Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Comentando...

Caridade e serviço social

 

 

 

 

 

 

Legionário, 26 de março de 1944, N. 607, pag. 2

 

 

 Santa Isabel, Princesa da Hungria cuidando de doentes pobres

Certo vespertino desta Capital noticiou a aula inaugural do “Curso de Samaritanas”. Comentando o acontecimento, afirmou que as “Samaritanas” “não praticam a caridade, mas a solidariedade; não cultivam a dor, extirpam-na ou aliviam-na; não oferecem os tesouros da sua ternura nem os recursos dos seus conhecimentos especializados por dó aos infelizes; agem assim em cumprimento de um dever; o samaritanismo é um serviço social”.

Em nosso último número (O ocaso da Civilização), apresentamos uma porção de sintomas que indicam a iminência do soçobro da civilização no espírito humano. Afirmamos, mesmo, que o homem contemporâneo enfarou-se da civilização e lhe está voltando as costas.

Agora, acabamos de ver mais um sinal da desagregação espiritual do mundo. O homem contemporâneo não aprecia a caridade, a caridade lhe repugna, e ele lhe volta as costas. E, no entanto, a caridade é o mais alto valor da cultura, aquilo que faz com que o homem imite de mais perto a transcendência divina.

Para o homem contemporâneo, a caridade, a misericórdia não são deveres; para ele, só é dever o que pode ser exigido em justiça, e só é de justiça o que, de qualquer forma, pode ser exigido coativamente, de fato, pela autoridade. É assim que o comentarista do vespertino em questão termina o seu tópico:

“Foram invocadas naquela aula inaugural estas palavras de Miguel Couto: o vocábulo serviço deriva de servo – servitium abstractum a servo – e se aplicava na antiga Roma ao trabalho compulsório; o adjetivo que lhe jungiram (acrescentaram, n.d.c.) esclarece que esse trabalho há de ser prestado por toda a sociedade”.

Confirma-se, assim, o que afirmamos da última vez: o homem contemporâneo rejeita a liberdade como um fardo pesado, porque a liberdade implica em responsabilidade, em ônus de consciência, em dever de aperfeiçoamento contínuo, em afirmação dos valores da personalidade, em disciplina interior. Por isso, aqueles deveres que, como a caridade, só podem ser estritamente exigidos pela consciência de cada um, são desdenhados, e já nem são considerados deveres.

O homem contemporâneo só quer admitir o “serviço” em seu sentido pagão, trabalho que se tira dos escravos, como se Jesus Cristo, por pura e gratuita misericórdia não tivesse vindo ao mundo comunicar à humanidade encarquilhada e estéril a abundância da misericórdia: “Quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede, e a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte que correrá até à vida eterna”.

Mas o homem contemporâneo prefere a sua sede, prefere endurecer no orgulho de sua alma: ele não quer misericórdia, ele não quer compaixão, ele não quer caridade. Ele não quer confessar suas fraquezas e desfalecimentos. Ele só quer reivindicar, ele só quer conquistar avidamente a vida, como uma fera que se lança sobre a presa; ele despreza a gratidão. E ainda que ele tenha de sacrificar a sua consciência, o seu valor pessoal, inconfundível e único, para transformar-se em simples número, em simples instrumento anônimo nas mãos de um tirano, ele o prefere, para salvar intato o seu orgulho. E ele acabará por rejeitar a salvação, porque vem da misericórdia de Deus, e não da justiça nem da “solidariedade”: não é “serviço”.