Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

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Morte antiquada

 

 

 

 

 

Legionário, 3 de setembro de 1944, N. 630, pag. 2

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A morte é uma coisa muito séria e, em certo sentido, é mesmo a coisa mais séria neste mundo. É verdade que existem outras coisas muito mais importantes, e que têm uma seriedade ainda maior. Assim, por exemplo, Deus, a vida eterna, a Igreja, etc. Mas acontece que estas realidades formidáveis podem ser sofismadas pelo homem. O ímpio, o gozador desta vida, os potentados, podem fechar os olhos e não vê-las, podem nega-las, podem mesmo combate-las com aparente sucesso. Mas a morte ninguém pode nega-la, ninguém pode combate-la. Inexoravelmente ela vem, nada pode impedi-la, nem a sabedoria dos sábios, nem a prudência dos prudentes, nem o poder dos poderosos. Ela é um fato, o fato mais concreto e mais óbvio da vida. Todas as teorias, todas as riquezas, todos os prestígios não podem deter a sua marcha e impedir que todo homem, cada homem em particular, a experimente tal como ela é, na sua objetividade crua. E depois... depois se descerram todos os véus e se tornam como que palpáveis aquelas realidades que se negavam, quando se podia fechar os olhos para não vê-las.

Daí o anacronismo de que a morte se reveste em nossos dias. A morte é muito séria, e o nosso mundo é frívolo por princípio. A morte é triste, e os homens de hoje cultuam a puerilidade. A morte é velha, mas a juventude é um dos valores supremos da atualidade. A morte dá testemunho da precariedade de nossa vida, mas isto contraria a religião das vitaminas. A morte é espiritual, abre a porta para os valores transcendentais, mas o mundo moderno crê na carne e no sangue. A morte traz a mortificação, a disciplina, a austeridade, a renúncia, a delicadeza espiritual, mas isto, hoje, são heresias.

Evidentemente, a morte se tornou anacrônica. Ela faz o papel de uma velha dama aristocrática em um “dancing”, em que se dance democraticamente o “jitterbug” (dança frenética, n.d.c.). É preciso expulsa-la do salão, onde ela estraga a festa. Isto, porém, é muitas vezes impossível. Ela aí está, e daí ela jamais sairá. A alegria já não será, pois, completa; mesmo, será quase inteiramente artificial. Portanto, será preciso evita-la, ignora-la, esquece-la quanto possível. Lembra-la, no mínimo que seja, será uma “gafe” imperdoável. E a pior de todas as “gafes” será morrer.

O defunto, antes de mais nada, é um traidor. É uma pessoa inconveniente, como as que se descompõem indispostas por excesso de bebidas. E, assim como para estas inevitáveis defectibilidades fisiológicas há os gabinetes sanitários, para a outra, a maior de todas, há os novos carros funerários da Prefeitura. Assim, com muita correção e higiene, passa-se por cima destes fatos corriqueiros, sem se ter náuseas nem cólicas. Tudo tão natural!

Capela onde repousam o condestável de Castela, Dom Pedro Hernández de Velasco, conde Haro, morto em 1492 e sua esposa, na catedral de Burgos, um dos muitos tesouros artísticos da Espanha.


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