Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Reflexões em torno

da Revolução Espanhola

 

 

 

 

 

“O Legionário”, N.º 224, 27 de dezembro de 1936

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É curioso notar as diversas atitudes que têm tomado a opinião pública a respeito da Revolução Espanhola. Há, em primeiro lugar, os que acham que a Revolução é ilegítima porque investe contra um poder legitimamente constituído, como seja o do Sr. Azaña. Mesmo sem discutir a legitimidade do governo espanhol, que é discutibilíssima, essa opinião tem um cunho de ingenuidade quase escandalosa.

Realmente, parece pasmoso que se vá invocar o princípio de autoridade para apoiar um governo que chamou a si a sinistra tarefa de desorganizar toda a vida política e social da Espanha. Essa obra de geral anarquização tinha como escopo evidente facilitar a infiltração comunista na Espanha. O governo do Sr. Azaña não era um governo, pois que seu programa era o desgoverno. E, portanto, nenhuma obediência lhe era legitimamente devida.

Mas há gente mais ingênua ainda. Não invoca o princípio de autoridade. Mas invoca a caridade cristã. Há quem entenda que, uma vez que Jesus Cristo perdoou seus adversários e aconselhou que estendêssemos o outro lado do rosto a quem nos desse uma bofetada, a vocação dos católicos consiste em morrer, ceifados como carneirada inútil, pela metralhadora dos revolucionários comunistas.

Realmente, Jesus Cristo recomendou o perdão. Mas o perdão para o pecador arrependido. Só depois do arrependimento da Madalena, Ele lhe perdoou os pecados. Com os pecadores impenitentes, os que recusam a obediência à voz de Deus que os chama à penitência, o Cristo tem outra conduta: a que lemos na passagem evangélica dos vendilhões do Templo.

Quanto à legítima defesa, é um dever. Ninguém pode permitir que a Cristandade seja dizimada por uma quadrilha de malfeitores. Ninguém pode consentir em que as coisas sagradas, os lares, os monumentos, sejam reduzidos a um montão de cinzas. Ninguém tem o direito de cruzar os braços, quando a honra das virgens consagradas a Deus sofre horrendos atentados, por causa da cupidez de alguns monstros.

Falar em sentimento cristão de tolerância, de indulgência, de benignidade, em relação aos comunistas é, pura e simplesmente, pregar a traição, a covardia, a deserção, em nome de Jesus.

Não menos blasfema é a atitude dos que se preocupam tão somente com a paz. Há verdades duras de serem ouvidas, mas que purificam as almas que as recebem. Uma delas é a seguinte: por mais preciosas que sejam todas as vidas que se estão perdendo na Espanha, por mais deploráveis que sejam todos os padecimentos que enlutam a Pátria de Santa Teresa, tudo isto é uma insignificância em comparação com a grandeza da causa que está em jogo.

O que na Espanha se discute é se o mundo deve ser governado por Jesus Cristo ou por Karl Marx. Toda a civilização católica, todos os princípios de moral, todas as tradições, todas as instituições de que se orgulham os ocidentais, desaparecerão irremediavelmente se vencer o comunismo. A luta da Igreja contra os “sovietes” é a luta de Deus contra o demônio, de tudo quanto há de nobre contra tudo quanto há de ignóbil, de tudo quanto há de bom contra tudo quanto há de mau.

À vista disto pergunta-se: não é muito e muito bem empregado o sangue que se está derramando na Espanha, se da efusão desse sangue de mártires resultar a vitória da civilização contra a barbárie?

Pensar que a Igreja Católica se ocupa ou deve ocupar-se tão somente com a pacificação do mundo, poupando a efusão de sangue sem olhar para os resultados de uma Paz intempestiva, é dizer que a Igreja deve renunciar à defesa dos interesses de Cristo, para salvar algumas vidas que, se não forem destruídas hoje, serão dia mais, dia menos, roubadas pela morte.

*  *  *

Mas, dirá muita gente, os telégrafos anunciam que o Santo Padre cogita de intervir na Espanha, para obter um armistício entre as tropas beligerantes.

Não sabemos até que ponto possa ser verdadeira esta notícia. No entretanto é indispensável, para que se conserve intacto o senso católico de nossos leitores, que eles compreendam que o Papa nunca interviria na Espanha com o exclusivo escopo de evitar a efusão de sangue, indiferente ao prejuízo que uma paz intempestiva acarretaria para a Espanha e a civilização. Se o Santo Padre realmente vier a falar em paz, é porque razões de ordem superior, todas elas hauridas no mais puro e intransigente amor à Igreja e à Espanha o levarão a isto. Nunca, porém, qualquer sentimento de humanitarismo mórbido seria capaz de ter influência em sua mentalidade de escol, amparada pela graça do Espírito Santo.

Muita gente dirá que estamos errados, porque em nossas igrejas têm sido feitas preces pela paz na Espanha, e não pelo triunfo dos revolucionários.

Bela objeção. Ela revela uma completa ignorância do “a-b-c” da doutrina católica.

Ninguém poderia, licitamente, dirigir a Deus a seguinte súplica: “Dai a paz à Espanha, ainda que a paz redunde em benefício para os comunistas, vossos mais rancorosos inimigos. Contanto que a paz reine na Espanha, pouco importa que eles persigam vossa Igreja, matem vossos ministros, destruam vossos templos. O que queremos é a paz”. Tal súplica seria uma blasfêmia. E nunca encontraria guarida no Coração infinitamente justo de Deus.

Quisemos chamar a atenção dos nossos leitores sobre este assunto, porque muita gente tem incidido em dois erros funestos a este respeito.

O primeiro erro consiste em supor que, porque nas igrejas se reza pela paz, a Igreja quer qualquer paz. Não, a Igreja só quer a paz que é, segundo diz S. Tomás, “a tranquilidade da ordem”. E nunca a paz resultante de uma semi-vitória do comunismo, o que seria, quando muito, a tranquilidade da desordem.

O segundo erro é mais funesto. Porque, se o primeiro revela falta de senso católico, este segundo revela indisciplina religiosa. A ninguém seria lícito censurar nosso Clero por rezar pela paz na Espanha. À boca pequena, correm em certos círculos censuras desse gênero. Tais censuras são filhas da ignorância. É preciso ver que sentido o Clero dá às suas súplicas pela paz.

Mas ainda que o Clero não tivesse razão, deveriam os católicos calar-se. Porque Jesus Cristo organizou sua Igreja de modo a que os Sacerdotes tenham autoridade sobre os leigos. E nunca os leigos sobre os Sacerdotes.

Nota: Os negritos são deste site.


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