Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Nova et Vetera

“E as portas do inferno não prevalecerão

contra Ela”

 

 

 

 

 

Legionário, 27 de julho de 1947, N. 781, pag. 4

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A promessa divina do Salvador de que as portas do inferno não prevalecerão contra a Santa Igreja, não equivale a dizer que em uma dada região ou em um determinado país esteja livre o catolicismo de ser completamente banido e extirpado.

É indestrutível a Igreja. A malícia dos homens, porém, transformou em deserto pagão, herético ou cismático, muitos lugares em que a Esposa de Cristo antes espargia o leite e o mel de sua doutrina e de sua missão salvadora.

O Oriente cristão em grande parte foi assim esmagado pela infidelidade do Islã. Para citar exemplos mais recentes, temos a Suécia, antes cristianíssima, e onde o desenvolvimento da heresia protestante acarretou a extirpação completa da Igreja Católica em uma determinada época. Na Inglaterra, durante os reinados de Henrique XIII e de Isabel, o culto católico foi quase completamente extinto, passando a ter uma existência clandestina, e da Ilha dos Santos, como era chamada, veio a ser país de missão, ficando a cura de almas ali confiada a sacerdotes que, para desempenhar o sagrado ministério, tinham de usar disfarces a fim de ocultar sua identidade. Do mesmo modo, nestes trinta anos de bolchevismo, sabemos a que frangalhos foi reduzido o trabalho apostólico da Santa Sé na Rússia soviética.

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É indefectível a Igreja, mas esta certeza não nos deve levar a um estado eufórico de vazio otimismo, idêntico ao dos habitantes de Bizâncio, da Bizâncio dominada pela política do Baixo Império, os quais porfiavam em fechar os olhos à realidade dos muçulmanos acampados a poucas léguas de suas portas.

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Nossa atitude em relação a esta verdade consoladora deve ser pautada pelo exemplo dos santos que a Igreja suscitou.

Ao ensejo da canonização de São Luís Maria Grignion de Montfort, vem a propósito lembrar seu exemplo e o de São Vicente de Paulo no tocante a este ponto.

Viveram estes dois santos em uma época e em um lugar dominado por dois perniciosos inimigos da unidade católica.

Embora emergindo vitoriosa de uma luta encarniçada contra a heresia protestante, achava-se a França subjugada pelo galicanismo e pelo jansenismo.

O galicanismo, que transferia para César os direitos de Deus, abria as portas ao erro religioso do jansenismo, entre outras razões por dificultar a aceitação do pronunciamento da Santa Sé em matéria de doutrina.

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Jean Duvergier de Hauranne (1581-1643), abade de Saint-Cyran, retrato segundo a máscara mortuária

João Duvergier de Hauranne, abade de Saint Cyran e um dos mais destacados chefes jansenistas, assim se abria a São Vicente de Paulo, quando tentava “catequizá-lo” para a sua seita: “Calvino não havia sido partidário de uma causa assim tão má, apenas a havia defendido mal”.

Não fosse o jansenismo a heresia mais sutil que o diabo engendrou, como diz Fleury... “Vendo que os protestantes, separando-se da Igreja, se condenaram a si próprios, e que haviam sido censurados por esta separação, tomaram os jansenistas por máxima fundamental de sua conduta não se separarem jamais exteriormente do Catolicismo, protestando, pelo contrário, sua submissão às decisões da Igreja, com o cuidado de achar todos os dias novas sutilezas para explica-las, de modo que parecessem submissos sem mudar de sentimentos”.

Insistindo, assim, em permanecer dentro da Igreja e tudo fazendo para impedir ou protelar uma condenação de seus erros pérfidos e sutis, tornavam os jansenistas assaz delicada a situação de seus adversários.

A França, porém, providencialmente encontrou em São Vicente de Paulo e em São Luís de Montfort dois articuladores seguros do movimento de resistência contra tal investida heterodoxa, os quais se conduziram nesse emaranhado cipoal de insidias como verdadeiros campeões da Fé e da sã doutrina, não temendo nem a perseguição dos maus nem a incompreensão dos bons no desempenho da missão, que lhes reservara a Providência, de combate a tão terrível e perniciosa heresia. Para eles a crença na indefectibilidade da Igreja serviu de incentivo, não para uma atitude cômoda de complacência com o erro pelo temor de atiçar o ódio dos maus e de criar inimigos, mas para conclamar os fiéis a se abrigarem sob o estandarte do Rei invencível a que alude Santo Inácio, visto que as portas do inferno não prevalecem contra a Igreja, mas se acham escancaradas para tragar as almas dos infelizes transviados e para estreitar e restringir os espaços da Caridade de Cristo.

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A nenhum dos dois se pode aplicar o terrível epiteto de cães mudos, a que se referia o profeta Isaias. São Vicente, diante dos erros do jansenismo, desejava, segundo Rohrbacher, que os membros de sua Congregação, embora evitando discussões estéreis “falassem claramente quando as circunstâncias o exigissem, sem receio de criarem inimigos”.

“Que Deus não permita, dizia São Vicente, que esses fracos motivos, que enchem o inferno, impeçam os missionários de defender os interesses de Deus e de Sua Igreja!” Foi à luz deste princípio que ele rejeitou o conselho de um seu irmão de hábito, de deixar cada um crer nessas matérias controversas o que julgasse a propósito.

É preciso, adverte o Santo, que sejamos todos unius labii, de outro modo nós nos dilaceraremos uns aos outros. Obedecer neste ponto não é submeter-se a um superior, mas a Deus e ao sentimento dos Papas, dos Concílios e dos Santos. E se qualquer um dos nossos assim não agir, será melhor retirar-se, a convite mesmo de seus companheiros”.

Não parou, porém, aí o zelo de São Vicente. Além de batalhar pela obtenção de um rescrito apostólico contra os erros jansenistas, tudo fez para que essa decisão pontifícia fosse aceita por toda a França, tão convencido estava do perigo por que passava a filha primogênita da Igreja diante das maquinações da cabala que tinha João Duvergier de Hauranne e Jansênio por chefes e cuja finalidade era trabalhar pela completa ruína da religião católica.

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 Seguindo as pegadas de São Vicente de Paulo, São Luís de Montfort haveria de ser alvo do ódio dos sectários jansenistas por toda a sua vida de apóstolo da são doutrina.

A um amigo de sacerdócio que o censurava por provocar contradição, crítica e perseguição por toda a parte, assim respondia Grignion de Montfort: “Se a sabedoria consistisse em não fazer falar de si, os Apóstolos fizeram muito mal em sair de Jerusalém; São Paulo, pelo menos, não devia fazer tantas viagens, nem São Pedro arvorar a Cruz sobre o Capitólio. Semelhante sabedoria sem dúvida não teria assustado a sinagoga, que teria deixado em paz os primeiros discípulos do Salvador; mas, então, estes não teriam jamais conquistado o mundo”.

Era de outra natureza a sabedoria de São Luís de Montfort. “O que me faz dizer que obterei a divina sabedoria, diz ele em carta dirigida à Irmã Maria Luísa de Jesus, são as perseguições que sofri e que estou sofrendo todos os dias”.

Não é o discípulo maior que o Mestre, e todo aquele que combate pela boa causa pode estar certo de que o “homem inimigo” não o poupará.

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Dizia o jansenista de Saint Cyran a São Vicente de Paulo que Deus se achava cansado com os pecados dos homens em certos países, e por isso lhes queria tirar a Fé, da qual se haviam tornado indignos, sendo uma temeridade, portanto, ir-se contra os desígnios do Alto, defendendo a Igreja, quando o próprio Deus resolvera perde-La.

Não copiemos, por nossa fraqueza e conivência com o espírito do mundo, esse triste exemplo de derrotismo jansenista, nem o vazio otimismo dos bizantinos.

Em meio às ondas encapeladas do mal, que hoje ameaçam a civilização católica, tenhamos a coragem de remar contra a maré, seguindo o exemplo de São Vicente de Paulo, o apóstolo da caridade, e de São Luís de Montfort, o apóstolo da verdadeira devoção à Santa Mãe de Deus: fazendo violência aos céus por nossas orações, por nossos sacrifícios, por nosso zelo e combatividade, para que em torno de nós as portas do inferno não prevaleçam contra a ação vivificadora da Santa Igreja.


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