Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Minha

 

Vida Pública

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Introdução

Como formei a minha mentalidade

 

A) Temperamento e formação das idéias: o ambiente familiar

1. Aos vinte anos, mentalidade ultramontana inteiramente formada

Quando entrei para a Congregação Mariana de Santa Cecília e comecei a participar do movimento católico, posso dizer que já era inteiramente um ultramontano [1], e quase todas as idéias que tenho hoje, na sua raiz eu já as tinha [2]. Aos 20 anos, quanto ao mundo contemporâneo, eu já havia tudo visto, contado, medido e pesado. De lá para cá houve torrentes de explicitações, em vista dos fatos que se sucediam, porém não mais do que explicitações [3].

Quais eram essas minhas idéias?

- Eu era partidário convicto de uma catolicidade radical, e convicto de que um catolicismo de meias-tintas não resolveria absolutamente nada.

- Convicto também de que só se é católico, sendo absolutamente fiel ao Papado, e é nessa fidelidade absoluta ao papado que está a substância do catolicismo.

- Profundamente convicto igualmente de que a Igreja é propriamente a coluna do mundo, da ordem temporal, da ordem civil e da ordem moral. E que, portanto, só da Igreja e da doutrina da Igreja, dos Mandamentos e dos ensinamentos dela poderia decorrer alguma solução efetiva para a crise mundial.

- Convicto ainda de que toda a organização político-social decorrente do protestantismo, e de tudo que se lhe seguiu, até o comunismo, representava a destruição da civilização.

- Convicto também de que nos encontrávamos muito adiantados nesse fenômeno de decomposição, e de que deveria explodir uma grande crise que determinaria o fim da civilização moderna.

- Por cima de tudo, estava convicto da importância da devoção a Nossa Senhora, embora não conhecesse ainda o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignion de Montfort, o qual me forneceu a expressão definitiva do assunto devoção a Nossa Senhora. Mas compreendia bem que a devoção a Nossa Senhora constituía o lado saliente da doutrina católica em matéria de piedade e de minha vida espiritual.

- Por fim — e aqui está propriamente o traço característico da mentalidade que graças a Deus eu já adquirira nesse tempo — tinha uma noção muito viva da diferença entre o bem e o mal, da luta do bem contra o mal dentro da História, embora a influência das forças organizadas do mal nesse combate eu conhecesse muito deficientemente naquela época; tinha apenas uma certa noção intuitiva do papel delas dentro dessa luta.

Como essas idéias surgiram em minha cabeça? Como explicar que um brasileiro, nascido no ano de 1908, numa cidade como São Paulo, vivendo inteiramente dentro do ambiente brasileiro, aos 20 anos já as tivesse adquirido?

Para um não-brasileiro, especialmente o europeu, creio que estas questões podem apresentar um lado interessante, para ajudá-los a compreender o modo peculiar de como se formam as idéias na cabeça de um brasileiro.

Isto ajudará também a compreender o que se pode esperar de um país como o Brasil, enquanto potencialidade ultramontana.

2. Minhas idéias nasceram, não dos livros, mas da observação da realidade

Todas essas idéias se formaram dentro de minha cabeça, não propriamente lendo a doutrina em um livro e aplicando-a aos fatos, mas tomando uma atitude instintiva em face dos fatos e como que adivinhando a doutrina contida nesses fatos.

Por conseguinte, esse conhecimento não se deu por meio de dedução, mas de uma primeira intuição que já continha em si tudo o que eu iria explicitar depois.

Não se tratava, portanto, de um processo dedutivo, mas de um processo intuitivo em que, num primeiro olhar, se via tudo, e depois crescia como uma árvore de dentro da semente. Mas no primeiro olhar já estava tudo contido. É assim que funciona uma cabeça brasileira [4].

Bem entendido, isto não significava de minha parte um desprezo pelo livro. Mas eu julgava um erro palmar considerar a cultura como mera resultante da quantidade de livros que se leu. A leitura é proveitosa, não tanto em função da quantidade, mas da qualidade dos livros lidos, e principalmente em função da qualidade de quem lê, e do modo pelo qual lê.

Sustento que uma pessoa muito lida, muito instruída — ou seja, informada de muitos fatos ou noções de interesse científico, histórico ou artístico — pode ser bem menos culta do que outra de cabedal informativo menor.

É que a instrução só aprimora adequadamente o espírito quando seguida de uma assimilação profunda, resultante de acurada reflexão. E por isto quem leu pouco, mas assimilou muito, é mais culto do que quem leu muito e assimilou pouco.

A reflexão é o primeiro dos meios desta ação positiva. Mais do que um repositório vivo de fatos e datas, nomes e textos, o homem de cultura deve ser um pensador. E para o pensador, o livro principal é a realidade que ele tem diante dos olhos, o autor mais consultado é ele próprio, e os demais autores e livros são elementos preciosos mas nitidamente subsidiários.

Contudo a mera reflexão não basta. O homem não é puro espírito. Por uma afinidade que não é apenas convencional, existe um nexo entre as realidades superiores que ele considera com a inteligência, e as cores, os sons, as formas, os perfumes que atinge pelos sentidos. O esforço cultural só é completo quando o homem embebe todo o seu ser dos valores que sua inteligência considerou [5].

3. Meu temperamento nativo, calmo e afetivo

Plinio aos dez anos

Eu nasci, por disposição natural, muito afetivo, muito propenso a gostar das pessoas [6]. Na minha candura infantil, imaginava que todo mundo era muito bom [7]. Em pouco tempo percebi que isso era uma ilusão [8].

Não pretendo aqui fazer minhas confissões, muito menos a minha apologia. Mas talvez faça uma indiscrição. Por tudo o que ficou dito aqui, o fundo de quadro da narrativa deverá começar pela descrição de meu temperamento. Notem bem: começo por falar, não de idéias, mas de temperamento, o que já é uma característica bem brasileira.

O meu temperamento eu o classificaria nativamente como muito calmo, calmo quase até à indolência; muito equilibrado, equilibrado até o incrível e o inconcebível; mas ao mesmo tempo muito rijo em uma coisa: naquilo que me convém, deito todo o meu peso.

Por outro lado, é um temperamento muito tendente à moleza, detestando a luta, detestando brigas, detestando qualquer coisa assim. Mas também um temperamento que, para um homem concebido no pecado original, e portanto com todas as reservas que isto comporta, era fundamentalmente temperante.

Por fim, desde pequeno, com um feitio de espírito muito voltado para a lógica, gostando muito da lógica.

4. Ambiente familiar cerimonioso, calmo, equilibrado, harmônico; papel de Dª Lucilia

Esse temperamento, esse feitio de espírito, foi muito bem servido pelas condições de minha educação.

Quando comecei a dar acordo de mim, os primeiros contatos temperamentais e emotivos que tive foram com a minha família materna. A minha família paterna era de Pernambuco e eu quase não a conhecia [9].

Nasci da conjunção de duas famílias trazendo, tanto da parte de meu pai como de minha mãe, uma herança católica um tanto mais fervorosa e mais séria do que a comum, junto com uma herança monárquico-liberal — mas liberal mesmo! — sem nada de ultramontano*.

Lucilia e João Paulo, genitores de Plinio.

Ela, uma Ribeiro dos Santos, família dos “paulistas de quatrocentos anos”.

Ele, um Corrêa de Oliveira, descendente dos primeiros colonizadores do Brasil e senhores de engenho em Pernambuco.

* Dava-se nessas duas famílias a confluência de duas aristocracias que marcaram a fundo a história do Brasil: a dos senhores de engenho do Estado de Pernambuco, representada pelo pai de Dr. Plinio, o advogado João Paulo Corrêa de Oliveira, e a aristocracia dos "barões do café" do Estado de São Paulo, da qual fazia parte sua mãe, a tradicional dama paulista Lucilia Ribeiro dos Santos.

Os Corrêa de Oliveira descendiam dos primeiros colonizadores do Brasil, "os bem-nascidos, os nobres do seu tempo", segundo expressão do conhecido sociólogo Fernando de Azevedo (cfr. "Obras Completas", 2a. ed., vol. XI, Edições Melhoramentos, São Paulo, p. 107). Dentre seus membros ilustres destacou-se o Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, deputado em várias legislaturas durante o Império, ministro e conselheiro de Estado, senador vitalício e finalmente presidente do Conselho de Ministros, sob cuja vigência foi assinada pela Princesa Isabel a Lei Áurea, libertando os escravos.

Já os Ribeiro dos Santos pertenciam ao grupo tradicional dos "paulistas de quatrocentos anos", fundadores da cidade de São Paulo e descendentes dos famosos bandeirantes, os indômitos desbravadores do Brasil.

Entre os antepassados ilustres destacava-se o avô de Dª Lucilia, Gabriel José Rodrigues dos Santos, deputado que se afirmou no Parlamento imperial como brilhante orador e refinado homem de salão. Sua filha, Dª Gabriela Ribeiro dos Santos, mãe de Dª Lucilia, com sua forte personalidade e com seu grande estilo, dava brilho à vida de salão do palacete de Dª Veridiana Prado, uma das senhoras mais influentes da sociedade paulista, bem como do palacete do Conde Antonio Alvares Penteado, ambos centros da vida social e intelectual de São Paulo de então.

Dª Gabriela nasceu no dia 18 de dezembro de 1852, e faleceu no dia 5 de janeiro de 1934 com 81 anos. Era casada com seu primo, o Dr. Antonio Ribeiro dos Santos, um dos melhores advogados de seu tempo.

Como é natural, essa ilustre ascendência teve ponderável influência na formação da personalidade e no modo de ser do então jovem Plinio.

Eu formei meu espírito nesse ambiente [10].

Eu vivia numa casa muito ampla pertencente à minha avó, Dª Gabriela Ribeiro dos Santos. Ela era viúva e nessa casa moravam dois casais: meus pais com dois filhos (Rosenda, conhecida familiarmente como Rosée, e eu); e uma tia minha com o marido dela e uma filha (Nestor Barbosa Ferraz e Brasilina Ilka Ribeiro Barbosa Ferraz, conhecida como Zili, respectivamente cunhado e irmã de Dª Lucilia; e a filha Ilka). Ocupavam apartamentos inteiramente diferentes num casarão enorme.

A casa era freqüentada por muitos parentes de fora. E essa primeira quadra de minha vida foi caracterizada pela harmonia em todos os terrenos.

Em primeiro lugar, harmonia do ponto de vista financeiro. Não era gente riquíssima, porque nunca foi, mas rica. Tinha essa forma de conforto, essa grande largueza que chegava quase até ao desperdício. E uma distinção que chegava quase ao luxo.

Não era propriamente luxo, nem era propriamente desperdício. Sem que nenhuma despesa fosse irracional — todas as despesas eram racionais — gastava-se sem se perceber que existia o dinheiro. Não existiam questões financeiras. Era tudo muito harmonioso, muito lógico, muito igual.

Todas as pessoas da família de mamãe tinham tendência para o formalismo. De maneira que eram muito corteses umas com as outras, e com uma intimidade cerimoniosa, o que exatamente tornava a intimidade agradável. Eu nunca assisti, no meu tempo de pequeno, briga em casa — mas absolutamente nunca! Nunca briga nem discussão.

Por outro lado, todos eram muito alegres. Não no sentido de que se dessem risadas a todo o momento, o que não é a verdadeira alegria. Às vezes se dava risada, mas também, especialmente nas refeições, se tratavam assuntos sérios ou até assuntos tristes.

Tudo isso comunicava um tom de calma, gravidade, serenidade, bem-estar. E eu, na minha casa, tinha a impressão do homem que repousa propriamente no ambiente feito para ele, ou, se preferirem, da tartaruga dentro de sua casca e na sua lagoa.

Havia também na minha família muita facilidade nas relações sociais, estas muito numerosas, mas sem se entrar na intimidade de ninguém. O círculo doméstico era muito diferenciado do círculo público.

*   *   *

Minha avó era uma grande dame até o último ponto. As tardes dela podiam ser postas em música. Ela ficava sentada em uma poltrona, balançando-se, e com uma pessoa cortejando-a; vinha um chazinho, ela se servia... Durante 40 anos, ela viveu nessa espécie de redoma. Ela era amiga da Princesa Isabel e com ela se correspondia [11].

Quanto à minha mãe, Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira, ela tinha um modo de ser afrancesado, junto a uma afetividade brasileira colocada em termos afrancesados.

O afeto dela era delicadíssimo, educadíssimo, nobre e de salão, até na maior intimidade. Eu me sentia envolto por aquele afeto e sentia a conaturalidade desse afeto com o ambiente criado pela Madame de Grand-Air*.

Bécassine e sua senhora, Mme. la Marquise de Grand'Air

* Uma das personagem das histórias em quadrinhos da série Bécassine, desenhadas pelo cartunista Joseph Pinchon e publicadas então pela revista infantil francesa La Semaine de Suzette. Constituíam essas histórias verdadeiras aulas de sociologia, e retratavam a doce e harmônica mescla, altamente catolicizada, dos ambientes aristocrático e popular da França da Belle Époque (1871-1914).

Ela era para mim, repito, uma versão ao vivo do mundo da Madame de Grand-Air, como, aliás, era também a seu modo minha avó [12]. Devido ao aspecto adamado e distinto de Dª Lucilia, durante muito tempo chamei-a de Marquesinha.

Era a sua elevação de alma que dava a clave de tudo o que ela fazia na sua intimidade. E essa elevação de alma era imponderável.

Em uma alma sem elevação, tudo isto seria banalidade [13]. Eu a venerei e amei em todo o limite do que me era possível. E, depois de sua morte, não houve dia em que não a recordasse com saudades indizíveis [14].

Da. Lucilia, em Paris, 1912

Encantava-me nela — dentro dessa clave de elevação de alma — um misto de mansidão generosa levada até o inacreditável, ao lado de uma firmeza inquebrantável quando se tratava de princípios. Quer dizer, a justaposição desses dois contrastes harmônicos realmente me atraía no mais alto grau [15].

Tudo isto formava em casa uma espécie de mundo afrancesado, misturado com a influência portuguesa pelo lado de meu pai, João Paulo Corrêa de Oliveira.

Ele era pernambucano da cidade de Goiana, que fica hoje a pouco mais de uma hora de Recife. Ele estudou na Faculdade de Direito do Recife e as ligações de Pernambuco com Portugal eram muito mais freqüentes e intensas do que aqui no Sul. E o pólo de Recife não era Paris, mas Lisboa.

Sabia canções e poesias portuguesas, era muito lido em autores portugueses, e a sua formação jurídica tinha uma nota portuguesa muito forte.

Não era um grande advogado, mas era um muito bom advogado. E ele representava a nota brasileira e portuguesa, que se juntava sem conflito à nota francesa dos Ribeiro dos Santos, formava um todo só.

Ele tinha uma voz forte e de timbre agradável. Quando ria, o seu riso cobria a casa e era pessoa muito saudável. Quando tratava com minha mãe e com vovó, era muito respeitoso. Foi este, enfim, o ambiente dentro do qual eu me formei [16].

*   *   *

A esse quadro assim, eu me aferrei em pequeno instintivamente, com todas as forças, porque ele correspondia a todas as minhas qualidades e a todos os meus defeitos. Todas as qualidades, as que estão vendo: a temperança, a lógica, o equilíbrio etc. Todos os meus defeitos, porque eu era tendente à moleza.

5. As primeiras noções da existência do mal

Nesta "história do Chapeuzinho Vermelho", não havia entrado ainda o lobo. E a história do lobo podemos defini-la assim:

Eu tinha dois tios — um tio por afinidade e uma tia — de famílias de fazendeiros. Os filhos, na época das férias, eram levados para a fazenda. Na fazenda eles montavam a cavalo, faziam grandes raids, entravam no mato, se sujavam na terra, gostavam de jogar pedras uns nos outros.

Eu me lembro de minha estranheza. Por um lado, eu tinha implicância com essa maneira de ser, mas por outros aspectos eu tinha loucura pela companhia deles.

Eu sentia uma desordem robusta ali dentro. Eu representava uma ordem verdadeira, mas meio fraca. Eu me sentia menos robusto, menos forte do que eles, eu não tinha aquela seiva. E isso me deixava pouco seguro de mim.

Formou-se então em mim uma primeira idéia de que essas influências representavam o mal e que a oposição a isso representava o bem [17].

B) No Colégio São Luís

1. No choque com o ambiente, a idéia da necessidade da luta

Minha meta inicial era manter com os outros uma vida cordial. Em casa, com os meus primos, com meus parentes, eu me dava perfeitamente bem.

Vista interna do Colégio São Luís, 1924

Mas entrando para o Colégio São Luís [18] em 1919, aos 10 anos de idade, observando o comportamento dos outros meninos, eu reformulei essa minha meta.

Fazendo elucubrações ainda infantis, meio subconscientes, meio conscientes, dizia de mim para comigo:

Meus colegas se dão cômoda e agradavelmente uns com os outros. Por temperamento não sou briguento, sou cordato. E gosto da vida cômoda, da vida agradável; gosto de levar as coisas por bem e de resolvê-las de maneira conciliatória. Mas vejo também que, pelo caminho conciliatório, faça eu a gentileza que quiser, tome eu a atitude cordial que entender, em relação a eles eu levo a pior, isto porque sou casto, porque sou católico, porque sou monarquista. Como não quero deixar de ser católico, não quero deixar de ser casto, não quero deixar de ser monarquista, o caminho que se abre diante de mim é o da luta. Vou aprender a lutar, e se só posso viver lutando, viverei lutando. Mas hei de me impor, descobrindo o lado fraco deles. Vamos para a frente!

2. Como nasceu em mim a idéia da estratégia contra-revolucionária

Mas, como lutar?

Alguns princípios de luta eu os deduzi ao observar o modo pelo qual as crianças de espírito revolucionário sufocavam no colégio qualquer tentativa de um colega se mostrar um pouco casto, um pouco católico, um pouco monarquista. Por pouco que esse colega se manifestasse nesse sentido, isto determinava uma pressão e uma caçoada de todo mundo contra ele.

Então fiz o seguinte cálculo: “O verdadeiro não é dizer que sou um pouco católico, um pouco casto, um pouco monarquista, porque cai o mundo em cima de mim. Vou fazer o contrário: vou dizer que sou muito católico, muito casto, muito monarquista”.

Com isto chegamos — meus colegas e eu — a um regime de paz armada, em que eles não me atacavam, mas faziam gelo em torno de mim. Era um regime de paz armada que conduzi depois para um regime de paz cortês de parte a parte, mas de garra de fora. Naquelas circunstâncias, eu não poderia querer coisa diversa.

Tudo isto levava a modelar em mim um espírito de luta contra-revolucionária, e bem cedo percebi que a diplomacia fazia parte dessa luta [19].

Percebi também que os alunos mais revolucionários procuravam impor-se com extremos de habilidade e de força, mas viam-se ao mesmo tempo obrigados a esgueirar-se para conseguir dominar a situação.

E pensava: “Eu poderei mudar essa situação”.

Era uma consideração calma, sem apegos, sem torcidas, feita com sagacidade, mas também com resolução. E, pela ajuda de Nossa Senhora, foi assim que consegui construir um conjunto enorme de observações, de análises e de conclusões — tudo muito lógico, muito honesto e muito sério [20].

C) Iniciando a vida pública

1. Na Universidade, batalha contra o laicismo; boletim “O A.U.C.”

Comecei minha atuação pública quando estudante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. O ambiente que ali encontrei era de tal maneira laico que parecia não haver, no meio estudantil de São Paulo, qualquer possibilidade de apostolado.

Inscrevi-me aos 20 anos no movimento mariano, que então começava sua grande expansão. E iniciei uma luta dentro da própria Faculdade de Direito em favor do apostolado católico.

Fundamos na ocasião um movimento chamado Ação Universitária Católica [21], primeiro movimento universitário católico constituído naquela época em São Paulo [22].

Fui depois eleito deputado pela Liga Eleitoral Católica, na Assembleia Constituinte de 1934 — candidatei-me a deputado só para assegurar a vitória das reivindicações católicas [23].

2. Mudança de tônica: a batalha contra o progressismo e a esquerda católica

Entretanto, no começo dos anos 40, a nota dominante de minha atuação se alterou.

Em vez de voltar-se exclusivamente para os que não são católicos, fui posto diante da realidade da penetração do progressismo e do esquerdismo nos meios católicos.

Dei-me conta imediatamente de que a salvaguarda do futuro do Brasil estava nas mãos dos que lutassem para que os meios católicos não se deixassem envolver por essas duas más tendências.

Foi então que, escrevendo o livro Em Defesa da Ação Católica, abri fogo dentro do Movimento Católico contra o esquerdismo filosófico-teológico, bem como contra o esquerdismo socioeconômico.

Minha luta, de lá para cá, tem sido uma defesa da opinião católica contra a investida — ora aberta, ora velada — dessas correntes de opinião.

Assim, defender a civilização cristã e o Brasil contra esse perigo passou a ser o sentido dominante de minha atuação [24].

Todas as pessoas, instituições e doutrinas que amei durante minha vida, e que atualmente amo, só as amei ou amo porque eram ou são segundo a Santa Igreja, e na medida em que eram ou são segundo a Santa Igreja. Igualmente, jamais combati instituições, pessoas ou doutrinas senão porque — e na medida em que — eram opostas à Santa Igreja Católica [25].

E Nossa Senhora tem sido pródiga comigo. Numerosos católicos têm-me dado a sua confiança [26]. Nossa Senhora foi sempre a Luz de minha vida, e de sua clemência espero que seja Ela minha Luz e meu Auxílio até o último instante da existência [27].

3. Crise na Igreja, o grande sofrimento de minha vida

O grande sofrimento de minha vida foi a crise da Igreja. Ver essa crise trouxe-me um sofrimento sem nome.

Assim, numa carta que escrevi ao Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta [28] — em que eu pedia a ele para ser julgado por causa do livro Em Defesa da Ação Católica, e da qual tratarei adiante — eu historiava minha vida e dizia a ele que [29] vivíamos em uma época de geral conturbação, e que fatos acontecidos naqueles dias (referia-me à apostasia do Bispo de Maura) mostravam que as próprias estrelas podiam cair do Céu, pois a alma nacional havia estremecido ao fragor de uma coluna da Igreja que se partira [30].

As minhas maiores aflições foram causadas por essa crise progressista na Igreja, pelo processo de autodemolição a que ela era submetida, cada vez mais acentuado, e pela abominável e pestilencial fumaça de Satanás que nela se difundia [31].

Ver a Igreja traída foi meu calvário durante toda a vida [32].

*   *   *

Segundo o conceito comum, vida feliz é a de um homem que consegue determinada coisa que lhe satisfaz todas as apetências. E encontra nisso a sensação da estabilidade daquilo que conquistou.

Mas há outra concepção de felicidade que inclui a luta e o holocausto como elementos de felicidade, por exemplo nas minhas lutas estudantis e universitárias e, depois, quando fui professor de Universidade. Eu sabia que afirmar-me ufanamente católico apostólico romano certamente me traria antipatias, porque as pessoas não gostavam disso. Mas eu me afirmava tal.

Uma pessoa que tenha lutado assim a vida inteira, na hora de morrer poderia parafrasear São Paulo e dizer: “Bonum certamen certavi, cursum consummavi, fidem servavi. In reliquo reposita est mihi corona justitiae, quam reddet mihi Dominus in illa die justus judex” — “Combati o bom combate, corri a corrida inteira, conservei a fé. De resto, está-me reservada a coroa da justiça que me dará naquele dia o Senhor, justo Juiz” (2 Tim 4,7). Quem puder dizer a Deus, na hora de morrer: “Dai-me, Senhor, justo Juiz, a coroa da justiça que Vós me reservastes”, esse foi feliz [33].


NOTAS

[1] — Ultramontano era a designação dada no século XIX à corrente de católicos franceses defensores do Primado Pontifício e militantemente contrários aos católicos liberais. Como Roma estava além dos Alpes, dizia-se então que eram ultra (além) montanos (dos montes). O termo depois se estendeu a outras nações, sempre para designar os católicos antiliberais.

[2] Palestra sobre Memórias (I) 6/8/54.

[3] RR 14/4/74.

[4] Palestra sobre Memórias (I) 6/8/54.

[6] SD 12/5/84.

[7] MNF 17/11/94.

[8] SD 12/5/84.

[9] Palestra sobre Memórias (I) 6/8/54.

[10] Simpósio com argentinos 12/10/65.

[11] Palestra sobre Memórias (I) 6/8/54.

[12] ESB 15/5/80.

[13] CSN 24/5/80.

[14] Testamento espiritual 10/1/78, Catolicismo n° 550, outubro de 1996.

[15] CSN 24/5/80.

[16] ESB 15/5/80.

[17] Palestra sobre Memórias (I) 6/8/54.

[18] — O Colégio São Luís foi fundado pelos padres jesuítas em 1867 na cidade de Itu-SP. Logo após a revogação da expulsão da Companhia de Jesus, que havia sido decretada pelo Marquês de Pombal, foi transferido, em 1917, para a cidade de São Paulo. Em seus bancos sentaram-se os filhos das melhores famílias da aristocracia e da plutocracia paulistas.

[19] SD 2/12/94.

[20] Chá 24/3/95.

[21] — A Ação Universitária Católica foi fundada no ano de 1930 e tinha como órgão O A.U.C. O primeiro número desse boletim saiu a público em 1° de outubro de 1930, e nele foi publicado o Manifesto Aucista - Em defesa dos mais altos interesses da Igreja, da civilização e da Pátria, o que representava um "insulto" ao espírito laicista e ateu que dominava o ambiente da Universidade na época (v. http://www.pliniocorreadeoliveira.info).

[22] Entrevista ao jornal Edição Mineira (gravação), Belo Horizonte, 16/11/83.

[23] Entrevista à Folha de S. Paulo (gravação), 8/2/93.

[24] Entrevista ao jornal Edição Mineira (gravação), Belo Horizonte, 16/11/83.

[25] Testamento espiritual 10/1/78, Catolicismo n° 550, outubro de 1996.

[26] Entrevista ao jornal Edição Mineira (gravação), Belo Horizonte, 16/11/83.

[27] Testamento espiritual 10/1/78, Catolicismo n° 550, outubro de 1996.

[28] — O Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta (1890-1982) foi Bispo Auxiliar de Diamantina (1932-1935), Arcebispo de São Luís do Maranhão (1935-1944), Arcebispo de São Paulo (1944-1964) e por fim Arcebispo de Aparecida até sua morte (1964-1982). Elevado ao cardinalato em 1946, sua trajetória foi marcada por forte tendência esquerdista, tendo ele favorecido amplamente o progressismo dito católico. Assumindo o governo da Arquidiocese paulopolitana, tomou posição de franca hostilidade contra Dr. Plinio e o chamado grupo do Legionário, sumariamente afastados das funções que exerciam na Arquidiocese. Por fim, tirou-lhes o próprio Legionário. Essa hostilidade não cessou nem mesmo quando Roma elogiou o livro Em Defesa da Ação Católica.

[29] Chá 19/6/95.

[30] Carta de Dr. Plinio a D. Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta, 22/9/45 — Esta referência à coluna que se partira diz respeito à apostasia de Dom Carlos Duarte Costa (1888-1961), ex-Bispo titular de Maura e ex-Bispo de Botucatu, o qual, após ser excomungado pela Santa Sé através de Ofício da Nunciatura datado de 2/7/45, fundou a chamada Igreja Católica Apostólica Brasileira (cfr. revista Ave Maria, São Paulo, 21/7/45).

[31] Notas biográficas ditadas em 1972.

[32] Chá 26/1/93.

[33] MNF 24/5/95.