Ainda a Aliança Nacional Libertadora

“O Legionário”, N.º 173, 9 de junho de 1935

 

Dissemos em nosso último número algumas palavras sobre a Aliança Nacional Libertadora, recordando especialmente o que se espera dos católicos na chamada “questão social”. Há, porém, muito mais a dizer e principalmente depois de apontar com documentos aliancistas o que é a ANL, chamar a atenção do governo e dos representantes da Nação, que têm assento nas Câmaras, Estadual ou Federal, para essa organização. É a ANL perigosa para o Brasil, revolucionária e comunista? Respondam o resumo de um comício por ela promovido no Rio, e notas de um artigo publicado em um de seus jornais, “A Manhã”, também do Rio de Janeiro.

Foi desfraldada no referido comício, a bandeira nacional que acompanhou a coluna Prestes, em sua marcha pelos sertões do Brasil; uma coisa afirmamos entretanto, sem receio de errar: não o foi para honrar a nossa pátria, e sim, para homenagear o chefe declaradamente comunista da ANL, Luiz Carlos Prestes. Nesse comício defendeu-se a unidade  sindical, portanto o sindicato único socialista, como se tem organizado aqui, negando-se existência ao sindicato que declare ter confissão religiosa ou que alegue outra ideologia política; combateu-se revolucionariamente a guerra imperialista do Chaco, e um membro do Sindicato dos Professores protestou contra o ensino religioso nas escolas, enquanto o estudante Carlos de Lacerda disse que “nem os bonecos de galões nem os bonecos de papel de imprensa... etc., poderão deter a massa na conquista dos direitos que ela exige... A massa passará esmagando os “bonecos””. Note-se a sinceridade dos Aliancistas que empunham uma bandeira brasileira e ao mesmo tempo chamam de “boneco” o Exército Nacional, guarda e defensor desse pavilhão!... E o interessante é que há militares filiados à ANL, constituindo uma confirmação daquelas antigas declarações do general Góes Monteiro sobre os elementos dissolventes que existem no Exército.

Só isso? Não! Os jornais que obedecem à orientação política da ANL batem todos as mesmas teclas de revolução, de opressão, de anarquia, e em todos eles a colaboração é extremista. Assim, o já muito conhecido Sussekind de Mendonça, escrevendo na “A Manhã”, sobre a “União Feminina”, organização extremista anexa à ANL, critica todas as outras organizações da mulher brasileira porque estas, diz, são “focos de um reacionarismo insuportável” e “se dispõem a fazer caridade, com grandes tabuletas em latim, seus benefícios nunca chegam à massa anônima das necessitadas - ficam no meio, distribuídos por tamina com caráter ostensivo e odioso de favor, às portadoras certas de bilhetes numerados pelo zelo fiscal das sacristias. E continua Sussekind: “se propõem a fazer obra social, ainda que se subordinem declaradamente a trabalhar por tudo o que concorra para o progresso feminino, seu primeiro cuidado é ficar bem com Deus, com a Pátria e com a Família, tanto vale dizer: a não contrariar os interesses da Santa Madre Igreja Católica Romana, a aplaudir todas as bobagens que cisme de ensaiar o Parlamento e as outras mais Autoridades Constituídas e a fazer causa comum com todos os que se oponham ao divórcio, à proteção às mães solteiras, ao reconhecimento ilimitado de todos os filhos ilegítimos, à supressão da infirmitas, e à proscrição definitiva da tutela odiosa às mulheres casadas, isto é, precisamente a tudo o que procure destruir o atraso feminino”.

São textos perfeitamente esclarecedores da atitude de uma organização, que não engana a ninguém sobre os fins que procura. Não vamos refutá-los aqui, porque não é esse agora o nosso fim. Trazemos apenas a demonstração escrita de que a ANL é uma organização revolucionária pois, “esmagará os bonecos de galões” (Exército), e é inimiga do regime, e da Pátria (combate o ensino religioso que é estabelecido pela Constituição de 16 de Julho, luta contra a família, batendo-se pelo divórcio, quando a mesma Constituição a declara indissolúvel, critica as mulheres que se apoiam em Deus, na Pátria e na Família etc.). Que deve fazer então o governo? Permitirá a sua livre expansão, deixando que ela produza todo o mal que já se pode prever? Não! Se muitas vezes para evitar um mal maior ele dever permitir que certas organizações continuem a existir, não é este o caso da ANL que procura evidentemente “violar a justiça e minar as bases mesmas da vida social”, razões estas que Rossignoli acha suficientes para que uma associação seja proibida. E Leão XIII, na Rerum Novarum”, não é menos explícito: “Por certo, que a máxima parte dos operários quereriam melhorar de condição por meios honestos, sem prejudicar a ninguém; todavia não poucos há que, embebidos de máximas falsas e desejosos de novidades, procuram a todo custo excitar tumultos e impelir os outros a violências. Intervenha portanto a autoridade do Estado, e, reprimindo os agitadores, preserve os bons operários do perigo da sedução e os legítimos patrões de serem despojados do que é seu... O remédio portanto, nesta parte, mais  eficaz e salutar, é prevenir o mal com a autoridade das leis, e impedir a explosão, removendo a tempo as causas de que se prevê que hão de nascer os conflitos entre os operários e os patrões”. Esse, portanto, o dever dos nossos governos diante da ANL, e se eles não o cumprirem serão grandemente responsáveis pelo que vier a suceder.

Não basta, porém, uma atitude policial: Leão XIII lembrou aos governos todos os seus deveres para com as classes desprotegidas, e são esses deveres que Pio XI, resume na Encíclica Quadragésimo Ano: “Quanto à autoridade civil, Leão XIII, ultrapassando com audácia os confins impostos pelo liberalismo ensina impertérrito que ela não deve limitar-se a tutelar os direitos e a ordem pública, mas antes fazer o possível para que as leis e instituições sejam tais... que da própria organização do Estado dimane espontaneamente a prosperidade da nação e dos indivíduos (...). Aos governantes compete defender toda a nação e os membros que a constituem, tendo sempre cuidado especial dos fracos e deserdados da fortuna ao proteger os direitos dos particulares. Porquanto a classe abastada, munida de seus próprios recursos, carece menos de auxílio público; pelo contrário a classe indigente, desprovida de meios pessoais, esteia-se sobretudo na proteção do Estado. Por conseguinte deve ele atender com particular cuidado e providência aos operários, visto serem eles no número da classe pobre”.

Representam essas palavras a obrigatoriedade em que os governantes se acham de desenvolver uma política social ativa, organizando a proteção eficiente e real do operário em “sua alma, em sua saúde, forças, família, casas, oficinas, salário, acidentes de trabalho; numa palavra, em tudo o que interessa à classe trabalhadora, principalmente às mulheres e crianças”. É o que quer Pio XI e que constituindo uma obrigação para os governos representa também a salvação da sociedade cristã.