Legionário, N.o 264, 3 de outubro de 1937

Pio XI perante o fascio e o Komintern

Um título de glória há que não pode ser negado a Mussolini: foi ele o instrumento de que se serviu a Providência, para evitar que a Itália soçobrasse no abismo das lutas sociais. Os próprios admiradores de Mussolini nem sempre tem o pleno conhecimento do serviço por ele prestado à Itália e ao Mundo. Mussolini não arrebatou a Itália das garras do comunismo tão somente no momento em que, esmagando a revolução comunista por meio da revolução fascista, ele se assenhoreou do Poder. Mais do que isto, ele continuou, por assim dizer diariamente, a esmagar a hidra comunista renascente. (...) Não há como negar que a partir do momento em que Mussolini caísse, a Ordem social correria, na Itália, sério risco. E ainda mesmo que reconheçamos no fascismo graves defeitos, é inegável que eles são muito preferíveis ao catastrófico flagelo do comunismo.

Isto posto, torna-se bem claro que os comunistas, inimigos comuns do fascismo e da Igreja (desta imensamente mais do que daquele) só teriam a lucrar com um conflito entre o Vaticano e o Duce. Quando nada, este conflito afastaria do Duce uma importante parcela da opinião pública, o que abalaria imensamente seu poder. E os proventos que, deste fato, tiraria a III Internacional são evidentes. E é provável que as instruções da III Internacional aos seus adeptos italianos tenham consistido insistentemente em provocar tanto quanto possível tal conflito.

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Colocado diante de fatos tão evidentes como estes, e sabedor por dolorosa experiência pessoal de que, no plano humano e natural, a Santa Sé não dispunha dos meios necessários para substituir Mussolini na imediata repressão ao comunismo, Pio XI deve ter sentido todo o embaraço em que o colocou a série de disparates religiosos que Mussolini começou a cometer depois do Tratado de Latrão. O pomo da discórdia, em última análise, era a Ação Católica. Mussolini queria fechá-la. Pio XI não queria consentir. Engajada a luta, uma alternativa se impunha: ou Pio XI derrubaria Mussolini, mas veria erguer-se diante de si o espectro comunista que, humanamente falando, a Ação Católica seria impotente para vencer; ou então Mussolini venceria a batalha e fecharia manu militari a Ação Católica. Em um caso como no outro, a Ação Católica estaria fadada a desaparecer.

Ora, a desaparecer tragada pelo comunismo ou pelo fascismo, é claro que seria melhor que o tragador fosse este último.

Por isto tudo, e porque (...) o comunismo aproveitavam todas as ocasiões para inimizar Mussolini com Pio XI, parecia certo aos espíritos prudentes, amantes da Itália católica e tradicional, que a Igreja deveria, a todo o custo, evitar a luta com o fascismo. Para eles, a Igreja era fraca demais para agir com independência. Impunha-se para ela uma opção: ou o fascismo com todos os riscos que ele apresentava no momento, ou o comunismo. E entre uma e outra coisa, qualquer católico optaria pelo fascismo, exceto se fosse cretino, louco ou traidor.

E se se quisesse uma prova para demonstrar a veracidade destas considerações, era suficiente ver com que sofreguidão os documentos comunistas (...) esperavam e atiçavam a luta. Bastaria considerar isto, para parecer provado e arqui-provado que, rompendo com o fascismo a Igreja faria o gozo da III Internacional. (...)

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Pio XI, porém, que analisava estes fatos com seus olhos de lince, ao fundo do seu gabinete de trabalho e no íntimo de seu oratório, traçava um plano em sentido contrário. E atacou o fascismo muito de frente e muito de rijo.

 

Pio XI não tolerou os erros do fascismo nem os do comunismo, mas impôs as verdades do catolicismo.

 

Escandalosamente, o conflito estourou. E a situação do Papa parecia tão contrafeita que (...) os corações retos e os espíritos juvenis que até à véspera vibravam de entusiasmo por ele nas fileiras fascistas, deixavam cair os braços em atitude de desânimo (...). Os áulicos do Vaticano esperavam ver invadido de um momento para outro o Palácio pelas turbas fascistas. A derradeira hora parecia ter soado.

Por que resolvera Pio XI agir assim?

Porque a Igreja é bastante forte para nunca silenciar perante o erro, ainda mesmo quando, humanamente, ela se apresenta mais destituída de vigor. Sua força não está, essencialmente, no fascismo, no Exército ou até na própria Ação Católica. Sua força é Nosso Senhor Jesus Cristo, e só Ele. E ainda mesmo que Pio XI tivesse de enfrentar o fascismo e o comunismo simultaneamente, e ainda que ele estivesse tão desarmado quanto S. Leão perante Átila, ele nada teria a recear.

Por isto, Pio XI não se calou, mas pelo contrário resistiu com uma coragem que, não fosse ele o Papa, 80% dos católicos teria censurado.

Mas as vitórias de Deus beneficiam o vencido em lugar de humilhá-lo. E graças à coragem de Pio XI, o fascismo não chegou ao ponto do hitlerismo que é um aliado inconsciente (?) de Moscou, porque ataca o único real foco de resistência ao comunismo: a Igreja.

Atacando de rijo o fascismo, Pio XI pagou com largueza infinita o bem que este fizera aos católicos italianos. Porque a isto, e só a isto, deve o fascismo o ter conservado a nobreza da missão histórica que está realizando.

Pio XI fora o agressor? (...)

A verdade católica é imutável. Quem dissente dela a nega, e portanto a agride. Quando ela fulmina, ela não ataca, mas simplesmente se defende. Violando os direitos da Igreja, negando parte da doutrina católica, quem era agressor? (...) O fascismo. E Pio XI destruiu esse jogo, forçando o fascismo a não aplicar suas doutrinas errôneas, e evitando assim que a ruptura entre o Vaticano e o Fascio se tornasse irremediável.

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Nossa tática não é a da timidez nem a do conformismo. Conforta-nos o exemplo de Pio XI.

 

O rádio e a imprensa publicaram largamente um documento que se afirma ser de origem comunista, e no qual há instruções para que os católicos sejam incompatibilizados com os integralistas.

À vista disto, estará o “Legionário” fazendo o jogo de Moscou, quando levanta reservas à doutrina integralista? Não será melhor aceitar o integralismo com suas qualidades e defeitos, a facilitar o jogo do comunismo?

Responde por nós o grande e glorioso exemplo de Pio XI. O jornal católico deve ser intransigente para com todos os erros, venham eles de amigos ou de inimigos. A força divina da Igreja não o coloca na obrigação vexatória de calar os erros de uns para que não vençam os erros de outros. O jornal católico critica o mal onde quer que o encontre.

Fazendo-o, é ele o agressor? Ou são os integralistas, autores dos erros apontados, que abrem a luta? A doutrina da Igreja é anterior à do integralismo. Se alguns escritores deste divergem daquela, quem é que provoca a ruptura? Responda por nós o bom senso.

Vamos a um exemplo.

Exatamente no dia em que publicava as instruções do Komintern, mostrando ser favorável ao comunismo qualquer ruptura entre católicos e integralistas, a “Ação” publicou uma extensa notícia de um espírita dizendo que o Sr. P. Salgado é o maior homem do mundo. O “Legionário” censura esta propaganda espírita em um jornal lido por católicos. Quem foi o agressor? Responda ainda por nós o bom senso.

Censurando certas doutrinas integralistas, quer dizer que o “Legionário” se esquiva a cooperar com os “camisas verdes” na luta contra o comunismo? Não, no integralismo atacamos o que há de mal e aprovamos o que há de bom. E com isto beneficiamos o próprio integralismo, apontando-lhe os erros que deve corrigir.

Esta atitude desagrada à direita? Suscita aplausos hipócritas e desprezíveis à esquerda? Pouco importa.

O que queremos é seguir o exemplo de Pio XI sob as bênçãos das Autoridades Eclesiásticas de São Paulo.