Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Artigos na

 "Folha de S. Paulo"

 

Janeiro de 1979 - Almoço oferecido pela "Folha de S. Paulo" aos colaboradores de sua secção "Tendências e Debates". Vê-se o prof. Plinio Corrêa de Oliveira à esquerda do diretor do jornal, Octávio Frias

  Bookmark and Share

11 de julho de 1981 

O homem-saúva

Conheço o caso de um antigo fazendeiro paulista, senhor de vastos cafezais e de uma espaçosa mansão: quadrilátero com dois andares, porta ao centro e janelas de guilhotina iguais ao longo de toda a fachada. Ornamento externo nenhum. O fazendeiro, segundo o estilo tradicional, era também advogado e político.

Família unida, títulos de propriedade seguros, terra roxa, casa firme, colonos submissos, vizinhos pacíficos, nada faltava ao sossego daquele laborioso fazendeiro. Mas um adversário inopinado lhe atacou, no cerne, o feudo tão sólido. No cerne, digo, pois irrompeu inopinadamente dentro da própria casa. E – mais surpreendente ainda – esse adversário vinha de baixo para cima. Um só adversário? Mais exatamente milhares. Talvez milhões. Pequenos, conquistando terreno aos milímetros, no silêncio, despercebidos, dominaram o subsolo, enquanto em cima, na casa, o fazendeiro e sua família trabalhavam, comiam, bebiam, dormiam e se divertiam. Um belo dia, uns poucos irromperam na copa. O fazendeiro os matou e ordenou uma investigação. E percebeu que já eram numerosos a ponto de ser inútil qualquer resistência. As saúvas – pois eram elas – haviam construído por todo o subsolo um labirinto tão vasto que inútil seria destruí-lo. Para resumir a história, o fazendeiro mudou-se, a casa ficou abandonada, o cafezal começou a ser invadido. Esse fazendeiro, que julgava nada ter a temer de qualquer potentado, foi arruinado por essas miríades de adversários pequenos, escuros e silenciosos.

 

 

Lembrei-me disto quando comecei a escrever o presente artigo. Pois o tema sobre o qual queria escrever era o triunfo dos homúnculos na sociedade moderna.

Por homúnculos entendo aqui os homens de espírito pequeno, que cabem, cada qual por inteiro, em um dos mil alvéolos da vida cotidiana. Os que querem uma vida feita pela banalidade de cada dia. Para os quais ontem foi incolor, inodoro e insípido, como hoje e como amanhã. O oxigênio que respiram é a banalidade. E o prazer das coisas está essencialmente na repetição.

Para homúnculos assim, incômodo é tudo quanto é grande, venerável pela antiguidade ou magnífico pelo futuro que abre; tudo, enfim, que sai das dimensões cotidianas: holocausto, valentia, genialidade, delicadeza, "exquise" [excelente], infortúnios trágicos, e tantas outras coisas. É preciso acabar com tudo isto, com todos os que são assim, ou que algo disso refletem em seu espírito, em suas maneiras, sua linguagem, seu modo de ser ou sua conduta.

As incontáveis mudanças ocorridas em nosso século, em quase todos os domínios da vida, constituem vitórias dos homúnculos, pois elas sempre diminuem algo ou alguém. A sociedade humana se vai afeiçoando cada vez mais ao gosto das almas-saúva. O que tem como conseqüência que as almas grandes se sentem, neste mundo minado em torno delas, como meu fazendeiro. Quem hoje aspira a qualquer forma de grandeza, máxime a da virtude, ou se disfarça, ou sobre ele se precipitam imediatamente as saúvas saídas dos vastos e obscuros porões da mediocridade. E o expulsam para as regiões da incompreensão, da indiferença e do isolamento, nas quais a mediocridade reduz a viver quantos não cabem nos padrões dela.

*    *    *

Vejo neste gigantesco fenômeno sócio-patológico, nessa insurreição universal dos homúnculos contra os que os sobrepujam, uma das causas do entreguismo do Ocidente. O homúnculo, o homem-saúva, detesta a luta mais do que tudo. Esta acarreta grandes esforços, só entusiasma as grandes almas, ocasiona a fulguração de grandes infortúnios. O homem-saúva luta, por isto, contra todas as formas de luta. Singular batalha, que ele trava cedendo, fugindo (para baixo, bem entendido), capitulando: deixando-se esmagar até, se não houver outra solução.

A esta família de almas pertencem os incondicionais do ecumenismo. Temendo o aceso das disputas entre as religiões, o homem-saúva quer fundir todas numa só pan-religião, aliás mais ou menos atéia. Para o homem-saúva, todas as crenças e todas as descrenças devem confundir-se no mesmo ralo do ecumenismo.

Pela mesma razão, o homem-saúva está pronto a dar de barato sua pátria, como faz com suas crenças. O inimigo, ele prefere não o ver. Se é obrigado a vê-lo, imagina-o em vias de conversão: desestalinizado, de face humana, transformado em pacato (e ambíguo...) socialismo. Se o inimigo penetra nos setores políticos do país, ele lhe sorri, e o rotula de "pra-frente" e "no vento". Se se infiltra nos meios católicos, qualifica-o analogamente de "progressista". Quando o inimigo cresce tanto que se torna ameaçador, o homem-saúva proclama irreversível o perigo, e tenta, como meio-termo, uma estratégia de "convergência", inspirada no lema “vão-se os anéis e fiquem os dedos”. E, por fim, se o inimigo, depois de tomados os anéis, exige os dedos, o homem-saúva sussurra: "vão-se os dedos e fique a vida".

*    *    *

Mas, todas essas concessões, o homem-saúva só as faz à esquerda. Toda a sua ação silenciosa e inexorável, de infiltração, de corrosão, de erosão, ele a faz na direita e no centro, onde costuma instalar-se. E, então não cede, não foge, não converge, ele mina.

Por quê? Detestando tudo quanto é elevado, nobre e harmoniosamente desigual, para o homem-saúva, quanto mais igualdade melhor. E para uma igualdade totalmente rasa, totalmente plana, para lá vão seus anelos pacifistas. Rumo ao comunismo, ou ao anarquismo.

Vivemos numa época de revolução. É banal dizer-se. Sim. Da revolução dos homens-saúva, contra tudo quanto tenha qualquer grandeza...