Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

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 "Folha de S. Paulo"

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Janeiro de 1979 - Almoço oferecido pela "Folha de S. Paulo" aos colaboradores de sua secção "Tendências e Debates". Vê-se o prof. Plinio Corrêa de Oliveira à esquerda do diretor do jornal, Octávio Frias

Folha de S. Paulo, 11 de setembro de 1968 

Dona Cesarina, uma inimiga da TFP 

"Não gosto do lema de sua sociedade, dizia-me, num fortuito encontro junto ao Edifício Conde Prates, dona Cesarina, que há muitos e muitos anos eu já não vira. Dona Cesarina é uma avó ainda jovem, que conheço de há longo tempo, sempre na vanguarda de todas as modernidades. Sim, das modernidades fanadas de 1940 e 1950, como das mais ardidas modernidades destes nossos dias de Comblin, mini-saias e discos voadores.

No fundo do esforço de "atualização" permanente de dona Cesarina, há entretanto algo de caseiro, de pacato, e até de conservador, saldo de outras eras em que ela viveu. Saldo que ela julga, aliás, inadequado a seu  realce pessoal, e por isso procura esconder com cuidado.

Aproveitei essa simpática "fraqueza" de minha vivaz interlocutora. E, assim, lhe perguntei: "Como? Até a palavra família lhe desagrada?"

Apanhada ao vivo, dona Cesarina me retrucou: "Também não digo isto: quanto à família, vá lá. É até bonito terem posto isso no lema. Mas "Tradição", não engulo. É para outros tempos. E quanto a "Propriedade", acho antipático. Por que não puseram, em vez disto, "Trabalho" ou "Liberdade"?

– Ainda bem que a senhora aceita a família, disse eu. Já é um ponto que temos em comum. Quanta razão temos para querer e admirar esta palavra! Os casais que se constituem com a benção de Deus, para se quererem, se entre-ajudarem e se perpetuarem na prole; as alegrias e dores que se partilham, o ambiente doméstico que se vai formando e caracterizando pela mútua compreensão e pela marca das vicissitudes; as crianças que vão recebendo os valores desse ambiente em suas almas moldáveis, e os vão tomando como preciosos ideais de vida; a família que ao cabo das gerações se abre em ramos numerosos, que o afeto, a lembrança do passado, as esperanças de futuro mantém bem juntos; os mais velhos que vão caminhando lentamente para a eternidade, alegres por deixarem nesta terra uma obra querida por Deus, abençoada por Ele e destinada ao serviço d'Ele: como tudo isso é belo!

Dona Cesarina, que habitualmente não gosta de ouvir seus interlocutores falarem, e que se proclama, hoje em dia, uma pessoa prática e infensa a sentimentos, ouvia-me atenta. Suas cordas sensíveis estavam atingidas. Em sua fisionomia, subitamente mais tranqüila, lia-se certa surpresa: "Como pode este inveterado polemista da TFP pensar e dizer coisas destas?", parecia dizer o seu olhar.

Continuei. Imagine a senhora, dona Cesarina, uma cidade, um país em que todas as famílias fossem assim. Não seria suave o ambiente e encantadora a vida? Não haveria nele certa lógica, certa estabilidade, certa segurança, bem diversa dos absurdos e das surpresas entre os quais vamos vivendo, aos trancos e barrancos?

Quando eu dizia isto, uma jovem aproximou-se de dona Cesarina. Era o retrato dela. Tinha na mão um pacote de bom tamanho. A moça cumprimentou-me apressada. Minha interlocutora estava ali, visivelmente, à espera da neta. Retirei-me um pouco, resolvido a continuar a conversa, se dona Cesarina quisesse. À distância, vi que o assunto entre ambas não era simples. De início, as fisionomias exprimiam um vivo embate. Mas daí a pouco, dona Cesarina foi cedendo, cedendo... Até que a moça se retirou rápida e triunfante, e dona Cesarina voltou a mim carregando o pacote pesado na mão.

À maneira de explicação, ela só me disse: "Estas mocinhas... é uma lástima...  a gente já não se entende".

Manifestamente, ela não queria comentários para o desabafo. Fingi que não ouvi. E continuei: "Pois é, dona Cesarina, não seria bom que as coisas fossem como eu disse?"

No espírito de dona Cesarina, o clichê da neta rebarbativa foi substituído pelo quadro que eu vinha traçando. Ela sorriu, e, quase esquecidas de momento as prevenções contra a TFP, concordou sorrindo.

– Pois é, disse eu à jovem avó. Isto que eu acabo de descrever é o que se chama Tradição. É a própria vida da família, na riqueza de seu ambiente, transmitida na continuidade, não só biológica, mas também moral, das gerações. É assim que uma geração não nasce, da outra, não armada para as reivindicações e as lutas contra os mais velhos, mas preparada para mútua compreensão. A continuidade assegura a paz e o entendimento entre o dia de ontem e o de hoje. E o dia de hoje pode olhar para o de amanhã, sem medo de ser massacrado.

Dona Cesarina pensava em algo. Seria na neta? Ela ia concordando, quando um movimento de antipatia saltou do fundo de sua alma. Desconfiada, vivaz, ela me respondeu: "Não vou nisto. Tradição é privilégio. Só os grandes, os ricos é que guardam a Tradição".

– E a senhora é contra os grandes e os ricos? Que mal lhe fizeram?

– Não gosto e não gosto, insistiu ela. Pense só naqueles lordes da Inglaterra, por exemplo.

– Pois bem, dona Cesarina. Nada vejo de terrível nos lordes. Saiba a senhora que a tradição não é privilégio de lordes. Um pouco por toda a parte, na Europa, a senhora não encontra a tradição popular ainda viva? Não a guardam muitos camponeses da Serra da Estrela e do Tirol, da Bretanha ou da Sicília? No Brasil, não há vestígios de tradição nas mais variadas camadas sociais, desde as famílias de 400 anos (muxoxo de dona Cesarina) até as famílias modestas do mais retirado interior? Não guardam, muitas famílias de imigrantes, encantadoras tradições de suas pátrias de origem?

As birras de dona Cesarina são tenazes. Elas tiveram ainda um sobressalto: "O senhor não pensa nessas multidões urbanas sem tradição? Não vê que, se a vida de família trouxesse sempre por fruto a tradição, elas também seriam tradicionais? Por que a vida de família não gera entre elas tradição?"

– A senhora lamenta-as por isto, dona Cesarina. E tem razão. Mas, lamentando-as, reconhece que a tradição seria para elas um bem. Então, sem perceber, também a senhora estima a tradição!

– Mas afinal, contestou dona Cesarina, se as multidões urbanas não têm tradição, a tradição é ou não é o sinal de uma oligarquia?

– Devagar, dona Cesarina, devagar. Nas grandes aglomerações urbanas, é só a multidão que não tem tradição? De que parte da sociedade saem as modas mais extravagantes, as maneiras mais ultramodernas etc.? Não é de alguns setores riquíssimos... não raras vezes de lordes e congêneres?

Dona Cesarina oscilava. À guisa de último assalto, ela me atirou: "Mas então, de onde vem a falta de tradição?"

– Isto ocorre quando a vida de família é defeituosa. Por exemplo, quando esquece ou rejeita toda e qualquer tradição. Conheço famílias tradicionalmente antitradicionais, onde, de bisavô a bisneto, todos falam contra a tradição. Nestas famílias o mais das vezes, todos brigam entre si porque não se entendem.

Dona Cesarina pensava na neta. Suspirou: "Neste caso, disse-me ela, se tradição é para todos engulo sua tradição. Mas, quanto à propriedade, não engulo. Troque a palavra por liberdade ou trabalho. Eu seria da TFL, ou da TFT. Nunca da TFP.

Isto, disse eu, fica para algum outro dia, se daqui a alguns anos nos encontrarmos de novo...

Dona Cesarina sorriu. Despedimo-nos. E ela afundou na multidão. Acompanhei-a com o olhar. De costas, ágil, viva, voluntariosa, dava quase a impressão de ser moça.

– Como se parece com a neta! É a força da tradição antitradicionalista, pensei...


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