Plinio Corrêa de Oliveira

 

São Bernardo de Claraval e

sua pregação às Cruzadas

As almas valem mais do que a

Terra Santa

 

 

Santo do Dia, 19 de agosto de 1968

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério tradicional da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

Dia 20 é festa de São Bernardo (* 1090 + 20-08-1153), Abade, Confessor e Doutor da Igreja. Rohrbacher, em sua “História da Igreja”, traz trechos da carta em que o Santo conclama a Alemanha e a França Oriental para a II Cruzada:

“Eu Vos escrevo por uma questão que se refere a Jesus Cristo e à vossa salvação. Eis, meus irmãos, um tempo favorável, um tempo de propiciação e de salvação. O mundo cristão foi atingido; o Deus dos cristãos começou a perder um país onde Ele se tornou visível, onde o Homem conversou com os demais homens durante 30 anos. Um país que Ele ilustrou com Seus milagres, consagrou com Seu Sangue, ornou das primícias de nossa ressurreição. País que nossos pecados tornaram a presa e a conquista de uma nação sacrílega e inimiga da Cruz. Logo aí! Se não nos opusermos ao seu furor, esse povo bárbaro tornar-se-á dono da Santa Cidade, destruirá os monumentos sagrados de nossa Redenção, manchará os lugares santificados pelo Sangue do Cordeiro sem mancha.

“Já a sua avareza sacrílega busca o mais precioso tesouro da religião, aspira apoderar-se deste berço misterioso onde o Autor da vida morreu para nos fazer viver. Que fazeis bravos soldados? Que fazeis servidores de Cristo? Abandonareis o Santo dos santos? (...) Quantos pecadores penitentes lavaram nesses lugares, com lágrimas, e obtiveram perdão para si, desde que a espada de vossos pais delas afastou os pagãos que as desonravam! O inimigo da salvação vê (...) este espetáculo que é para ele um tormento, range os dentes de raiva. Porém, ao mesmo tempo, ele subleva os que são seus vasos de iniquidade e se prepara em destruir até os últimos vestígios de tão santos mistérios (da Religião Cristã), se – Deus não o permita – ele conseguisse se apoderar destes lugares santos entre todos, o que seria uma desgraça irreparável e uma fonte de agudíssimas dores para todos os séculos vindouros, além de ser para nós causa de vergonha e de opróbrio.

“O Senhor quer provar vosso zelo e saber se há entre vós quem deplore Sua desgraça e defenda Sua causa. Apressai-vos então a assinalar vossa coragem, de tomar as armas pela defesa do nome cristão, vós, cujas províncias são tão fecundas em jovens e valentes guerreiros, se é verdade o que a vossa fama diz. Mudai em santo zelo este valor odioso e brutal que vossa arma tão frequentemente um contra o outro maneja, e vos faz perecer com as vossas próprias mãos. Eu vos ofereço, nação belicosa, uma ilustre ocasião de lutar sem perigo, de vencer com glória, de morrer com vantagens. Sois ávidos de glória e sois hábeis e sábios negociantes. Eis o expediente para vos dar fama a vos enriquecer: Tomai a Cruz!

“Ela vos faz ganhar o perdão de todos os pecados que confessareis com arrependimento. A matéria é de vil preço, mas se a carregais com devoção ela vos fará obter o Céu. Feliz o que se torna cruzado, feliz aquele que se apressa a tomar este sinal salutar!” (para leitura integral desse documento em francês clicar aqui

 

São Bernardo pregando a II Cruzada em Vezelay, em 1146 

Os senhores vêm, por este exemplo, como mudaram os tempos! Esta é a grande oratória do grande São Bernardo de Claraval, Doutor da Igreja, reputado um dos maiores doutores do seu tempo. Por quê razão esta oratória se tornou meio ininteligível para nós? É porque prevalece entre nós o sistema literário moderno, o qual entra em choque com a oratória de São Bernardo em dois pontos.

1 - O sistema literário moderno pede uma falsa serenidade. Os próprios oradores devem falar com frieza, devem fingir uma espécie de neutralidade em relação ao tema de que tratam e devem fingir que tomam um juízo imparcial a respeito do mesmo. Do contrário, não agradam e se tem a impressão de que eles são suspeitos. Isto é quanto ao fundo de seu estilo.

2 - Quanto à forma, São Bernardo faz períodos longos e a oratória moderna recomenda que se faça períodos breves. A preguiça moderna faz com que a gente só goste de seguir os períodos breves e não os longos. Ora, os períodos longos têm um mérito especial porque se cada pensamento do homem é como uma pedra preciosa, uma longa concatenação de pensamentos é evidentemente mais bela do que pensamentos avulsos.

Uma frase em que uma série de pensamentos se dispõe artisticamente uns em torno dos outros, é muito mais rica em valor literário do que uma espécie de picadinho de frases. E cada frase com a sequência de sujeito, verbo, objeto e -  quando muito! - um adjetivo de vez em quando ou um advérbio. Por causa disso, nós ficamos hoje em dia meio despreparados quando nos encontramos em face dos grandes lances de oratória do passado.

Pois aqui está São Bernardo de Claraval pregando a Cruzada aos franceses da França Oriental e aos alemães. Na primeira parte da exposição de seu pensamento, ele mostra que os maometanos são adversários do nome cristão e que por causa disto a Terra Santa está correndo perigo.

Ele dá uma tal quantidade de argumentos que eu teria necessidade de reler a ficha para poder enumerar todos. Mas considerados um pouco sumariamente, ele começa por dizer que há uma ofensa a Deus; que aquela é a terra onde o Verbo de Deus se fez Carne e é uma terra que se tornou, por causa disto, sagrada e que portanto constitui uma ofensa a Deus que esta terra caia na mão dos adversários. Depois ele recorda se deu a Encarnação do Verbo e toda a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim, cada episódio de Sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição por si só bastaria para tornar maldito quem fosse inimigo de Nosso Senhor e pretendesse conquistar a Terra Santa.

Depois mostra que os maometanos são selvagens e que destroem os lugares aonde entram. De maneira que as Relíquias do tempo de Nosso Senhor Jesus Cristo estão ameaçadas de destruição.

Os senhores veem como o pensamento se estabelece com lógica. A terra é sagrada, essa Terra Sagrada está ameaçada não apenas de uma ocupação sacrílega, mas de uma destruição sacrílega dos monumentos. Logo, a ofensa contra Deus é suprema.

A seguir, trata a respeito dos soldados que não vão seguir para a Terra Santa. Vê-se que São Bernardo é um orador desconfiado.

Hoje é moderno o orador se apresentar otimista em relação ao seu auditório, ser "amável" para com ele, sorrir: “Vós todos que são todos bons!...” O auditório, um pouco imbecilmente, diz: “Nós somos bons, mas o sr. também é bom”. Então – a consequência é – somos todos bons, somos todos concebidos sem pecado original e por acharmos isto vamos todos para o inferno...

Mas São Bernardo, ele não. Conhecendo a miséria humana, está desconfiado que os guerreiros não querem ir para o combate e então os interpela: “Que fazeis, bravos soldados, diante disto?” Quer dizer eu vos conto que isto está na iminência de acontecer ou está acontecendo e vós não fazeis nada?! E passa para a descompostura: Vós tendes muitos pecados; é preciso expiar esses pecados. Esta ocasião é muito boa: ide à Terra Santa para expiar os vossos pecados.

Os senhores imaginem isto sendo pregado na televisão de hoje... Chegar para o público e lhe dizer que ele tem muitos pecados... Não poucos ficarão ressentidos. Mas eles não se incomodam em pecar, pecam à vontade, fazem o que entendem e quando se lhes diz que pecaram, eles não gostam...! Isto é próprio do pecador empedernido. Onde é que está o poder da Cátedra católica, que outrora enfrentava as multidões como enfrentava os reis? E fazia recuar a demagogia, assim como fazia recuar os tiranos? Como tudo isso está longe, infelizmente!

Então, primeira razão que apresenta: vós tendes uma penitência muito grande a fazer; pois então fazei essa penitência, ide às Cruzadas! Segunda razão: vós viveis vos matando uns aos outros. Vós sois criminosos nas vossas lutas odiosas. Pois eu vos apresento - já que vós gostais de lutar - um combate, mas desta vez justo e contra um inimigo que merece ser combatido. Por todas essas razões, ide vós e tomai a Cruz!

Esse é o sermão de São Bernardo...

Podemos fazer uma transposição para nossos dias desse sermão de São Bernardo? Com quanta propriedade! Porque hoje não se trata “apenas” de libertar a Terra Santa. Nosso Senhor não teria vindo ao mundo para salvar a Terra Santa. A alma de qualquer homem vale mais do que a Terra Santa inteira. Pode-se dizer que hoje, de algum modo, é a salvação do gênero humana inteiro que está em jogo e durante séculos. Porque o que se decidir em nossos dias o será por séculos! Disto é do que se trata.

Então, podemos nos perguntar: nós também não somos desses guerreiros que não gostam de “combater o bom combate” (como diz São Paulo)? Não é o caso de nós nos perguntarmos se não é bem verdade que devemos estar dispostos aos maiores sacrifícios para esta causa que vale mais do que a própria causa da Terra Santa? É evidente que a resposta deve ser afirmativa. E é nesse espírito de Cruzada que eu vos convido a considerar nossas campanhas e nossas atividades em geral, sempre dentro das leis de Deus e dos homens.

Nota: Quem desejar aprofundar o assunto, sugerimos a leitura do artigo “A Cruzada do século XX”, publicado no primeiro número de “Catolicismo”.