O Caso de Eduardo de Windsor

 

“O Legionário”   n.º 222, 13 de dezembro de 1936

 

Ao escrevermos o título desta nota, a própria expressão de que nos servimos nos causa pasmo. Um “caso” com o Rei da Inglaterra! A autoridade temporal mais firme, mais antiga, mais respeitável que o mundo contemporâneo conhece!! E é com esta autoridade que surge um “caso”, “caso” íntimo, de natureza rigorosamente moral, que está ameaçando de se envenenar ao contato com interesses políticos e, quem sabe, abalar irremediavelmente a secular monarquia inglesa!

No momento em que os vagalhões da revolução comunista ameaçam o mundo inteiro, em que uma onda de revolta contra todos os poderes constituídos põe em cheque a autoridade de todos os monarcas e chefes de Estado, com que olhos a Igreja Católica, essencialmente tradicionalista, vê o Trono da Inglaterra?

Não é fácil responder.

A ilha dos Santos

Antes de Henrique VIII, a Inglaterra era um dos mais sólidos baluartes da Igreja Católica. Em toda a vida intelectual, artística, política e social, a influência dos princípios católicos era profunda. O número de Santos nascidos em território inglês foi tão grande que a Inglaterra chegou a chamar-se a “Ilha dos Santos”.

Características particularmente salientes desse vigoroso espírito católico eram exatamente o apego profundamente sincero do povo à autoridade do Rei e, ao mesmo tempo, a altivez com que o mesmo povo se insurgia contra todas as tentativas da Coroa tendentes a transformar a monarquia em tirania.

A luta dos ingleses por suas liberdades, luta que foi tão desfigurada pelos historiadores acatólicos, traz o estigma característico do espírito católico: um grande respeito à autoridade e um grande amor à justiça. Amantes da autoridade, os ingleses, antes de Henrique VIII, nunca chegaram a tentar a destruição da monarquia, mesmo quando lutavam pela sua liberdade. Amigos da justiça, sempre reivindicaram seus direitos sem que seu respeito à autoridade lhes tolhesse a liberdade de ação.

A História medieval inglesa não conhece a maior parte das abominações que conheceu a História da França, da Alemanha ou da Itália no mesmo período (abominações que, seja dito de passagem, são insignificantes perto das que assiste o mundo contemporâneo).

As jaqueries”, em que os camponeses queriam exterminar os senhores feudais, as revoluções em que os nobres queriam exterminar a realeza, e as lutas em que a realeza procurava aniquilar os direitos do povo e da nobreza, tiveram na Inglaterra um aspecto imensamente mais benigno e mais razoável. O feudalismo inglês, modelo admirável de inteligência administrativa, foi o mais perfeito regime político da Europa medieval. É nele que se deveria estudar a verdadeira história do feudalismo.

Nas lutas dos barões e do povo com os reis, as desinteligências existentes a respeito do governo da Inglaterra acabaram por se resolver definitivamente. E surgiu, com o bafejo da Igreja, a estrutura política mais firme que a Europa tenha conhecido até hoje.

O Defensor da Fé – o “mais sujo de todos os porcos”

Uma crise de caráter íntimo e passional veio por em jogo a estabilidade desse admirável edifício, todo ele alicerçado e cimentado pelos princípios católicos.

O Rei Henrique VIII, fazendo-se intérprete do sentimento do povo inglês, escreveu uma obra de refutação do protestantismo, que começava a por em fogo a Alemanha. O Papa, reconhecido pela intervenção do Rei, outorgou-lhe o honroso título de “Defensor da Fé”. E Lutero, indignado com Henrique VIII, o chamava “o mais sujo de todos os porcos”.

Mas acontece que Henrique VIII sentiu em si a mesma fraqueza que arrastou David ao pecado e Salomão à perdição.

Um romance - digamos assim, para não dizer coisa pior - se havia formado na vida do Rei. Desejava ele anular seu casamento com a Rainha, sua esposa, para contrair núpcias com outra dama de sua corte. Não conseguindo do Papa a anulação do casamento, ficou colocado em um cruel dilema: ou renunciar à Fé ou renunciar ao “romance”. Renunciou à Fé. Fez-se protestante o “Defensor da Fé”. E o protestantismo abençoou a união ilícita daquele que recebera a alcunha de “mais sujo de todos os porcos”, simplesmente por ter atacado a pseudo-reforma.

A ruptura

No que precede, nossos leitores já terão encontrado alguma analogia com a última crise inglesa. É curioso notar que Henrique VIII também encontrou em Tomas Morus, seu primeiro Ministro, um adversário irreconciliável de seu casamento. Profundamente católico, Tomas Morus recusou-se a abjurar a Fé. Foi condenado à morte. Sofreu o martírio. E hoje brilha nos altares da Igreja Universal, com a auréola da Santidade.

Sem querer atribuir à analogia outro alcance do que o de uma simples coincidência, julgamos interessante mostrá-la a nossos leitores.

A ruptura com Roma

Rompendo com o Catolicismo, Henrique VIII teve a preocupação de conservar na igreja anglicana o máximo de verdades religiosas professadas pela Igreja Católica. Repudiou tão somente o que lhe pareceu indispensável para negar a supremacia do Pontífice Romano e justificar o divórcio.

Este fato explica como, diante da verdadeira decomposição do protestantismo, que hoje em dia confina com o racionalismo e com o ateísmo, e que até tem seitas comunistas que se afirmam cristãs (!), o anglicanismo permanece aparentemente coeso e disciplinado.

 Ao mesmo tempo, é isto que explica como, tendo a monarquia rompido com a Igreja Católica, ela ainda conservasse uma pujança realmente contraditória com a semente de anarquismo que está no fundo da doutrina protestante.

A relativa fidelidade do anglicanismo ao Catolicismo produziu, com o tempo, todos os seus frutos lógicos.

As sementes de Catolicismo que o anglicanismo conservou foram a seiva que até agora circulou na estrutura do Estado britânico, e que manteve coesa a igreja anglicana.

As sementes de protestantismo que o anglicanismo adotou produziram os frutos de anarquia que lhe são próprios. A Revolução que destituiu Calos I foi um prelúdio. De lá para cá, lentamente, a desagregação das instituições monárquicas se tem acentuado mais e mais. A luta entre o fator “ordem católica” e o fator “anarquia protestante” na doutrina anglicana, se projetou no terreno político, com a luta entre o fator “amor à liberdade” (que o protestantismo transformou em amor à anarquia) e amor à autoridade (que é o apego à monarquia). As duas tendências se tem combatido em uma luta de todos os momentos. E é por elas que se explica a

Grandeza e decadência da monarquia

Grandeza, porque nenhum poder temporal está, hoje em dia, colocado mais alto. Firmado em um princípio, e não em uma situação de fato como o nazismo, o poder do monarca inglês não se alicerça sobre um entusiasmo de momento, mas sobre um profundo amor da multidão a uma dinastia ligada à História do País.

Decadência, porque este poder, de aparência tão magnífico, é apenas um vestígio do que foi outrora, uma reminiscência histórica nos quadros constitucionais ingleses.

Poucos são, hoje em dia, os homens que recebem reverências e tantas manifestações de respeito quanto o Rei da Inglaterra. E, no entanto, poucos são os chefes de Estado mais privados de reais atribuições na vida política do País.

O clero anglicano

O clero anglicano se encontra em situação análoga à da realeza. De todas as seitas protestantes, é a mais organizada. E, no entanto, é simplesmente tremenda a anarquia que lavra nas suas fileiras. Conservando as exterioridades litúrgicas tradicionais, tão parecidas com o catolicismo, o anglicanismo a deixou invadir por um modernismo tremendo que repugna a alguns dignitários da igreja anglicana, mas contra os quais estes sentem que não podem reagir, pois que os princípios protestantes não lhe autorizam qualquer reação eficaz.

Há pastores anglicanos – o fato é relatado por um deles – que são ateus! Há bispos que são maçons. Ainda há pouco, a igreja anglicana pactuou com uma das “conquistas” mais censuráveis do modernismo que é a limitação da natalidade, que, depois de longa resistência, ela acabou por admitir.

A visto disto, a igreja anglicana está visivelmente cindida em duas correntes, uma que caminha para a volta à Igreja e outra que caminha para o racionalismo.

A crise inglesa

No início de todo este processo de decadência, o “caso” de um rei. Na véspera da crise final de nossa civilização, nessa hora que Maquiavel chamaria a “hora 23” de nossa civilização, o “caso” de outro rei a dar-lhe talvez o golpe fatal. Foram numerosas e fundamentais as questões que a crise real pôs na ordem do dia.

Em primeiro lugar, a atitude dos bispos que protestaram contra o casamento do rei com uma divorciada significa uma posição de reação do anglicanismo contra o divórcio, por cuja aceitação Henrique VIII rompeu com Roma. Fato enorme na vida religiosa da Inglaterra. Fato de uma incoerência quase monstruosa, se ele não significasse o anseio sincero para uma perfeição que ficou irremediavelmente perdida com a separação de Roma.

Em segundo lugar, ela vem suscitar a questão da separação da igreja e do Estado, questão delicadíssima que põe em cheque a própria coroa, pois que o Rei da Inglaterra é o chefe espiritual e temporal de seus súditos. Separadas as suas atribuições espirituais das temporais, em que situação ficaria ele?

Em terceiro lugar vem a crise constitucional. Muitos extremistas da direita quereriam que o Rei aproveitasse a oportunidade para se transformar em um Hitler ou um Mussolini coroado, que fechasse o Parlamento, extinguisse o regime liberal-democrático e fosse um novo Luiz XIV, ao qual não faltaria, na pessoa de Miss Simpson, a respectiva Montespan.

Outros, desgostosos com a atitude real, que põe em risco as próprias tradições morais e nobiliárquicas que são o fundamento da monarquia, chegaram em sonhar em revolução.

Enquanto isto, não dormem os comunistas.

A atitude dos católicos

A Igreja Católica vê com simpatia a monarquia inglesa.

Ao contrário do que se poderia supor, a Igreja tem mais de uma vez trabalhado para a consolidação do trono inglês quando jugulou as tendências republicanas do povo irlandês. É que na Inglaterra a monarquia é filha da Igreja. Filha rebelde, está sofrendo o necessário castigo. Mas, como Deus que A ilumina, a Igreja “não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva”. Por esta razão procura manter a monarquia e tudo aquilo que há de são no regime inglês.

É, pois, com profundo pesar que a Igreja assiste ao rumoroso caso motivado pelas relações de Eduardo VIII com Miss Simpson. E foi grande seu contentamento pela feliz solução encontrada.

Pesar, porque a Igreja censura, senão explicitamente ao menos tacitamente, o rei da Inglaterra. Ela que é o único baluarte da indissolubilidade do casamento no mundo, Ela que perdeu a Inglaterra para manter essa indissolubilidade, não pode, não quer e não deve aprovar o gesto do rei.

Mas essa reprovação não importa em um gesto de desrespeito à majestade da autoridade real.

Poderia a Igreja aproveitar-se da oportunidade para perguntar aos anglicanos se Eduardo VIII é muito melhor do que alguns Papas de que tantos protestantes gostam de falar. Chefe de igreja, sua responsabilidade é também religiosa. E Eduardo VIII não pode ignorá-lo.

Mas a Igreja silencia a esse respeito. É que, numa situação de tanta dor para a Inglaterra, a Igreja não impunha o látego do verdugo para ferir a heresia e a majestade do poder constituído.

Como pai da parábola, Ela só tem, para a antiga Ilha dos Santos, um gesto: o de abrir os braços ao filho pródigo.

É, pois, com verdadeiro júbilo que Ela vê subir ao Trono um casal principesco já popular, em todo o império, pela autoridade de suas virtudes domésticas.

Recusando Miss Simpson como rainha, a Inglaterra deu um passo para trás no caminho do divórcio.

Seja este passo seguido, em breve, por outros que a reconduzam quanto antes à Casa Paterna.