Plinio Corrêa de Oliveira

 

A convocação da 1ª Cruzada

pelo Bem-aventurado

Urbano II

 

"Santo do Dia" – 28 de julho de 1967

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Plinio Corrêa de Oliveira - ca. 1965

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

Amanhã, 29 de julho, será a festa do bem aventurado Urbano II, Papa. Os dados biográficos dele foram tirados da Espasa-Calpe, Urbano II.

O Papa Urbano II preside o concílio de Clermont

Sébastien Mamerot, Les Passages d'outremer faits par les François contre les Turcs depuis Charlemagne jusqu'en 1462. Manuscrit enluminé sur parchemin, Bourges, Jean Colombe, 1474-1475.

Urbano II foi Papa de 1088 a 1099; defensor da liberdade da Igreja, continuador da obra de São Gregório VII. Promoveu a Primeira Cruzada. O Concílio de Clermont tinha como finalidade principal discutir a Cruzada. O povo esperava o dia da anunciada expedição. Finalmente, o Papa satisfez sua impaciência. Sentou-se no trono especialmente preparado para a ocasião, tendo ao seu lado o eremita Pedro. A seus pés, uma enorme multidão: cardeais, abades, sacerdotes, monges, cavaleiros e povo. Após as palavras de Pedro, descrevendo o que vira em Jerusalém, Urbano II dirigiu-se a todos:

“Ide, irmãos, ide com esperança, ao assalto dos inimigos de Deus que, há muito, dominam a Síria, a Armênia e países da Ásia Menor. Muitos danos já fizeram: usurparam o Sepulcro de Cristo, os maravilhosos monumentos de nossa fé; vedaram, aos peregrinos, ingresso numa cidade a qual somente os cristãos sabem dar o real valor. Não é o bastante para escurecer a serenidade de nossa face? Ide e mostrai vosso valor. Ide, soldados; e vossa fama se estenderá por todo o mundo. Não temei perder o Reino de Deus por grande tribulação. Se cairdes prisioneiros, enfrentai os piores tormentos por vossa fé e salvareis vossas almas ao perder o corpo. Não hesiteis, irmãos caríssimos, em sacrificar vossa vida pelo bem dos irmãos. Não vos detenha o amor à vossa família, à vossa pátria, ou às riquezas, pois o homem deve seu amor principalmente a Deus, e a Terra inteira é vossa. E qual maior felicidade para um cristão que ver, durante a vida, os lugares onde o Senhor falou a língua dos homens?”

Às palavras do pontífice, os fiéis responderam unanimemente: Deus o quer! E Urbano acrescentou:

“Esse vosso grito não seria unânime, se não fosse inspirado pelo Espírito Santo. Seja então essa palavra vosso grito de guerra, anunciando o poder do Deus dos exércitos. E quem empreender essa viagem deverá levar a figura da Cruz. A Cruz esteja em vossa espada e em vosso peito, sobre as armas e os estandartes. Seja ela, para vós, o louro das vitórias ou a palma do martírio e a insígnia para unir os filhos dispersos da casa de Israel. Ela vos recordará continuamente que Jesus Cristo morreu por vós e que por Ele deveis morrer”.

A partida da Cruzada foi marcada para 15 de agosto, festa da Assunção de Maria.

Godofredo de Bouillon, Duque da Lorena (1058-1100)
conduzindo suas mesnadas para a Terra Santa

 Os senhores vêem quanta beleza oferece esta cena. Quanta beleza, comparável às tristezas de nossos dias.

Em primeiro lugar, o Concílio de Clermont. Um Concílio, sob a presidência do Papa e – coisa maravilhosa – um santo sentado na Sede de São Pedro: a luz, colocada num candelabro, para iluminar todos os povos. Aquele que é o foco de irradiação da virtude, colocado na cátedra onde se ensina a verdade e o bem, e se dirige às falanges de Nosso Senhor e de Nossa Senhora para a luta contra o adversário. Este homem, como um novo anjo, senta-se na cátedra de São Pedro e se toma de zelo pela desventura dos lugares Santos. Ele não pode tolerar que os lugares Santos estejam na posse de infiéis. Ele não pode suportar que seja tão difícil chegar até os lugares Santos, [e que se tenha que] enfrentar tantas coisas, para ali prestar culto a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas, sobretudo, e é o primeiro ponto que pesa: a glória de Deus ofendida pela posse, pelos infiéis, de um lugar que a Cristandade é bastante forte para ter, e para ali prestar o verdadeiro culto ao verdadeiro Deus.

Então, ele reúne um Concílio. E esse Concílio, reunido em Clermont, na França, tem em torno de si uma multidão imensa que assiste à deliberação e que espera o resultado da deliberação. O Papa chega lá fora e se senta num trono, armado diante dessa população cheia de fé. Rodeiam-no, naturalmente, os padres do Concílio e gente.

[Há], ali, uma miniatura maravilhosa da Igreja Católica, no esplendor de sua verdadeira beleza. É uma assembléia em que está o Vigário de Cristo, um Santo; em que estão os padres conciliares, padres movidos por um zelo autêntico pela glória de Deus e que se reúnem em torno dele numa atitude parecida com os anjos reunidos em torno de Deus; depois, a multidão dos fiéis fervorosos, entusiasmados, em cujos olhos se vê o espírito de luta e de sacrifício dos homens que vão para a cruzada; e das famílias que apoiarão esta resolução e que estão dispostas a todos os danos que o fato do chefe se Cruzar pode trazer, para que o Sepulcro seja libertado. Cheio de eloqüência, perto do Papa, um simples frade, vestido do modo mais pobre possível, mas com uma eloqüência de fogo: é Pedro, o Eremita.

Que coisa linda! Um eremita que sai do seu ermo para se meter no mundo e para dizer coisas que só as almas que apreciam o silêncio sabem dizer. Aquelas palavras de fogo, aquelas palavras que movem, que comunicam a graça de Deus, que os homens que têm horror do silêncio não sabem dizer. Ele fala, e depois fala o Papa.

E o Papa, perante aquela multidão impressionada, tem algumas frases que, a nós, nos impressionaram.

Eu não farei contraste. Eu não falarei – para só falar disso – da diferença daquelas multidões e essas multidões: as multidões de hoje e as multidões daquele tempo. As multidões de hoje que falam da Idade Média como de uma época de impiedade e de atraso: as multidões anódinas de nossa época. Não mostro esse contraste, nem outros contrastes por demais amargos para se mostrarem.

Mas tomo esse pensamento do Papa. Diz ele: “O Santo Sepulcro está em poder de hereges, de infiéis – nem é de hereges – e vós não podeis ir lá para, devidamente, O cultuar! Vós O vedes de posse dos adversários da Igreja”. E ele pergunta: “Qual é a face que pode conservar, ante o que está aqui, a sua serenidade, pensando nisto?”

La place forte d'Antioche est prise par les croisés en 1098 après un siège de 8 mois

Sébastien Mamerot, Les Passages d’Outremer

Quantas faces serenas nós encontramos pela rua... Entretanto, passam-se coisas, hoje em dia, incomparavelmente piores do que o Santo Sepulcro dominado pelos infiéis. Para só falar do que se pode dizer, e para não falar do que não se pode dizer – e que é incomparavelmente mais amargo – pensamos apenas nas nações comunistas opressas por uma tirania atéia. Isto não é muito pior do que o Sepulcro de Cristo dominado pelos infiéis? Não tem termo de comparação. Entretanto, quantas faces tranqüilas! Faces que deveriam estar junto ao templo, junto ao altar dentro do tempo, chorando. Como estão alegres! “Piadéticas”, desanuviadas.

Nós mesmos. Como estão as nossas faces? E, quantas vezes nossas faces se contraem pela preocupação de nossos interesses, e quantas vezes elas se contraem pelo zelo da Santa Igreja Católica?

Aqueles homens não conservaram a face serena. Mas eles eram seguidores verdadeiros de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles tinham a Igreja Católica verdadeiramente viva em suas almas. Eles eram presididos por um Santo. Diante de um mal, menor do que o que sofremos com tanta moleza, com tanta displicência, diante desse mal, eles se moveram como um só homem e puseram a Cruz na copa das espadas, nos estandartes, nos escudos, no peito; e se moveu aquela imensa avalanche para retomar o Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Hoje em dia, tão poucas coisas assim! No entanto, o Papa aqui diz uma coisa que nos deve entusiasmar e afervorar. Diz que, a unanimidade com que a massa resolveu tomar a Cruz, provava que era o Espírito Santo que estava falando lá; e, indicava bem, que os grandes movimentos de alma da Cristandade não se fazem sem grandes moções do Divino Espírito Santo.

Nós podemos pedir, nós devemos esperar que, in extremis, um sopro do Espírito Santo percorra a Terra e que sejam muitos os homens despertos do seu letargo e capazes de lutar contra o inimigo que está pronto a dar o último golpe.

E nossa missão é, exatamente, sermos o ponto de "detonação", o estopim dessa grande "explosão". Nós devemos dizer as palavras, nós devemos ter os gestos, nós devemos alçar o estandarte que produza este efeito numa hora de aflição, talvez para muitos fora daqui, numa hora de desespero que se aproxima.

Então, devemos pedir isto a Nossa Senhora:

Prise de Jérusalem par les Croisés

Roman de Godefroy de Bouillon (14e siècle)

“Minha Mãe, olhai para as condições de minha alma. E, por isto, minha Mãe, tende pena de mim e fazei com que Vosso Coração Imaculado, Vosso Coração Sapiencial seja, como que, transplantado para meu peito pecador; que meu coração tíbio, fraco – Vós ainda diríeis muitas coisas a respeito dele, que eu não sei, que eu não quero ver – que meu coração já não seja senão um prolongamento do Vosso; e que se possa dizer que não é mais meu coração que pulsa, mas é o Coração Imaculado de Maria que pulsa em mim.

Que eu não deseje outra coisa, senão querer o que Vós quereis, pensar o que Vós pensais, dar-me a Vós de um modo superlativo e completo, para que as virtudes que defluem de Vós e que, de nenhum modo, se podem encontrar em minha miséria e minha falta de correspondência à Graça, que essas virtudes que defluem de Vós, animem a minha alma e que me movam em direção às coisas que eu não sou capaz de me mover. Para que não aconteça, minha Mãe, esta desventura, que seria a desventura das desventuras: que eu não esteja preparado no dia da plena realização de vossas promessas em Fátima. E o meio que existe para que essa desventura não suceda, é pedir-Vos precisamente que façais de mim um prolongamento de Vossa pessoa; que Vós me comuniqueis Vossas virtudes e prepareis a minha alma. Eu, como o paralítico à beira da piscina de Siloé, preciso que alguém me carregue e jogue nas águas de Vossa misericórdia, para conseguir isto. Eu Vos peço: mandai meu Anjo da Guarda fazer isto; que, no momento oportuno, me fale e  faça de mim um verdadeiro Apóstolo dos Últimos Tempos, no sentido pleno e autêntico da palavra, no sentido completo da palavra, como está descrito por São Luís Grignion de Montfort, na sua Oração Abrasada”.

E esta nossa oração terminaria dizendo: “Coração Imaculado de Maria, que sois uma fornalha ardente de caridade a exemplo do Coração Sagrado de Vosso Divino Filho, comunicai-me todas as chamas de Vosso zelo para que Vós, cuja prece conseguiu que a água, insípida, fria e banal, se transformasse num vinho saboroso, generoso e forte, façais de mim, pecador, um apóstolo dos últimos tempos”.

 É isto que devemos pedir a Nossa Senhora na gravidade das horas e dias que se aproximam.