"Folha de S. Paulo", 11 de dezembro de 1981

Autogestão, dedo e fuxico

As TFPs existentes em treze países deste e do velho Continente acabam de lançar uma Mensagem às respectivas nações, sobre o socialismo autogestionário francês. Publicada no dia 9 do corrente no "Washington Post" e no "Frankfurter Allgemeine Zeitung", deverá ser reproduzida também por grandes jornais da nossa e de outras nações.

Escrevo no dia 10. Até o momento, já essas duas publicações iniciais provocaram uma chusma de pedidos de entrevista em televisões, rádio e jornais dos mais diversos países. O que bem faz ver o alto grau de interesse que o tema desperta.

Não conheço ainda comentários sobre o conteúdo da Mensagem na imprensa estrangeira. Só os de certos órgãos da imprensa brasileira.

A TFP brasileira publicará o texto integral da Mensagem, da qual sou autor, como matéria paga na "Folha de S. Paulo" do próximo dia 17. Antes disto, era de esperar que esses órgãos se mantivessem em atitude de simpática expectativa. Pois não é outro o sentimento que lhes seria natural vendo um compatriota atuar como porta-voz de tantas entidades de vários países, em um esforço publicitário de escala mundial.

Ao contrário, em lugar de nos pedir que antecipemos algo sobre o conteúdo da Mensagem, sobre sua essência, sobre seu pensamento, vejo-os, na maioria, avançarem raivosamente como quem se sente mordido na carne viva. E apresentarem sobre o fato um noticiário carregado de insinuações, as quais fogem inteiramente ao tema tratado, num empenho em arrastar a discussão para o campo do mero fuxico.

As TFPs lhes apontam com o dedo um alto tema. E eles olham só para o dedo...

Paradoxal atitude de certo capitalismo publicitário. O socialismo autogestionário visa depená-lo e depois liquidá-lo. Mas ai de quem – para eles – põe reparos à autogestão! Esta solidariedade de certo capitalismo com o social-esquerdismo não é nova. Quem a explicará?

Seja como for, absolutamente não cooperarei, de minha parte, para que descambe até lá a contenda.

E para isto me parece essencial apresentar desde já ao público brasileiro, pelas páginas da "Folha de S. Paulo", as teses essenciais que a Mensagem das TFPs – vazada em alta e serena linguagem doutrinária, sem ataques pessoais nem fuxicos – contém.

A argumentação em favor dessas teses, a própria Mensagem as dará.

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A Mensagem põe em evidência que o socialismo autogestionário – ao contrário do que muitos imaginam – não constitui uma modalidade do esquerdismo, avançada sem dúvida, mas bonacheirona e gradualista. As TFPs sustentam que o programa autogestionário visa a desagregação da sociedade atual em corpúsculos autônomos, dotados de uma quase soberania, o que redundará na implantação da utopia anárquica na França.

Essa utopia, entretanto, o socialismo autogestionário não a reconhece como desordenada e caótica. Verdadeira escola filosófica substancialmente marxista, e portanto também evolucionista, o socialismo francês espera promover, com a gradual aplicação da reforma autogestionária, uma transformação fundamental, não só da empresa industrial, comercial e rural, como também da família, da escola e de toda a vida social. Mais ainda, ele pretende influir a fundo na própria vida individual, modelando a seu gosto os lazeres e o próprio arranjo interior das casas.

De outra parte, essencialmente laico, ele visa admitir, em termo último, tão-só a escola autogestionária laica, à qual os pais devem entregar seus filhos logo que completem dois anos de idade. A escola privada religiosa, ele visa aboli-la enquanto propriedade individual, e enquanto religiosa.

A essa reforma geral, não poderia ficar alheia a família. O documento mostra que o programa do PS equipara inteiramente o casamento à união livre entre os sexos, e reivindica a equivalência entre a união heterossexual e a união homossexual. Feminista ao extremo, o socialismo autogestionário exige, ademais, para a mulher, a inteira equivalência com o homem, inclusive na responsabilidade como no fardo dos trabalhos com que ela tenha a arcar.

A empresa, no final da evolução autogestionária, não tem patrão. A direção dela cabe, em última instância, à assembléia-geral dos trabalhadores. Esta tem o direito de tomar periodicamente conhecimento de todas as atividades empresariais. Nem sequer o segredo industrial lhe pode ser oculto. Os dirigentes da empresa são eleitos pela assembléia dos trabalhadores, a qual é soberana no que diz respeito às atividades empresariais.

Como se vê – e os documentos do PS o afirmam sem rebuços – uma reforma tão completa da sociedade supõe uma reforma igualmente completa do próprio homem. É em função da natureza humana assim reformada, que o socialismo autogestionário reclama não ser qualificado de utópico.

O PS não espera realizar esta reforma total, da sociedade e do homem, em um só salto, mas por transformações sucessivas. Um dos meios essenciais para pôr em movimento e levar a termo essa reforma do homem e da sociedade é a luta de classes. Negando não só o princípio da autoridade como toda hierarquia, o PS abre campo para essa luta. Na empresa, levantando os operários contra os patrões, e os dirigidos contra os dirigentes. Na família, suscitando a luta dos filhos contra os pais. Na escola, entre os alunos e mestres. E assim por diante.

O programa do PS não nega a liberdade de funcionamento da Igreja. Mas a Igreja – comenta a Mensagem – ficará reduzida a viver numa sociedade inteiramente laicizada até nos seus menores aspectos, que, enquanto tal, não tomará em qualquer linha de conta as obrigações do homem para com Deus, nem os princípios da ordem natural delineados na Lei que Deus revelou a Moisés. Ela fica, pois, estranha à ordem civil, que tomará um rumo oposto ao ensinamento dela.

O socialismo autogestionário francês se proclama inteiramente coerente com a trilogia da Revolução de 1789: "Liberdade-Igualdade-Fraternidade". Para ele, a abolição do patronato na empresa é a conseqüência lógica da instauração da república. Ele aponta no patrão um pequeno rei que remanesce no interior da empresa, e no rei o grande patrão que a república democrática eliminou. Entre a vitória final do socialismo autogestionário e a Revolução Francesa, ele traça toda uma genealogia de revoluções: 1848, 1871 e a Sorbonne-1968.

A encíclica de João Paulo II, "Laborem Exercens", é uma versão católica do socialismo autogestionário francês? Compreende-se o alcance da pergunta, especialmente na perspectiva católica, que é a das TFPs e da Mensagem lançada por estas. Também este assunto vem abordado no documento.

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A que título se ocupam as TFPs de uma problemática à primeira vista toda ela francesa, e ante a qual, por conseguinte, só competiria à TFP francesa tomar posição? A mensagem põe em realce o imperialismo doutrinário muito marcante que caracteriza a política exterior do PS, e portanto também do atual governo francês. Ela mostra que a expansão internacional do socialismo autogestionário é meta relevante da diplomacia do Sr. François Mitterrand. E que o melhor meio para defender seus países contra o que, a justo título, qualificam de agressão ideológica socialista consiste em revelar-lhes a verdadeira face do socialismo autogestionário, conhecida pelos militantes do PS, não porém pelo grande público não socialista.

No que diz respeito à França, a Mensagem demonstra que a vitória socialista nas últimas eleições não resultou de um aumento do eleitorado de esquerda, mas do grande número de abstenções que houve no eleitorado não socialista, resultado de uma campanha conduzida sem o empenho necessário pelos partidos de centro-direita. Abrir todos os olhos, também na França, à verdadeira fisionomia da autogestão, parece às TFPs ser o meio mais útil para que a população francesa, recusando seu apoio ao socialismo, obste a que o prestígio político e cultural da França seja empregado a serviço da agressão ideológica autogestionária.

A Mensagem se encerra com um belo texto em que o Papa São Pio X afirma sua esperança de que a nação francesa venha a reluzir no mundo com todo o brilho cristão que lhe compete como filha primogênita e bem-amada da Igreja.