Sete Dias em Revista

 

"O Legionário" Nº 215, 25 de outubro de 1936

 

Há uma observação que escapou inteiramente à imprensa quotidiana, mas que é nosso dever publicar. Enquanto os poderes públicos celebram a memória de Benjamin Constant, transcorreu no maior olvido o centenário do ínclito Visconde de Ouro Preto.

Estadista de uma envergadura incomparavelmente maior, com uma brilhantíssima folha de serviços ao Brasil, de uma moralidade ilibada e de uma cultura intelectual primorosa, Ouro Preto honra o país que o viu nascer.

Mas o centenário de Benjamin Constant foi muito mais festejado do que o seu. É fácil perceber o motivo: é que Ouro Preto não foi positivista, não combateu a Igreja, não serviu de títere ( ... ).

E basta isto, para que muito general Rabello que por aí anda se desinteresse dele.

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Parece que o Tribunal Especial está realmente disposto agora, a dar início às suas atividades. Aplaudimos calorosamente o ardor com que se estão fazendo as obras preparatórias de sua instalação.

Os católicos do Brasil inteiro devem erguer suas preces ao céu, para que a proteção divina assista aos brasileiros que integram o Tribunal, inspirando-lhes aquele senso reto e vigoroso da justiça cristã, em que a idéia da clemência e da misericórdia nunca chega a ponto de desarmar o Estado perante seus inimigos.

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Estão sendo descobertas, quase diariamente, as irregularidades toleradas e permitidas pela administração Pedro Ernesto.

Ainda há dias, a comissão de inquérito sobre a Sociedade Médico-Cirúrgica dos empregados municipais descobriu tão graves abusos, que sugeriu ao Sr. Prefeito Municipal o fechamento daquela sociedade.

É bom que os brasileiros vão registrando estes fatos.

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Chamamos a atenção de nossos leitores para a influência cada vez mais declarada e mais franca, que tem o Sr. Rosenberg (o nome é eloqüente), embaixador russo em Madrid, sobre as decisões do Sr. Azaña e seus companheiros.

Serve este fato para caracterizar os surtos comunistas, como uma verdadeira invasão de potência estrangeira, no território de outro Estado.

Deverão tomá-lo na devida consideração os nossos dirigentes.

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O Sr. Yvon Delbos, saudando o Sr. Saavedra Lamas no banquete que lhe ofereceu, lhe dirigiu estas palavras:

"V. Ex.a pertence, senhor ministro, à mais antiga linhagem argentina, porque seu bisavô - Cornélio Saavedra - foi o chefe do primeiro governo de sua pátria.

Os seus antepassados mais próximos também se distinguiram em serviços prestados ao país. Tal ascendência deveria concorrer, forçosamente, para fazer de V. Ex.a um dos maiores estadistas da atualidade e um dos mais eminentes jurisconsultos da nossa época."

É curioso observar como até nos lábios esquerdistas do Sr. Delbos se encontra uma crítica indireta ao excessivo igualitarismo da doutrina comunista. Se o fato de alguém pertencer a uma linhagem de políticos o predispõe à inteligente gestão dos negócios públicos, não é insano o regime que procura entregar a direção do Estado a proletários, filhos de simples trabalhadores manuais?

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O Sr. Hitler não abre mão de seu anti-semitismo feroz. Os telegramas nos informam que ainda agora o Chefe do Estado alemão está tratando de codificar as medidas penais que promulgou contra os que maculassem o sangue ariano, aliando-se matrimonialmente a judeus.

Preciso seria que, na Alemanha, surgisse um novo São Bernardo (*), que invocasse para o povo de Israel aquela misericórdia que nem a sua grande vítima lhe negou.

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A misericórdia, porém, não é cegueira. E as medidas de precaução contra os judeus comunistas se vão tornando cada vez mais indispensáveis.

Damos, a seguir, uma relação de passageiros comunistas presos a bordo do navio "Jamaica": é significativa. Ilse Wolff, Fritz Noa, Berthe Noa, Hans Noa e Rita Noa, Joaquim Rosenthal, Chihel Blitzblum, Beita Blitzblum, e Mozes Rotenstreich, Bernardo Rotenstreich e Felicitos Rotenstreich.

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(*) Nota: O Autor se refere ao fato narrado por Dom Jean-Baptiste Chautard em sua famosa obra "A Alma de Todo Apostolado": ao saber São Bernardo de Claraval que se queria massacrar os judeus da Alemanha, sem hesitar, deixou o claustro para acorrer na defesa deles e pregar uma cruzada de paz. Em um memorável documento que o Pe. Théodore Ratisbonne recorda (cfr. Histoire de saint Bernard, Perisse, Paris, 1984, 2 volumes), o grande rabino do país manifesta sua admiração para com o monge de Claraval "sem o qual - afirma ele - nenhum de nós teria permanecido vivo na Alemanha" (cfr. L'Ame de Tout Apostolat, Office Français du Livre, Paris, 1947, pag. 139).