Legionário, N.º 591, 5 de janeiro de 1943

A QUESTÃO LIBANESA

Não é minha intenção emitir um juízo sobre os recentes acontecimentos ocorridos no Oriente Próximo. O problema dos direitos que o Líbano tem a sua inteira liberdade, ou dos direitos que a França possa ter para não dar liberdade ao Líbano, são de caráter meramente temporal. Por outro lado, para se emitir sobre eles algum juízo fundado, seria preciso um estudo acurado de tratados, antecedentes históricos, questões econômicas, étnicas e sociais de tal maneira complexas que, evidentemente, um jornal estritamente religioso como o “Legionário” sairia de sua alçada se opinasse sobre o caso.

Entretanto o “Legionário”, como órgão genuinamente católico, não pode deixar de ponderar algumas repercussões indiretas que o desenrolar dos acontecimentos teve. São aspectos a serem considerados em conjunto dos demais, para a inteira objetividade do panorama que a opinião pública tem sob os olhos. (...)

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Nossos olhos se voltam com natural simpatia para a Síria, nação nobilíssima e de grandes tradições históricas, que têm o mérito relevante de ser genuinamente cristã, contando entre seus filhos elevado número de católicos, apostólicos, romanos. Vizinha dos lugares sagrados, a Síria é bem uma sentinela vigilante da Cristandade no Oriente. A este título, sua independência em relação a judeus e muçulmanos é um patrimônio mundial. O mundo inteiro está empenhado em que uma Síria livre, poderosa, digna, continue tanto quanto os numerosos libaneses que são nossos irmãos na Fé, a montar guarda às portas dos lugares que o Salvador santificou nos dias de Sua vida terrena, com Sua doutrina, ação pessoal e direta.

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(...) São por demais notórios, por demais gloriosos os títulos sobre que se funda o padroado francês dos interesses cristãos no Oriente próximo. Não precisamos de os mencionar. Entretanto, a simples justaposição destes dois fatos: é preciso defender a Síria e as comunidades católicas levantinas, e é preciso que essa defensora seja a França, isto simplesmente basta para que se compreenda como lamentamos que a cooperação franco-libanesa tenha passado por um tão sério colapso.

Não ignoramos - já o dissemos - que o problema é temporal em muitos de seus dados essenciais. Mas o fato é que, de algum particularismo, de algum egoísmo, de alguma precipitação de qualquer das duas partes, pode resultar de um momento para outro alguma nova crise tão grave para os interesses cristãos no Oriente Próximo, que se compreende sem dificuldade que formemos votos ardentes para que a solução do problema se faça sem qualquer prejuízo para uma cooperação que tão essencialmente interessa a toda Cristandade.

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Neste sentido, achamos verdadeiramente curiosa a atitude do Egito. O Rei do Egito e o do Iraque, estimulados por ardilosa campanha nazista, empreenderam de há muito a formação de um grande bloco muçulmano em todo o Oriente. O casamento do soberano egípcio com uma princesa iraquiana veio consolidar essa política, ligando as duas grandes dinastias maometanas. O III Reich conferiu mais especialmente a Mussolini a tarefa de articular a rebelião muçulmana contra o Ocidente. Nossos leitores ainda se lembram do vigor com que denunciamos o fato quando os muçulmanos da África do Norte conferiram a Mussolini - o signatário do Tratado de Latrão! - a espada de "defensor do Islão". O fato é que se acordou um leão que dormia. Nos dias de hoje, com homens, armas e dinheiro, tudo se faz. Dinheiro e homens, o mundo muçulmano os possui à vontade. Adquirir armas, não será difícil, sobretudo quando muito dos atuais beligerantes, nas aperturas da paz, começam a vender o que super-produziram durante a guerra. E, com isto, ficará uma potência imensa em todo Oriente, ativa, aguerrida, cônscia de suas tradições, inimiga do Ocidente, tão armado quanto ele, que dentro de algum tempo poderá ser absolutamente tão influente quanto o mundo amarelo, e colocado em situação geográfica econômica incomparavelmente melhor!

Neste momento precisamente, o Rei do Egito, alegando ser protetor do Islão, e pretextando a existência de numerosos muçulmanos entre os libaneses, toma a dianteira, estimula por todos os modos a luta entre a França e seus protetorados do Oriente Próximo.

A estranheza da atitude egípcia é tanto mais de se notar, quanto o incidente franco-libanês não é de modo algum um "caso" maometano. Os cristãos são a maioria no Líbano, onde, pois, o Egito nada tem que ver como protetor de Mafoma.

Que significa esse gesto? O desejo de libertar os muçulmanos postos sob protetorado francês? E no dia em que se sacudir tal protetorado, o que farão os muçulmanos, protegidos pelo Egito, contra os sírios e libaneses cristãos?

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A situação é complexa, delicada, espinhosa. Mas é preciso que, no torvelinho dos problemas temporais agitados ali, não se perca de vista esta série de repercussões espirituais. Essas são essenciais, porque correspondem ao "único necessário" de que nos fala o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.