Plinio Corrêa de Oliveira

 

Ambientes e costumes à época da morte de Leão XIII

 

Contraste entre a concepção da vida até a Belle Époque com o mundo influenciado pela mentalidade hollywoodiana

 

 

Santo do Dia, 21 de novembro de 1980

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério tradicional da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

O período da "Belle époque" (1871-1914) costuma ser ilustrado com a cena acima, da Exposição Universal em Paris (1900)

Nós vamos entrar numa matéria que espero atrairá aos srs. São slides de um número antigo da revista francesa L’Illustration.

Os srs. sabem, creio eu, o que na linguagem francesa corrente se chama Belle Époque (bela época). É o período que vai mais ou menos de 1870 a 1914. É um período festivo, alegre, brilhante da vida européia, que termina exatamente com a I  Guerra Mundial. Isto marca uma diferença na atitude dos personagens, nos trajes, na decoração, nos estilos de vida e portanto na mentalidade dos personagens. Porque decoração, trajes, estilos de vida etc., valem em si mesmo mas sobretudo enquanto expressão de uma mentalidade. Quando tudo isto muda, é porque a mentalidade mudou.

 O que caracterizava a mentalidade até a Belle Époque era a persuasão de que a vida não existe só para seu sentido prático, ela não existe só para que a pessoa se cuide e prolongue a própria existência, evite as doenças que podem tornar incômoda a existência e ganhe dinheiro para torná-la divertida; a vida não existe só para o prazer portanto, mas a vida é o universo e o existir do homem dentro desse universo coloca-o mais ou menos como se encontrasse num teatro para ver uma grande cena.

Os srs. imaginem uma cena de teatro fabulosamente grande em que a imensa maioria dos que estão ali presentes de vez em quando entram no palco, representam um papel mais apagado ou menos, e saem de cena e depois continuam a assistir a peça na plateia.

Quer dizer, todos são artistas da enorme cena que assistem. Ainda que sejam  atores anônimos de uma multidão que aplaude ou de uma multidão que vaia; de uma multidão que boceja ou de uma multidão desatenta, qualquer que seja a situação, eles todos em algo condicionam a cena.

Felizes aqueles a quem Nossa Senhora suscita para de vez em quando entrarem na cena com um estandarte vermelho e a capa, bradando: “Tradição, Família, Propriedade!” Felizes estes! Há outros que fazem outras coisas, mas esta é a vida.

 

Campanha da TFP no Viaduto do Chá (1982) 

E então, o indivíduo posto nesta situação hipotética é levado a ter a preocupação com o papel que deve exercer. Mas como esse papel é passageiro e só pode realizá-lo bem se entender a peça de teatro que está sendo representada, ele é obrigado a fazer da peça o seu principal foco de atenção.

Mas, por sua própria natureza, a vida é isto: um cenário imenso, num panorama imenso, onde a pessoa contempla uma imensa peça que se desenrola. Em que esta é de uma grande clareza quando se presta atenção e se quer entendê-la; confusa e com aspectos até de caos, quando não se quer entendê-la. Mas a peça sempre se vai desenvolvendo sob uma forma, sob outra, sob outra... E nessa peça ou a gente é espectador que procura entendê-la ou é ator que dela participa, mas tudo gira em torno da peça. Essa é a concepção da vida que se nota até a Belle Époque.

Terminado este período, começa outra concepção da vida: é a do indivíduo que está no teatro, que de vez em quando entra na peça para representar um papel, mas já não se preocupa com a peça, mas consigo mesmo: “Minha cadeira está bem cômoda? Eu não estou com fome? Eu não posso mandar vir um menino que está vendendo bala, bombom, chocolate para comer alguma coisa? Esse vizinho não está pondo o cotovelo no lado do braço da poltrona que é o meu? Eu não estarei querendo dormir? Quem sabe se eu estiro agora minhas pernas e tiro uma soneca? Quem sabe se me levanto e dou um passeio? Quem sabe se... quem sabe se... Como estou eu? O que estou sentindo? O que estou querendo? Será que vou viver muito dentro dessa cadeira ou será que vou morrer logo? Ai-ai-ai não quero morrer! Olhe, eu estou com uma dor aqui, mande vir um remédio para mim...”

O indivíduo passa a ser o centro do teatro e a peça para ele é uma coisa secundária. Os próprios momentos em que entra para participar da representação são para ele fugazes e sem importância. O ponto importante é ele e o resto passa para segundo grau.

Então os srs. vêem daí aparecer o homem homo economicus, homo medicalis, homo financeiro, ou seja, é a era de Bios! Viver, viver gostosamente, viver longamente, viver a serviço de Mamon – porque, pensa o indivíduo, se eu tiver dinheiro eu faço o que eu quero. Isto é o outro aspecto da vida que se inaugura de modo estrepitoso, espalhafatoso, depois da Segunda Guerra Mundial e estende-se pelo mundo inteiro o estilo hollywoodiano.

*     *      *

O que diz essa peça de teatro? Por seu enredo e por todos os figurantes, por todo o cenário, tem uma grandeza enorme que nos faz pensar no seu Autor. O próprio enredo nos fala de seu Autor; o próprio cenário é à imagem e semelhança do Autor; os próprios atores tem todo seu papel e até todo seu ser planejado, intencionado pelo Autor; a peça nos fala de Deus e em cada coisa que se vê no panorama, como nos homens, no desenrolar do enredo, ou seja, no desenrolar da história, algo bem interpretado, nos fala de Deus.

Deus enquanto vitorioso, resplandecente; Deus enquanto punido e perseguido, o Filho de Deus bradando do alto da Cruz “Eli, Eli lama sabachtani – Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”; Deus enquanto puniente e as catástrofes estrepitosas; Deus enquanto reconstituinte e as auroras das grande épocas históricas; Deus vincando toda a história em torno do eixo dela: a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.

 Isso é a visão que esta metáfora nos dá. E é evidente que fazer abstração da peça, no fundo, é fazer abstração de Deus. E é um modo de ser de ateísmo prático: o indivíduo vive e sente à maneira de ateu ainda quando reze todas as noites. É um ateísmo efetivo, concreto, mais ou menos subconsciente, mas que vai corroendo o senso sobrenatural, vai corroendo a fé até o momento em que o indivíduo fica de fato ateu.

A hollywoodização foi, nesse sentido, a preparação da comunistização. E é por causa disto que os srs. vêem que nos nossos países os círculos mais dominados por esse estilo de vida são onde menos existe o anticomunismo. Pode haver não comunismo; o anticomunismo é raro porque eles não tem vontade de intervir na peça, eles não são anti-nada; eles são pró eles. Enquanto nós transbordamos do desejo de intervir na peça para realizar os desígnios do Divino Autor, eles, pelo contrário, procuram se esquivar.

*     *     *

Na Belle Époque, como nas épocas anteriores, se tomava diante dos fatos da história, uma atitude que era proporcionada à essência dos mesmos. E quando se passavam fatos muitos graves, as pessoas tomavam atitudes graves diante da respeitabilidade do que ocorria. A sagração de um bispo, a ordenação de um sacerdote, a primeira comunhão de uma criança... O que dizer da investidura e da coroação de um Papa? Tudo isto era sumamente grave e pedia esplendor, pedia nobreza, pedia pompa, pedia luxo. Pedia sobretudo compenetração da gravidade do que estava acontecendo, do esplendor do que estava acontecendo. De onde atitudes, posições, impostações especiais.

A I Guerra Mundial acaba e vem a onda da hollyoodização, sendo a grande nação vencedora os Estados Unidos. Na aparência a França e a Inglaterra venceram a Alemanha. No fundo, a América do Norte esmagou psicológica, econômica e politicamente a Europa.

 Qual é o resultado? É que tudo isto decai e a pessoa só está na cena pensando em si. Por exemplo, durante uma Missa de 7º dia: a pessoa é levada não a pensar no Santo Sacrifício da Missa, nem na alma do morto, nem no augusto e trágico da morte, mas quanto tempo durará, se ele não vai perder o metrô, o ônibus ou o avião... se não vai perder a hora marcada em tal banco onde ele tem de tratar tal negócio... ele não conseguiu uma cadeira para se sentar, está com os pés doendo, inclina-se de um lado, do outro, porque a Missa está demorando muito... Depois é o bote na fila dos pêsames para conseguir sair mais depressa etc., etc. Ele! Ele! Ele!...

Aliás, expressão característica disso: antes da I Guerra Mundial as viúvas usavam luto com um véu, evidentemente meio transparente, preto, que chegava até o joelho e de crepe, que é um tecido especial. Os catafalcos eram altos nas igrejas e a solenidade da Missa de sétimo dia: o padre diante do catafalco incensava, cantava “Requiem eterna dona eis Domine...” lembrando que a alma da pessoa falecida podia estar no purgatório penando duramente, e depois continuava “et lux perpetua luceat eis – requiecat in pace”... [o prof. Plinio entoa esse último versículo]

Tudo isso foi desaparecendo, e dá nesse lutinho de hoje que ninguém mais usa luto, leva o cadáver para o morgue de tal cemitério – antigamente era um ponto de honra ter o cadáver guardado dentro de casa até a última despedida, a hora de fechar o caixão todos da família osculavam o morto, a viúva vinha soluçando amparada pelos da família. Se era um viúvo, ele vinha sublime com a mão posta assim na face e uma lágrima caindo dos olhos...

Hoje, não: embarca numa espécie de caminhonete que eu não sei se ainda é preta, leva para morgue, estende lá, e na morgue tem coca-cola à venda, tem não sei mais o que e vai daí para fora.

Por que? Porque os fatos perderam seu significado.

Diante da circunstância de que os fatos perderam seu significado, há duas questões a considerar: 1) para nós, os fatos continuam a ter significado e nós devemos tomar muito cuidado ao participar dos fatos, de maneira que se entenda que nossa atitude é essa; 2) o comentário à L’Illustration.

Os slides da L’Illustration que vamos passar agora são de 1903. A Morte de Leão XIII foi no comecinho desse século, quando havia ainda onze anos de Belle Époque por viver.

 Os srs. verão aqui não fotografias, mas algo que as prelude. O espírito público tornou-se cada mais desejoso de conhecer os atos da vida cotidiana, por toda parte onde se passavam. E ao conhecer esses atos da vida cotidiana, como não havia fotografia, as grandes revistas contratavam desenhistas que reproduziam o local e retratavam a cena de acordo com o noticiário dos jornais.

Mas são verdadeiras peças de sociologia porque esses que desenhavam não eram grandes artistas, eram bons desenhistas. Eles compunham a cena de maneira a fazer vender a revista. E para que esta tivesse compradores, a cena tinha que ser o mais possível o que o leitor imaginava que a cena era, porque o leitor queria saber a verdade e se não viesse apresentada uma coisa que reputava provável, ele recusava o desenho.

Não sei se está claro isso? De maneira que era um verdadeiro inquérito silencioso junto à opinião pública.

Então, a morte de um Papa, e coroação de um Papa, a visita de um rei a outro rei, a posse de um presidente da França ou de um presidente de Portugal ou da Suíça, eram cenas imaginadas pelo grande público e o desenhista compunha a cena segundo o grande público. Era a idéia que o grande público se fazia da cena.

 Mas, como em geral quem representa uma cena procura pôr-se de acordo com a orientação do público, acabava sendo que essa representação era verdadeira. E então nós temos o verdadeiro inquérito de qual era a mentalidade do público, como é que este considerava aquela cena, o que esperava daqueles personagens e como, em linhas gerais, aquela cena realmente transcorreu.

Então vamos considerar agora a morte de Leão XIII. Há um grande noticiário na Illustration a tal respeito. A eleição de São Pio X ao sólio pontifício tem noticiário bem menor na mesma revista.

O que é isso? É como o público considerava o que era um Papa e o que era a morte de um Papa.

Por mais jovens que sejam, os srs. já assistiram a morte de dois Papas (Paulo VI e João Paulo I) e os srs. verão bem como o ambiente mudou. Mas os srs. verão nesses slides da Illustration a pompa da civilização cristã. Muito mais: a pompa da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.

Vamos então começar. 

 

Aqui é anterior à morte do Papa. O Santíssimo Sacramento é levado para o Papa moribundo. É uma das galerias do Vaticano e o centro do quadro é um sacerdote – eu não conheço o cerimonial, provavelmente um cardeal – que leva o Santíssimo Sacramento. Os srs. sabem bem qual é a veste litúrgica de um padre quando transporta o Santíssimo Sacramento. Essa umbrela, essa espécie de guarda-sol não se usa mais, antigamente se usava em toda as igrejas.

 Por exemplo, quando havia bênção do Santíssimo Sacramento no altar-mor, o Santíssimo era conduzido do tabernáculo da capela do Santíssimo para o altar-mor por um padre vestido com peças de qualidade menos fina, mas exatamente assim, levando o Santíssimo debaixo desse véu e uma umbrela. Quando terminava a bênção, o padre levava o Santíssimo com umbela de novo, que era  –  como à maneira de um pálio para ser usado dentro de casa – era uma proteção contra alguma eventualidade, de alguma coisinha que caísse do teto e que pudesse atingir o Santíssimo Sacramento, ou pudesse atingir o sacerdote. Então, por isso se levava com essa umbrela.

O sacerdote que conduz o Santíssimo vai com o rosto próximo ao mesmo e rezando. Ele está recolhido, não olha para os lados, pois está conduzindo Nosso Senhor Jesus Cristo verdadeiramente presente sob as espécie eucarísticas, com Seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade! O que mais?! Ele vai conduzindo assim...

Os srs. notam a Guarda Suíça com as alabardas, com o traje bem característico, ainda hoje bem conhecido; aquele outro que vai com aquele bonito elmo na mão, descoberto porque o Santíssimo está presente - não porque está dentro de casa, porque eles usavam esse elmo também no interior dos edifícios vaticanos. Ele é da Guarda Nobre Pontifícia, constituída só por aristocratas, e acompanha o Santíssimo como guarda de honra. Esses dois ao lado e à frente, não. Eles abrem o caminho, estão de elmo.

Ali, do outro lado, os srs. encontram um padre que vai acompanhando o que leva o Santíssimo (tocando a sineta), para o caso desse que leva ter uma indisposição, qualquer coisa, já ter quem tome o Santíssimo. Mil cuidados com o Santíssimo que, por mais que sejam, ainda são poucos porque é o Santíssimo Sacramento.

Por detrás os srs. notam lacaios, camareiros e senhores da Corte Pontifícia, que todos vão acompanhando – creio eu, não tenho certeza – desde a capela do Santíssimo Sacramento na Basílica de São Pedro até o alto, nos aposentos pontifícios.

No primeiro plano, dois frades franciscanos, com a cabeça tonsurada, com batina bem característica, inclinados e rezando. É muito bonito o contraste entre a simplicidade do traje franciscano, a humildade com que eles genuflectem, o espírito de prece que é expresso pelas mãos, pela atitude, e a solenidade, o recolhimento dos que acompanham o Santíssimo Sacramento. Esse contraste entre a riqueza e a pobreza, entre nobre altaneria da Fé e suma humildade da Fé, constitui uma harmonia especial.

 É outra cena que esse desenhista soube representar muito bem, sendo que  está meio esfumaçada, porque ele quis dar a impressão que desenhou de longe, que a galeria é muito longa e, portanto, as figuras se perdem um pouco na luz.

Olhem o lustroso do chão... dir-se-ia que estão andando sobre a água; é o mármore super-polido e de uma qualidade esplêndida, tão freqüente na Itália, e tão belo na igreja de São Pedro e no Vaticano.

Trata-se, pois, de outra cena em que todo o mundo teria vergonha de tomar ares de estar pensando em si mesmo. Primeira coisa é: Nosso Senhor está presente, está passando! Isso é o primeiro ponto a se ter em consideração.

Segundo: do alto do Céu, Nossa Senhora, todos os Anjos e Santos O estão adorando.

Terceiro: Ele vai ao Papa que está morrendo e vai haver o último colóquio entre o Vigário de Cristo e Cristo Nosso Senhor!

É ou não é claro que o desenho está impregnado por essas convicções? Está impregnado. O desenho não é nada. Mas a cena, o cerimonial elaborado ao longo de séculos, pouco a pouco pelo costume, pela tradição, sobretudo pela fé! É uma cena verdadeiramente magnífica!

Adiante. 

 

Foi constatada a morte de Leão XIII. Então, aí se acham os médicos assistentes e um monsenhor assistente também. Um dos médicos está tirando o pulso – provavelmente deve ser o médico efetivo e habitual do Papa. Naquele tempo chamava-se “arquiatra pontifício”. Arquiatra é uma palavra grega que quer dizer o arqui-médico, o médico por excelência do Papa, e os dois outros estão esperando a constatação de que não há mais pulso e de que o Papa morreu.

Agora vamos analisar os personagens, a idéia da morte e a idéia de Papa como é vivida pelo desenhista.

Primeiro, Leão XIII. Os srs. notam vários cobertores, uma espécie de abundância de cobertores, notam um colchão razoavelmente suficiente, um tecido de categoria muito fina que chega até os joelhos do Papa, uma cadeira junto à cama dele da qual se vê uma parte que é uma poltrona confortável. Os srs. vêem no fundo da parede um tecido damasquinado, aqui um pedaço de cortina. Tudo fala de abundância, não de uma extraordinária abundância, mas de finura e abundância. Dentro da abundância, o fracasso: a posição da cabeça do Papa está tal que a gente vê que ele não respira mais e que seu corpo não funciona mais. A gente tem a impressão de um navio que afundou.

Há algo que dá impressão do lívido da morte, e algo que dá a dupla impressão da insensibilidade da morte e da dor do último instante. Os braços estão largados, o corpo está completamente largado; sobre o Vigário de Cristo na terra  –  como sobre todos os mortais  –  desfechou-se o castigo do pecado original: ele morreu.

Ele morreu e Deus, portanto, acaba de exercer sobre ele um ato de sua terrível e augusta justiça. Deus é Vida, mas a morte é imagem da cólera dAquele que é vida. A presença augusta dAquele que é a fonte desse castigo faz-se sentir no horror desse castigo. Algo que paira aí causa horror.

Resultado: a atitude dos médicos. Esse médico aqui está contando pulso. Então, de acordo com as leis do tempo, ele está fazendo uma operação que ainda faz parte de sua profissão  –  é a verificação se há vida para prolongá-la, ou se houve a morte para declarar encerrada a sua missão e aquele corpo muda de status e de destino. Está fadado a sair de todo esse bem-estar e do convívio dos vivos para um caixão, ser embalsamado, murado e depois entregue à decomposição.

Esse médico toma, portanto, o ar frio de quem está numa posição científica e profissional. Mas algo na tenue (atitude) dele é solene, é sério, prepara-se para dizer as palavras que encerram um capítulo da história da Igreja e, portanto, da história pura e simples. Dizer: “Leão XIII, Papa, morreu”.

 Os dois outros médicos já sabem que o Papa morreu. Esse ato é puramente formal, com certeza já tiraram pulso, já constataram que não respira mais, estão ligeiramente alheios à cena, enquanto o médico que conta o pulso está inteiramente presente na cena. Os dois tem atitudes diversas: o médico mais moço e de bigode preto está numa atitude ereta e como quem olha ao longe e pensa em coisas graves, evidentemente pensa na morte e procura marcar de modo imponderável – e este é o bom gosto em todas as atitudes, é ter imponderáveis; a atitude escancarada é forçada – de uma certa tristeza pelo penoso da cena e, quiçá, pela relação dele com o Papa. Quem sabe até se não é médico e é algum familiar do Papa. Pode ser, eu não me lembro o que consta na legenda da revista.

 É evidentemente um médico esse de cabelo branco que está encostado à cama. Eu digo isto porque ele está de pince-nez, que só se usava para ler, para ver alguma coisa, para trabalhar. Ele acabou de exercer suas funções, de fixar a vista no Papa, qualquer coisa assim. Mas ele está ao mesmo tempo pensativo e ligeiramente entristecido. Mas muito pensativo, como quem diz: “Que grande coisa uma vida que cessa, um pontificado que cessa! O que é a morte!...”

 E no fundo, seja ele ou não ateu, a palavra “Deus” lhe vem ao espírito. Ele pensa...

 À esquerda está um Monsenhor. Os srs. notam pela cor de seu traje que o colorido é diferente dos outros, não está de preto, mas de violeta. Essa espécie de capa que ele usa sobre a batina são ambas de cor violeta. Os srs. notam pelo reluzimento da batina que ela é de seda e de uma bela seda violeta. Observem todos os pequenos botões que há de alto a baixo, revestidos também de fio de linha violeta. Muito bonito o traje. É bonita essa batina cujo vistoso é quebrado por esta capa de cima, nobre também ela, mas que parece ocultar o esplendor da batina mais própria aos dias de festa.

Ele é um homem mais ou menos da idade do de bigode preto, bem mais moço portanto do que os dois médicos, e sobretudo de Leão XIII que era bem idoso. Ele vai se retirando como um homem que estava assistindo ao Papa e cuja função cessou. E que nos pequenos serviços a que estava habituado, vai levando presumivelmente numa salva de prata um copo provavelmente de cristal. Começando a dar assim uma pequena ordenação no quarto do pontífice, para as cerimônias fúnebres começarem.

Mas, vendo que a palavra decisiva vai ser dada pelo médico, ele parou, preocupado e um tanto aflito e esperou para o homem dizer, em definitivo, que não há mesmo esperança nenhuma: o Papa morreu.

Não sei se ajudo a tornar claro quanto pensamento o desenhista de uma grande revista soube pôr no que ele retratou. E a idéia de que a vida como a morte,  que é um episódio tão freqüente no quadro geral da vida, constituem uma grande cena diante da qual a gente pára, reflete e medita nas grandes ocasiões.

Em última análise está a como que onipotência pontifícia, o supremo poder pontifício - Leão XIII era tido com um gênio e, portanto, o fulgor da genialidade - que em certo momento se apagam, não tem mais nada, é um cadáver. Daí há pouco o corpo médico sairia e comunicaria que o Papa morreu aos cardeais, grande número dos quais, ou todos – conforme o caso concreto – já estariam presumivelmente na ante-sala. 

 

Então, depois da constatação da morte pela ciência, vinha a Igreja constatar a morte do Papa: entrava o cardeal camerlengo  –  que é aquele que substitui o Papa de imediato, no caso de morte  –  e com um martelinho de marfim se acercava com todos os Cardeais, rodeava a cama e batia três vezes discretamente sobre a fronte e perguntava: “Santíssimo Padre, vives?” Segunda vez: “Santíssimo Padre, vives?” Terceira vez: “Santíssimo Padre, vives?”

Diante da ausência da resposta, dizia: “Leão XIII morreu”.

A notícia era imediatamente levada aos sineiros da basílica que já estavam a postos para isso, e os grandes sinos de São Pedro começavam a dobrar a finados. Em poucos minutos os sinos das cerca de 400 igrejas de Roma começavam a dobrar a finados. O povo, na rua, se reunia e começava a rezar pelo pontífice; depois entrava em casa e pegava crepes, coisas de luto para pôr, e começava a encher a igreja de São Pedro. Os funerais do Papa tinham começado.

Os srs. estão vendo que isto não tem nada de hollywoodização. Por que? Porque Leão XIII morreu! Segundo o espírito holywoodiano, esse homem deveria dizer para os outros: “Caros colegas, acabou-se, podemos ir embora. Será que ainda dá para pegar a sessão do teatro hoje à noite?” Ou então: “É fim de semana e quero ver se alcanço minha família em tal praia. Se alguns dos colegas quiser aproveitar meu automóvel, vamos”. Descem correndo… está acabado.

E os cardeais diriam de passagem para o Carmelengo: “Olhe, morreu o Papa hein! Até logo, até logo”. Os cardeais entram já pensando na eleição e acabou-se.

Eu me esqueci de dar uma parte muito importante: constatada a morte do Papa, todos os cardeais começam então a primeira oração oficial por alma do Papa morto. É uma série de orações que vão se desdobrar pelo mundo inteiro, em todas as igrejas se rezarão missas e dobrarão sinos etc., etc., até os funerais do Papa e o período de luto pelo Papa ter encerrado. O mundo inteiro põe-se a gemer e a rezar e a esperar porque o Papa morreu...

Com a hollywoodização não seria nada disso: Esse monsenhor estaria de calça e camiseta, com os braços de fora, o copo teria sido comprado na feira, não precisava de bandeja; esses homens estariam todos com um macacão qualquer também e tudo  mais, tudo mais e tudo mais!...

Há aqui uma cena da vida onde Deus quis se manifestar mais presente.

 

 

Basílica de São Pedro, noite. A basílica se ergue na sua majestade. O desenhista quis representar com um luar muito forte.

Os jatos de água noite e dia correm das duas fontes, o obelisco se levanta tendo ao alto uma cruz e essa frase: “Stat crux dum volvitur orbis - A cruz está de pé enquanto o mundo gira”. É o eixo do mundo!

E a praça começa a encher-se de gente que vai e que vem, que anda de lado para outro. Ou à espera de notícias de que o Papa esteja melhorado, ou à espera da notícia do desenlace final, que todo o mundo está esperando para qualquer momento.

 Não se formam essas multidões compactas. As pessoas tem muita personalidade e formam rodinhas.

Percebe-se que todo o mundo está falando baixo, que seria um desrespeito haver no meio um vendedor de balas, um jornaleiro ou qualquer outra coisa que fizesse alguém pensar em algo que não fosse isto: o Vigário de Cristo está muito doente, de uma hora para outra serão dadas notícias sobre ele.

Daqui parte, dos dois lados, a colunata do Bernini. Atrás os senhores vêem um palácio. Esse é o palácio do Vaticano. E é junto a uma dessas janelas que o desenlace está se produzindo. E os últimos momentos de um pontificado, de uma vida e de um capítulo da história estão escoando. Todo mundo confabula.

Os srs. vêem várias batinas... tal seria que não fosse. Muito característico do tipo do padre provecto e compenetrado de sua missão deveria ser, como se achava naquele tempo, é esse que vai indo embora no primeiro plano. Os srs. estão vendo um homem alto, corpulento, passo decidido, sério, com um grande chapéu – não dá para eu ver, talvez os srs. vejam – que é mantido nessa posição harmoniosamente oblíqua por uns 2 ou 3 cordõezinhos pretos, que partem da copa, muito discretos e bonitos. Uma venerabilidade na longa vida, acompanhada de uma espécie de maturidade que se prolonga. A alma é proveta de antiguidade e o corpo é decidido e forte. O sacerdote se retira imerso em seus pensamentos.

É ou não é verdade que esse desenho faz-nos compreender melhor do que muitas e muitas fotografias, o que há de venerável na praça de São Pedro? E todo o pulchrum eterno da Igreja Católica que o progressismo procura velar quanto pode.

Não sei se eu consigo tornar isto claro. Poderíamos então passar adiante. 

 

O papa morreu, foi colocado numa posição um pouco mais ereta, com certeza eles puseram nas ventas o algodão clássico, e a impressão de fracasso, da morte, do castigo, está expressa também: a cabeça está caída para trás. Ex inanitio, a alma saiu, o corpo só ficou…

Junto a ele estão cardeais vendo, e começa a despedida dos cardeais. Então os srs. têm um cardeal que oscula a mão do Papa. Os senhores têm um cardeal, onde a parede faz ângulo, que se a minha vista não me trai, é o futuro Papa Bento XV sucessor de São Pio X. A sucessão dos Papas foi: Leão XIII, São Pio X, Bento XV.

Os srs. vêem Bento XV ainda de cabelos pretos, na força da sua maturidade, pensativo, ele não olha para ninguém, mas ninguém olha para nada a não ser para o morto.

Mais atrás um outro cardeal bem mais velho que fita o infinito. Junto, dois outros cardeais dos quais um ainda na idade madura, olha para Leão XIII, outro já mais velho fita-o com uma espécie de ansiedade como quem diz: “É mesmo? Então meu velho companheiro de episcopado, meu velho companheiro de colégio cardinalício, meu Papa durante tantos anos, tu te vais? É assim a morte? Ela não está longe de mim. Ó morte! Fito-a em ti o meu dia de amanhã”... Mais, mais, mais: “Morte, eu a fito em ti o umbral da eternidade, o passado que fica e o futuro que vem. Ó morte! Ó Deus!”

Aqui, um outro está literalmente affaissé. Ele sentou-se junto àquela poltrona que os srs. viram retratada parcialmente em desenho anterior, e ele está pensando longamente. O que pensa? Talvez as palavras clássicas: “Sicut transit glória mundi – Assim passa a glória do mundo”...

“Tudo foi-se, todo o passado se encerrou, todos os anseios, todas as realizações, todas as aflições, todas as decepções, tudo está encerrado, nada permanece, nada dura, tudo é efêmero, ó amargura, ó Deus que afinal sereis a consolação dos justos”.

Um certo desalinho intencional do cabelo – todos os outros estão com o cabelo alinhado – indica, quase que é o sismógrafo, da aflição dele. E ele não está em atitude de Belle Époque; ou por outra, ele está na atitude de um homem de Belle Époque quando está sozinho no quarto, meditando. Quer dizer, largado assim à vontade, pensando, pensando, pensando.

Os srs. observem as atitudes dignas desses cardeais todos, tomem o cadáver de Leão XIII, digno na sua atitude até à morte, tomem esse cardeal idoso no primeiro plano que está como se estivesse sozinho no seu quarto, numa posição inclinada mas digna, em nada ridícula, em nada descomposta. Tudo isto é a pompa da Belle Époque.

(Naquele tempo se tinha) viva a noção do que era a Igreja, do que era a morte, do que era a vida, do que é Deus, do que é a eternidade e a externavam... Eles tinham ténue, compostura.

Bom, mas sempre a Igreja é, em sua essência, o que está representado nesse quadro. E é por crise, por um infortúnio do qual nós devemos ter uma respeitosa pena, que a Igreja está na situação em que se encontra. Nós A devemos olhar como os filhos de Noé olhavam para seu pai quando este ficou ébrio: sem perder o respeito ao pai. Porque, em sua essência, a Igreja tem aquilo que se manifesta nessas exterioridades.

Não sei se está claro ou não. 

Aqui está ao centro um cardeal que eu não tenho a legenda não sei identificar (trata-se do Cardeal carmelengo Oreglia, n.d.c.). Ele narra algo, este outro está ouvindo compungido (o Cardeal Oreglia faz as orações diante da urna onde são conservadas, após o embalsamento do corpo, as vísceras de Leão XIII, n.d.c.). E este que está do lado de cá, que me parece análogo ao cardeal que vimos há pouco sentado na cadeira – mas pode não ser, não sei – ouve como quem ouvisse a repetição de algo que já viu, que já conhece, mas que lhe apraz ouvir.

Atrás, há um guarda – parece um guarda nobre – mas que não está entendendo muito de nada, está prestando atenção noutra coisa.

Mais adiante, há um que está assim pensativo; depois, um outro também, este aqui; tudo fala de luto, fala da presença da morte, da morte de um Papa, fala da eternidade...

Está apresentada a cena.

Volto a dizer: eu acho que isto tem muito mais expressão do que a fotografia! Infelizmente, hoje não se percebe que esses desenhos dão a essência da realidade e que a fotografia não pega.

Há no espírito de análise do bom desenhista uma “objetiva” de fotografia espiritual, que serve incomparavelmente mais do que o clik-clik dessas máquinas  fotográficas.

Bem, meus caros, terminamos. Vamos encerrar.

Salve Regina


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