Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

O primeiro marco

 

 

 

 

 

 

 

“O Legionário”, N.º 147, 10 de junho de 1934

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A Constituinte acaba de aprovar as emendas católicas. É tempo, pois, que estacionemos por instantes aos pés deste marco de vitória, para contemplar com olhar saudoso as lutas desta primeira etapa percorrida.

Não é só um olhar de saudade para o que fica atrás de nós, que devemos a este curto passado de ação católica que a Providência quis tornar tão rico em frutos. Ele se nos apresenta carregado de lições para o futuro e, na vasta coleção de reminiscências que nos saltam à memória, tão vivas neste momento como se ainda fossem realidade presente, há sem dúvida um complexo de rosas e de espinhos, colhidos ao longo do caminho, que contém, no perfume de cada pétala ou na dor de cada espinho, uma lição experimental de psicologia ou de sociologia a aproveitar.

Mais ainda. Podemos já agora cravar no caminho o marco da primeira vitória, com o coração transbordante de júbilo triunfal do “Magnificat” [nota: cântico da Bem-aventurada Virgem Maria; usa-se para significar um hino de júbilo] das grandes conquistas. Não cedamos porém ao desejo de fixar nossas tendas neste primeiro Tabor; não façamos dos louros, hoje, a sepultura gloriosa de nossas energias de ontem. A própria linha ascensional e íngreme da vereda que acabamos de trilhar nos mostra que são árduos os caminhos que conduzem às vitórias de Deus. Novas ascensões nos esperam. Novas tempestades se adensam em horizontes ainda longínquos. Há tocaias novas ao longo de novos caminhos. Alerta, pois, que vencemos uma batalha e não uma guerra. Outras batalhas aí estão. O momento é de alegria sã e vibrante. Longe de nós a indolência emoliente dos que já se dão por satisfeitos.

Isto posto, porém, deixai-nos recordar.

Quem haveria de dizer?

Foi esta a interrogação que ouvi dentro de mim mesmo quando, aprovada nossa emenda final, a do art. 171, eu tirei das costas a cruz pesada que se transformava, nas mãos dos deputados católicos, em palma de vitória.

Conversando comigo em um momento de lazer, ponderava com razão Alcântara Machado que a nova Constituição será grande, principalmente pelo que não figura nela.

Retificando de certo modo o juízo do líder, posso dizer que a Constituição é grande até pelo que nela se deixou de dizer.

Um país saído do tufão sinistro de 30 e das labaredas heróicas mas tremendas de 32, se apresentava para as eleições de 33 inteiramente esgotado de energias conservadoras ou reacionárias. Sobre as ruínas do Brasil soprava apenas o vento gélido do espírito revolucionário. Estava vencido o tenentismo. Mas a ordem legal constituída ameaçava cair como cadáver exangue sobre o vencido que se agitava febrilmente nos estertores da agonia.

Assim era o Brasil.

E quando todas as nações do mundo esperavam ver uma nova China na América do Sul, o Brasil se reergue de seus escombros como nova fênix, tirando do seio de seus filhos uma Constituinte sensata e laboriosa que, entre trovoadas de conspiratas militares que roncavam surdamente no horizonte e a incompreensão de um povo mal informado por uma imprensa incontentável, elaborou um pacto constitucional que se não é uma obra prima de alfaiataria jurídica, como o de 91, é ao menos uma roupa de caboclo decente, que veste muito melhor nosso corpo caipira do que um frack londrino, que nos daria quando muito um ar de camelô, e nunca a allure [as maneiras, o porte ] de um gentleman.

Se a Constituição de 91 foi elegante na forma, ela foi um fracasso no fundo. Coerente no seu liberal laicismo, ela foi até o fim de seu caminho doutrinário, fechando, para isto, os olhos ao Brasil.

A realidade vingou-se dos sonhadores. E tivemos o crepúsculo de 30/34.

Neste momento em que muitas críticas justas e apaixonadas se erguem contra a atual Constituição, ainda é cedo para lhe ver as grandes qualidades.

Um dia, porém, falará o futuro. E ele fará justiça aos legisladores de 34.


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