Legionário, No 286, 6 de março de 1938 

Dois Brasis

O Sr. Getúlio Vargas, em entrevista coletiva concedida à imprensa em Petrópolis, analisando a situação atual do Brasil e os projetos do novo governo, declarou que “as incertezas, as dificuldades, os choques, promanam da existência de dois Brasis, um político e outro econômico, que não coincidem”.

Não deixa de ter razão o Sr. Getúlio Vargas em reconhecer a existência de um Brasil político distinto do Brasil econômico, e, como conseqüência desse estado de coisas,  o aparecimento de dificuldades bastante graves para o governo, que se encontrava manietado para resolvê-las dada a necessidade que tinha de contentar aos dois Brasis. E, diga-se em abono à verdade, em geral nossos governos tem contentado o Brasil político com prejuízo do Brasil econômico.

Veio o Estado Novo de 10 de novembro, e o Sr. Getúlio Vargas acha-se agora aparelhado para evitar o entrechoque desses dois, políticos e econômicos.

Porém, esperamos que não se esqueça o chefe do governo de que a economia está longe de ser o fator principal da grandeza da nação, e nem mesmo de seu bem estar, pois que este não consiste só na riqueza material do seu povo, mas sobretudo na posse tranqüila da Verdade e na prática invariável do Bem.

“As incertezas, as dificuldades, os choques promanam de dois Brasis, um político e outro econômico, que não coincidem”. - Getúlio Vargas.

Nossas maiores incertezas, nossas mais angustiosas dificuldades, os nossos choques mais violentos, promanam, de fato, da existência de dois Brasis, um político, o outro, porém, não é o Brasil econômico, e sim o Brasil religioso. Esses é que são, na realidade, dois Brasis que estão muito mais distanciados um do outro, do que o Brasil político do Brasil econômico.

Aliás, esse mal não é de hoje. Desde o Império que o Brasil, apesar de profundamente católico, é dirigido por uma camarilha de parlamentares (...) que procuravam por todos os modos destruir a vida religiosa do País. Era o Brasil político que procurava enforcar o Brasil religioso com a corda de seda dourada do regalismo de Pombal.

A República, em vez de corrigir esse mal, acentuou-o desmedidamente, destruindo os últimos pontos de contato que  ainda uniam os dois Brasis.

E a leva de “parvenus” da política que, logo no início da era republicana, sucedeu aos estadistas do Império e passou a encarnar o Brasil político, tentou estrangular o Brasil religioso, não mais com corda de seda, mas com a reles corda de amarração do positivismo francês. E isto durou até 1934, quando a Liga Eleitoral Católica alterou parcialmente este estado de coisas.

Se o Estado Novo quiser ser realmente novo, deve acabar com esta odiosa cisão entre os dois Brasis, que era a característica do Estado Imperial e da República velha...

Mas as dificuldades maiores, os choques mais fortes, as incertezas mais angustiosas promanam de dois Brasis, um político e outro religioso.

Opondo-se ao catolicismo, como até agora se opôs o Estado brasileiro, ele não podia dar à Nação o seu verdadeiro rumo, porque implicitamente ele se apartava da Igreja e, portanto, dos brasileiros.

Dos governantes que até aqui teve o Brasil, só a excelsa Princesa Isabel tentou fazer uma política em sentido contrário. (...)

Todos estes fatos não terão escapado à argúcia do Sr. Getúlio Vargas. E já que temos agora uma nova Constituição e Novos rumos se abriram para o Brasil, o Sr. Getúlio Vargas, que tanto empenho mostra em combater o choque entre o Brasil político e o econômico, deverá levar mais adiante o seu projeto e evitar que a 3ª República reedite os erros das anteriores e da monarquia construindo um novo Brasil política e religiosamente uno. É esta a obra que poderá vincular ao Estado novo a simpatia dos católicos.

* * *

Quererá isto dizer que os católicos pleiteiam desde logo a organização de um Estado inteiro e cabalmente católico sob todos os aspectos, desde a sua Constituição até o menor dos regulamentos sobre venda de bebidas alcóolicas ou organização dos cemitérios? Evidentemente, não.

Já temos dito mil e uma vezes que a ação social deve preceder e preparar a reforma política. Um Estado cabalmente católico se compreenderia em uma sociedade também ela cabalmente católica. Ora, se a sociedade brasileira é católica, ela o é... brasileiramente, isto é, com panos quentes, arranjos e transigências. É esta a realidade. E como não se pode ser “brasileiramente”, “inglesmente”, “teutonicamente” ou “niponicamente” católico, mas se deve ser apenas “romanamente”, ou melhor “vaticanamente” católico, compreende-se desde logo que a sociedade brasileira não está preparada para servir de alicerce para um Estado cabalmente católico.

O que os católicos desejam, no momento, do Estado novo brasileiro, é muito simples. Em primeiro lugar, deve ele expurgar das fileiras de seus amigos, de certos elementos com tendências incompatíveis com o espírito católico. Certos pruridos de nazificação que notamos em alguns amigos do Governo - queremos  e devemos crer que sem solidariedade intelectual deste - devem desaparecer inteiramente. Também alguns velhos liberais da antiga guarda, que pretendem derramar o emoliente malsão de suas doutrinas no conteúdo espiritual do Estado novo, devem ser eliminados. Em outros termos, o Estado novo deverá ser, de agora em diante, [autenticamente] anticomunista. (...)

Finalmente, o Estado novo precisa cooperar resolutamente com a Ação Católica na obra ingente da evangelização e da moralização do povo.

Dizendo isto, não queremos concordatas, nem reconhecimentos oficiais, nem favores que, inevitavelmente, seriam mais onerosos para nós do que para o Estado. O “quia nominor leo” da fábula é um argumento que ainda não perdeu sua atividade.

O que queremos, simplesmente, é que o Estado promulgue uma legislação que reprima seriamente os vícios sociais, como a jogatina, a embriaguês, a venda de tóxicos, e a distribuição urbana de zonas que se deveriam encontrar não no centro da cidade, mas nos seus mais afastados confins. (...)

Além de combater o vício, deveria o Estado iniciar uma campanha resoluta para sanear as chagas sociais que ameaçam criar entre nós tremendos problemas. Trate ele seriamente dos interesses das classes operárias, do salário mínimo, das habitações física e moralmente higiênicas, da proteção às gestantes, e estará merecendo a simpatia calorosa dos católicos.

E não basta. O combate ao mal não é suficiente. É preciso, além disto, disseminar o Bem. Não pleiteamos, agora, que o Estado oficialize a Religião Católica, repetimo-lo com insistência, para não criar equívocos. Mas o que queremos é que o Estado dê à Igreja ampla liberdade de penetrar nas escolas, nos quartéis, nas prisões, nos hospitais oficiais, etc.

Isto é o que pedem os católicos brasileiros.

Se o Estado realizar este magnífico programa, terá encontrado sua identificação com o Brasil católico, e portanto com o Brasil autêntico. É este o único caminho no qual ele encontrará a simpatia dos católicos brasileiros.