Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

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 "Folha de S. Paulo"

Janeiro de 1979 - Almoço oferecido pela "Folha de S. Paulo" aos colaboradores de sua secção "Tendências e Debates". Vê-se o prof. Plinio Corrêa de Oliveira à esquerda do diretor do jornal, Octávio Frias

Folha de S. Paulo, 17 de outubro de 1971

"A burguesia deverá ser adormecida"

A anunciada visita de Nixon à Rússia se insere no mesmo contexto de seu projeto de ir à China. Sobre esses lances conexos da diplomacia americana, desejo registrar algumas impressões.

E desde logo pergunto: o que significam eles?

Viajará a Pequim e a Moscou o presidente dos Estados Unidos, isto é, o Chefe do Estado mais rico e poderoso do mundo.

Entretanto, ser presidente dos Estados Unidos, hoje, é algo bem diferente do que foi no período presidencial de Eisenhower, ou mesmo no de Johnson.

Hoje em dia, a grande nação norte-americana ainda detém a primazia da riqueza. Mas com o dólar desvalorizado, e a economia afetada por mil problemas.

Os Estados Unidos ainda são a maior potência política do mundo, mas seu poder está minado, no plano interno como no externo, por uma deterioração que deixa espantados todos os observadores.

A deterioração no plano interno explode na contestação frenética, no avanço da criminalidade e na agressão sexual espantosa. Ela produz o abobamento desconcertante da opinião pública face ao perigo comunista, e o desejo de largas esferas do país, de se desinteressar do resto do mundo e de se recolher ao interior das próprias fronteiras, a fim de gozar a vidinha da prosperidade.

A deterioração da política externa conduz à defecção no Vietnã, à ruptura dos compromissos com Formosa e à conseqüente liquidação do prestígio norte-americano no Extremo Oriente. A ela se deve que o vazio deixado pelo Império Britânico no Índico, no Pérsico e no Mediterrâneo vá sendo preenchido não pelos Estados Unidos, mas pela Rússia. Por força dessa deterioração é que a NATO, cada vez mais combatida no Senado e na Câmara, se vai trincando. É ela que fecha os olhos de milhões de norte-americanos para o fato de que a Rússia se esforça por atrair para a sua área, não só o complacentíssimo Willy Brandt como também o displicentíssimo Pompidou. No Canadá, o primeiro ministro Trudeau se distancia sempre mais dos norte-americanos – sem que os Estados Unidos inteiros se alarmem com isto – e estreita suas relações com os russos. Na América Latina a política de queda de barreiras ideológicas provoca um distanciamento em relação aos Estados Unidos, que o protecionismo norte-americano ainda agrava. E por fim, com a já inevitável entrada da China Vermelha no Conselho de Segurança da ONU, o poder norte-americano perde um ponto nesse supremo cenáculo da política mundial.

A óbvia decadência militar é mais um sintoma dessa deterioração. A Rússia e a China vão progredindo rapidamente no terreno armamentista, enquanto os Estados Unidos tendem a estagnar, e portanto a decair.

É este fundo de quadro sobre o qual se projeta a figura de Nixon com as malas prontas para ir a Pequim e Moscou. Risonho, lampeiro, trêfego, o chefe de Estado norte-americano toma ares de quem se prepara para fazer na capital chinesa, e depois na capital russa, alegres piqueniques.

Este facies jovial convém ao papel que ele se prepara a desempenhar brevemente em seu próprio país, isto é, de candidato à reeleição presidencial. Aspirando ao voto da grande corrente de seus concidadãos que prefere a paz acima de tudo – note bem o leitor este pormenor absolutamente capital – Nixon precisa dar às suas viagens o caráter de joviais excursões à busca da paz. Missão que, eleitoralmente, ele deve apresentar a seu público como tão simples e tão alegre quanto a de um carinhoso pai de família que, numa tarde de domingo, sai de casa a fim de comprar sorvetes para a sua gulosa pirralhada.

Entretanto, tudo não são sorrisos...

De fato, ele encontrará diante de si, na capital amarela como na vermelha, dois gangs políticos empreendedores, ambiciosos e inexoráveis, conhecedores de todas as fraquezas do parceiro americano e dispostos a explorá-las a fundo. Dois gangs que não colocam acima de tudo o desejo da vidinha tranqüila, mas a ambição da expansão ideológica e do mando político. Dois gangs que não têm reeleições a disputar, pois todo poder lhes pertence pela força da polícia e das armas. Dois gangs que sabem que, se Nixon não lhes fizer grandes concessões, para deles obter vagas mas espetaculares promessas de paz, não será reeleito. Dois gangs, enfim, que acham excelente negócio trocar concessões palpáveis por promessas vagas.

Este é o quadro.

E então o quadro é este?

Descontadas algumas diferenças irrelevantes, é precisamente o quadro de Munique em 1939. A França e a Inglaterra, carunchadas pelo desejo obsessivo de gozar pacatamente a vidinha quotidiana, faziam ao eixo Roma-Berlim todas as concessões. E em troca só pediam a Hitler e Mussolini algumas promessas de paz. Assinado o tratado cego e entreguista de Munique, Chamberlain e Daladier receberam de volta às suas respectivas capitais, ovações apoteóticas.

No ostracismo em que se achava, o grande Churchill exclamava a Chamberlain e seus sequazes: "Tínheis a escolher entre a vergonha e a guerra: preferistes a vergonha e tereis a guerra". Talvez viesse então ao espírito do grande estadista este pensamento de Claudel: "Há algo mais triste a perder do que a vida: é perder a razão de viver; mais triste do que perder seus bens é perder sua esperança" ("Otage", Gallimard, Paris, 1951, p.143).

Como ele pensavam inúmeros ingleses e franceses que se preparavam para arriscar a vida e alcançar a vitória.

Há também, nos Estados Unidos, homens que pensam como Churchill? – Este é o problema essencial. Se não os houvesse, não saberíamos realmente para quais abismos iriam rolando as coisas. Mas, como veremos, felizmente os há. É assim lícito esperar que a jogada eleitoral de Nixon fracasse, e que na próxima eleição presidencial, a escolha popular recaia sobre um homem de Estado capaz de substituir a política de Nixon por outra, feita de uma prudência, apoiada na sagacidade e na força.

Será então a saída.

Mas o que? Guerra, então? – Não e não: paz. Adapto à presente situação as clássicas palavras de Churchill: se entre o risco da guerra e uma paz entreguista à Munique, americanos esclarecidos souberem escolher o risco, terão a paz. – Paradoxo? – Talvez. Mas verdade, pois toda a política pacifista de Nixon importa em se deixar envolver por um artifício de há muito planejado pelo comunismo internacional.

Espanta-se porventura algum leitor pró-Nixon, com o que acabo de dizer. Mas a presente trama já estava assente pelo menos desde 1931.

Há quarenta anos atrás! Considere o leitor estas palavras impressionantes:

"Tática algumas vezes violenta e outras vezes pacífica, mas sempre revolucionária. A guerra de morte entre o comunismo e o capitalismo é inevitável. Hoje, evidentemente, não somos bastante fortes para atacar. Nossa hora chegará dentro de 20 ou 30 anos. Para vencer, necessitaremos de um elemento de surpresa. A burguesia deverá ser adormecida. Começaremos lançando o mais espetacular movimento de paz que jamais tenha existido. Haverá proposições eletrizantes e concessões extraordinárias. Os países capitalistas, estúpidos e decadentes, cooperarão com alegria para a sua própria destruição. Precipitar-se-ão sobre a nova oportunidade de amizade. No mesmo instante em que baixem sua guarda, os achataremos com nosso punho cerrado". (Dimitri Z. Manuilsky, conferencia feita em 1931 na Escola Lenine de Guerra Política, apud Jean Ousset. "El marxismo leninismo". Editorial Iction, Buenos Aires, 2a. ed., 1963 p. 113 – Manuilsky foi eleito presidente do Conselho de Segurança da ONU em 1949).

Tudo parece portanto – pelo menos no plano natural e humano – depender desta pergunta: há ainda, nos Estados Unidos, reservas morais capazes de resistir ao fascínio da paz inoculada pela Rússia para preparar a guerra? – A isto se deve responder que sim.

A imprensa noticiou, há dias, que uma sondagem da opinião pública norte-americana indicou ter a popularidade de Nixon crescido de 40% em junho para 42,6% em setembro, em conseqüência da fabulosíssima campanha publicitaria feita em favor dele por motivo de sua anunciada visita à China. O aumento é insignificante, é ridículo.

A maioria dos norte-americanos não se deixou impressionar. Tudo, portanto, ainda se pode esperar nas próximas eleições presidenciais.

Para isto nos ajude a Providência!


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