Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Nossa Senhora do Sagrado Coração

 

 

Legionário, N.º 410, 21 de julho de 1940

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Meu caro amigo Pe. Pedro Paulo Keep encontra-se com seus Irmãos de hábito à testa de uma meritória campanha no sentido de ser edificado quanto antes um grandioso templo destinado ao culto de Nossa Senhora do Sagrado Coração. A este empreendimento de tão alto e piedoso significado, quero emprestar minha colaboração, menos pela esperança de lhe ser útil do que pelo desejo de homenagear sob essa belíssima invocação a Rainha do Céu. 

Se há uma época para cuja miséria só pode existir esperança de remédio no Sagrado Coração de Jesus, esta é a nossa. 

Inútil seria atenuar a enormidade dos crimes que por toda a parte pratica a humanidade em nossos dias. Disse Pio XI, em uma de suas Encíclicas, que a degradação moral do mundo contemporâneo é tal que o coloca na iminência de se ver precipitado, de um momento para outro, em condições espirituais mais miseráveis do que aquelas em que se encontrava quando veio ao mundo o Salvador. 

Em outros termos, os erros acumulados pelos séculos que nos precederam, os delírios da Pseudo-Reforma, as audácias diabólicas da Enciclopédia, a libertinagem desenfreada dos costumes, os crimes da Revolução Francesa, a apostasia dos filósofos alemães, criaram um ambiente de universal corrupção que culminou nas desordens, nas catástrofes, no desmando, no desbragamento da concupiscência que assiste a humanidade do século XX. E tal é a iniqüidade profunda em cujo abismo nos precipitamos, que Pio XI temia ver cancelados, para a grande maioria dos homens, os benefícios infinitos da Redenção que Nosso Senhor Jesus Cristo veio trazer ao mundo. 

A vista de tantos crimes sugere naturalmente a idéia da vingança divina, e quando olhamos para este mundo pecador, gemendo nas torturas de mil crises e de mil angústias, e que a despeito disso não se penitencia; quando consideramos os progressos assustadores do neopaganismo, que está nas vésperas de ascender ao governo da humanidade inteira; quando vemos, por fim, a pusilanimidade, a imprevidência, a desunião daqueles que ainda não se bandearam para o mal, nosso espírito se apavora na previsão das catástrofes que acumula sobre si própria a impiedade obstinada desta geração. 

Há algo de liberal ou de luterano em imaginar que tantos crimes não merecem castigo, e que uma tal apostasia das massas se operou por um mero erro intelectual, sem grave pecado para a humanidade. A realidade não é esta. Deus abandona suas criaturas, e se estas se encontram longe dEle, a culpa só a elas pode caber, e não a Deus. 

O quadro contemporâneo não é senão este: de um lado uma civilização iníqua e pecadora, e de outro lado o Criador empunhando o azorrague das punições divinas. 

* * * 

Não haverá, então, para a humanidade, outro desfecho nos dias de hoje, senão desaparecer em um dilúvio de lama e de fogo? Não se poderá esperar para ela outro futuro neste século senão um ocaso ignominioso, em que a impenitência final será castigada pelos flagelos supremos, prenunciados pela Escritura como indícios do fim do mundo? 

Se Deus deixasse agir exclusivamente Sua Justiça, sem dúvida. E nem sabemos se em tal caso o mundo teria chegado até o XX século de nossa era. Mas como Deus não é apenas justo, mas também misericordioso, não se fechou ainda para nós a porta da salvação. Uma humanidade perseverante na sua impiedade tudo tem a esperar dos rigores de Deus. Mas Deus, que é infinitamente misericordioso, não quer a morte desta humanidade pecadora, mas sim “que ela se converta e viva”. E, por isto, sua graça procura insistentemente todos os homens, para que abandonem seus péssimos caminhos e voltem para o aprisco do Bom Pastor. 

Se não há catástrofes que não deva temer uma humanidade impenitente, não há misericórdias que não possa esperar uma humanidade arrependida. E para tanto não é necessário que o arrependimento tenha consumado sua obra restauradora. Basta que o pecador, ainda que no fundo do abismo, se volte para Deus com um simples início de arrependimento eficaz, sério e profundo, que ele encontrará imediatamente o socorro de Deus, que nunca se esqueceu dele. Di-lo o Espírito Santo na Sagrada Escritura: ainda que teu pai e tua mãe te abandonassem, eu não me esqueceria de ti. Até nos casos extremos em que o paroxismo do mal chega a esgotar a própria indulgência materna, Deus não se cansa. Porque a misericórdia de Deus beneficia o pecador até mesmo quando a Justiça divina o fere de mil desgraças no caminho da iniqüidade. 

* * * 

Estas duas imagens essenciais da justiça e da misericórdia divina devem ser constantemente postas diante dos olhos do homem contemporâneo. Da justiça, para que ele não suponha temerariamente salvar-se sem méritos. Da misericórdia, para que não desespere de sua salvação desde que deseje emendar-se. E, se as hecatombes de nossos dias já falam tão claramente da justiça de Deus, que melhor visão para completar este quadro, do que o sol da misericórdia, que é o Sagrado Coração de Jesus? 

Deus é caridade. E por isto mesmo a simples anunciação do Nome Santíssimo de Jesus lembra a idéia do amor. O amor insondável e infinito que levou a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade a se encarnar! O amor expresso através dessa humilhação incompreensível de um Deus que se manifesta aos homens como um menino pobre, que acaba de nascer em uma gruta. O amor que transparece através daqueles trinta anos de vida recolhida, na humildade da mais estrita pobreza, e nas fadigas incessantes daqueles três anos de evangelização, em que o Filho do Homem percorreu estradas e atalhos, transpôs montes, rios e lagos, visitou cidades e aldeias, cortou desertos e povoados, falou a ricos e a pobres, espargindo amor e recolhendo na maior parte do tempo principalmente ingratidão. O amor demonstrado naquela Ceia suprema, precedida pela generosidade do lava-pés e coroada pela instituição da Eucaristia! O amor daquele último beijo dado a Judas, daquele olhar supremo posto em São Pedro, daquelas afrontas sofridas na paciência e na mansidão, daqueles sofrimentos suportados até a total consumação das últimas forças, daquele perdão mediante o qual o Bom Ladrão roubou o Céu, daquele dom extremo de uma Mãe celestial à humanidade miserável. Cada um destes episódios foi meticulosamente estudado pelos sábios, piedosamente meditado pelos Santos, maravilhosamente reproduzidos pelos artistas, e sobretudo inigualavelmente celebrados pela liturgia da Igreja. Para falar sobre o Sagrado Coração de Jesus, só há um meio: é recapitular devidamente a cada um deles. 

Realmente, venerando o Sagrado Coração, outra coisa não quer a Santa Igreja, senão prestar um louvor especial ao amor infinito que Nosso Senhor Jesus Cristo dispensou aos homens. Como o coração simboliza o amor, cultuando o Coração, a Igreja celebra o Amor. 

Por mais variadas e belas que sejam as invocações com que a Santa Igreja se refere a Nossa Senhora, em nenhuma delas deixaremos de encontrar uma relação entre Ela e o amor de Deus. Essas invocações, ou celebram um dom de Deus, ao qual Nossa Senhora soube ser perfeitamente fiel, ou um poder especial que Ela tem junto ao Seu Divino Filho. Ora, o que provam os dons de Deus senão um amor especial do Criador? E o que prova o poder de Nossa Senhora junto a Deus senão este mesmo amor? Assim, pois, é com toda a propriedade que Nossa Senhora pode ao mesmo tempo ser chamada “espelho de justiça” e “onipotência suplicante”. Espelho de Justiça, porque Deus a amou tanto, que nEla concentrou todas as perfeições que uma criatura pode ter, e por isto mesmo em nenhuma Ele se espelha tão perfeitamente como nEla. Onipotência suplicante, porque não há graça que se obtenha sem Nossa Senhora, e não há graça que Ela não obtenha para nós.

 

Assim, pois, invocar Nossa Senhora sob o título do Sagrado Coração é fazer uma síntese belíssima de todas as outras invocações, é lembrar o reflexo mais puro e mais belo da Maternidade Divina, é fazer vibrar a um só tempo harmonicamente, todas as cordas do amor, que tocamos uma a uma enunciando as várias invocações da ladainha lauretana ou da Salve Rainha

Mas há uma invocação que quero lembrar especialmente. É a da advogada dos pecadores. Nosso Senhor é Juiz. E por maior que seja a sua misericórdia, não pode também deixar de exercer a sua função de juiz. Nossa Senhora, porém, é só advogada. E ninguém ignora que não é função do advogado outra coisa senão defender o réu. Assim, pois, dizer que Nossa Senhora do Sagrado Coração é nossa advogada implica em dizer que temos no Céu uma advogada onipotente, em cujas mãos se encontra a chave de um oceano infinito de misericórdia. 

O que de melhor para se mostrar a esta humanidade pecadora, à qual, se não se fala de Justiça de Deus, se embota cada vez mais no pecado, e se dela se fala desespera de se salvar? Mostremos a Justiça: é um dever cuja omissão tem produzido os mais lamentáveis frutos. Ao lado da Justiça que fere os impenitentes, nunca nos esqueçamos, entretanto, da misericórdia que ajuda o pecador seriamente arrependido a abandonar o pecado e, assim, a se salvar.


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