Plinio Corrêa de Oliveira

 

Roma "sparita" - A Roma dos Papas no século XIX:
cidade pequena, com categorias e estilos de vida definidos e harmônicos

 

 

Santo do Dia, 29 de janeiro de 1977, sábado

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério tradicional da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

 

Ettore Franz Roesler (1845-1907) nasceu em Roma, em uma família de banqueiros de origem alemã. A partir de 1870 dedicou-se à pintura. Sua mais famosa obra consiste em uma série de 120 aquarelas intitulada “Roma sparita” (Roma desaparecida), comprada em 1908 pelo museu do Palazzo Braschi (em Roma). Retratou ele aquela cidade que começava a desaparecer em diversos de seus aspectos pitorescos para dar lugar às mudanças que a invasão dos territórios pontifícios (incluindo Roma, a 20 de setembro de 1870) acarretaria. Acima, pintura retratando Franz Roesler com 57 anos de idade.

Vou expor aos senhores o que era a Roma papal, para terem um pouco a idéia de que tipo de cidade era, e depois disso vamos fazer a projeção de slides tirados de uma coleção chamada "Roma Sparita", ou seja, Roma desaparecida. Quer dizer, a Roma papal que foi demolida pelas reformas nela introduzidas pela Casa de Sabóia, que unificou a Península italiana e se tornou a única dominadora da cidade de Roma e que ali, usurpadoramente, estabeleceu a sua capital. E modernizou Roma, fazendo-a, de cidade antiga que era, numa grande cidade de tipo moderno.

O que vem a ser a Roma do tempo dos Papas? É, ao mesmo tempo, uma Roma medieval, com todas as características da cidade medieval, um tanto reformada no tempo do período do Ancien Régime e uma cidade eminentemente eclesiástica.

O que quero indicar quando falo de uma “cidade medieval”? Era uma cidade raras vezes planejada de antemão. Por exemplo, tomem o bairro de Higienópolis. Percebem que o traçado das ruas não foi espontâneo; as casas não foram se acrescentando uma a outra normalmente, mas houve uma empresa que planejou e fez o loteamento do bairro. De onde segue que todas as ruas são em linha reta e se cortam em ângulo reto, fazendo do bairro de Higienópolis uma espécie de tabuleiro de xadrez. O mesmo se poderia dizer do bairro do Pacaembu, que foi urbanizado pela Companhia City, uma grande empresa norte-americana de urbanização. Quando a City urbanizou o Pacaembu, o urbanismo tipo Higienópolis estava fora de moda; tinha-se considerado que essas avenidas retas cortando-se em ângulo reto e formando quarteirões quadrados, eram monótonas. Então fizeram ziguezagues e curvas no Pacaembu, que existem também em outros bairros: Pinheiros, Jardim América, Jardim Europa, em que não se usa mais a linha reta mas as grandes curvas macias. Daqui a pouco se inventará uma outra forma qualquer de arruamento. Mas o que nos interessa aqui no momento é que as ruas não foram feitas por cada morador, que colocou sua casa aonde queria, e, portanto um pouco mais recuada da rua, ou um pouco mais para a frente, e dando à rua um gráfico que era todo ele casual, fortuito, mas que aquilo foi planejado de antemão.

Também as construções eram menos planejadas do que se tornaram depois. Uma família construía uma casa; nascia um filho, mandava construir um quarto no teto da casa; nascia outro filho, colocava dois quartos. De repente um velho que morava numa sala da casa começava a ter reumatismo, abria-se uma janela no lugar onde devia entrar sol para o velho receber esse sol. Não se incomodavam de saber se a casa ficava simétrica, ficava assimétrica, ficava bonito ou feio. Era uma necessidade do velho para não ficar reumático. O velho que morava no quarto ficava muito pouco incomodado de sentir seu reumatismo com a idéia de quem passasse fora achasse feia a janela que ia abrir. Ele queria era o sol sobre a perna doente ou o braço doente. Quer dizer, circunstâncias imprevistas foram formando essas cidades.

Por causa disso, elas não tiveram a monotonia das grandes cidades modernas e tinham muita fisionomia; porque as pessoas que iam fazendo essas construções imprevistas iam – pela força das circunstâncias – comunicando seu caráter, comunicando seu modo de ser, sua fisionomia à construção que estava sendo feita. De onde Roma – como todas as cidades desse tipo, mas ela de modo mais marcado ainda – era cheia de fisionomia. A esse dote de ter fisionomia nós poderíamos chamar, de algum modo, pitoresco. O pitoresco é a fisionomia quando, pelo imprevisto, faz sorrir um pouco.

Há outra coisa que se acrescentava à Roma: era uma cidade velhíssima; datava, mitologicamente, de Rômulo e Remo, portanto, uns sete, oito séculos antes de Jesus Cristo. E com aquele senso de conservação que há na Europa – e que nós, brasileiros, não temos uma idéia – até hoje certos prédios do tempo dos Romanos da Antiguidade são utilizados para uso comum pelos romanos de hoje. O Panteon de Roma era o templo onde eles adoravam todos os deuses gentílicos antigos, sendo para a Roma daquele período, uma igreja bem grande. O Panteon esteve franqueado ao culto pagão até o momento em que Constantino mandou fechar esse culto. Quando ele decretou isto, não pensem que ele – a la moderna – derrubaria o Panteon. Mas mandou instalar ali uma igreja católica, onde hoje as pessoas se casam, são batizadas, se confessam como a Igreja de Santa Teresinha (à Rua Maranhão, no bairro de Higienópolis) ou do Coração de Maria, ou qualquer outra igreja a que estejamos habituados. Ali, há séculos, Júpiter era adorado e agora é adorado Nosso Senhor Jesus Cristo. E o prédio se conserva. 

 

À esquerda, o túmulo de Adriano, posteriormente fortificação dos Papas e conhecido como Castel Sant´Angelo, próximo ao rio Tibre 

A sepultura do imperador Adriano foi aproveitada; é uma torre cilíndrica de pouca altura e imenso diâmetro. Foi aproveitada, durante a Idade Média, para fortaleza. Depois, uma parte dessa fortaleza foi aproveitada para palácio. O túmulo de Adriano não existe mais. Mas a gente visita as muralhas da fortaleza e até as salas de festa do palácio. Eles mostram uma armadilha, onde punham tapetes bonitos etc., numa sala de festa, e a mesa. Num lugar punham a cadeira onde ficaria o convidado que ia morrer, cobrindo com tapetes em cima. Quando chegava uma certa hora em que todos tinham bebido bem, eles abriam a arapuca, que era uma tábua móvel, no chão, e a pessoa caía dentro do Tibre. Eles abrem o chão e se pode ver, através de vários andares sucessivos, o rio correndo... Naturalmente lá caía em condições de morto, o cadáver ia aparecer longe e ninguém percebia quem o havia matado. Agora é museu. De maneira que de sepultura de Adriano para fortaleza, de fortaleza a palácio, de palácio a museu. De repente há uma repartição pública funcionando lá. Porque hoje em dia há uma tendência de se encher tudo com repartições públicas. Ou, de repente, uma clínica.

O que vou dizer é um pouco prosaico, mas é para dar uma idéia aos senhores. O mais antigo esgoto de Roma, tubo de canalização de água imundas, águas servidas da cidade, é uma cloaca chamada “Cloaca Máxima” (vide ilustração mais abaixo) que até hoje serve Roma. E quem queira pode ir ao Tibre ver a boca da Cloaca Máxima com os tijolos daquele tempo.

 

 

Uma rua popular em Roma, com a roupa lavada estendida e gotejando em cima de quem passa... Duas velhas que comentam qualquer coisa... A pequena vida caseira que sai da casa e se espraia pela rua a fora...

 

 

Vicolo della Volpe 

Recanto da velha Roma. Uma casa o alinhamento caprichoso da rua, uma bonita torre no meio de casarões velhos, que eu quase chamaria leprosos. Um dossel e um santo, parecendo-me Nossa Senhora com o Menino Jesus. Imagens assim são freqüentes na Roma daquele tempo.

 

 

Arco delle Azimelle 

A escadaria que perfura uma casa, que já foi construída assim. A rua é uma escadaria que desce e depois chega em baixo e aqui, no meio da velha casa sem eira nem beira, tem um bonito balcão de alguma família nobre ou rica que mora aqui. E isso é uma coisa muito comum até hoje na Itália. Metade da casa é cortiço, metade é palácio de nobre.

 

 

Piazza di San Pietro in Vincoli 

Duas irmãs de caridade de São Vicente de Paula com seus lindos chapéus bretões, andando numa espécie de praça de terra, sem calçamento, da velha Roma, com uma magnífica palmeira. Espraiando-se suavemente no clima romano, uma nobre torre antiga e mais adiante outra. Roma era uma cidade relativamente pequena, com mais de 350 igrejas.

Esse terreno foi rebaixado para a construção das casas. Mas aqui, por qualquer razão, o dono não quis que rebaixasse e ficou alta, com a árvore que se eleva de modo pitoresco. Um muro, água parada e uma bela igreja ao fundo.

 

 

Via del Ricovero 

Pormenor de vida do tempo! Um cachorro, que procura comida pela rua. É um cachorro sem dono, na infeliz situação dos cachorros sem dono. Uma senhora conduzindo o filho para passear. A criança está vendo o cachorro e quer ir em sua direção. O cachorro é utilitário e está se preocupando exclusivamente com a comida; não liga para nada.

O reboco dessa casa caiu, mas ela pode durar mais mil anos. Não pensem que a escada é para escorar a casa. É uma escada encostada do lado de fora para qualquer coisa. (mais à esquerda) Um cavalo bem lustroso e bonito. Uma porta com um nobre arco. Um pátio cimentado de pedras, mas sem nenhuma regularidade.

 

 

Via della Lungaretta 

Outra viela romana. Nas cidades medievais as ruas eram muito estreitas para caber tudo dentro das muralhas da cidade. A iluminação pública já havia começado. Aqui há um poste com iluminação a gás, que era o grande progresso do momento. Também era o progresso a placa com o nome da rua. Aqui é Via della Lungareta. Está chovendo, duas senhoras passam abrigadas num guarda sol insuficiente e aqui há uma comerciante oferecendo qualquer coisa. Notem a desigualdade do solo, como é tudo feito mais ou menos ao acaso.

Uma bela torre. Haveria toda uma explicação para dar nesse medalhão vazado, esse quadrilátero e depois essa parte em cima, mais isso e isso. A torre está mal cuidada e velha, mas é nobre como uma velha marquesa que se conserva marquesa apesar todas devastações do tempo e do dinheiro.

 

 

Via Giulio Romano 

Isso não se vê de jeito nenhum em rua moderna. Um arco comunicando uma casa com a outra, passando por cima da rua. Eu não sei porque se condena isso porque é uma coisa que pode prestar muitos serviços.

 

Fontana di Ponte Sisto 

Numa praça pública, esse aqui parece apoiado num bordão, e vai com uma sacola e uma caixa de música, andando. Essas cidades eram todas muito musicais. Cantava-se, dançava-se violino, ou melhor, tocava-se violino, dançava-se mais ou menos em todos os lugares e ouvia-se música sair de todas as janelas, com a voz bonita e o senso melódico tão freqüente na Itália.

É uma cena pitoresca. O burrico puxado pelo homem, carregado, que vai devagarzinho pela cidade. Provavelmente um vendedor ambulante. Aqui uma como que pequena coluna e aqui brota água. Roma é a cidade das fontes. Uma fonte para quem quiser. Em geral, a água de Roma é muito límpida, muito boa.

 

 

Torre della scimmia, in via dei Portoghesi 

Uma torre que foi fortaleza durante a Idade Média. Tudo caiu, construções ao lado, um pitoresco jardim suspenso. Um dos pitorescos em Roma são os terraços como esse, onde eles colocam guarda-sóis grandes e há restaurantes em cima. Um homem toca violino para os que comem e bebem e ficam olhando o movimento da rua. Um monge dominicano vai atravessando... A cidade dos papas era a cidade dos frades.

 

 

Tibre, Cloaca Massima 

O menino tem um lado pitoresco. É um menino de rua, que não teve nenhuma educação e, portanto, ele está deitado no barco como estaria na cama dele. Se ele estivesse de bruços na cama, tentando pegar um rato no quarto dele, sua atitude não seria diferente. Apesar disso, o gesto todo dele não deixa de ter uma certa harmonia e muita naturalidade. Não é um gesto feio. Tem certa harmonia de posição e de atitude. E tem uma naturalidade de uma pessoa que se sente completamente à vontade na cidade. É a cidade dele, feita para ele, na qual está como em sua casa particular. Os senhores acham possível um menino tomar essa atitude na avenida Paulista? Nem dá vontade...

Esse inteiro “laissez faire” (negligência) faz parte do pitoresco da virtude do menino. Os senhores diriam que isso não devia ser assim, uma vez que ele não é educado. Não. A educação tem vários graus. Ele tem essa forma principal e mínima de educação, que é a virtude. Ele está composto, direito, porque é um menino que teve uma educação pura. É o principal da educação. Maneiras não é o principal da educação. Maneiras ele não tem. Mas sim a compostura do menino direito! É o essencial.

A idéia que eu tenho de pitoresco é imaginar morando ali perto gente que são os pais e tios desse menino e desse outro que está atrás. Talvez esses dois homens no outro barco sejam moradores daqui. É gente do povinho, inteligente como é habitualmente o italiano – e especialmente o romano –, que mora nos casebres mas que se pôs numa situação muito pitoresca, presenciando tudo como de um terraço: tendo sempre diante dos olhos esse templo, a torre e o Tibre milenário que passa e que joga suas águas servidas na Cloaca Máxima, um dos mais antigos monumentos de Roma.

O cenário é magnífico: encostada num templo pagão, uma torre de fim da Idade Média, vendo o rio romano passar e olhando para cá como quem vê a vida fluir com toda a navegação do Tibre. Isso é pitoresco porque forma quadro. A palavra "pitoresco" vem de pintura, “pictus”, portanto que merece ser pintado. É “pintoresco” (em espanhol), pitoresco. O pitoresco está no homem do povinho, com sua inteligência, com sua vivacidade, inalando tudo isso sem saber bem o que é, e vivendo aqui a la romana. Quer dizer, à noite, fazendo um jantar entre o parapeito e a casa, comendo uma polenta, bebendo vinho quente e tocando num instrumento de corda que talvez tenha uma corda ou duas a menos, e cantando a plena voz numa noite enluarada de Roma. Isso é pitoresco. Seria possível fazer isso na Avenida Paulista?

 

 

Aqui posso fazer dois comentários do pitoresco que há da presença desse templo nesse embasamento, ao lado da torre. Nos templos romanos e, aliás, nos gregos também, distinguimos duas partes: uma parte que é uma espécie de cilindro, às vezes um quadrilátero, sem janelas, com as portas constantemente abertas – em cima havia janelinhas muitas vezes; de maneira que a ventilação se fazia continuamente. E em torno, talvez para abrigar as pessoas que iam oferecer seus sacrifícios idolátricos, um telhado que ia além do templo e que era sustentado por essas colunas em forma de círculo, formando, portanto dois corpos de edifício: um interno e outro externo. Em ocasiões de chuva, de sol muito forte etc., as pessoas que não pudessem ficar dentro do templo, ficavam fora.

Há qualquer coisa do imponderável do edifício, que dá idéia de que os telhados, que provavelmente não datam do tempo dos romanos, já estão tão velhos que as telhas quase se encolheram e estão trêmulas de velhice... se bem que as pedras não enruguem nem sequem, pode-se dizer que as pedras dessas colunas seriam para o que elas eram quando foram construídas, como uva-passa para a uva. Elas estão ressequidas de tanto tempo que passou em cima delas, vento que bateu, chuvas, toda espécie de coisas, e elas ficaram como que ressequidas. Nem se nota muito o retilíneo delas, porque o eixo é retilíneo, mas a circunferência está tão trabalhada que nem se tem a idéia de como que cilindros majestosos que houve aqui antigamente. Tudo isso dá idéia de um passado que não é só velho, mas mumificado, que não dá mais nada, um passado reduzido a esqueleto. Isso é muito mais o esqueleto de um prédio do que um prédio propriamente dito.

Ora, é bonito notar que aqui era o único templo erguido em Roma em louvor da pureza. Segundo a mitologia, a deusa Vesta era uma deusa virgem, e essa deusa só poderia ser cultuada por virgens, que deveriam ter o tempo inteiro um fogo aceso diante dela como homenagem. As vestais – era o nome delas – eram mulheres que deveriam ser elas mesmas virgens. Se alguma delas fosse apanhada em pecado contra a castidade, era enterrada viva. E o mesmo ocorria também se, durante a noite, a vestal designada para guardar o fogo, o deixasse apagar. Era uma responsabilidade grande ficar a noite toda no silêncio da Roma daquele tempo, vigiando para que o fogo não apagasse. Quanto ao mais, podiam levar um vidão. Iam a festas, iam à toda parte. A única coisa que se exigia delas é que fossem virgens. Pois bem, o horror à pureza na Roma pagã chegou a tal ponto, que o culto de Vesta se fechou porque não havia mais doze mulheres – que era o número necessário - para serem vestais. Isso em todo o império Romano, que tomava toda a bacia do Mediterrâneo. Uma coisa tremenda! Ali se instalou depois uma igreja católica, e é uma paróquia na qual as beatas vão rezar o terço, fazer Via Sacra, onde havia até há pouco bênção do Santíssimo Sacramento, etc., muito tempo depois do culto dessa deusa idolátrica ter ali cessado. Então, a igreja católica harmoniosamente instalada naquilo que foi o local de seus perseguidores, da religião em nome da qual o sangue dos mártires foi derramado...

Altaneira, sempre com vitalidade, a torre medieval, que se eleva aqui e que mostra a vitória, na Idade Média, sobre o mundo pagão romano; a vitória da Igreja sobre a gentilidade e todos os seus adversários.

Ao lado desses dois monumentos tão expressivos, tão notáveis pelo seu contraste, o povinho tranqüilo que vive nos braços da história e nos braços da fé, com a naturalidade de quem vive a vida de todos os dias. Perto disso, o magnífico rio Tibre, que nesse contexto parece representar o curso da história que vai passando, e que lembra a eles como as coisas mudam ao longo do tempo. Mas “Stat Crux dum volvitur orbe”, a cruz está de pé enquanto o mundo inteiro se vira e revira! Onde a Igreja deitou Sua mão sagrada, ali ela continua. E ninguém tirou a Igreja de Roma! (...) A atmosfera das igrejas católicas é tal que invade, enche, nem se sente o paganismo dentro disso. Fica apenas o esqueleto para representar a vitória.

 

 

Arco dei Tolomei 

Essa aqui é uma espécie de governanta, e não dona da casa. As donas de casa não usavam esse avental. É uma governanta, uma criada muito graduada, que foi fazer compras com o menino da casa. O menino vestido já a la século XIX: chapéu de marinheiro, com uma borlazinha, gola, ou melhor, chapéu de marinheiro, com um pompom em cima, uma golazinha. Essas pessoas se conhecem entre si. Esses dois estão conversando. Mas não há nenhuma prova de que estes conheçam esses ou aqueles. Então, em que sentido se pode dizer que esses não são desconhecidos, como no caso do Viaduto do Chá? No Viaduto do Chá passa uma multidão de pessoas desconhecidas umas das outras. Aqui não é uma multidão, mas essas pessoas parecem desconhecidas entre si. Essa mulher e essa criança manifestamente não conhecem esses dois. A curiosidade com que o menino olha indica que se voltou para desconhecidos. Não há nenhuma prova de que estes conheçam esses. Então, eles se ignoram uns aos outros como no Viaduto do Chá. É verdade que são desconhecidos, mas percebe-se que esses à esquerda são velhos conhecidos entre si, e os dois à direita são capangas para qualquer espécie de aventura. Eles têm mais jeito de cúmplices até do que de conhecidos. É muito provável que estes e esses se conheçam, porque são moradores de um bairro muito calmo, numa vida muito calma. Trata-se de gente de uma classe social onde as pessoas se abordam sem terem sido apresentadas antes. Não é inteiramente verdade que sejam desconhecidos. Mas ainda a cidade é tal que cada um que passa sabe mais ou menos que categoria tem o outro, qual a profissão, quais os hábitos, qual o estilo de vida do outro. 

 

Por exemplo, essa governanta, por sua atitude, dá a entender que se considera muito superior a esses e leva uma vida mais ordenada e mais limpa do que eles. E eles respondem para ela indiretamente que, sem negar que ela seja mais, eles têm um vidão livre, solto e à vontade que eles acham bem gostoso. Porque estão todos bem satisfeitos. O ”bambino” aqui com essa perninha, eu acho o auge da “italianità”. Só falta fazer um discurso... Esses dois homens podem não saber que ela se chama Serafina Bonzi, por exemplo, mas sabem como ela é, como vive. É uma cidade pequena, com categorias definidas, estilos de vida definidos, onde ninguém é inteiramente anônimo para outro. É diferente da avalanche de anônimos do Viaduto do Chá.

 

 

Via Capocciuto 

Aqui é parte do gueto, do bairro judeu, superpovoado. O análogo desse bairro, em São Paulo, seria o Bom Retiro. Só que este último é muito mais esparramado, há muito mais espaço. Tem-se a impressão de um ambiente de calmaria. Aqui há um pitoresco que no prédio de apartamento não tem. Mas nessa cena falta muito de italiano, entretanto há algo de italiano na desordem, com uma certa forma de pitoresco nessa desordem, que o italiano sabe pôr e que outros não sabem. É um predicado italiano. 

 

Vicolo Capocciuto 

A que está costurando tem um pitoresco italiano no espalhafato. Uma pessoa que aqui fizesse esses trabalhos, se esconderia para ninguém a ver. Ela, pelo contrário, se coloca à vista de todo o mundo. De outro lado, ela está eu quase diria como um professor numa cátedra, um juiz num tribunal ou, amesquinhando muito, como uma rainha num trono... Há qualquer coisa do pitoresco teatral italiano dentro disso. Aí há um verniz italiano. Nota-se alma dentro disso a mais não poder, nota-se vivacidade, vida. Aí se percebe que a presença do fator italiano extroverte muito as pessoas, se bem que haja exceções.

(Aparte: O Sr. poderia dizer algo a respeito da desordem do italiano e da ordem do alemão?)

É o contrário um do outro. O senhor precisava ver, viajando pelo vale do Itajaí em Santa Catarina, a beleza, o encanto das casinhas de trabalhadores rurais, mas com cortinas do lado de dentro da janela e, do lado de fora, potezinhos com gerânios bem vermelhos.

(Aparte: Então por que não fazem os italianos uma coisa bonita, com mais ordem e vice-versa na Alemanha?)

Por uma razão muito simples: isso toca na índole do povo. O italiano é exuberante, e sente tanta coisa, pensa tanta coisa e tem vontade de dizer tanta coisa, que não tem tempo para arrumar muito as coisas...

Mais ainda. E isso tem muita relação com nosso modo de ser do brasileiro, não pela grande imigração italiana em São Paulo, porque o Brasil todo é assim, até no Nordeste, zona muito pouco italianizada. E o nordestino é mais ainda do que o brasileiro do sul nesse sentido: nós, latinos, pensamos muitas vezes falando, e se não temos ocasião de falar não chegamos a completar nosso pensamento. A extroversão é um modo de ser nosso para dar o acabado ao nosso pensamento. Nossos caros espanhóis falam muito e complementam muito o pensamento quando falam. O alemão é o contrário: para completar o pensamento ele precisa recolher-se. E daí vem o fato de que o latino tanto fala que não tem muito tempo para se arranjar. E o alemão tanto se recolhe que é enquanto arranja as coisas que pensa. Então, ele está colocando em ordem um papel, arranjando uma cortina, regando o gerânio, está filosofando com todos os graus possíveis de filosofia, desde a mais alta até a mais popular. O latino está sempre elocubrando uma coisa para o conhecimento do mundo; o alemão está elocubrando para si, depois para seus próximos, depois para um clã que forma e com o qual ele vai pressionar outros e depois com a nação com a qual ele pressiona o mundo. Mas a propagação da influência se faz de nós (latinos) para os outros à maneira do azeite e deles para os outros à maneira do gládio. São formas diferentes.

Eu sou um grande admirador da Alemanha. Sou um grande admirador da Europa, mais do que de cada país que a compõe, mesmo da França. A Europa vale muito mais do que a França, porque o bonito na Europa é o conglomerado desses povos esplêndidos e diferentes que formam um todo mais belo do que cada elemento. É bonito na Europa ver o alemão levando aquela vida nas aldeinhas de marzipan, esplendidamente arranjadas e o italiano cantando a plenos pulmões na baía de Nápoles, ou à beira do Arno ou guiando uma gôndola em Veneza... A Espanha com suas castanholas e suas touradas. O fado português, a torre de Belém... a Abadia de Westminster. É a Europa feérica! É dela de que nós gostamos.


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