Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Comentando...
 
A democratização da medicina

 

 

 

 

 

Legionário, 22 de abril de 1945, N. 663, pag. 2

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Em recente discurso pronunciado numa reunião de médicos católicos, o Arcebispo (Bernard William) Griffin, de Westminster, condenou o projeto de criação, pelo governo da Inglaterra, de um Serviço de Saúde Nacional, com atribuições de índole totalitária.

Entre outras coisas, disse S. Excia.: “A relação entre o médico e o doente é tão íntima que ninguém desejará ver o serviço médico sob completo domínio do Estado. O ministro da Saúde, respondendo à minha declaração, disse que o público teria o controle supremo, através do Parlamento. Teoricamente, isto pode ser verdadeiro, mas praticamente sabeis, e eu sei, quão pouca é a autoridade do público nestes assuntos, quando os mesmos são resolvidos pelo Estado”.

O Arcebispo Griffin tocou no ponto importante. Depois da função do Sacerdote, a do médico é a mais delicada, a que exige maior agudeza espiritual, o maior sentido humano, que não entra em bitolas e padrões, mas se adapta virtualmente a cada caso concreto em particular para não perder nada de sua realidade íntima, num esforço de simpatia que só pode ser inspirado pelo amor. Antes de curar os homens é preciso amá-los, e quem não tiver essa ciência poderá ser, no máximo, um boticário.

Ora, a burocracia é guiada pela ideia e pelos moldes da eficiência (ainda quando não seja realmente eficiente, o que ocorre no mais das vezes). E a eficiência não tem nada a ver com o que é intimamente humano, porque não passa de uma categoria mecânica.

Para a medicina burocrática, o doente não será nada mais do que um caso anônimo, sem qualquer relevância particular, sem personalidade. Toda a tragédia da doença, a carne sofredora que freme e desfalece, o espírito que se abate e sente a sua sujeição, a humilhação do homem na precariedade de sua vida, as suas angústias, os seus cuidados, os seus receios, os seus pavores, as suas necessidades, os seus tédios, as suas agonias, tudo isto some no sepulcro caiado dos processos administrativos, com seus inumeráveis tramites bem ordenados, com suas informações, seus despachos, suas requisições, seus protocolos, seus termos, seus carimbos e seus registros: tudo se transforma numa geometria plana, fria, impassível e impessoal. Para a burocracia, o doente aparece apenas como objeto de um serviço. É preciso reconhecer que este é o aspecto menos favorável. Aliás, a burocracia está organizada, de um modo geral, de maneira a tornar menos favoráveis as condições de trabalho.

Dir-se-á que a medicina pública pode ser exercida de outro modo. Não é possível. O Estado moderno é essencialmente burocrático, mecânico e rombudo. E, para não ser assim, seria necessário deixar de ser o que é. Aliás, os motivos pelos quais se pede a intervenção estatal no campo da medicina não são de molde a fazer esperar que aconteça outra coisa.

Um deles é a crise econômica dos médicos. Não há dúvida de que o ganho da vida é muito importante, mas está longe de ser o mais importante. Do contrário, a doença não passaria de fonte de receita, o que é indigno.

O outro motivo é mais elevado, pois se baseia no interesse do desenvolvimento da medicina. Mas também não é suficiente, pois passa a ver no doente apenas o caso clínico, apenas a oportunidade técnica, como também pode fazer o veterinário com os animais.

Tudo isto é submissão a valores mais baixos, é coarctação, é funcionalismo, é servidão. Só quem vê, antes de mais nada, o interesse humano é verdadeiramente médico por vocação, e alcança toda a dignidade de sua profissão, alçando-se acima das contingências materiais de seu exercício. E isto, o Estado moderno, burocrático e totalizante, é radicalmente incapaz de fazer.

Infelizmente, vai diminuindo o número daquelas grandes figuras de médicos, que exerciam a sua profissão de modo quase sacerdotal, cuja só presença inspirava confiança e conforto, e que não gostavam de cobrar contas, pois isto lhes dava uma penosa impressão de simonia.

Os critérios utilitários, que estão transformando os homens em engrenagens de um monstruoso mecanismo, estão liquidando com tudo o que há (de elevação humana – nota: há um lapso de composição gráfica do original e as duas palavras sublinhadas foram incluídas por este site) e de elevação espiritual. Os técnicos estão tornando o mundo inabitável, depois de se haverem aviltados a si próprios na categoria de simples instrumentos.

Por isso vão desaparecendo os grandes médicos, e acabarão de todo, se o Estado transformá-los em funcionários públicos, isto é, em máquinas-ferramentas. Porque o grande médico, antes de ser grande na medicina, há de ser grande como homem.


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