Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

 

A Medianeira Universal

 

 

 

 

 

 

Legionário, N.º 455, 1º de junho de 1941

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Acima, Nossa Senhora do Milagre (Madonna del Miracolo), igreja Sant'Andrea delle Fratte (Roma)

No dia 31 p.p. celebrou a Santa Igreja a festa de Nossa Senhora, Medianeira Universal de todas as graças. Neste momento de aflições e de perigos, quando a humanidade inteira geme sob o peso de desditas que se multiplicam a cada momento, cresce nossas necessidades e mais prementes se tornam nossas preces. E, com isto, mais importante se torna que saibamos rezar bem. E poucas verdades da Fé concorrem de modo tão poderoso para valorizar nossas orações quanto a Mediação Universal de Maria, quando a estudamos seriamente e a fazemos penetrar a fundo em nossa vida de piedade.

* * *

No que  consiste essa verdade?

Ensina a Teologia que todas as  graças que nos vem de Deus passam sempre pelas mãos de Maria, de tal maneira que nada obtemos de Deus se Maria não se associar à nossa oração, e todas as graças que recebemos, as devemos sempre à intercessão de Maria. Assim, a Mãe de Deus é o canal de todas as preces que chegam até seu Divino Filho, é o caminho de todas as graças que Este outorga aos homens.

Evidentemente, esta verdade supõe que, em todas as orações que fazemos, peçamos explicitamente a Nossa Senhora que nos apoie. Esta prática séria é  sumamente louvável.

Mas ainda que não invoquemos declaradamente a intercessão de Nossa Senhora, podemos estar certos de que só seremos atendidos porque Ela reza conosco e por nós.

Daí se infere uma conclusão sumamente consoladora. Se devêssemos  confiar apenas em nossos méritos, como poderíamos confiar na eficácia de nossas preces? Conta-se que certa vez Nosso Senhor apresentou-se em uma visão a Santa Teresa de Jesus, trazendo nas mãos algumas uvas maravilhosas. Perguntou a Santa ao Divino Mestre o que significavam as uvas, e Ele respondeu que eram uma imagem da alma dela.

Olhou, então, a Santa detidamente para as frutas, e, à medida que as  examinava, sua primeira impressão, que fora magnífica, se desfazia, e dava lugar a uma impressão cada vez mais triste. Cheias de manchas e de defeitos, as uvas acabavam por parecer repugnantes à grande Santa. Compreendeu ela, então, o alto significado da visão. Mesmo as almas mais perfeitas tem manchas, quando atentamente examinadas. E quais as manchas que podem escapar desapercebidas ao olhar penetrante de Deus? Por isto, tinha muita razão o Salmista quando exclamava: “Senhor, se atenderdes a nossas iniquidades, quem se sustentará em vossa presença”?

E se não há quem não apresente manchas aos olhos de Deus, quem pode esperar com plena segurança ser atendido em suas orações?

Por outro lado, Deus quer que nossas preces sejam confiantes. Não deseja Ele que nos apresentemos ante Seu trono como escravos que se aproximam com medo de um temível Senhor, mas como filhos que se acercam de um Pai infinitamente generoso e bom. Essa confiança é mesmo uma das condições da eficácia de nossas preces. Mas como teremos confiança, se, olhando para nós, sentimos que nos faltam as razões de confiar? E se não temos confiança, como esperamos ser atendidos?

É das tristezas desta reflexão que nos arranca, triunfalmente, a doutrina da Mediação Universal de Maria.

De fato, nossos méritos são mínimos, e nossas culpas grandes. Mas o que não podemos alcançar por nós, temos todo o direito de esperar que as preces de Nossa Senhora alcancem.

E jamais devemos duvidar de que Ela se associe a nossas preces, quando convenientes à maior glória de Deus e à nossa santificação. De fato, Nossa Senhora tem a cada um de nós um amor que só de modo imperfeito pode ser comparado ao  amor que nos tem nossas mães terrenas. Diz o Bem-aventurado [posteriormente canonizado, n.d.c.] Grignion de Montfort que Nossa Senhora tem ao mais desprezível e miserável dos homens um amor superior ao que resultaria da soma do amor de todas as mães do mundo a um filho único.

Nossa Mãe autêntica na ordem da graça, a cada um de nós Ela nos gerou para a vida eterna. E a Ela se aplica fielmente a frase que o Espírito Santo esculpiu na Escritura: ainda que teu Pai e tua Mãe te abandonassem, eu não me esqueceria de ti. É mais fácil sermos abandonados por nossos pais segundo a natureza, do que por nossa Mãe segundo a graça.

Assim, por mais miserável que sejamos, podemos com confiança apresentar a Deus nossas petições: sempre que forem apoiadas por Nossa Senhora, encontrarão um valor inestimável aos olhos de Deus, que certamente obterá para nós o favor pedido.

Convém que meditemos incessantemente sobre esta grande verdade. Católicos que somos, devemos enfrentar nesta vida as lutas comuns a todos os mortais e, além disto, as que decorrem do serviço de Deus. Mas, ainda que os horizontes pareçam prestes a verter sobre nós um novo dilúvio, ainda que os caminhos se cerrem diante de nós, os precipícios se abram, e a própria terra se abale debaixo de nossos pés, não percamos a confiança: Nossa Senhora superará todos os obstáculos que forem superiores a nossas forças. Enquanto esta confiança não desertar de nosso coração, a vitória será nossa, de nada valerão os ardis de nossos adversários: caminharemos sobre as áspides e os basiliscos e calcaremos aos pés os leões e os dragões.


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