Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Comentando...
 
O "deus" Gandhi

 

 

 

 

 

 

 

Legionário, 7 de abril de 1946, N. 713, pag. 2

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A Agência Reuters divulgou, recentemente, o seguinte telegrama, cuja transcrição é altamente instrutiva:

«BEJUSERAI (Índia) – Anuncia-se que houve uma pomposa cerimônia religiosa ao se entronizar a imagem de Gandhi em um templo que acaba de ser consagrado na localidade de Chripur nas vizinhanças desta cidade. O templo denomina-se “Gandhi” e a adoração da imagem do “mahatma” já foi iniciada. O ritual diário do templo inclui o fiar, princípio cardial da filosofia de Gandhi, e recitações da tradução do “mahatma” da escritura hindu.»

Esta pequena notícia perdeu-se na massa de telegramas dos jornais, e parece não ter despertado maior interesse. A opinião pública já se acha “blasé” [farta, n.d.c.], e não se impressiona mais com acontecimentos como este, principalmente quando há outros assuntos muito mais absorventes, como a questão russa. Há uma espécie de “mitridatização” do público, que já não reage em face de certos sucessos. E é sob a proteção desta insensibilidade que as maiores ousadias se têm perpetrado nestes últimos tempos.

Está neste caso o endeusamento de Gandhi. Se o fato se passasse em qualquer tribo ou em algum ilhote fetichista da Polinésia, seria desprovido de maior significação. Mas ninguém ignora a importância que a Índia está assumindo no panorama internacional. Ainda agora o governo trabalhista da Inglaterra está tratando seriamente da sua independência. Além disso, qualquer pessoa medianamente instruída conhece as tradições de cultura e civilização, com certos aspectos brilhantes, da Índia. Isto não é só. Gandhi é, hoje em dia, uma personalidade de projeção mundial, um destes políticos de prestígio universal. A sua repercussão é enorme no Ocidente, onde a sua obra e a sua filosofia têm encontrado louvores, elogios e até entusiasmos. Não será necessário lembrar aqui as palavras de exaltação do “mahatma”, que surgiram dos mais variados círculos, mesmo de onde menos isto se poderia esperar.

Estes são os dados que devem ser levados em conta, se se considerar o fato do endeusamento de Gandhi. Só assim se poderá compreender a importância transcendental da notícia narrada pelo telegrama acima transcrito.

Qual será a influência no mundo de uma Índia livre, cujo principal político é adorado como um deus? E não nos esqueçamos de que foi muito longe, no Ocidente, a tendência para divinizar os chefes de Estado. O exemplo de Hitler, de quem se chegou a dizer que era uma encarnação da divindade, é muito recente. E recordemo-nos de que o que se faz com o túmulo de Lenine, na Praça Vermelha, em Moscou, é muito semelhante a uma adoração.


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