Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

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 "Folha de S. Paulo"

Janeiro de 1979 - Almoço oferecido pela "Folha de S. Paulo" aos colaboradores de sua secção "Tendências e Debates". Vê-se o prof. Plinio Corrêa de Oliveira à esquerda do diretor do jornal, Octávio Frias

Folha de S. Paulo, 30 de outubro de 1968

Dom Helder: 3 êxitos marcantes 

Os brasileiros que andam confusos e apreensivos com a atuação de D. Helder Câmara têm sérios motivos para se sentirem ainda mais confusos e apreensivos. Com efeito, nesta semana, três acontecimentos constituíram para ele êxitos inegáveis.

O primeiro foi o lançamento de sua "Ação, Justiça e Paz", na cidade de Propriá, coração de uma zona de Sergipe considerada altamente propícia à expansão desse movimento.

No ato, D. Helder não fez cerimônias, e, apesar do apregoado caráter pacífico de sua ação, acenou com o perigo da violência, para o governo e o País. E violência com prazo certo: "Cinco anos é o tempo em que, se o governo não resolver os problemas brasileiros, a violência que se esboça ganhará campo, e então não haverá forças que possam sustá-la", proclamou ele. Em outros termos, ou o Brasil se submete humildemente às reformas exigidas pelo fogoso prelado, ou, segundo ele vaticina, a violência estourará com o Brasil.

E, que nos conste, ninguém saiu a campo para apresentar ao fundador da "Ação, Justiça e Paz" qualquer objeção. Pelo menos, a pequena objeção que aqui exponho: ou o Brasil está consciente de toda a apregoada extensão de sua miséria, ou não está. Se está, do que adianta a "conscientização" promovida com tanto alarido por D. Helder? Se não está, não é precisamente essa "conscientização" que pode trazer a violência que D. Helder profetiza? Pois, em última análise, nenhum povo se revolta contra aquilo que não vê, que ignora, de que não tem consciência.

Sem dúvida, o silêncio no qual reboou desembaraçadamente o brado de D. Helder foi para este um êxito.

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Outro êxito para D. Helder foi o comunicado com que a Comissão Central da Conferência Nacional do Bispos do Brasil encerrou sua reunião. A certa altura, o documento externa alegria porque "por toda a parte, bispos e presbíteros do Brasil" promovem "movimentos destinados a ajudar a ascensão humana e cristã de imensas massas marginalizadas em nosso país". Nesta frase evidentemente se inclui, entre outros, o movimento de D. Helder.

Depois do elogio, vem a defesa daquele órgão episcopal contra os ataques feitos aqui e acolá a esse movimento: "Alegra-nos ver, é justo proclamar que tais movimentos não são inspirados por nenhum personalismo ou desejo de autopromoção nem se armam contra pessoas ou instituições nem visam criar comoções ou rebeldias. Suas raízes são pastorais. (...) E são assim uma força contra a violência (a das estruturas e da rebelião) é uma força (quem sabe das últimas) em favor da paz (...)".

Se estas palavras são merecidas, sem a menor ressalva ou restrição, pelos movimentos que, "por toda a parte", bispos e presbíteros estão promovendo, é claro que incluem Recife, que é uma das "partes" do Brasil, D. Helder que é o arcebispo daquela "parte", e o movimento que ele fundou.

Em suma, achamos impossível não ver, nesses textos, o elogio discreto mas categórico, a defesa implícita mas firme, da "Ação, Justiça e Paz" pelo mais alto organismo eclesiástico do Brasil. É o segundo êxito de D. Helder.

Se nossa interpretação é inexata, se as palavras não têm mais seu sentido natural, e a Comissão Central da CNBB pensa o contrário do que aí está, se ela não acha defensável nem elogiável o movimento de D. Helder, é aliás só dizê-lo claramente. Incontáveis fiéis se rejubilarão com isto.

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Mas, ponderará alguém, a TFP, pelo menos, também não está incluída nesse elogio genérico?

Não. O elogio se circunscreve claramente a movimentos promovidos por bispos ou sacerdotes. A TFP é uma entidade cívica que tem amigos bispos e sacerdotes, mas é promovida e dirigida por leigos.

Ademais, se no comunicado da Comissão Central da CNBB não se fala da TFP, uma notícia distribuída pelo secretariado desse órgão (baseio-me nesse texto autêntico, abstração feita do noticiário sensacionalista e algum tanto confuso de certa imprensa) não nos poupa acusações e vilipêndios. Tenha o leitor bem em mente que acabamos de promover, com o maior êxito, o abaixo-assinado suscitado pelo escandaloso escrito do pe. Comblin, professor do Instituto Teológico de Recife que funciona sob os auspícios de d. Helder, e leia agora a seguinte notícia distribuída pelo referido secretariado:

"Sociedade "Tradição, Família e Propriedade". D. Vicente Scherer ficará encarregado de apresentar este assunto. Dissertou sobre a história do "integrismo" desde seus primórdios, no século passado, mostrando que a TFP insere-se nessa corrente. Um dos aspectos mais graves de sua atividade é a sua interferência na vida das dioceses. Terminada a exposição de d. Scherer, vários bispos tomaram a palavra buscando esclarecer melhor a questão e trazendo cada um a própria experiência a respeito. No final, ficou decidida a constituição de uma comissão de 3 membros para propor à Comissão Central medidas práticas à respeito".

A investida é dura. Haveria vários "aspectos graves" em nossas atividades. Isto teria ficado provado na reunião da Comissão Central, sem que fôssemos sequer ouvidos. Quais são estes aspectos? Só se mencionaram dois. Um é nossa suposta filiação ao integrismo (que não é o integralismo, com o qual também nada temos que ver). A notícia não dá as provas, e se contenta em acusar. O outro é ainda mais confuso: o que são as assim chamadas "interferências na vida das dioceses"? Como pode alguém defender-se de acusações assim lançadas ao ar? Não obstante o vago de tudo isto, o público ficou sabendo que a Comissão Central da CNBB já decidiu, em princípio, tomar "medidas práticas" contra o suposto mal. Que medidas? Aguardemos.

Nesse repúdio da TFP, nessa rejeição, nessa severidade, como não ver que ela atinge o milhão e meio de brasileiros que assinaram nossa Mensagem e cujo clamor a Comissão Central ignora? Com efeito, a Comissão Central dos Bispos não teve uma palavra de preocupação com a infiltração esquerdista em meios católicos. Ela não se preocupa com esse mal. Mas toma atitude contra a entidade que teve a coragem de denunciar tal infiltração. E como não exultará com isto o pe. Comblin? Nesta vitória do pe. belga sobre 1.500.000 brasileiros vai um êxito indireto para d. Helder, que lhe confiou uma cátedra e nunca consentiu em o desautorizar.

Por fim, uma pergunta melancólica, talvez um pouco à margem do tema: quando a imoralidade invadiu certos setores do campo católico, quando num Boletim editado sob os auspícios da CNBB se faz o elogio do nu e da cena pornográfica no teatro (cf. "Boletim Telepax", nº 125), quando em uma revista católica se defende a homossexualidade (cf. "Vozes – Revista Católica de Cultura", setembro de 1967, pags. 792 a 803), e freiras se exibem em indecentes maiôs de banho (cf. "O Cruzeiro", edição de 20-7-68), por que silencia sobre isto a Comissão Central da CNBB, ao mesmo passo que elogia o movimento de d. Helder e ataca a TFP?

Leitores talvez haja, que se zanguem com a pergunta. Não adianta zangar, nem ficar sentido. Pois ressentimento e zanga não constituem argumento.


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