferno, aonde caem muitas almas. Clique na foto  para ter a mesma imagem ampliada

 

Terceira aparição: 13 de julho de 191717

 

"Ao dar-se a terceira aparição, uma nuvenzinha acinzentada pairou sobre a azinheira, o sol se ofuscou, uma aragem fresca soprou sobre a serra, apesar de se estar no pino do verão. O Sr. Marto, pai de Jacinta e Francisco, que assim o refere, diz que ouviu também um sussurro como o de moscas num cântaro vazio. Os videntes viram o reflexo da costumada luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira.

NOSSA SENHORA: "Continuem a vir aqui todos os meses. Em outubro direi quem sou, o que quero, e farei um milagre que todos hão de ver para acreditarem".

Lúcia apresenta então uma série de pedidos de conversões, curas e outras graças. Nossa Senhora responde recomendando sempre a prática do terço que assim alcançariam as graças durante o ano.

Depois prosseguiu: "Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial sempre que fizerdes alguns sacrifício: Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria".

 

Primeira parte do Segredo: a visão do Inferno

 

"Ao dizer estas últimas palavras  –  narra a Irmã Lúcia  –  abriu de novo as mãos como nos dois meses passados. O reflexo [de luz que elas expediam] pareceu penetrar a terra e vimos como que um grande mar de fogo e mergulhados nesse fogo os demônios e as almas como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados –  semelhante ao cair das fagulhas nos grandes incêndios  –  sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizavam e faziam estremecer de pavor. Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa".

"A visão demorou apenas um momento, durante o qual Lúcia soltou um "ai!". Ela comenta que, se não fosse a promessa de Nossa Senhora de os levar para o Céu, os videntes teriam morrido de susto e pavor".

 

O que dizer do Inferno?

Eu me lembro que uma vez propus a seguinte reflexão a um eclesiástico. Eu disse a ele:

 –  É verdade que todas as coisas que existem e que a gente vê no universo são criaturas de Deus.

 –  É verdade.

 –  Então é verdade também que tudo quanto existe no Céu, na Terra e no Inferno é criatura de Deus.

 –  É verdade.

 –  Mas então o Inferno é uma criatura de Deus.

 –  É verdade, Deus criou o Inferno.

 –  Mas Ele criou o Inferno e Ele criou tudo aquilo por onde o Inferno atormenta e causa horror. Porque se tudo é criatura de Deus e há no Inferno, por exemplo, brasas, calores, fatores que provocam o calor, coisas que provocam a dor de todas as maneiras possíveis...

Santa Teresa de Jesus, a grande Santa Teresa de Jesus, Santa Teresa de Jesus, a mística incomparável, ela teve uma visão em que Deus lhe mostrou qual era o Inferno para onde ela iria se não tivesse sido fiel.

Levou-a para uma espécie de sepultura, fê-la entrar no Inferno numa espécie de sepultura onde ela olhou para dentro e havia uma espécie de instrumento preso assim, de maneira a formar duas tábuas. Cada uma dessas tábuas era toda revestida de pontas fundas, de maneira que quando a tábua se fechava, as pontas quase coincidiam, mas não coincidiam. Ela deveria ficar por toda a eternidade dobrada em dois, sem nunca isto se abrir, e furada em todas as direções por [essas pontas]. Posta nesta sepultura, sem ver nada, liquidada ali, e com os calores todos do Inferno soprando sobre ela.

Isso era a grande Santa Teresa se não tivesse correspondido à graça. Os senhores percebem a coisa tremenda...

Eu disse (àquele eclesiástico):

 –  Então se deve dizer que o Inferno é uma câmara de tortura ideada e criada por Deus, e que tudo quanto se move em tima análise tem Deus por motor primeiro. Tudo aquilo que no Inferno se move tem Deus como motor primeiro, e esse movimento de todas essas coisas provêm continuamente da ação de Deus, que faz aquilo tudo mover-se dentro do Inferno.

Ele me disse:

 –  É verdade.

Então aí fica o mais tremendo do Inferno: é que é Deus que está criando aquilo. Deus fez, Deus mantém aquilo na existência, Deus mantém no movimento, ouve o gemido de toda esta multidão de réprobos e não tem pena. Não tem pena! Pelo contrário, um dos elementos da felicidade dEle é conhecer e produzir o sofrimento daquela gente.

Eu não quis levar a coisa mais longe. (...) Porque se isto é verdade, deve-se dizer; e se isto não é verdade, deve ser combatido. Mas fazer silêncio sobre essa coisa tremenda, isso é que não se compreende.

Por que quanta gente será que se ouvir isto não vai para o Inferno, porque terá medo de ir para o Inferno, e se não ouvir irá para o Inferno?

Quanto mais gente ouvir isto, tanto menor será o número dos que forem para o Inferno. Pelo contrário, a quanto mais pessoas for sonegada esta verdade, tanto maior é o número dos que vão para o Inferno. E muitos estão no Inferno por que houve gente que teve deles uma falsa pena e não contou para eles como era o Inferno.

Nossa Senhora, com uma mensagem para o mundo, em que tudo devia ser levado ao conhecimento do mundo inteiro, e em que queria produzir a salvação dos pecadores, Ela contou, Ela fez ver aos três pequenos videntes esse Inferno. Isto era para que eles fizessem os pecadores do mundo inteiro conhecer isto e tremer até ao fundo de seus ossos de pânico do Inferno.

Os senhores encontram tão difícil de haver gente que [diga] isso...

Por que? É fácil compreender.

Se houver um pregador que vai e diz: "Meus queridos filhos, hoje é domingo. Vede que lindo e ensolarado domingo, imagem da bondade de Deus. Como Deus é bom em vos fazer ver assim a bondade dEle e vos atrair para o Céu. Quanto Deus premiará as vossas virtudes", etc., etc., e nenhuma palavra para o Inferno, eles seguirão o contrário do que fez Nossa Senhora.

Porque Nossa Senhora disse coisas magníficas sobre o Céu nesse conjunto dessas aparições, não se poderia fazer mais para deixar o Céu atraente do que tudo quanto Nossa Senhora mostrou de Si, que é uma síntese de todos os esplendores e belezas do Céu, enfim, de tudo quanto Ela fez para atrair pela doçura as almas para o Céu. Mas atentem bem: há também a justiça de Deus, há a cólera de Deus! E está preparada também para quem não der importância aos carinhos da bondade de Deus. Agora vejam qual é... e vem a coisa representada.

Nossa Senhora quis que o mundo inteiro tomasse conhecimento dessa manifestação do terror do Inferno. Será que o mundo inteiro tomou? Ou será que passaram por cima dessa pregação como o gato por brasa?

Mas que pecado em a gente se dizer apóstolo de Fátima e não contar isso?!

É uma coisa que a gente deveria saber de cor. E quando fizesse apostolado sobre Fátima e de repente alguém soltar essa:

 –  Não, eu não acredito.

 –  Está bom, você não acredita? Ouça o que é que houve. Se não acreditar, você depois vai me explicar como, mas o Inferno é assim e assim  –  e vem essa descrição, como outras descrições do Inferno que há dadas por santos, etc.

Então nós podemos compreender a utilidade enorme! Eu digo mais: a indispensabilidade da pregação do Inferno. E, portanto, também de uma referência ardente ao Inferno no nosso apostolado.

 

SEGUNDA PARTE DO SEGREDO: O ANÚNCIO DO CASTIGO E DOS MEIOS PARA EVITÁ-LO

 

Assustados, pois, e como que a pedir socorro, os videntes, levantaram os olhos para Nossa Senhora, que lhes disse com bondade e tristeza:

NOSSA SENHORA: "Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração.

Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz.

A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.

Para impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

Em Portugal se conservará sempre o Dogma da Fé, etc.

Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo.

Passados instantes:

"Quando rezais o terço, dizei depois de cada mistério: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem".

 

Sexta e última aparição: 13 de outubro de 1917

 

Como das outras vezes, os videntes notaram o reflexo de uma luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira:

LÚCIA: "Que é que Vossemecê me quer?"

NOSSA SENHORA: "Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas".

Em seguida, abrindo as mãos, Nossa Senhora fe-las refletir no sol, e enquanto Se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projetar-se no sol.

Lúcia, nesse momento, exclamou: "Olhem para o sol!"

Desaparecida Nossa Senhora na imensa distância do firmamento. As nuvens se entreabriram, deixando ver o sol como um imenso disco de prata. Brilhava com intensidade jamais vista, mas não cegava. Isto durou apenas um instante. A imensa bola começou a "bailar". Qual gigantesca roda de fogo, o sol girava rapidamente. Parou por certo tempo, para recomeçar, em seguida, a girar sobre si mesmo, vertiginosamente. Depois seus bordos tornaram-se escarlates e deslizou no céu, como um redemoinho, espargindo chamas vermelhas de fogo. Essa luz refletia-se no solo, nas árvores, nos arbustos, nas próprias faces das pessoas e nas roupas, tomando tonalidades brilhantes e diferentes cores. Animado três vezes de um movimento louco, o globo de fogo pareceu tremer, sacudir-se e precipitar-se em ziguezague sobre a multidão aterrorizada.

Durou tudo uns dez minutos. Finalmente o sol voltou em ziguezague para o ponto de onde se tinha precipitado, ficando novamente tranqüilo e brilhante, com o mesmo fulgor de todos os dias.

O ciclo das aparições havia terminado.

Muitas pessoas notaram que suas roupas, ensopadas pela chuva, tinham secado subitamente.

O milagre do sol foi observado também por numerosas testemunhas situadas fora do local das aparições, até a 40 quilômetros de distância.

 

Como encerrar isto? Com uma suposição, mas essa suposição tem um certo fundamento.

Eu acho que quando chegarem os dias dos castigos previstos em Fátima se a humanidade não se converter, os dias da justiça, vai haver muito vaivém, muita coisa parece que nos aproximará da vitória e de repente estamos no fundo da derrota, muita coisa nos jogará no abismo da derrota e dali sai uma vitória.

De todos os modos vamos ter que confiar muito em Nossa Senhora, para compreendermos que o fim da vitória é dEla e que, portanto, nossa confiança nEla não tendo limite  –  nas piores situações devemos cantar Gloria in excelsis Deo e devemos cantar o Magnificat  –, porque confiando nEla sabemos que no fim Ela vencerá.

Com isso, meus caros, está terminada a reflexão sobre Fátima e só me resta pedir-lhes desculpas por terminar a essa hora. [Aplausos e brado]