Nossa missão

“O Legionário”, N.º 176, 21 de julho de 1935

 

A mocidade católica de São Paulo assumiu, no dia 16 de julho, perante o Brasil, uma responsabilidade que não poderá mais declinar, sob pena de felonia e traição. Em um momento de dúvidas e de apreensões, não vale a pena fechar os olhos à verdade: nosso país está desabando. Tudo, desde os alicerces até à cumieira, está sendo agitado por movimentos telúricos que, dia mais dia menos, poderão prostrar em terra todo o edifício. Gritam os políticos de todos os matizes, afirmando em altas vozes, que detêm a panacéia capaz de salvar o País. Os políticos novos lançam a culpa aos políticos velhos, responsabilizando-os pela situação. Os políticos velhos, por sua vez, denunciam a turbulência dos políticos novos como a causa única da agitação. E, nesta recíproca difamação, nestas discussões estéreis, nestas competições de correntes e de partidos, em que quase sempre o interesse e a vaidade individual levam  de vencida os interesses coletivos, se consome um tempo precioso, que deveria ser empregado em introduzir no organismo social os remédios indispensáveis para que não venha, de um momento a outro, a perder completamente o pulso.

Neste ambiente de angústia e de terror, quando todo o Brasil sensato - pois que ainda existe um Brasil sensato, que sofre calado enquanto vociferam os políticos e discutem os economistas - procura alguma coisa que lhe sirva de tábua de salvação, surge uma esplêndida manifestação como a de 16 de julho, que vem autorizar inesperadamente, no meio de tantas decepções, as mais ousadas esperanças.

Até este momento, as esperanças nacionais se tem voltado, alternativamente, para os homens ou para leis.

Era crença geral de que a salvação pública só poderia provir de um grande homem ou de um regime salutar.

E eis que surge a mocidade mariana a afirmar que não é no prestígio de um único homem, nem na mera eficiência de regime algum que se pode encontrar o bom caminho. Que, mais do que de um grande homem ou de um bom regime, o Brasil precisa de uma doutrina, e que esta doutrina não pode ser encontrada senão na Verdade por excelência, que é o Catolicismo.

O Brasil não pode ser salvo apenas por um grande homem, porque é mister que, na obra de salvação, colaborem todos os brasileiros. Efetivamente, é indispensável que a salvação do Brasil comece pela salvação de cada brasileiro, e que, do esforço de todos nós, no sentido de nos tornarmos maiores e melhores, nasça efetivamente um Brasil maior e melhor.

O Brasil não pode ser salvo apenas por um regime, pois que, assim como a um bolo não basta ser colocado dentro de uma bela fôrma para ser saboroso, mas é necessário que sua massa seja boa, assim também a uma nação não basta uma disposição engenhosa das diversas partes do organismo social, mas importa principalmente que estas partes sejam sãs.

Exatamente, por isto, o artigo primeiro do programa que proclamamos no pátio do Liceu Coração de Jesus, se refere à nossa própria santificação. A legião mariana não se levanta, apenas, com palavras e programas, para salvar o Brasil. Ela se levanta com uma obra já realizada, que é a da nossa moralização individual, que faz de cada um de nós um elemento perfeitamente são, na vida social. É pela reforma interior, pois, que iniciamos a reforma política e social.

O grande traço característico, pelo qual a mocidade católica se diferencia portanto de todas as correntes que desejam salvar o Brasil é a impersonalidade de seu movimento, que não nasceu e nem se apoia no prestígio de nenhum grande homem, e não espera da mera ação de algum regime-panacéia, mas que se estriba na força de uma grande idéia, espera tudo do esforço geral dos brasileiros, coadjuvados pela onipotente graça de Deus.

É este o esplêndido programa que levamos na cruzada a que nos chama a Providência.

* * *

Porém, não é em vão que a Providência confia a uma falange de moços uma tão sublime missão. Conhecer a verdade e propagá-la é uma tarefa que exige uma vida de sacrifício e de abnegação.

Conhecer a verdade e propagá-la! O que de mais venturoso e de mais nobre, em um mundo em que tantos ignoram a verdade e gemem no erro! Em um mundo em que tantos combatem a verdade e vibram de ódio!

Um escritor francês, Claudel se não nos enganamos, conta de um cego que, postado a um canto de uma rua movimentada, a todos os transeuntes perguntava: “Ó vós, que conheceis a verdade, o que fazeis dela?”.

A mesma pergunta fará o Brasil de amanhã à nossa mocidade católica: “Ó vós, legião de moços ardentes e fortes, ó vós que conheceis a verdade que tantos procuravam sem lograr encontrá-la, o que fizestes dela?”. E a resposta que nos ditar nossa consciência será a sentença que sobre nossa ação terá proferido a História.