Plinio Corrêa de Oliveira

 

Santo Ambrósio:

modelo de temperança

no zelo apostólico e firmeza na missão da Santa Igreja em conter

o poder temporal

 

 

 

 

 

Santo do Dia, 7 de dezembro de 1964

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério tradicional da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

Hoje é festa de Santo Ambrósio (339 ou 340 - 397), bispo, Confessor e Doutor da Igreja. Lutou contra Teodósio, Imperador do Ocidente, pela liberdade da Igreja. Combateu os hereges. Conversão de Santo Agostinho. Amanhã também é festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. 

 

Santo Ambrósio expulsa os hereges arianos (Giovanni Ambrogio Figino - 1590)

Santo Ambrósio era um homem de um talento enorme, famoso em toda a Cristandade do seu tempo, em todas as vastidões do Império Romano, pelos seus trabalhos, pela sua influência sobre o público, escritor fecundo, etc.

Santo Agostinho conta em suas memórias ("As Confissões") que a ele lhe deve sua conversão. Ele tinha verdadeira admiração por Santo Ambrósio.

"Não me era permitido interrogar Ambrósio sobre o que eu queria e como queria – escreve Santo Agostinho nas "Confissões" –, porque sempre tinha junto a si pessoas necessitadas. No pouquíssimo tempo em que não estava com tais pessoas, [Ambrósio] refazia o corpo com o alimento necessário, ou o espírito com a leitura. Mas, quando lia, os olhos divagavam pelas páginas e o coração penetrava-lhes o sentido, enquanto a voz e a língua descansavam. Nas muitas vezes em que me achei presente [em sua casa] – porque a ninguém era proibida a entrada, nem havia o costume de lhe anunciarem quem vinha –, sempre o via ler em silêncio e nunca doutro modo. Assentava-me e permanecia em longo silêncio – quem é que ousaria interrompê-lo no seu trabalho tão aplicado? –, afastando-me finalmente. Imaginava que, nesse curto espaço de tempo, em que, livre do bulício dos cuidados alheios, se entregava a aliviar a sua inteligência, não se queria ocupar de mais nada. Lia em silêncio, para se precaver, talvez, contra a eventualidade de lhe ser necessário explicar a qualquer discípulo, suspenso e atento, alguma passagem que se oferecesse mais obscura no livro que lia. Vinha assim a gastar mais tempo neste trabalho e a ler menos tratados do que desejaria. Ainda que a razão mais provável de ler em silêncio poderia ser para conservar a voz, que facilmente lhe enrouquecia. Mas, fosse qual fosse a intenção com que o fazia, só podia ser boa, como feita por tal homem" ("Confissões", Livro VI, cap. 3).

Em outros termos, de ver Santo Ambrósio trabalhar, e de estar no ambiente criado por aquele Doutor da Igreja, Santo Agostinho sentia que aquilo fazia muito bem para sua alma. Por isso, por causa de alguns colóquios que ambos tiveram, sermões que dele ouviu e também pela leitura das obras de Santo Ambrósio, pode-se dizer que este último cooperou muito consideravelmente para o fato que talvez seja o mais importante da vida de Santo Ambrósio: haver convertido Santo Agostinho que, por si só, é um capítulo na história do mundo e da Igreja.

Os senhores veem aí duas coisas bonitas em Santo Ambrósio:

1) O apostolado de presença. Nós insistimos tanto sobre o alcance desse apostolado. Muitas pessoas pensam que valem – para o nosso Movimento – na medida em que falam, atuam e trabalham. É claro que isso tudo é muito bom. Mas há um apostolado de presença que pode ser muito melhor do que tudo isto. E desse fato deu provas muito eloqüentes Santo Ambrósio em face de Santo Agostinho.

2) De outro lado também os senhores estão vendo a confiança na Providência divina. Se Santo Ambrósio fosse intemperante, teria interrompido todos os seus trabalhos e passado a dedicar-se quase que exclusivamente em fazer apostolado com Santo Agostinho, e depois iria trabalhar desordenadamente, em outra hora... Ou pior: minguaria seus livros, faria uns livrinhos superficiais, por ter atendido Santo Agostinho.

Santo Ambrósio, não. Homem confiante na Providência, confiante no amor de Deus, na Igreja Católica, fazia o que estava nas suas possibilidades. Era vontade de Deus que escrevesse um livro, escrevia. Santo Agostinho que aproveitasse o tempo que lhe fosse possível. Deus haveria de prover... e Deus proveu! Quer dizer, essa confiança na Providência de também não querer fazer loucuras, de não querer fazer absurdos, de ser temperante inclusive no próprio zelo apostólico, é uma coisa rica em lições.

 

 

O Imperador Teodósio proibido por Santo Ambrósio de entrar na Catedral de Milão (Camillo Procaccini)

Mais especialmente rica em lições - debaixo de um certo ponto de vista - é o fato de Santo Ambrósio ter entestado com Teodósio.

Há fatos na vida da Igreja que ficam como símbolos para todos os séculos da história eclesiástica.

Santo Ambrósio teve um atrito com o imperador Teodósio, que era um dos maiores magnatas, dos homens mais influentes de seu tempo. E isto a propósito de questões de seu pecado público (*). No momento em que Teodósio ia entrar na igreja, encontrou Santo Ambrósio com todo o seu clero, do lado de fora, proibindo-o. E enfrentando o imperador, este se arrependeu e se humilhou.

Essa atitude do poder espiritual em relação ao poder temporal lembra um princípio ao qual devemos ser sumamente afeitos: todas as grandezas humanas, sejam elas de que natureza e título forem, por mais que sejam exaltadas e glorificadas na sociedade civil, se se apresentam com vistas a enfrentarem a glória de Deus, é missão do clero humilhá-las.

É missão do clero, quando essas potências humanas não andam bem, enfrentá-las e colocá-las em seu devido lugar. É missão do clero, por esta forma, tornar claro que todas as coisas humanas, por mais altas que sejam, em face de Deus, não são nada! Em face da eternidade, elas passam e se reduzem a nada! E que, afinal de contas, a única coisa que fica sempre, que vale, e está acima de tudo, é a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, ou seja a Igreja de Deus.

Bossuet afirmou isso em termos magníficos: "a missão da Igreja é a contenção dos poderes da Terra."

E isso está exatamente nos tais contrafortes tão característicos da doutrina defendida pelo mensário "Catolicismo". Sendo nós a favor de uma hierarquia social e política altamente apurada, destilada e de grande glorificação do poder civil recebido por uma delegação divina, entretanto nós entendemos que - por maior que tudo isso seja - também deve ter o seu limite, deve ter um freio. E que esse freio é dado precisamente pela severidade do poder eclesiástico.

 

 

Santo Ambrósio, representado com o látego com que fustigou a heresia (Carlo di Braccesco - 1495)

Quanto isto é diferente de um vigário que treme diante de algum poderoso! O que se gostaria de ver é o contrário: a força da ortodoxia representada pelo clero fazendo recuar, com olhar pastoral e terrível, a algum poderoso heterodoxo, ou a um plutocrata endinheirado: "Ó ricaço, guarde esse seu dinheiro. Eu não preciso disso e ninguém precisa disso; isso serve para sua condenação. Jogue isso no bueiro e volte atrás porque aqui vale tal princípio, aqui vale tal regra! E ainda que fiquemos condenados ao extremo da pobreza, ao extremo da perseguição, Deus se rirá de sua fortuna, Deus se rirá de sua arrogância. Nós ficaremos aqui pobres e sós, no cumprimento do nosso dever!"

Ver o dinheiro humilhado, a força material humilhada, ver até o talento humilhado e até a própria aristocracia do sangue humilhada quando ela vai de encontro à Lei de Deus, isto é o contraforte de todas as grandezas humanas! E esse seria o papel do clero nessa espécie de harmonia do universo.

Acho importante ressaltar isso porque quando tratamos a respeito de rei, de nobreza, de hierarquia social, etc., no fundo da cabeça fica algo e esse algo tem sua razão de ser.

Nós conhecemos qual é a fraqueza humana. E sabemos como os homens podem facilmente ser arrastados por ela se se encontram numa situação proeminente. Temos uma sensação de que não é próprio ao homem – caído no pecado original – ficar exaltado tão alto sem ter nenhum freio.

Sabemos que não é pelos inferiores que se limita o poder dos superiores, mas é pelos superiores que se limita o poder dos superiores e que o poder dos máximos deve ser limitado pela própria Igreja de Deus. Aí se estabelece o equilíbrio, aí se compreende o contrapeso e se entende a harmonia profunda da própria ordem de coisas que nós sustentamos.

O exemplo de Santo Ambrósio, portanto, se põe diante de nós como portador de um ensinamento profundo. E fazendo sentir melhor a harmonia de nossas teses, ele nos dá ainda uma convicção maior e mais equilibrada de tais teses. 

 

Relíquias de Santo Ambrósio (com o báculo), na homônima Basílica, em Milão

(*) Nota: O bom entendimento de Santo Ambrósio com o imperador Teodósio, que se estabeleceu temporariamente em Milão, foi rompido. Em Tessalônica, o governador da cidade fora morto pela população enraivecida, porque havia posto a ferros um comediante muito querido da multidão. Num primeiro assomo de ira, Teodósio decretou que todos, sem exceção, fossem passados a fio de espada, num total de sete mil pessoas. Quando o imperador arrependeu-se desse ato, já era tarde.

Santo Ambrósio admoestou-o, proibindo-o de entrar na catedral enquanto não fizesse penitência pública pelo pecado cometido. Na oração fúnebre que fez desse imperador, Santo Ambrósio narra o que seguiu: "Despojando-se de todo emblema da realeza, ele deplorou publicamente na igreja o seu pecado. Essa penitência pública, da qual os particulares fogem, um imperador não se envergonhou de fazer; nem houve depois um dia em que ele não se afligisse por seu erro" (cfr. "Catolicismo", Dezembro de 2009).