Plinio Corrêa de Oliveira

 

EM DEFESA DA

AÇÃO CATÓLICA

O presente texto é transcrição da edição fac-símile comemorativa dos quarenta anos de lançamento do livro, editada em Março de 1983 pela  Artpress Papéis e Artes Gráficas Ltda - Rua Garibali, 404 - São Paulo - SP - Brasil

CAPÍTULO III

As Associações Auxiliares - O “Apostolado de conquista”

 

Resta-nos tratar apenas, nesta parte do livro, da questão das relações da A.C. com as associações auxiliares e do problema do apostolado de conquista.

O problema

 Ainda aí a perspectiva que temos diante dos olhos é muito clara. De um lado são inúmeros os textos pontifícios, que nos asseveram que as associações religiosas são “verdadeiras e providenciais auxiliares da A.C.”, como disse Pio XI; e neste sentido tão numerosas foram as afirmações do grande Pontífice que difícil seria citá-las todas. Também o Santo Padre Pio XII, na memorável alocução que pronunciou sobre a A.C., no dia 5 de setembro de 1940, teve todo um trecho consagrado à modelar harmonia que deve existir entre a A.C. e as associações auxiliares.

Na mesma ordem de idéias, poderíamos ainda mencionar os estatutos da A.C.B., que impõem às associações auxiliares a obrigação de colaborar com a A.C., o que constitui para esta e aquelas não só um dever, como também um direito. Finalmente, o Concilio Plenário Brasileiro, em vários decretos, louvou, aconselhou e até impôs a fundação de associações que, em última análise, são auxiliares da A.C..

De outro lado, notamos da parte de certas associações uma obstinação inexplicável em não prestar à A.C. a colaboração devida e até em abstrair inteiramente de sua existência. Da parte de certos elementos da A.C., defende-se erro oposto, e nota-se o desejo sistemático de prescindir inteiramente de qualquer colaboração das associações auxiliares, rejeitando-se, desdenhosamente, por mais generosa que seja. Posições extremadas, posições apaixonadas, devem uma e outra ser evitadas, e isto com tanto maior segurança, quanto, se certas dúvidas sobre o assunto ainda existissem, a alocução do Santo Padre Pio XII as teria dissipado inteiramente.

As associações auxiliares não devem desaparecer

Diga-se antes de tudo, não ter qualquer fundamento a versão segundo a qual as associações auxiliares devem ser, de acordo com as intenções mais remotas e recônditas da Santa Sé, finalmente dissolvidas. Segundo tal versão, a Santa Sé estaria matando a fogo lento as associações auxiliares, sepultando-as debaixo de elogios, e dando à A.C. uma primazia, que tenderia a desembaraçá-la, por fim, de suas “verdadeiras e providenciais auxiliares”. Imaginá-lo implicaria em supor que a Santa Sé está procedendo com uma duplicidade sem exemplo, cumulando de elogios falaciosos, em documentos destinados ao conhecimento do mundo inteiro, entidades que, por uma fraqueza afetiva, ou por qualquer outra razão, ela não tem coragem de ferir de frente.

Assim, erram, e erram certamente, os que em vez de considerar as associações religiosas, como auxiliares, as consideram como trambolhos que devem, mais cedo ou mais tarde, desaparecer inteiramente, e cuja morte deve ser apressada por uma campanha metódica de difamação, de silêncio e desdém. Em sua carta “Com particular complacência”, de 31 de janeiro de 1942, ao Eminentíssimo Sr. Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, o Santo Padre Pio XII refutou esta opinião com o seguinte tópico referente às beneméritas Congregações Marianas: “Nossos mais vivos desejos são que estas associações de piedade e apostolado cristão cresçam cada dia mais, cada dia mais se robusteçam numa íntima e profunda vida sobrenatural, cooperem cada dia mais com seu tradicional acatamento e humilde submissão às normas e direção da Hierarquia, na dilatação do Reino de Deus, e difundam cada vez mais abundantemente a vida cristã, nos indivíduos, nas famílias e na sociedade”. Como se vê, não se trata aí de um mero “desejo”, mas de “seus mais vivos desejos”.

Nem tão pouco a Ação Católica

Não erram menos os que imaginam que a instituição da A.C. foi uma inovação audaciosa, arrancada temerariamente à ancianidade de Pio XI por alguns conselheiros afoitos. A mais elementar justiça para com a memória do glorioso Pontífice força-nos a reconhecer que a mão vigorosa, que até às portas da morte soube manter firme o timão da Igreja, cortando sobranceira os vagalhões suscitados pelo nazismo e pelo comunismo, não poderia ser forçada pela agilidade de alguma conspiração palaciana; hipótese que, aliás, só se poderia admitir com desdouro para o prestigio da Santa Igreja Católica. A A.C. poderá, é certo, assumir esta ou aquela feição com o correr do tempo, mantendo com as associações auxiliares um teor de relações bastante diverso quiçá, conforme indicarem as circunstâncias. Uma e outras, entretanto, continuarão a existir.

Uma solução simplista

Também não nos parece que estejam com a verdade os espíritos que, levados por um louvável desejo de conciliação, procuram delimitar os campos entre a A.C. e as associações auxiliares, atribuindo àquela o monopólio do apostolado, e a estas a única tarefa da formação interior e cultivo da piedade. São inúmeros os textos pontifícios que facultam expressamente à A.C. o direito, e, mais ainda, lhe impõem o dever de formar os seus membros. Ora, este dever implica no de formar e estimular a piedade, sem o que nenhuma formação pode ser considerada completa. Por outro lado, não é verdade que os estatutos das associações religiosas lhes atribuem, por objetivo, exclusivamente a piedade. Pelo contrário, a grande maioria deles encaminha, incita e algumas chegam até a impor o apostolado a seus membros; e muitas associações mantêm suas próprias obras de apostolado, aliás em geral florescentes. Em sua carta, acima citada, ao Em. Cardeal Leme, o Santo Padre Pio XII tem expressões que tiram à semelhante opinião, não só seu fundamento, mas ainda toda e qualquer espécie de aparência de verdade, pois o Santo Padre afirma taxativamente que deseja ver as Congregações Marianas entregues ao apostolado exterior e social, e não apenas ao campo da piedade e da formação.

Diz o Santo Padre que apreciou muito o ramalhete espiritual dos congregados, mas que por maior que tivesse sido esse júbilo, “maior ainda foi a sua satisfação ao saber que as valorosas Falanges Marianas são cooperadoras eficazes na propagação do Reino de Jesus Cristo e que exercem fecundo apostolado, por meio de múltiplas obras de zelo”. Assim, pois, as obras de apostolado exterior a que presentemente as Congregações Marianas se entregam não são consideradas pelo Santo Padre um terreno em que elas sejam intrusas, em que se possam quando muito tolerar em falta de melhor: o Vigário de Cristo sobre a terra se rejubila com o fato, e implicitamente afirma que elas têm a isto pleno, amplo e total direito. Comprova-o o período seguinte: “isto vem confirmar-Nos ainda mais uma vez, que estas Falanges Marianas ocupam, segundo suas gloriosas tradições, sob as ordens da Hierarquia, um conspícuo lugar no trabalho e na luta pela Maior Glória de Deus e bem das almas. Em outros termos, fazendo tudo quanto fazem presentemente, estão apenas na situação “conspícua” que a tradição lhes indicou, e essa situação “conspícua” nenhuma alteração sofreu com fatos supervenientes como, por exemplo, a constituição da Ação Católica.

Houve quem sustentasse que as Congregações Marianas têm uma estrutura jurídica que as torna radical e visceralmente incapazes de apostolado em nossos dias. Supérfluo acentuar até que ponto a Carta Apostólica desautoriza esta gratuita e infundada afirmação. Outros têm pretendido que as Congregações ocupam no Brasil um lugar por demais grande, roubam à A.C. o lugar que lhe é devido. De nenhum modo, se dá tal coisa, já que o Pontífice se rejubila com a magnitude desse papel e acrescenta a expressão de seu grande contentamento pelo fato que elas “ocupam um lugar conspícuo”, segundo está informado, no trabalho e na luta para a Maior Glória de Deus e bem das almas, e que são, como força espiritual, de grande importância para a causa católica no Brasil. Que informação teve o Sumo Pontífice para chegar a tal afirmação? Foram as mais autorizadas e imparciais, e é Ele mesmo que no-lo diz: “com tanto entusiasmo publicamente o tens manifestado em repetidas ocasiões, dileto Filho Nosso bem como também o têm feito outros Veneráveis Irmãos no Episcopado”. Em outros termos, é toda a Hierarquia Católica que o afirma, que o aplaude, que o sanciona. Quem quererá discrepar?

Mais adiante, o Santo Padre insiste: “uma sólida formação espiritual e uma intensa e fecunda atividade apostólica são elementos ambos essenciais a toda Congregação Mariana”. Como pretender, então, que as próprias Regras das Congregações confinam esses sodalícios no mero terreno da piedade? Mas, dir-se-á, o Santo Padre, apreciando a situação atual gostaria talvez que as Congregações Marianas não aumentassem seu raio de ação.

Não é verdadeira essa conjetura, e menos verdade ainda é que o Santo Padre deseja que as Congregações morram a fogo lento.

Os verdadeiros termos do problema

Assim, a realidade é que tanto a A.C. quanto as associações religiosas devem cogitar de formação e apostolado, e o regime de suas relações neste terreno não pode abstrair desta realidade, sob pena de se basear em pressupostos jurídicos e doutrinários inteiramente irreais, e, conseqüentemente, fracassar.

Pio XII indica novos rumos

Não nos compete a nós definir o modo pelo qual a colaboração se há de desenvolver, dentro dos termos objetivos que enunciamos. É este um problema afeto à legislação positiva, e que está na alçada dos estatutos da A.C. B., e do mais que sobre o assunto dispuserem nas respectivas Dioceses os Exmos. e Revmos. Srs. Bispos. Limitamo-nos a lembrar que, na alocução, já tantas vezes citada, do Santo Padre Pio XII sobre a A.C., abriu o Sumo Pontífice uma senda nova para a solução do problema, aconselhando a fundação de núcleos da A.C. dentro das próprias associações e incumbindo, neste caso, os mesmos núcleos, de atuar dentro delas, como estímulo e fermento: “e se... nas  associações religiosas que têm fins e formas organizadas de apostolado, se estabelecerem associações internas de Ação Católica, esta aí entre com discrição e reserva, nada perturbando da estrutura e da vida da associação mas apenas imprimindo novo impulso ao espírito e às formas de apostolado, enquadrando-as na grande organização central”. Assim, a A.C. seria, quando fundada também dentro das associações, um núcleo de fervorosos, que aos demais levaria à santificação e ao combate. Como nos parece providencial este processo, já em prática na Itália há vários anos, sob as vistas da Santa Sé, e sempre com os melhores resultados, para ele chamamos insistentemente a atenção de nossos leitores.

Devemos mesmo acrescentar que, dada a situação jurídica da A.C. e das Associações Auxiliares no Brasil, esta solução apresenta vantagens relevantíssimas.

Atacar as prerrogativas da A.C. é obra nefasta e vã

Com efeito, só um espírito tão toldado por preconceitos de toda a ordem, que tivesse perdido inteiramente qualquer senso de objetividade, poderia fechar os olhos à situação jurídica extraordinariamente sólida que tem a A.C. dentro da vida religiosa do Brasil. Criada em documento soleníssimo, que foi subscrito por toda a Hierarquia Eclesiástica no Brasil, e que recebeu oficialmente a chancela da Santa Sé, goza ela de uma relevância tal, que lutar contra ela é lutar contra moinhos de vento. A luta de D. Quixote contra esses invencíveis inimigos, se teve o ridículo de sua total inviabilidade, teve ao menos o mérito do heroísmo de seus propósitos. Nem este mérito, entretanto, poderíamos reconhecer às associações auxiliares que empreendessem lutar contra a A.C., arrastadas por um particularismo oposto ao senso católico. As Associações Auxiliares devem prestar à A.C. o duplo concurso de nela inscrever seus melhores elementos, e cooperar resolutamente com suas atividades gerais. É o que mandam os estatutos da A.C.B.. No cumprimento desse dever, a atitude das Associações Auxiliares não deve ser a de uma melancólica resignação, mas a de quem cumpre jubilosamente um glorioso dever.

Por outro lado, seria igualmente insensato ignorar que também as associações auxiliares possuem, máxime depois da carta “Com particular complacência”, uma situação jurídica muito sólida, e que a A.C. não deve fazer, para si, da drenagem abusiva dos elementos de escol das Associações Auxiliares, um processo de recrutamento fácil, que destruiria entretanto tudo quanto fosse alheio ao quadro das organizações fundamentais da A.C..

É preciso, pois, um grande equilíbrio no modo de estabelecer a cooperação entre as organizações fundamentais e as associações auxiliares da A.C.. Parece-nos que esse equilíbrio se manteria muito mais seguramente se, em lugar de conceber os organismos fundamentais e auxiliares da A.C. necessariamente e sempre como entidades inteiramente paralelas, e ligadas entre si simplesmente pela comum obediência à Junta Diocesana e à Hierarquia, abríssemos campo, como aliás facultam os presentes estatutos da A.C.B., a uma interpenetração harmoniosa e fecunda de uns com outros.

Quanto às relações entre as organizações fundamentais e as associações auxiliares da A.C., sempre que constituam quadros inteiramente distintos uns dos outros, pensamos não haver melhor meio de as sistematizar dentro do espírito e da letra dos Estatutos da Ação Católica Brasileira, do que por intermédio da sábia regulamentação que, a este respeito, publicou por ordem do Exmo. Revmo. Sr. D. José Gaspar de Affonseca e Silva, Arcebispo Metropolitano de S. Paulo, o Exmo. Revmo. Monsenhor Antônio de Castro Mayer, então Assistente Geral da A.C. paulopolitana, e hoje Vigário Geral preposto à direção de todas as obras e organizações do laicato. Publicamos em nota [1] esse sábio e belo documento, que se distingue por um verdadeiro equilíbrio.

Conversando certa vez com um dos Bispos mais eminentes da Província Eclesiástica de S. Paulo, disse-nos ele que o aludido documento continha efetivamente as diretrizes seguras e acertadas que a solução do delicado problema requer, mas que, na prática, o êxito de sua aplicação dependia da observância de uma linha de conduta tão exata e tão difícil de se conhecer em determinados casos particulares, que a publicação dessas diretrizes, tendo embora aberto muitos horizontes, ainda não havia estabelecido sobre o assunto a última palavra. Estávamos então em 1940. Veio depois a alocução do Santo Padre Pio XII, que, segundo afirmamos, torna possível a fundação de núcleos da A.C. nas associações e obras auxiliares. Com mais este passo, parece-nos que fica resolvida inteiramente a questão, estando abertas duas modalidades sábias e fecundas de estabelecer entre as organizações fundamentais da A.C. e suas associações auxiliares um regime de franca compreensão e íntima cordialidade, segundo os desígnios de Pio XI e Pio XII.

Outro problema capital

A mesma sede imoderada de expansão, que tem levado a A.C., em certos círculos, ao grave erro dos recrutamentos tumultuários, também gerou um estado de espírito pouco equitativo, quanto ao problema de se saber se a A.C. deve, de preferência, cuidar da santificação dos fiéis, ou da conversão dos infiéis.

Seus verdadeiros termos

À primeira vista, o simples bom senso nos faria responder com Nosso Senhor “oportet haec facere et illa non omittere” (S. Mat. 23, 23). Não há razão para que a A.C. negligencie uma ou outra destas tão louváveis atividades. Entretanto, como o problema se pode apresentar na prática, quando a A.C., naturalmente sobrecarregada de afazeres, hesita sobre se deve empregar as pequenas disponibilidades de tempo que lhe restam, na organização de uma campanha de Páscoa, ou na distribuição de folhetos para converter espíritas, na organização de uma obra para preservar a pureza das famílias católicas, ou numa campanha para fazer infiltração em sindicatos comunistas, na construção de uma sede para associações, ou numa obra de combate ao Protestantismo, queremos dizer alguma coisa sobre o assunto.

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que o problema jamais poderá ser resolvido de modo uniforme. As circunstâncias locais variam imensamente, e podem dar a uma ou outra daquelas tarefas um caráter de tal premência que exija uma intervenção imediata. Tudo quanto dissermos só se aplica aos casos gerais, em que realmente não se possa determinar se concretamente um ou outro dos afazeres é mais urgente, e o problema se deva resolver pelos seus dados teóricos.

A ordem na caridade manda que:

Isto posto, não hesitamos em afirmar que, acima de tudo, se deve desejar a santificação e perseverança dos que são bons; em segundo lugar, a santificação dos católicos afastados da prática da Religião; finalmente, e em último lugar, da conversão dos que não são católicos.

a) - acima de tudo cuidemos da santificação e perseverança dos bons

Passemos a justificar a primeira proposição. A simples análise do dogma da Comunhão dos Santos já nos oferece para tal, um argumento precioso. Há uma solidariedade sobrenatural no destino das almas de forma que os méritos de umas revertem em graças para outras, e, reciprocamente, a alma que deixa de merecer, depaupera todo o tesouro da Igreja. Ouçamos a este respeito a admirável lição de um mestre. O R. P. Maurice de la Taille, no seu conhecido tratado sobre o Santíssimo Sacrifício e Sacramento da Eucaristia, à pág. 330-1 observa que “a devoção habitual da Igreja jamais desaparece, pois que Ela jamais perderá o Espírito de Santidade que recebeu; pode não obstante esta devoção, na variedade dos tempos, ser maior ou menor”. E aplicando este princípio ao Sacrossanto Sacrifício da Missa, acrescenta: “Quanto maior for ela, mais aceitável será sua oblação. Eis, pois, que é de suma importância existirem na Igreja muitos santos e muito santos; nem nunca jamais se deve poupar ou impedir que os varões religiosos e mulheres envidem esforços para que cada dia cresça o valor das Missas e se torne mais potente aos ouvidos de Deus a voz indefectível do Sangue de Cristo que clama da Terra. Pois que nos altares da Igreja clama o Sangue de Cristo, mas pelos nossos lábios e coração: tanto quanto se lhe abrir o vigor de vociferar” (apud Filograssi, Adnotationes in SS. Euchaaristiam, pg. 1115-6).

A vista disto, não é difícil verificar que, no plano da Providência, a santificação das almas boas ocupa um papel central na conversão dos infiéis e pecadores. Eclesiásticos ou leigos, são tais almas de certa forma “o sal da terra e a luz do mundo”. É neste sentido que se deve afirmar que as Ordens Contemplativas são de grande utilidade para toda a Igreja de Deus. Ora, o mesmo se deve dizer das almas santas, que vivem vida de apostolado no século. Ai! das coletividades cristãs onde se apaga a luz da prece das almas justas e decai o valor expiatório dos sacrifícios. Narra D. Chautard que o simples estabelecimento de conventos contemplativos e reclusos, em zonas missionárias, opera maravilhas. É, em última analise, da santidade que depende a vitória da Igreja na grande luta em que está empenhada. Uma só alma verdadeiramente sobrenatural que, com os méritos de sua vida interior torne fecundo seu próprio apostolado, conquista para Deus muito maior número de almas do que uma legião de apóstolos de medíocre vida de oração.

Esta verdade é de aceitação corrente para o que diz respeito ao Clero. Por mais importante que seja o problema das vocações sacerdotais, jamais se igualará à obra da santificação do Clero. Em nenhum país do mundo há questão tão importante. E, implicitamente, em matéria de apostolado leigo o mesmo princípio se impõe. Se é mais importante haver um grupo de apóstolos sacerdotais verdadeiramente santos, do que um Clero numeroso, há de ser logicamente mais importante haver um grupo de apóstolos leigos verdadeiramente interiores, do que uma inútil multidão de membros da A.C.. Se para o Clero o problema máximo é a santificação cada vez maior de seus membros, para a A.C., que é sua humilde colaboradora, não pode haver maior desejo do que a santificação de seus membros e de todas as almas piedosas na Igreja de Deus.

Há um flagrante naturalismo em imaginar que a Igreja lucraria com o aumento de atividade apostólica de seus membros, em detrimento de sua vida de oração. É muito mais à oração das almas verdadeiramente unidas a Deus, do que às atividades externas, sempre úteis e louváveis contudo, que a Igreja deve seus melhores louros. Dí-lo Leão XIII, na Encíclica “Octobri Mense”, de 22 de Setembro de 1891:

“Se se pergunta porque a perfídia dos maus não chega a obter a plena realização de seus propósitos; porque, pelo contrário, a Igreja, através de tantos acontecimentos desfavoráveis, conservando sua grandeza e sua glória intactas, se eleva sempre e não cessa jamais de progredir, é legítimo procurar a causa principal de um e outro fato na força da oração da Igreja sobre o coração de Deus; de outra maneira, com efeito, a razão humana não pode compreender como o poder da iniqüidade esteja contido dentro de tais limites, enquanto a Igreja, reduzida à extremidade, triunfa, entretanto, tão magnificamente.”

Em outro passo da mesma encíclica, diz ainda o Papa:

“As orações, pelas quais suplicamos a Deus que proteja sua Igreja, unidas aos sufrágios dos Santos do céu, Deus as atende sempre com a maior bondade, tanto as que se referem aos interesses maiores e imortais da Igreja, quanto as que visam benefícios menores, próprios à época presente, mas em harmonia com os primeiros. Com efeito, a estas orações se acrescentam o poder e a eficácia das orações e dos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pontífice supremo, santo, inocente, sempre vivo para interceder por nós”.

E o Santo Padre acrescenta: “Ver-se-á um dia que é graças à oração, que, no meio de um mundo depravado, muitos conseguiram preservar intactas suas almas, limpas de toda mácula na carne e no espirito, realizando sua santificação no temor de Deus; que outros, no próprio momento em que se iriam entregar ao mal, contiveram-se repentinamente e encontraram, no próprio perigo e na tentação, um feliz acréscimo de virtude; que outros, enfim, tendo sucumbido, sentiram na alma uma certa solicitação para se reerguerem e se atirarem ao seio do Deus de misericórdia”.

Se, do ponto de vista da Comunhão dos Santos, é esta a conclusão a que devemos chegar, o que a Teologia nos diz, por outro lado, da essência do apostolado, nos conduz à conclusão idêntica. Como já tivemos ocasião de dizer, o apóstolo é mero instrumento de Deus, e a obra de santificação das almas ou de sua conversão é essencialmente sobrenatural e divina (Cfr. S. T. Ia., IIae.; q. 109. aa. 6, 7). “Ninguém pode vir a mim se meu Pai, que me enviou, não o atrair”, disse N. S. (J., 6, 44). Ora, Deus não se serve, senão raramente, para tão augusta tarefa, de instrumentos indignos, e a pergunta da Escritura “ab immundo, quid mundabitur?” não exprime apenas a incapacidade natural e psicológica do apóstolo indigno em produzir obras fecundas, mas ainda a repugnância que sente Deus, em se servir de elementos tais, para por meio deles operar os mistérios augustíssimos da regeneração das almas.

Não se pense, porém, que só o pecado mortal é nocivo à fecundidade da obra do apóstolo. Também os pecados veniais e até as simples imperfeições diminuindo a união das almas com Deus, minguam as torrentes de graças de que elas deveriam ser canais. Quanta e quanta obra louvável por aí se arrasta, às voltas com mil dificuldades; lutam em todos os terrenos os seus generosos diretores, sem conseguir qualquer resultado e com isto ficam afastadas centenas ou milhares de almas, que nos desígnios da Providência se deveriam salvar por meio desta obra. E, enquanto contra todas as dificuldades se quebram os mais heróicos esforços, não percebem os seus diretores que a fonte dos malogros é outra. “Venti et mari oboediunt ei”, diz de Jesus a Escritura, e por certo poderiam sob seu império ruir todos os obstáculos. Mas os intermediários da graça divina, conquanto zelosos, têm esta ou aquela infidelidade que os afasta de Deus. E Jesus espera da renúncia a algum sentimentalismo por demais vivaz, a algum amor próprio por demais pontiagudo, a desobstrução dos canais da graça. O que parecia uma questão de dinheiro ou de influência social é, não raras vezes, uma questão de generosidade interior, em uma palavra, uma questão de santificação.

No livro de Josué, Cap. VII, encontra-se uma narração altamente significativa a esse respeito. Acan tomou para si, entre os despojos da cidade de Jericó, alguns objetos de valor, se bem que esta ação fosse ilícita, porque os objetos estavam atingidos pelo anátema, com que Deus fulminara Jericó. Este simples fato bastou – um homem em todo um imenso exército trazia entre outros objetos de bagagem alguns que eram malditos – para que as forças hebraicas fossem inexplicavelmente e estrondosamente derrotadas no ataque à pequena cidade de Hai. Deus revelou então a Josué que as armas hebraicas só retomariam seu curso vitorioso quando Acan fosse exterminado com tudo o que possuía. Sobre seus restos mortais se ergueu um monumento de maldição e só assim se apartou de Israel o furor do Senhor: imagem eloqüente do mal que a toda uma organização pode fazer um só apóstolo leigo, que conserve em sua alma qualquer apego culposo a seus pecados ou imperfeições.

Tudo isto posto, percebe-se como é errôneo pretender que, segundo uma expressão infelizmente corrente, é “chover no molhado” trabalhar pela santificação dos bons. Muito intencionalmente só aduzimos, em benefício de nossa tese, argumentos que demonstram, com clareza meridiana, ser esta santificação a mais preciosa condição para se obter a conversão, tão ardentemente almejada, dos infiéis. O que ainda não poderíamos dizer, no entanto, sobre a importância do apostolado de perseverança dos bons!

b) - reintegremos, em segundo lugar, na vida da graça, os pecadores

Os argumentos precedentes servem também para provar que mais importante é reintegrar na plenitude da lei da graça os católicos que abandonaram a prática da Religião, do que converter os infiéis. Queremos, entretanto, aduzir a respeito deste último ponto mais um argumento. O Santo Batismo recebido pelo fiel faz dele um filho de Deus, um membro do Corpo Místico de Cristo, um templo vivo do Espírito Santo. As graças de que Deus o cumula, em seguida, em sua idade de inocência, o convívio eucarístico com Nosso Senhor, tudo concorre para que um católico tenha um título inestimável de predileção divina. É assim que, de um modo geral [2], Deus ama imensamente mais as almas que constituem sua Igreja, do que os povos heréticos e infiéis. Por isto, o justo que “declina dos mandamentos de Deus” Lhe causa uma dor imensamente maior do que a perseverança de um infiel em sua infidelidade. O pecador continua filho de Deus, mas filho pródigo, cuja ausência enche a casa paterna de luto indizível. Arbusto partido, porém, não quebrado, lâmpada bruxuleante que ainda fumega, é ele o objeto predileto da solicitude de Deus. E por isto mesmo o Redentor, “que não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva”, multiplica suas instâncias a fim de o reconduzir ao redil. Filho de Deus, e por isso mesmo um predileto ingrato, é o católico pecador um irmão nosso, ao qual nos ligam deveres de amor e assistência incomparavelmente maiores do que aos homens não católicos. É este um ponto absolutamente indiscutível de Teologia. Por esta razão, somos obrigados a consagrar nosso tempo, de preferência do que à conversão do infiel, à conversão do católico pecador. Com toda a propriedade se aplica aí a palavra terrível da Escritura, saída dos dulcíssimos lábios do Salvador: “não se atira aos cães o pão destinado aos filhos”.

Não foi outro o pensamento expresso pelo Santo Padre Pio XI, em sua mensagem de 12 de fevereiro de 1931, publicada pelo Osservatore Romano: “Manda o Apóstolo que, dirigindo-nos aos homens, a todos façamos o bem, mas especialmente aos que possuem a mesma Fé. Convém, pois, que nos dirijamos primeiramente a todos os que, membros vivos da Família e do Rebanho do Senhor, a Igreja Católica, Nos chamam com o doce nome de Pai, aos Pastores e aos fiéis, às ovelhas e aos cordeiros, e a todos aqueles que o Pastor e Rei Supremo Jesus Cristo Nos encarregou de apascentar e guiar”.

E o mesmo diz S. Tomás: Sum. Theolog., IIa., IIae., Q. 26, art. 5: – “Mais devemos amar segundo a caridade o que oferece um motivo mais forte de assim ser amado. Ora, o motivo de amor, que devemos ter pelo próximo, é que ele nos está associado na participação plena e direta da beatitude”.

Ibid. art. 6, ad 2.: – “Todos os nossos semelhantes se relacionam igualmente a Deus; mas há alguns que estão mais próximos de Deus, porque são melhores, e, por isto, mais devem ser amados por nós segundo a caridade, do que outros, que estão menos próximos de Deus”.

S. Paulo recomenda expressamente: “enquanto temos tempo façamos bem a todos, mas principalmente aos irmãos na Fé” (Gal. 6, 10). E, escrevendo a Timóteo (I, 6, 1-2), recomenda que, se os servos tiverem amos católicos, os sirvam melhor que aos não católicos, “porque são fiéis e amados (de Deus) e participantes do beneficio (da Redenção)”. E Nosso Senhor proclamou o mesmo princípio quando disse: “Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Marc. III, 35).

A expansão desta doutrina não pode prejudicar o apostolado junto ao infiéis e hereges

A tantos argumentos teóricos, acrescentemos finalmente uma reflexão de ordem prática, que também tem um considerável valor. Faça-se no Brasil a estatística dos católicos e dos infiéis, e ver-se-á a inferioridade numérica verdadeiramente esmagadora em que estão estes últimos. Qual pois, o problema que afeta mais fundamente a Igreja no Brasil? A conversão dos infiéis ou a reconciliação com a Igreja, dos pecadores?

Não se tema, aliás, que o desenvolvimento das obras de conversão dos infiéis se ressinta, em sua expansão, em conseqüência da ordem de idéias que vimos expondo. Certamente a Alemanha foi um dos países, em que, de modo mais profundo, se desenvolveram as obras para a conversão dos muitos protestantes ali existentes. De fato, o problema de recondução dos protestantes ao grêmio da Igreja oferecia ali uma atualidade e uma importância incomparavelmente maiores que no Brasil. Não creram os Exmos. e Revmos. Srs. Bispos alemães jamais que estas obras de dilatação de fronteiras sofressem qualquer detrimento em conseqüência da seguinte verdade que sob a designação de “questão 23ª”, figurava no Catecismo confeccionado oficialmente pelo Venerando Episcopado Alemão: “P. A que é devido que se cometam pecados graves até mesmo dentro da Igreja Católica? – R. O fato de que na Igreja Católica se cometam pecados graves é devido ao fato de muitos cristãos católicos não obedecerem à Igreja e não viverem com ela. Os pecados dos próprios filhos doem mais à Igreja e dificultam mais sua expansão do que as perseguições por parte dos inimigos da Igreja. É impossível que não venham escândalos; mas ai! daquele por quem eles vêm (S. Lucas, XVII, 1)”. Fato curioso: o governo nazista de Baden, em circular de 27 de janeiro de 1.937, mandou cancelar esta pergunta do catecismo (Cfr. “El Cristianismo en el Tercer Reich”. O autor desta obra, aliás magistral, sob todos os pontos de vista, é um sacerdote católico alemão que usa o pseudônimo de Testis Fidelis).

*    *    *

“Apostolado de conquista”

De tudo quanto acabamos de expor, e sobretudo das enérgicas palavras do Episcopado Alemão, resulta com toda a clareza que não se pode separar o interesse das almas piedosas daquele que se deve ter pelas dos infiéis e pecadores. Por aí se compreende como é infundado interpretar num sentido exageradamente literal a expressão “apostolado de conquista”, muito freqüentemente empregada para designar, com um entusiasmo unilateral e exclusivo, as obras de conversão dos infiéis, enquanto este título é desprezivelmente negado às obras de preservação e santificação dos bons.

Sem dúvida, toda conversão de infiéis traz para a Igreja uma dilatação de fronteiras, e como toda dilatação de fronteiras é uma conquista, pode-se razoavelmente chamar a tais obras “iniciativas de conquista”. Neste sentido a expressão é licita. Mas, há um erro, e um erro não pequeno, em votar a tais obras, aliás dignas de todo entusiasmo, uma espécie de exclusivismo veemente, que perturba a lucidez dos conceitos e a hierarquia dos valores, atirando a um injustificável menoscabo as outras obras. Falando da propaganda totalitária, disse Jacques Maritain que ela possuía a arte de “fazer delirar as verdades”. A conversão dos infiéis é por certo uma obra empolgante, e tudo quanto dela se pudesse dizer em matéria de encômios ainda ficaria aquém da realidade. Não façamos, porém, delirar esta nobre verdade.

Infelizmente, este delírio existe, e é dele que provém a paixão pelas massas e o menoscabo das elites, a monomania dos recrutamentos tumultuários, o descaso implícito ou explicito quanto às obras de preservação, etc., etc.. E é ainda a esta ordem de idéias que se filia um estado de espírito curioso. Em certos círculos, há um entusiasmo tão respeitoso pelos convertidos, que, segundo a expressão de um observador muito penetrante, os que sempre foram católicos “têm uma certa vergonha de jamais haverem apostatado, a fim de poderem converter-se”. Evidentemente é pouco todo júbilo pela volta do filho pródigo à casa paterna, e são dignas de censura as ciumeiras, que, a este respeito, manifestou o filho sempre fiel. No entanto, a circunstância de haver alguém perseverado sempre, é em si mesma um título de honra maior do que a apostasia seguida de sincera emenda. É claro que pode haver uma alma penitente, que se eleve muito mais do que outra que permaneceu sempre fiel. Seria, porém, temerário discutir, concretamente, se maior admiração se deve à inocência de S. João, ou à penitência de S. Pedro, à penitência de Sta. Maria Madalena ou à inocência de Santa Teresinha do Menino Jesus. Deixemos estas questões ociosas, e sirvamos todos a Deus com humildade, evitando o exagero de transformar a apostasia em um título de vã glória.

A preocupação ou antes a obsessão do apostolado de conquista gera um outro erro que mencionamos simplesmente aqui, e a respeito do qual em ulterior capítulo nos estenderemos mais. Consiste em ocultar ou subestimar invariavelmente o que há de mal nas heresias, a fim de dar ao herege, a idéia de que é pequena a distância que o separa da Igreja. Entretanto, com isto, esquece-se que se oculta aos fiéis a malícia da heresia, e se aplainam as barreiras que os separam da apostasia! É o que sucederá com o uso em larga escala, ou exclusivo deste método.

Tem-se divulgado a opinião de que o apostolado da A.C., em conseqüência de seu mágico mandato, exerce sobre as almas um efeito santificante, de forma que a simples atividade apostólica basta inteiramente ao membro da A.C., e dispensa a vida interior.

Já se alongou por demais este capítulo, e não queremos entrar nesta complexa matéria em maiores digressões. Por isto, limitar-nos-emos a dizer que a Santa Igreja exige dos Clérigos, e até dos Bispos, que mantenham uma vida interior tanto mais intensa, quanto mais absorventes forem suas obras. Por onde se vê que o apostolado da Hierarquia não exime da vida interior. São Bernardo em seu tratado “De consideratione” não hesita em chamar “obras malditas” as atividades do Bem-aventurado Papa Eugênio III, desde que elas consumissem o tempo exigido para o incremento da vida interior daquele Pontífice. E é das excelsas e por assim dizer divinas ocupações do Papado de que se trata! Que dizer-se então das modestas ocupações de um simples “participante” da Hierarquia? Serão suas atividades mais santificantes que as da própria Hierarquia? Como supor na essência e na estrutura da A.C. virtudes santificantes que dispensam da vida interior!

Enfim, estamos aí em presença de um recrudescimento do americanismo já condenado por Leão XIII; e no documento sobre este assunto, se pode encontrar facilmente uma cabal refutação desta doutrina.

*    *    *

Uma objeção

A tudo isto poder-se-ia certamente objetar que “há mais alegria no Céu por um pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que perseveram”. Poucos textos dos Santos Evangelhos têm sofrido mais infundadas interpretações. A mulher da parábola, que perdeu uma dracma, certamente teve mais alegria em encontrá-la do que em conservar as dracmas que não havia perdido. Isto não quer dizer que ela se consolaria da perda das noventa e nove dracmas por encontrar uma! Se assim fosse, seria um louca! O que Nosso Senhor quis dizer foi, simplesmente, que o gáudio pela recuperação dos bens, que perdemos, é maior do que nosso prazer pela posse tranqüila dos bens, que conservamos. Assim, um homem que perdeu a vista em conseqüência de um acidente e depois a recupera, deve razoavelmente entregar-se a uma grande expansão de alegria. Seria, entretanto, irracional que, em dado momento, um homem, que nunca esteve ameaçado de cegueira, se entregasse a indescritíveis transportes de júbilo, porque não está cego.

Reflitam certos leitores antes sobre o seguinte: se há mais júbilo no coração do Bom Pastor por um pecador que se converte do que por noventa e nove justos que perseveram, a conseqüência lógica é que há mais tristeza no Coração de Jesus por um justo que apostata, do que por noventa e nove pecadores que perseveram no pecado.


NOTAS

[1] A imprensa de São Paulo publicou tal documento com o seguinte teor:

AÇÃO CATÓLICA E ASSOCIAÇÕES AUXILIARES

Por ordem de S. Excia. Revma. o Sr. Dom José Gaspar de Affonseca e Silva, Arcebispo Metropolitano, o Revmo. Sr. Cônego Dr. Antônio de Castro Mayer, Assistente Geral da Ação Católica, fez publicar pela imprensa o seguinte documento:

Associando misericordiosamente os homens a Sua obra de Redenção do Gênero Humano, e conversão do mundo, entregue à adoração insensata dos ídolos pagãos, o Divino Salvador constituiu um grupo restrito de discípulos, a cuja formação se dedicou de modo especial. Alimentando seus espíritos com infatigável doutrinação, feita na intimidade e proporcionada às necessidades particulares de cada um deles, plasmando seus corações por meio de uma direção pessoal, acentuada por todos os encantos de Sua convivência e pela força irresistível de Seus exemplos; enviando sobre eles o Espírito Santo, distribuidor de inestimáveis dons para a inteligência e a vontade, o Salvador fez daquele pequeno grupo uma milícia de eleição, um fermento sagrado, a quem deu a missão de renovar a face da terra.

Às multidões, às quais ensinou o caminho da verdade, abriu Nosso Senhor Jesus Cristo o Reino dos Céus. Foi, entretanto, apenas a um escol bem menor que confiou a tarefa de, em Seu Nome, franquear também aos outros povos o caminho da Bem-aventurança.

Fiel ao Divino Mestre, a Igreja sempre seguiu o mesmo processo, e, pregando embora o Evangelho a todos os povos soube reservar carinhos e zelos especiais para formar de modo todo particular aos que, no corpo Místico de Jesus Cristo, iriam ocupar os cargos da Hierarquia instituída pelo Redentor.

Mais. Tirando desse sapientíssimo exemplo do Salvador todos os ensinamentos que encerra, a Igreja, desde os primeiros tempos, não se limitou a preceituar a todos os fiéis o dever do apostolado, mas congregou em torno de si os mais fervorosos dentre eles, a fim de dotá-los de virtudes especiais. Assim formados, primando pela inquebrantável docilidade ao magistério da Igreja, pela onímoda e incondicional submissão aos que, acima deles, se encontravam constituídos na dignidade de Sacerdotes e Bispos, tais leigos eram instrumentos de eleição e colaboradores especiais destinados a participar, dentro da Igreja Discente, das agruras santas e dos meritórios labores da Igreja Docente.

A este hábito, que o Catolicismo conservou ininterruptamente nos vinte séculos de sua existência, Pio XI, de santa e saudosa memória, deu novo lustre e providencial incremento quando, para abater a insolência dos ídolos, que as multidões pagãs de nossos dias começavam a aclamar e adorar, tornou obrigatória para todos os povos a instituição da milícia de escol da Ação Católica, chamando todos os fiéis para que elevando-se à altíssima pureza doutrinária e moral, que nela refulgem, com ela e nela combatessem denodadamente as pompas e as obras de Satanás.

É tão evidente a conveniência desse princípio de prudência aplicado pelo grande Pontífice, que a própria habilidade humana a soube ver e utilizar a seu modo. Todos os grandes impérios tiveram suas tropas escolhidas, que eram, dentro do vasto conjunto das formações militares, ao mesmo tempo cerne e espinha dorsal do exército, milícia disciplinada e audaciosa, cuja coragem deveria estimular e assombrar os mais valentes dentre os militares briosos e dignos de que se compunham os outros regimentos. É esta a tradição de todos os exércitos dos grandes generais conquistadores de terras e fundadores de impérios. Se destarte procediam os grandes guerreiros e conquistadores, porque não há de ser assim com o exército pacífico e invencível de Cristo-Rei, que deve conquistar todos os povos? Bastam estas considerações, para esclarecer de modo exato as relações entre a Ação Católica e a Igreja Docente, que é o estado maior de Jesus Cristo; se em alguma coisa a situação da A.C. para com a Hierarquia é especial, é porque esta tem o direito de esperar dela uma disciplina mais pronta e mais amorosa do que de qualquer outra associação religiosa.

Por outro lado, em relação às associações e obras católicas, sua posição está implicitamente definida: estímulo, exemplo, baliza para a ação comum. E as associações devem, por sua vez, à Ação Católica, cooperação fraternal e disciplinada.

No intuito de dar a estes conceitos uma aplicação viva e completa, cumpre que sejam observadas na Arquidiocese os seguintes princípios:

I

Fiel ao espírito que a distingue, a Ação Católica prima pela reverência e docilidade para com a Autoridade Eclesiástica. Portanto, dentro dos seus respectivos setores, os Assistentes Eclesiásticos são, além de censores doutrinários, a própria lei viva, em tudo quanto diz respeito às atividades da Ação Católica. Devem os membros da A.C. todo o respeito aos leigos, que nela ocupam cargos de direção, porquanto é a autoridade destes reflexo da autoridade do Assistente Eclesiástico.

Nas reuniões da A.C. a que compareçam os Sacerdotes, Religiosos e Religiosas, que não têm cargo de Assistentes na mesma, deve ser sempre atribuída, em razão da sublimidade de seu estado, primazia em dignidade, depois do Assistente Eclesiástico.

Em seguida, a precedência cabe aos membros da Junta Aquidiocesana.

II

As associações fundamentais da Ação Católica não se devem considerar como entidades perfeitas em si mesmas e coligadas apenas para um fim comum, mas secções de um mesmo todo.

Assim, os Assistentes Eclesiásticos das várias secções ou sub-secções são delegados e pessoas de confiança do Assistente Geral da A.C. Também são delegados e pessoas de confiança do Assistente Geral, e dos demais membros da Junta Aquidiocesana, os leigos que ocupam cargos de direção na A.C.

III

Uma vez que deve constituir ao mesmo tempo o estímulo e o modelo de todas as associações religiosas e dos fiéis, a Ação Católica só admitirá como seus membros elementos perfeitamente cônscios da alta dignidade e dos árduos encargos daí decorrentes, sendo eliminados, sem tergiversação, aqueles que não se mantiverem à altura de missão tão elevada.

IV

As associações religiosas, e de modo especial aquelas cujo objetivo consiste na santificação de seus membros, são verdadeiros seminários da Ação Católica, à qual prestam preciosíssimo auxílio, afervorando na vida espiritual ou adestrando no apostolado os respectivos associados, de maneira que tornem os mais edificantes dentre eles aptos para, depois de preparados pela Ação Católica, nela ingressarem.

V

Só merece encômios o membro da Ação Católica que, sem prejuízo de suas obrigações para com esta, e com aprovação da autoridade competente no respectivo setor, se dedica à direção de uma associação religiosa.

Por outro lado, não demonstra bom espírito o membro de uma associação religiosa que, sob pretexto de apostolado na Ação Católica, tomar a iniciativa de, sem determinação expressa dos órgão da A.C., abandonar o sodalício a que pertence.

VI

As associações religiosas, porque auxiliares da Ação Católica, devem honrar-se em fornecer-lhe maior número possível de membros, renunciando de bom grado à colaboração daqueles, cujo apostolado os poderes competentes da Ação Católica julgarem dever absorver inteiramente.

VII

Os membros da Ação Católica, cujos setores, por qualquer razão, não realizem todos os domingos pela manhã atos piedosos em comum devem, salvo situações especiais verificadas pela Junta Arquidiocesana, inscrever-se em alguma associação auxiliar, onde o façam, primando aí pela docilidade para com a autoridade constituída na associação.

VIII

A Junta Arquidiocesana, segundo critério inteiramente seu, mas ouvidas as pessoas interessadas, deve cuidar que o recrutamento dos membros da Ação Católica nas associações auxiliares se faça sem as privar dos membros cujos trabalhos forem indispensáveis ao bom andamento das atividades sociais.

Neste sentido, providenciará especialmente a fim de que os membros da Ação Católica, destacados para a direção das associações auxiliares, se possam desempenhar de modo plenamente satisfatório dessa tarefa, conservando embora o necessário convívio e ligação com a Ação Católica.

IX

Nenhuma atividade será iniciada pela Ação Católica em Paróquia ou associação auxiliar sem entendimento prévio com o respectivo Pároco ou Diretor Eclesiástico da associação.

X

Compete privativamente à Junta Arquidiocesana orientar a formação doutrinária e moral dispensada pela Ação Católica a seus membros, bem como determinar e dirigir todos os movimentos de caráter geral, deliberando sobre se devem ser executados exclusivamente por setores fundamentais da Ação Católica, ou por estes em comum com as associações ou obras auxiliares, ou, finalmente, só pelas últimas.

*   *   *

Por determinação da Junta Arquidiocesana, em todas as associações fundamentais e auxiliares da Ação Católica, devem realizar-se reuniões e círculos de estudo, exclusivamente consagrados ao documento acima que, na exposição de motivos, bem como nos dez itens que a seguem, contém conceitos indispensáveis à formação espiritual do laicato católico e à estruturação do apostolado por ele desenvolvido.

Concorda com o original arquivado na Cúria. (a) Cônego Paulo Rolim Loureiro, Chanceler do Arcebispado.  

[2] De modo geral, dizemos, porque há pessoas retas que pertencem à alma da Igreja, porém não ao corpo desta. Tais almas podem ser preferidas por Deus a algum pecador empedernido, que pertence ao corpo e não à alma da Igreja. Note-se entretanto, que as pessoas pertencentes à alma e não ao corpo da Igreja são raras na multidão dos hereges e pagãos. Constituem exceção. Por outro lado, entre estas pessoas retas, poucas são as que podemos conhecer como tais, porque as virtudes não estão inscritas de modo visível senão em poucas frontes privilegiadas. Portanto, raríssimos são os casos que na prática podem abrir exceção à regra geral que no apostolado devemos observar: preferir a conversão do pecador em estado de pecado mortal, à do pagão ou herege.


 

Atrás   Índice   Avante

 

Home