Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Plinio:

voto no PT não representou aprovação da

ideologia socialista

 

 

 

 

Revista "Catolicismo", nº 457, janeiro de 1989

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A TV Gazeta levou ao ar, no dia 14 de dezembro último, às 21:30 hs, uma entrevista do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira ao programa TV Mix, dirigido pelo jornalista Sérgio Groisman. Em vista do interesse que a entrevista causou, e atendendo à solicitação de telespectadores, a TV Gazeta a reapresentou no dia 29 de dezembro, no mesmo programa.

 

Eleitorado do PT: menos ideológico do que se quer imaginar

PERGUNTA – Bem a partir de agora o TV Mix começa a conversar com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que é Presidente do Conselho Nacional da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade – a TFP. Dr. Plinio, qual é a opinião do Sr. frente à vitória do PT nas últimas eleições aqui em São Paulo?

RESPOSTA – É preciso distinguir bem entre vitória e vitória. Evidentemente foi o PT uma corrente votadíssima. Mas qual foi a maioria que o PT obteve? A prefeita Erundina, por exemplo, teve o partido majoritário de seu lado, porém não obteve a maioria do eleitorado. Do eleitorado somado, ela não teve sequer a metade, teve consideravelmente menos do que a metade. De maneira que o êxito dela se deveu mais à divisão dos que não estão de acordo com ela, do que propriamente à vitória dela. Isto, de um lado.

De outro lado, esse eleitorado o que é? Um eleitorado tão ideológico quanto se quer imaginar?

Pelo contrário, nosso eleitorado de modo geral não é ideológico. Que houve um vivo movimento de simpatia pelo Lula e por certos partidários dele, pela idéia genérica de que é um partido muito propício às reivindicações justas da classe operária, não tem dúvida nenhuma. Mas daí a querer dizer que o eleitorado do PT é ideologicamente socialista...

Começa por aí que eu nego ao socialismo o epíteto, o qualificativo de justo. Ele é o excesso, o exagero da reivindicação operária, é a invasão, a luta de classes etc. Isso não foi o que a massa eleitoral, dentro do próprio conjunto eleitoral que votou a favor do PT, queria.

De maneira que eu acho que o resultado numérico, do ponto de vista da posição ideológica dos eleitores, não é alarmante. Resta saber o que os detentores do voto popular farão do mandato que agora lhes foi feito.

A ideologia socialista não será sufragada pelo povo brasileiro

P – A partir de agora, na verdade, o tema dos políticos, dos pensadores, está muito voltado aqui para São Paulo, em relação a essa vitória do Partido dos Trabalhadores. Eu gostaria de saber Dr. Plinio, se o Sr. acredita que existe a possibilidade de o Brasil se tornar socialista, através da via eleitoral.

R – Socialista, no sentido ideológico da palavra, eu acho que é remota a possibilidade de que haja uma maioria socialista no Brasil.

No sentido de que uma maioria possa vir a votar no socialismo, iludida pelo que a palavra socialismo tem de viscoso, de ambíguo, de escorregadio, isso eu acho que pode acontecer. Tanto mais que o socialismo tem a seu favor o apoio de certa esquerda católica, que constitui um contributo eleitoral não especificamente socialista, mas que pode influir ponderavelmente. Então, é possível que o socialismo venha a tomar conta do poder, por via eleitoral. Mas são os socialistas que tomarão. Não será a ideologia socialista que será sufragada pelo povo brasileiro.

Protesto da TFP contra filme blasfemo

P – Dr. Plinio, existe a possibilidade de o filme "A última tentação de Cristo" voltar a se exibir aqui em São Paulo, a partir de janeiro, quando a nova Prefeita será empossada. Então, eu queria saber, primeiro, qual a opinião que o Sr. tem a respeito desse filme.

R – A opinião a respeito desse filme já foi externada em comunicado da TFP que manifesta a posição da entidade, e portanto minha também, uma vez que sou Presidente do Conselho Nacional da entidade. É um filme gravemente blasfemo, gravemente atentatório, portanto, contra o decoro e o pundonor da consciência cristã, e por isso mesmo, a meu ver, não deveria ser exibido. Se ele for exibido, certamente a TFP protestará. Mas protestará nos termos legais, comedidos e enérgicos que lhe são habituais.

P – Mas o Sr. poderia especificar esses termos legais, propostas práticas que a TFP poderia usar contra a exibição desse filme?

R – A TFP não faria outra coisa senão dizer o que ele é, e com isso dirigir um convite aos leitores a não comparecerem à exibição do filme. Isso pode parecer de um resultado platônico.

Mas, por exemplo, a TFP norte-americana, em Nova York, lançou um manifesto de página inteira no "New York Times", que como o Sr. deve saber é um dos jornais de maior circulação nos Estados Unidos. No primeiro dia houve uma audiência fraca ao filme. Ao cabo de poucos dias, o filme desapareceu do cartaz. Não quero dizer que foi só por causa do manifesto da TFP – que recebeu numerosos testemunhos de solidariedade – mas este pesou fundamente na opinião norte-americana.

Estou certo de que a TFP brasileira também influenciará, em termos de alcançar ponderável repercussão na opinião brasileira.

Teologia da Libertação: vários matizes que arrastam para posições cada vez mais radicais

P – Aqui no Brasil e na América Latina em geral, a Teologia da Libertação está presente. Gostaria de uma reflexão do Dr. Plinio a respeito da Teologia da Libertação.

R – A Teologia da Libertação é uma corrente ideológica que se compõe de vários filões, como acontece quase sempre com as correntes fortemente revolucionárias, fortemente tendentes ao estabelecimento da igualdade completa entre os homens.

Quer dizer, eles têm uma vanguarda que reivindica tudo quanto há de mais extremo nessa matéria. Depois eles têm uma retaguarda doutrinaria de matizes sucessivos, dos quais cada um é menos categórico do que outro. Não que seja mais moderado, mas é menos claro. De modo que, no extremo oposto do matiz mais categórico, a dosagem revolucionária é tão insensível que não se sabe bem o que é.

Avança primeiro, na opinião pública, o elemento aparentemente mais moderado, mais confuso, e com algumas idéias assim vagas, pelas quais certa parte do público tem alguma simpatia. E depois, por um processo de destilação, os elementos confiscados por essa corrente confusa, aparentemente moderada, vão sendo passados sucessivamente para posições mais radicais, até dar na radical de todo.

Vista na sua corrente mais radical, aquela que especificamente foi objeto de censura da Santa Sé, vista nessa corrente, a Teologia da Libertação se reduz ao seguinte: se trata de pessoas que querem estabelecer uma reforma no sentido de implantar a igualdade completa entre todos os homens. Abolição de todas as classes sociais, e um regime totalmente, e utopicamente, igualitário. Essas pessoas apresentam Nosso Senhor Jesus Cristo como tendo sido, não o Homem-Deus – e o Homem-Deus dotado de bondade e sabedoria infinitas, que o Evangelho nos descreve – mas figuram Nosso Senhor Jesus Cristo como tendo sido um revolucionário, um desordeiro, um mazorqueiro, do tempo em que ele viveu. Mazorqueiro e desordeiro contra a dominação romana, que a Teologia da Libertação apresenta como aliada das elites judaicas, para opressão do povo.

Uma acusação mais ou menos parecida com a que a Teologia da Libertação faz ao sistema sul-americano. Assim se sustenta, na Teologia da Libertação, que não tem autenticidade a hierarquia social na América do Sul, e que esta se apóia no capitalismo internacional, dominado pelos norte-americanos.

Para justificar uma aparência de apoio à posição deles, de uma revolução na América do Sul, eles montam este mito, deformando gravemente a realidade. A partir dessa deformação, a Teologia da Libertação procura então arrastar a opinião católica, na América do Sul.

Como essa figura de Nosso Senhor Jesus Cristo, que a Teologia da Libertação apresenta, é muito flagrantemente contrária ao que a doutrina católica ensina – religião seguida pela grande maioria dos brasileiros – essa gente afirma ora uma parte disso, outros afirmam tudo, outros não afirmam nada disso, mas também não afirmam o contrário disso.

Então essa máquina de sucção para a extrema-esquerda funciona de modo a levar todo mundo para os erros censurados pela Santa Sé.

A Reforma Agrária empobrece não só o fazendeiro, como o trabalhador rural

P – Agora, eu gostaria que nós conversássemos um pouco sobre a questão da Reforma Agrária. Dr. Plinio, o Sr. tem esperança de que a Reforma Agrária, aprovada pela Constituinte e colocada no texto da nova Constituição, ela seja revogada, aqui no Brasil?

R – A sua pergunta tem para mim, como brasileiro, um sabor amargo. Porque ela equivale, na minha ótica, a perguntar se eu tenho esperança de que o Brasil sobreviva à Reforma Agrária.

A Reforma Agrária – segundo temos tratado em vários livros, publicações etc., sobre o assunto, durante vinte anos – a Reforma Agrária não faz outra coisa senão assolar a vida do campo, e empobrecer não só o empregador, mas o empregado, o fazendeiro e o trabalhador. Ela é nociva igualmente a ambas as classes sociais. E a experiência mostra – o nosso mensário "Catolicismo" já publicou expressivas reportagens de propriedades agrárias, por exemplo no Pontal do Paranapanema, em que mal a Reforma Agrária se instalou, já a miséria imperou, o favelamento entrou, a desolação entrou.

Se a R.A. se aplicar inteira no Brasil, o Brasil não sobreviverá. Então, como eu espero no Brasil, eu espero que em determinado momento, o bom senso do País imponha uma revogação da Reforma Agrária.


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