Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

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Frei Nuno de Santa Maria

 

 

 

 

 

 

Legionário, 2 de julho de 1944, N. 621, pag. 2

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Notícia de Lisboa informa que grande procissão percorreu as ruas da cidade, acompanhando as relíquias do Condestável Dom Nuno Alvares Pereira, que, em religião, tomou o nome de Frei Nuno de Santa Maria. A finalidade desta procissão foi pedir a canonização do Condestável, que já tem as honras de Bem-aventurado.

Dom Nuno Alvares Pereira foi o restaurador de Portugal no século XIV, quando essa nação corria o perigo de cair sob o domínio espanhol, em consequência de grave crise dinástica. Nesta difícil conjuntura, foi Dom Nuno o braço forte, que apoiou e firmou a novel casa de Avis. Que um reino passe para uma coroa estrangeira, isto não tem grande importância, se tudo se realiza no seio da Cristandade. Nos tempos em que a ideia de Cristandade era viva, e correspondia a uma realidade palpável e fundamental, não havia os pruridos de nacionalismo extremado que faz a desgraça de nossos dias, dividindo o mundo em porções arrogantes que se entrechocam. Naqueles tempos, a expressão normal do patriotismo era a fidelidade ao príncipe legítimo. E, por isso, não era nenhuma catástrofe que uma nação recebesse o governo de uma Casa estrangeira, coisa que aconteceu frequentes vezes, sem qualquer desdouro para grandes e ilustres povos da Cristandade. Haja vista, por exemplo, a Espanha, governada pela Casa d´Áustria.

Portanto, não foi apenas para impedir que Portugal fosse governado por Castela que a Providência lhe enviou o santo Condestável. Havia questões muito mais profundas envolvidas no conflito entre Castela e as pretensões da incipiente Casa de Avis.

Em primeiro lugar, estava-se no início do grande cisma do Ocidente. Portugal havia escolhido a obediência de Urbano VI, mas a Espanha escolhera a de Clemente VII. Ora, Urbano VI era o Papa legítimo, ao passo que Clemente VII era antipapa. Portanto, se Portugal passasse para o domínio de Castela, passaria, “ipso facto”, para a obediência do antipapa. E isto é que os portugueses, que sempre se salientaram pela inquebrantável fidelidade, absolutamente não queriam. O rei de Castela, por seguir o antipapa, era para eles herege e cismático, e simplesmente não era possível que Portugal tivesse um rei herege e cismático. Este era um dos motivos da Providência a favor de Portugal; e, deste motivo, os portugueses estavam conscientes.

Mas havia ainda outro motivo, que estava apenas nos desígnios da Providência: o Portugal da Casa de Avis ia ser o grande Portugal missionário, cuja preocupação era o serviço de Deus, e cujo ideal era a dilatação dos limites da Cristandade. Era para isto, para estabelecer as bases de uma nação apostólica, para confirmar um reino cuja razão de ser era a fé, que a Providência enviou a Portugal o santo Condestável. Para uma obra santa, era também necessário um santo.

Dom Nuno Alvares Pereira sempre manifestou a sua missão predestinada. Do princípio ao fim de sua vida, sempre encontramos nele o mesmo fervor religioso, a mesma fé ardente, a mesma piedade profunda. A sua vida guerreira era o corolário de sua vida religiosa. O grande general invencível, que não conheceu derrotas, e era o terror de seus inimigos, ia buscar a sua força em Deus, em Deus punha a esperança de suas vitórias e, particularmente, apoiava-se em sua devoção filial à Nossa Senhora, a “Santa Maria” de sua grande devoção. No auge das batalhas, quando a sorte vacila, e o sucesso é incerto, Dom Nuno afasta-se do combate e, num lugar retirado, queda-se longos momentos em oração contemplativa, enquanto os seus capitães o procuravam ansiosos. Porém, quando ele volta da oração, é como um Anjo do Céu, radiante e cheio de força, que cai sobre os inimigos, fulminando-os, e decidindo a vitória em poucos instantes: o combate continuava a sua oração sobrenatural. E enquanto foi preciso lutar, ele lutou. Mas quando veio a paz, e o seu rei estava garantido, ele, que podia ter tudo, tudo abandonou, e foi ser o humilde Frei Nuno de Santa Maria. O grande guerreiro cristão orava e batalhava, porque assim o dever o exigia; agora que ele venceu todas as batalhas, ele vai apenas orar, porque já não há onde batalhar. Fosse, porém, necessário e lá estaria ele novamente no campo da honra.

Sirva o grande e santo Condestável de exemplo a todos os católicos, principalmente nestes tempos em que a diminuição humana das verdades divinas desfigurou o ideal cristão, transformando-o, não raro, em ridícula caricatura. Um santo guerreiro não é uma contradição, como o desfibramento do liberalismo religioso o quer considerar, mas é uma sublime coerência.