Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

O crime de Hitler

 

 

Legionário, N.º 547, 31 de janeiro de 1943

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Mostramos em nosso último artigo que a civilização católica, única expressão genuína da civilização cristã, é fruto da Igreja Católica e só dEla. Em outros termos, afirmamos que há um erro clamoroso em se supor que a civilização católica possa germinar, florescer ou sequer conservar-se num país no qual se tivesse extinguido a Igreja. A civilização católica está para a Igreja como a água para a fonte ou a luz para o foco que a irradia.

Isto posto, pergunta-se qual a condição essencial para que um país possua os benefícios da civilização católica? A pergunta é mais ou menos tão sutil e alta quanto a de alguém que quisesse saber qual o modo de irrigar um país senão por meio da liberdade de suas águas correrem ao longe, brotando livres das fontes que nascem. Não haverá jamais outro meio de se conseguir um efeito senão deixando operar livremente a única causa de que ela procede. Se queremos a civilização católica, se os estadistas contemporâneos de todas as latitudes desejam uma civilização católica, e se este desejo é algo mais do que uma atitude para embair as massas, só tem um meio para chegar a este fim: consiste em reconhecer à Igreja plena liberdade de ação. Por isso, os governos totalitários tem sido governos de farsantes. Seguindo fielmente o exemplo do sr. Hitler, são fecundos em sorrisos, amabilidades e promessas. Comparecem sôfregos a todas as cerimônias religiosas. Especializam-se na arte sutil de conceder à Igreja tudo quanto não tem importância real. Entretanto, ninguém é mais do que eles perito na triste sutileza de cercear aos poucos, cavilosamente, ardilosamente, passo a passo e com preocupações sorrateiras a liberdade da Igreja. Tamanduás inteligentes, abraçam primeiro para depois estrangular. Mas possuem sobre o tamanduá uma dupla vantagem: sabem sorrir e usam pele de cordeiro. É assim o nazismo.

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No que consiste a liberdade da Igreja? Instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo para pregar o Evangelho a todos os povos, a Igreja recebeu com isto do próprio Deus o direito sagrado e inextinguível de gozar de toda a liberdade de movimento para empregar todos, mas absolutamente todos os meios lícitos que forem necessários para o desempenho de sua divina missão. Em outros termos, a Igreja só é livre quando do púlpito, confessionário, da praça pública, do microfone, pelo livro e pela imprensa Ela pode proclamar com desassombro sua doutrina, pregando a verdade e acautelando as massas contra o erro e a imoralidade.

A autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo é infinitamente superior a dos Césares verdadeiros ou falsos, de ópera ou de opereta, paxás, sultanetos e gauleiters (líder provincial nazista, n.d.c.) de todas as latitudes. Não foi o Estado que deu à Igreja a liberdade que de direito lhe assiste. E por isso não tem o direito de lha roubar. Mais do que todas as torturas dos campos de concentração, o que fez o sr. Hitler, um genuíno malfeitor foi o haver violado a liberdade da Igreja. Esta liberdade é para a Igreja e para os povos o mais precioso dos tesouros. Roubando-o, delapidando-o, e fingindo hipocritamente respeitá-lo, o sr. Hitler conquistou, a golpes de perfídia diabólica, as características dos mais nefastos inimigos da civilização cristã. E, por isto, a entrada do Brasil na guerra significa para nós, católicos, um vigoroso desembainhar de espadas contra aquela situação odiosa e insuportável em que nenhum católico pode ver colocado um irmão de crenças sem se revoltar. Diante da Igreja aguilhoada só os filhos desnaturados podem cruzar os braços.


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