Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Nova et Vetera
 
Gestapo literária

 

 

 

 

 

Legionário, 10 de dezembro de 1944, N. 643, pag. 5

  

 

Articula-se presentemente no Brasil um movimento esquerdista que sob a capa de reação contra o que convencionaram denominar “Gestapo literária”. No fundo não passa do mais descabelado anticlericalismo. Para tais literatos de coloração vermelha ou rosada excetuando-se uma pequena ala que tende, na última hora, para uma reconciliação com o espírito revolucionário dos tempos modernos, a Igreja não passa de uma grande aliada do nazi-nipo-fascismo.

A acusação não podia ser mais cínica e o LEGIONÁRIO tem curiosidade de saber onde se achavam esses demagógicos partidários da liberdade intelectual quando se escreveram, antes da guerra, em 1938, as seguintes páginas sobre a situação da Igreja Católica no 3º Reich. São elas tiradas do livro de Robert D’Harcourt “Catholiques d'Allemagne” e mostram ao vivo a reação dos filhos da Igreja contra a verdadeira “Gestapo literária”, apesar dos esforços adesionistas de traidores da causa católica, de que Von Papen é um exemplar perfeito e acabado.

* * *

“É para o lado de Roma que desta vez nós vemos se voltarem as baterias desmascaradas. Dois mil jovens católicos de todas as regiões da Alemanha fizeram uma peregrinação à Cidade Santa. Recebidos paternalmente e com um tom particular de solicitude no afeto demonstrado pelo Soberano Pontífice, que sabe a que pressão se acha a Fé católica submetida no Reich, esses jovens se põem em caminho de volta à Alemanha.

Chegam à fronteira com suas bizarras camisas azuis de peregrinos, seus aparelhos fotográficos, seu equipamento de escoteiros e toda uma alegre carga de lembranças da Itália.

Estão a mil léguas de prever a recepção que os espera no primeiro contato com a terra natal. Foi à Gestapo que coube a missão de festejar sua volta. Dão-se ordens de alto. Em Constança nossos jovens se vêm tratados como criminosos ou pelo menos como peregrinos suspeitos. A polícia os submete a um longo interrogatório, os despoja rudemente de tudo que carregam, inclusive a roupa que trazem no corpo. A devassa nada perdoa. Instrumentos de música, sacos tiroleses, objetos de piedade são brutalmente arrebatados de seus proprietários e sumariamente confiscados por uma polícia que recebeu ordem de se mostrar impiedosa.

É menos o fato material de uma inqualificável prepotência policial em relação a um grupo de jovens manifestamente pacíficos, do que seu significado moral, que aqui importa assinalar. Sobre este significado, os senhores do 3.º Reich não deixaram dúvidas: uma peregrinação a Roma era uma manifestação de hostilidade ao regime, uma visita ao Pai de todos os fiéis cai sob a acusação de “staatsfeindliche Betätigung” (atividade inimiga do Estado). Os jovens alemães é que foram despojados, mas o Vaticano é que foi insultado.

Pio XI não esquecerá a injuriosa acolhida dispensada pelo nacional-socialismo a adolescentes culpados de terem ido depositar aos pés do Chefe da Igreja a homenagem de fidelidade da juventude católica de seu país. Na alocução, dirigida por ele algumas semanas mais tarde a peregrinos de Mayença e de Friburgo, vibrou um ardente eco da afronta feita a toda a Igreja, através desses valentes moços:

“Em nome do que se denomina “cristianismo positivo”, pretende-se descristianizar a Alemanha e a reconduzir a um bárbaro paganismo. Em verdade nada foi omitido para ofender e entravar a vida católica. Queremos esperar que ao termo dessa peregrinação que vos conduziu ao Vaticano, sereis, na hora em que reentrardes em vosso país melhor acolhidos e melhor tratados que os bravos e devotados jovens que ultimamente vieram visitar seu Pai comum em espírito de fidelidade à Igreja e à pátria. Diante de todo universo civilizado e católico Nós somos felizes de os honrar. Mas infelizmente é uma atitude oposta que devemos tomar com relação aos homens responsáveis pela acolhida dispensada a essa juventude em sua volta à pátria.”

A opressão dirigida contra os católicos se acentua. Submeter a vexames os jovens peregrinos que vinham de praticar um ato de fidelidade a Roma estava bem, mas não bastava. Pensava-se em medidas mais eficazes. Na longa lista de meios postos em obra por essa tirania surda (os alemães usam a excelente palavra Kalter Terror, terror gélido, que dá sua fisionomia essencial ao regime), nós devemos reter em primeira linha medidas tomadas contra a imprensa católica.

A essa campanha decisiva se acha ligado um nome, o do presidente da “Câmara de imprensa do Império” (Reichspresse Kammer), Amann, anteriormente encarregado da escrituração no regimento de guerra em que Hitler servia como cabo. Deu-se a Amann o nome de “ditador da imprensa” sob o 3º Reich, título que diz bem da energia com que ele concebeu sua tarefa. Devemos a ele as ordens que expedidas a 24 de abril de 1935 e que se intitulam “Medidas destinadas a salvaguardar a independência (!) da imprensa diária” e o “Decreto de fechamento de certas casas editoras de jornais, a fim de fazer cessar os processos imorais de concorrência”. A redação é um pouco longa, mas contem magnífica ironia. Para o sr. Amann, “salvaguardar a independência da imprensa” no 3º Reich era suprimir a imprensa católica. Como justificou ele suas medidas? Por estas linhas tranquilas de aspecto folgazão em que o ditador da imprensa se abriga sob autoridade do ditador supremo:

“Nosso Führer colocou depois como exigência essencial a eliminação das questões religiosas e confessionais da luta política. Declarou que o povo espera dos servidores da Igreja não política, mas o ministério das almas. Os decretos que venho de promulgar são apenas a tradução prática de minha firme vontade de aplicar esse princípio de um modo uniforme à imprensa diária”.

Ficamos muito céticos sobre o interesse demonstrado pelo sr. Amann pelo “ministério das almas”, mas de modo nenhum sobre a eficácia prática de suas medidas com relação à imprensa. Elas visavam a destruição da imprensa católica e atingiram esta finalidade. Os jornais católicos foram duplamente feridos, moralmente e praticamente. Moralmente pela obrigação humilhante que lhes foi imposta de eliminar de suas colunas tudo que pudesse responder a preocupações de ordem religiosa ou confessional. Materialmente pela interdição de incorporar como sustentáculo não somente toda sociedade de capital por ações, mas todo grupamento social organizado, tais como comissões de imprensa, associações filantrópicas etc.

Um jornal ponderado de espírito e de forma como a “Nova Gazeta de Zürich” tira as seguintes justas conclusões dos decretos de Amann escrevendo dois dias após sua publicação: “Nenhuma possibilidade existe para as casas editoras católicas de escapar à rede de proibições e às armadilhas que representam esses decretos. A única medida de clemência prevista pelo sr. Amann consiste em não executar de um só golpe as folhas católicas, mas de as fazer morrer uma após outra. O Estado nacional socialista vem de se forjar uma lâmina afiada, que responde excelentemente às necessidades crescentes do novo Kulturkampf. As novas medidas põem em brilhante luz a bancarrota da política de Franz von Papen que, após haver segurado no estribo para Hitler subir, já se vê em sonhos secretos como o senhor de um poderoso partido católico e chefe da imprensa católica”.

Os decretos de abril de 1935 apertam definitivamente o nó. Em verdade, o estrangulamento da imprensa católica se iniciou mais cedo e desde que o nacional-socialismo se apossou do poder. Dever-se-ia em boa lógica esperar de um governo totalitário indulgência para uma imprensa contrária ao seu espírito? Entre as primeiras medidas tomadas pelo sr. Amann com a apregoada finalidade de “pacificação da imprensa”, figurava a proibição severa de toda “pressão” moral exercida sobre o público a fim de obter assinantes para uma folha católica. “Pressão”, palavra vaga e cômoda... Quão larga seria a interpretação que o governo lhe entendia dar, ficou demonstrado no dia em que ele censurou uma folha católica do oeste, o “Badischer Beobachter“, por haver impresso o monograma de Cristo no cabeçalho se seu texto.

Mas foi uma referência de abril de 1934 do Landgericht de Duisburgo que nos esclareceu melhor sobre o espírito com que aos olhos do governo devia ser entendido o delito de pressão moral. Um jornal católico local se queixou da concorrência que lhe fazia a propaganda da imprensa nazista, concorrência à qual os decretos hitleristas o punham na impossibilidade de responder. Ele viu desatendida sua queixa pelo Landgericht que baseou sua decisão sobre o fato de a folha em questão apelar ela própria para um modo de propaganda interdito: “a intervenção em seu favor do Clero católico”. Leiamos os consideranda. Esses trechos oficiais são de um valor documentário inapreciável:

“O Clero católico, conjugando sua ação aberta ou secreta com o jornal em questão, não hesitou em recomendar aos fiéis a dita folha como a única digna de aparecer sobre a mesa de um lar católico. Essa propaganda interessada e egoísta constitui uma propaganda desleal. Ela é essencialmente de natureza a destruir a unidade afinal e tão dificilmente conseguida do povo alemão. Ela ameaça diretamente a paz confessional. Ademais, uma imprensa católica parece totalmente supérflua, visto que as folhas diocesanas, que surgem livremente por todos os lados, existem para satisfazer as necessidades especificamente religiosas e de culto da população”.

Bem ingênuo seria o observador que, dando crédito a estas últimas linhas, concluísse que o leitor católico da Alemanha, frustrado na imprensa diária, pudesse ainda achar uma certa compensação e um alimento para seu espírito nas folhas religiosas.

Bem longe de aparecer livremente por toda parte, como afirma com notável cinismo o magistrado de Duisburgo, elas se acham expostas a uma perseguição em regra. Muito frequentemente estranguladas em sua redação pela censura prévia à qual devem submeter-se, elas são não menos frequentemente, uma vez publicadas, apreendidas pela Gestapo. Os editos do 3.º Reich que interditaram aos quotidianos católicos toda incursão no domínio espiritual, interditaram também toda alusão ao temporal no hebdomadário. Encerrando este último no terreno puramente do culto, privam-no de um meio de acesso essencial junto do leitor e o estrangulam lentamente. Por estas duas vias de especialização compressiva, eles estrangulam o pensamento católico. Este vive da troca e da osmose e é quase tão impossível a uma folha diocesana de se por em relação com a vida e com os tempos como a um jornal diário dito católico de ser areligioso. Achamo-nos, porém, aqui, em face das concepções fundamentais de um regime que bem sabe o que está fazendo ao fechar com alegações falsas de respeito o religioso no esotérico e no inatual, fazendo-o pairar no vácuo: “A religião nada tem que ver com as realidades práticas desta vida”, proclamara em Berlim a 16 de Outubro de 1935 o ministro dos cultos Kerrl. O vácuo por subtração de atmosfera, o vácuo pneumático realiza as mais seguras condições de asfixia.

Ao católico fiel, refratário ao evangelho da cruz gamada, é recusado o conforto imenso que lhe vem de uma imprensa independente. A imprensa católica foi praticamente suprimida pelo Estado hitlerista. Apenas vive nominalmente, no estado de pálidos e tristes esquemas privados de essência e de bravura. A etiqueta perdura (os jornais não mudaram de nome), mas não mais existe substância por detrás deles. Esses jornais são obrigados a publicar os comunicados que lhes são impostos pelo regime com uma passividade mecânica. Um gramofone não dá sua opinião sobre os discos que recebe. A independência do pensamento católico se refugia nas transmissões verbais individuais ou feitas do alto do púlpito e são, com algumas folhas datilografadas, clandestinamente político-piadas que circulam em encoberto, os únicos meios de protesto bem como único raio de luz na “vida das catacumbas” - nós reproduzimos a expressão de um católico alemão – a que se acha reduzido ali o catolicismo. No mundo católico alemão a informação hoje em dia não se baseia sobre a palavra escrita. Ela se vale como ao tempo da Igreja dos primeiros séculos, da via de comunicação oral. Um sistema de circulação de notícias por meio de emissários experimentados tomou o lugar dos impressos periclitantes”.