Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

As razões do processo contra

Mons. Stepinac

 

 

 

 

Legionário, Nº 740, 13 de outubro de 1946

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O processo de Mons. Stepinac chegou a seu termo, com a condenação do Prelado a 16 anos de trabalhos forçados. Depois da encenação feita em torno do assunto, o desfecho que todos receavam era a condenação à morte. Por mais iníqua e humilhante que seja a pena imposta ao glorioso Prelado, experimenta-se certo desafogo diante da idéia de que pelo menos se poupará a sua vida. Possivelmente, o general Tito dispensará Mons. Stepinac dos trabalhos forçados, convertendo sua "punição" em prisão celular, e nós, que nos confrangíamos em imaginar o venerando Ministro de Deus a gastar as últimas energias de seu corpo alquebrado em misteres pesados, próprios a criminosos comuns, sentiremos com isto novo alívio. A prisão celular nos parecerá quase confortável, depois de tantas hipóteses sombrias que foram sendo eliminadas uma a uma. Tanto basta para que a mentalidade volúvel, inconsequente e débil do homem contemporâneo dê o assunto por resolvido.

Mons. Stepinac, Arcebispo de Zagreb (Croácia), como uma rocha em um mar tempestuoso, durante o julgamento-farsa que lhe foi inflingido pelo governo comunista

É possível que daqui a um ano, penando em sua prisão sob a pressão de um regime penitenciário provavelmente eriçado de crueldades de toda a ordem, cumprindo uma pena cuja duração equivale, para um ancião, à prisão perpétua, Mons. Stepinac esteja esquecido do mundo inteiro, lembrado só por Deus e pelo Vaticano.

É, pois, este o último momento em que podemos tratar do assunto, com alguma possibilidade de interessar a nossos leitores. Vamos, pois, diretamente ao tema, que consideraremos do seguinte ponto de vista: qual o interesse da propaganda soviética em mover este processo? Esta pergunta pode ser formulada de outro modo: quais as vantagens que a propaganda soviética auferiu com o processo? Só se pode responder à questão analisando a repercussão que o processo teve:

I - junto às populações greco-cismáticas;

II - junto às populações católicas da Europa oriental e dos Bálcãs;

III - junto às populações católicas da Europa central e ocidental, bem como da América;

IV - de um modo mais geral, junto aos círculos e ambientes não católicos de todo o Ocidente.

Vamos ao primeiro ponto. É geralmente conhecido que, quando da queda do czarismo, os sovietes implantaram na Rússia um regime de perseguição sistemática a todas as Religiões. Tanto os católicos romanos, quanto os cismáticos das várias seitas, foram implacavelmente vigiados, maltratados, ultrajados e até mortos pela GPU e, ao mesmo tempo, a secção dos "Sem-Deus" do Partido Comunista desencadeou uma intensa campanha de ateísmo em todo o território russo.

De algum tempo para cá, a atitude da URSS mudou fundamentalmente em relação aos cismáticos, conservando-se embora a mesma em relação aos católicos. Stalin fez reorganizar a igreja russa cismática, à qual restituiu vários templos e deu a mais plena liberdade de culto e propaganda. Num país em que todas as outras religiões são perseguidas, esta proteção estatal em benefício de uma igreja eleva-a à situação virtual de igreja oficial. Ao mesmo tempo, a seção dos "Sem-Deus" entrou em decadência e praticamente se extinguiu. É fácil compreender que este procedimento acendeu as esperanças dos elementos cismáticos espalhados por todo o mundo. Segundo parece, até mesmo aqui no Brasil um dos bispos greco-cismáticos é declaradamente comunista. Se o efeito da política religiosa conciliatória foi tão vivaz neste longínquo Brasil, felizmente separado da Rússia por imensas distâncias, pode-se imaginar que não foi menor em todos os países cismáticos que confinam com a Rússia, isto é, os Bálcãs, certa zona da Hungria e da Polônia, bem como determinadas populações bálticas. Até nos conventos cismáticos da Ásia menor, o efeito desta "reconciliação" se fez sentir.

Havia entre os cismáticos uma ala pronunciadamente anticomunista, que se reuniu em um "sínodo" na cidade de Karlovac. Esta ala aderiu ao nazismo e está absolutamente esfacelada. Seu insucesso representou a pulverização de todos os elementos que, dentro das fileiras cismáticas, poderiam opor alguma resistência à bolchevização total dos povos cismáticos. Assim, salvas algumas exceções raras e provavelmente instáveis, o intenso bloco cismático começou a sentir os efeitos magnéticos da atração bolchevista, e tende hoje em dia, cada vez mais, a se constituir em força-satélite do sistema russo.

E os católicos da Rússia e dos países limítrofes? Ninguém pode confiar na resistência eficaz que uma heresia possa opor à outra. Só a Igreja é bastante forte para destruir todas as heresias. Enquanto os cismáticos se deixavam assim deglutir pela III Internacional, ao que parece os católicos da própria Rússia (ninguém pode saber ao certo o que se passa por detrás da famosa "cortina de ferro") se opuseram a qualquer reconciliação que implicasse sacrifício, quer da parte estritamente religiosa, quer da parte social da doutrina católica. É ao menos o que se pode deduzir do fato de que não chegou até nós nenhum sintoma de reconciliação entre os católicos russos e o governo de Stalin. Este silêncio é de per si muito significativo.

Mais significativo ainda é o fato de que, estabelecida a reconciliação com os cismáticos, os sovietes começaram a impor aos católicos romanos da Ucrânia, sob pena de morte, a conversão ao culto cismático. Este último fato foi tão notório e repetido, que provocou soleníssimo protesto do Sumo Pontífice, em alocução publicada na "Acta Apostolicae Sedis", de que o LEGIONÁRIO deu notícia a seus leitores.

Esta perseguição se explica. Desde que o governo russo sentiu que não poderia atrair para o ateísmo as massas eslavas, resolveu mover para a esquerda o próprio corpo docente da Igreja cismática, fazendo o comunismo entrar no âmago da população, não mais pela boca dos agentes dos "Sem-Deus", mas pela boca dos padres, bispos e arcebispos cismáticos. Manobra eficientíssima de alta "Quinta-colunagem", como se vê. Dado este passo, por um itinerário ideológico de que pouco abaixo daremos notícia, não será difícil chegar à completa descristianização do povo.

Ora, desde que os católicos se recusaram pertinazmente a aderir à torpe manobra, desde que não foi possível encontrar na Rússia ou países ocupados um só Prelado católico que se resolvesse a desempenhar este papel de Judas, qual seria a solução? Fazer funcionar contra os católicos as seções dos "Sem-Deus"? Como explicar a propaganda do ateísmo em um regime de reconciliação com os cismáticos? Seria muito mais simples forçar os católicos a aderir ao cisma. O caminho que vai do Catolicismo ao cisma é menor do que o que vai do Catolicismo ao ateísmo. Seria, pois, de outro lado, mais provável conseguir desagregar o bloco católico pela propaganda pro-cismática, do que pela propaganda atéia. Tudo somado, o governo soviético ficava muito naturalmente colocado no papel de paladino do cisma contra a Igreja Romana.

Esta atitude por sua vez, prestou-se a novos desdobramentos. Em toda a Europa oriental, e boa parte da Europa Central, os católicos lutam energicamente com os cismáticos, mais ou menos como na Europa central, ocidental e na América, lutam com os protestantes. Reacendendo a tradicional disputa entre católicos e cismáticos, o governo soviético se beneficia de toda a popularidade que daí lhe advém nas imensas populações separadas de Roma, em virtude da apostasia inicial dos gregos.

Tudo isto explica muito bem que uma das acusações mais fortes e insistentes que se fizeram contra Mons. Stepinac foi a de que ele promoveu conversões forçadas de cismáticos ao Catolicismo. É o governo comunista de Tito assumindo, por meio de uma mentira despudorada, a liderança da reação cismática contra a Igreja Católica.

Mas, dir-se-á, os soviéticos não recearão que sua cooperação com os cismáticos retarde de muito o processo de descristianização das massas?

Uma das respostas que se poderia dar a esta pergunta seria que de há muito a Igreja cismática vem sendo trabalhada pelas mesmas correntes racionalistas que corroeram até as próprias vísceras do protestantismo. E, assim como hoje em dia o protestantismo oficial deixou de admitir em geral a divindade de Jesus Cristo, e às vezes os protestantes mais graduados chegam a pôr em dúvida a existência de um Deus pessoal, assim também nas Igrejas cismáticas o dogma se conserva apenas na aparência, e se vai transformando cada vez mais em um símbolo oco de crenças mais recentes... e descrentes. Não será difícil ao governo soviético acelerar esta evolução, promovendo a nomeação de bispos simpáticos às idéias racionalistas e novas. Assim, de passo em passo, a Igreja cismática, que já começou a ser um instrumento de propaganda dos sovietes, vai cada vez mais sendo um meio de profunda descristianização do povo.

* * *

Outra acusação feita a Mons. Stepinac foi de colaboração com os alemães. Em quase toda a Europa, a propaganda esquerdista, manifestamente inspirada por Moscou, move ativa campanha contra o Episcopado da Alemanha, da Áustria, da Itália, da França e de Portugal, a quem acusa de ter colaborado com o totalitarismo. Na detestável confusão que campeia na Europa, até mesmo certos católicos endossaram esta acusação. Graças a Deus, porém, a campanha foi morrendo por si mesma. O processo de Mons. Stepinac serve de excelente oportunidade para reavivar o assunto, e reacender a oposição intencionalmente dirigida contra os Prelados católicos, e particularmente aqueles que com maior insistência combatem o comunismo. Bastará que algum Bispo europeu enfrente os vermelhos com energia maior, para que contra ele se atire todo o arsenal de calúnias já popularizadas e credenciadas (em certos círculos, é claro) pelo processo de Mons. Stepinac.

Entretanto, seria de prever que, dada a atitude enérgica do Vaticano, o processo tivesse ao menos um contra-efeito salutar, acendendo a vigilância dos católicos do mundo inteiro contra o comunismo, e mostrando-lhes a inutilidade de qualquer colaboração com os vermelhos. Infelizmente, este contra-efeito não se registrou. Um marasmo quase geral domina a opinião católica no mundo inteiro. Já o fizemos notar quando comentamos a virtual exclusão do Papa, da conferência de Paris e a indiferença da opinião católica para o fato.

Se Mons. Stepinac, em lugar de ser Arcebispo católico romano de Zagreb fosse mufti ou rabino daquela cidade, as coisas não se passariam de modo muito diverso quanto à reação da opinião de grandes porções da massa católica. E assim, a propaganda soviética, que lucra tanto e por tantos lados com o processo criminoso contra Mons. Stepinac, não sofre com ela o menor prejuízo.

Cardeal Alojzije (Aloísio) Viktor Stepinac (1898-1960), beatificado em 1998


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