Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Minha

 

Vida Pública

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Parte II

A Liga Eleitoral Católica e a Constituinte de 1933/34

 

 


Capítulo I

Mudança do quadro político e religioso a partir de 1930

1. Laicismo anterior a 1930

Concluído o meu curso universitário, continuei a me dedicar ao Movimento Católico.

Eu sentia que alguma coisa deveria ser feita contra o laicismo que dominava toda a legislação e toda a vida oficial do Estado, o qual abstraía olimpicamente do fato básico que era a esmagadora predominância católica da população. Mais de 90% dos brasileiros pertenciam então à Igreja [1].

No tempo do Império, a Igreja era reconhecida pelo Estado como a única religião verdadeira. Proclamada a República, afirmou-se oficialmente no Brasil o espírito da Revolução Francesa. E, com o espírito da Revolução Francesa, o laicismo de Estado inerente a essa mesma Revolução.

A separação da Igreja e do Estado trouxe para a Igreja enormes e ponderáveis desvantagens, e também grandes e ponderáveis vantagens.

A Igreja ficou mais livre das ingerências do Estado. Mas, de outro lado, uma onda de laicismo — de ateísmo, no fundo, porque o laicismo não é senão uma formulação um pouco mais atenuada do ateísmo — varreu todo o Brasil.

E assim permaneceu de 1889 até 1930.

2. Circunstâncias propícias para uma reviravolta

Veio a Revolução getulista de 1930. E dois fatos marcaram uma mudança nessa ordem de coisas, para os quais nem todo mundo teve os olhos abertos na época.

Concentração mariana no pátio do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em julho de 1935

O primeiro fato, que datava de três ou quatro anos antes, era a enorme expansão do Movimento Católico no Brasil e, sobretudo, das Congregações Marianas. Essa expansão começou a tornar habitual um homem freqüentar os sacramentos, sendo que antigamente apenas as mulheres o faziam.

Em segundo lugar, Getúlio Vargas baixou um decreto estendendo o voto às mulheres e instituindo assim o voto feminino (decreto n° 21076, de 24/2/32).

Até 1930, as mulheres não votavam porque se considerava que a função política era privativa dos homens. E a quase totalidade dos homens daquela época não freqüentava os sacramentos e tinha uma mentalidade laica. E a quase totalidade das mulheres, que eram fervorosamente católicas, não votava. Isso garantia a manutenção do laicismo no corpo eleitoral e em todos os graus da hierarquia política, eleita pelos homens.

Ruminando essas coisas, eu me perguntei se não seria possível tirar proveito disso para alterar a atmosfera de laicismo no Brasil.

Mas não sabia como fazer, porque as autoridades eclesiásticas tinham um verdadeiro horror à idéia de formação de um partido católico [2].

A Hierarquia eclesiástica agia naquele tempo com muito cuidado, com muito esmero na definição e na divulgação da doutrina católica, sobretudo no que diz respeito às verdades concernentes à moral e à vida eterna.

Ela fazia a difusão dessa doutrina sobretudo por meio da pregação explícita feita do alto dos púlpitos e da ação pessoal desenvolvida nos confessionários. E também por meio dos estabelecimentos católicos: colégios e outras entidades atuando sobre a massa dos fiéis.

Esta ação era uma ação certamente indispensável, legítima portanto. Mas ela deixava de lado um mundo de outros campos de ação utilizados pela Revolução.

Não preciso dar como exemplo senão uma coisa, para se ter a idéia do descompasso que se estabelecia assim: a Revolução Industrial.

Tudo o que a Revolução Industrial trouxe para tornar pelo menos incomodíssima a prática dos Mandamentos e a profissão da fé no mundo novo que se criava, foi uma coisa de um vulto enorme.

Nada disso foi suspeitado pela Hierarquia e ela continuou na velha rotina [3].

Daí o grande receio dos Bispos. Eles diziam que um partido católico criaria uma série de problemas, sendo o primeiro deles o fato de padres quererem se candidatar. E depois, o aparecimento de uma porção de hipócritas, os quais haveriam de se declarar católicos apenas para fazer carreira. E isto encheria de oportunistas as fileiras das associações religiosas [4].

Capítulo II

Como nasceu a idéia da Liga Eleitoral Católica (LEC)

1. A «Fédération National Catholique» do general Castelneau

Lendo uma revista francesa chamada La documentation catholique [5], eu vi referências um general francês, Visconde de Castelnau [6], que se distinguira muito durante a I Guerra Mundial e que fora um dos grandes generais da resistência francesa nessa guerra [7].

Visconde de Castelnau

Eu pensei: “Castelnau tem jeito de ser um homem duro, um Visconde dos antigos tempos: deve ser um firme contra-revolucionário. Vejamos o que ele diz”.

Mais tarde vim a saber que o Visconde de Castelnau era liberal. Mas a Providência às vezes faz coisas com as quais não contamos [8].

Ainda em La documentation catholique encontrei a notícia de uma Fédération Nationale Catholique, fundada pelo mesmo general de Castelnau [9].

Então resolvi escrever para essa Fédération Nationale Catholique, pedindo os estatutos deles. E eles me mandaram os estatutos [10].

Li os estatutos e percebi que Castelnau elaborara um jogo político muito interessante.

Ele tinha influência sobre um certo setor católico. E, para atuar favoravelmente sobre o eleitorado católico, ele dirigia aos candidatos um pequeno interrogatório:

“Qual o seu pensamento a respeito de tal ponto, de tal ponto, de tal outro ponto? Se o seu pensamento nesses pontos estiver de acordo com a doutrina católica, eu o recomendarei aos meus eleitores. Se não estiver, direi que o senhor se manifestou contra. Se não me responder, direi no meu boletim que o senhor não me respondeu. O senhor perde votos se não me responder; e ganha votos se me responder favoravelmente” [11].

Com isto ele conseguia fazer entrar um bom número de católicos nas Câmaras, no Senado, nas prefeituras, e aumentava uma certa influência da Igreja no jogo político, sem que a Igreja se transformasse propriamente num partido político.

Achei a idéia muito interessante [12] e guardei-a na memória.

2. Getúlio convoca eleições: oportunidade única para os católicos

Nisto eclode em São Paulo a Revolução Constitucionalista de 1932 [13].

Derrubando o Governo Washington Luís, Getúlio Vargas tornara-se o senhor do Poder. Em vez de proceder de imediato à democratização política — que era a finalidade declarada da revolução por ele chefiada — tentou ir se perpetuando na Presidência da República.

Sua atuação à testa do Governo foi sentida pelos elementos representativos de São Paulo como fundamentalmente anti-paulista. Era de ampla liberalidade para com outras unidades da Federação, ao passo que se revelava muito restritivo para com São Paulo. E isto até de modo afrontoso.

Por exemplo, soou como depreciativa em São Paulo a nomeação de um ex-líder tenentista do exército revolucionário, João Alberto Lins de Barros [14], para as altas funções de interventor federal. Tanto mais quanto ele se pôs desde logo a tratar com displicência os principais chefes dos dois partidos políticos, o Partido Republicano Paulista (PRP) e o Partido Democrático (PD).

Além da liderança que exerciam sobre a vida pública do grande Estado brasileiro, é de notar que esses próceres políticos possuíam considerável prestígio individual, quer na vida intelectual, quer na vida social ou econômica de São Paulo. A maneira desenvolta e até arrogante do jovem interventor não poderia deixar de chocá-los, produzindo neles a impressão de que João Alberto Lins de Barros não agiria dessa maneira se não contasse com o apoio do Presidente da República.

Aos olhos dos chefes políticos, da imprensa e das principais figuras do Estado, foi tomando corpo a convicção de que o Presidente Getúlio Vargas desejava eternizar-se no poder, enquanto ditador. E que, para chegar a esse resultado, queria quebrar antes de tudo o poder político e econômico de São Paulo, estado líder do ponto de vista produtivo.

Numerosos episódios da atuação do interventor João Alberto Lins de Barros, como do próprio Governo federal, foram dando ensejo a que essa opinião se consolidasse. E o mal-estar profundo daí originado na população paulista teve conseqüências gravíssimas [15].

Assim foi que eclodiu em São Paulo a Revolução Constitucionalista de 1932. Mesmo derrotada, criou ela em todo o País um ambiente que tornava impossível ao Governo Federal não efetuar, por fim, a eleição de uma Constituinte [16].

Foi então que Getúlio convocou as eleições para o ano de 1933 [17].

Neste contexto, Getúlio promulgou além da lei do voto feminino uma lei eleitoral pela qual, para escolher deputados em São Paulo, o eleitor poderia compor uma chapa com os deputados que quisesse, dos vários partidos que houvesse. Cada eleitor compunha a sua chapa à vontade. Assim sendo, se nós aplicássemos o sistema inventado pelo general de Castelnau, os católicos poderiam expurgar os não católicos. E poderiam colocar um grande número de católicos dentro da Constituinte, montando uma chapa composta só de católicos dos diversos partidos [18].

3. Conversas com Heitor da Silva Costa e com Tristão de Athayde

Nessa ocasião eu estava no Rio de Janeiro e era íntimo amigo do engenheiro Heitor da Silva Costa [19].

Heitor da Silva Costa

Era ele filho de um Conselheiro do Imperador Dom Pedro II, José da Silva Costa [20], casado com uma senhora de muito boa família do Rio de Janeiro, Dª Elisa Guimarães da Silva Costa. Tinha um cunhado deputado, homem com quem eu me dava muito bem, o Professor Leitão da Cunha [21].

Era fino, inteligente, de trato agradável [22] e trinta a quarenta anos mais velho do que eu, mas condescendia em conversar comigo.

Logo que eu chegava ao Rio, eu o avisava: “Dr. Heitor, estou no Rio de Janeiro”. E ele vinha logo conversar. Vinha também a São Paulo me visitar. Tínhamos muito boa amizade.

Era um homem muito focalizado naquele tempo, por ter sido o arquiteto, incumbido pelo Cardeal Dom Sebastião Leme de construir a imagem do Cristo Redentor, uma obra de engenharia muito ousada.

Conversando com o Silva Costa, eu disse:

— Getúlio propôs uma eleição da Constituinte. Sugiro tal e tal coisa que li na revista La documentation catholique do general de Castelnau.

Silva Costa tinha ouvido falar do Castelnau e gostou muito do plano.

Disse-me que tinha pensado em coisa semelhante e propôs falarmos com o Tristão de Athayde [23] e recomendarmos a ele levar o assunto a Dom Leme, Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro [24].

4. Dom Leme recomenda ao Episcopado a fundação da LEC

Tristão tinha uma entrada muito grande junto ao Cardeal [25]. Falou com ele e o Cardeal também gostou do plano [26].

Cardeal D. Sebastião Leme

Saiu daí uma correspondência entre o Tristão e o Silva Costa de um lado, e eu de outro lado. Fiz umas duas ou três viagens ao Rio, nos entendemos a respeito dos estatutos [27].

Pediram-me então que eu redigisse os estatutos. Inspirei-me evidentemente no texto do general Castelnau, devidamente adaptados à lei e às circunstâncias brasileiras. Tristão e Silva Costa fizeram algumas emendas e mandaram a Dom Leme.

Dom Leme, que era um homem decidido, transformou o texto numa circular para todos os Arcebispos e Bispos do Brasil, recomendando a fundação desse organismo, para o qual eu propus o nome de Liga Eleitoral Católica [28].

Isso formaria, naturalmente, uma organização colossal. E como toda organização grande, deveria ter uma certa representação: o presidente devia ser um homem de relevo, de alguma importância, que tivesse ar de ser alguém. Quanto ao secretário geral, entendia-se que deveria ser um homem de ação [29].

5. Vaivéns do projeto

Após isto, as coisas ficaram andando nos bastidores da Igreja. E eu não tive mais informações do que havia sido feito do nosso projeto [30].

Entrementes, eu ia vendo a tirania do Getúlio a todo momento desmantelar aquela São Paulo que eu amava — tradicional, rural, agrícola, estratificada, bem paulista — para fazer a São Paulo cosmopolita, ambígua, indefinida, desmedida, sem fisionomia caracterizada e super-industrializada que nasceu do bafejo dele.

Eu sempre julguei que metrópoles industrializadas eram o sorvedouro da civilização e, portanto, não queria que no Brasil tivéssemos essas grandes metrópoles industrializadas.

Minha idéia era a de uma América do Sul produzindo víveres e produtos agrícolas às toneladas. A Europa e Estados Unidos que fabriquem, nós pagamos os seus produtos. Fiquem eles com as suas fábricas. Nós ficamos com a agricultura, ficamos com a fartura, ficamos com o bem-estar, ficamos com o equilíbrio, ficamos com as condições propícias ao florescimento de uma Cristandade.

Ao mesmo tempo eu percebia as manifestações de desagrado em São Paulo contra o Getúlio. E pensava:

Onde foi parar a LEC? Ela está no fundo da minha gaveta, no fundo da gaveta do Tristão e do Silva Costa. São Paulo vai água abaixo. Aquela esperança está jogada no chão. Bem, o que eu posso fazer é estudar, estudar, estudar e esperar que Nossa Senhora intervenha no caso [31].

Capítulo III

Fundação e atividades da LEC

1. Dr. Plinio é escolhido secretário geral da LEC em São Paulo

Mas por fim as coisas deslancharam.

Dom Duarte fundou a Liga Eleitoral Católica em São Paulo e todos os outros Bispos fundaram Ligas Eleitorais Católicas em suas dioceses [32].

A Liga Eleitoral Católica não era propriamente um partido político [33]. Era um organismo de grande representação existente em cada uma das dioceses do interior de São Paulo. Havia uma LEC local, em cada paróquia, ligada à respectiva diocese. Depois, as LECs das dioceses todas do interior do Estado de São Paulo eram ligadas à LEC da cidade de São Paulo. No Brasil inteiro, em cada Estado, havia um organismo igual [34].

*   *   *

Extrato do anúncio da criação da Liga Eleitoral Católica no "Legionário" de 15 de janeiro de 1933 (clique sobre a imagem para ler o manifesto completo)

Um dia, Monsenhor Gastão Liberal Pinto, Vigário Geral de Dom Duarte, me chama e diz:

— Olha aqui, nos papéis que nos chegaram sobre a questão da LEC está constando que você foi, com o Silva Costa, o autor do documento que lhe deu origem.

— É verdade.

— Está bom. Dom Duarte quer saber se você aceita ser o secretário geral da Liga Eleitoral Católica para o Estado de São Paulo, em vista das próximas eleições para a Constituinte.

— Posso ser, perfeitamente.

— Bom, mas veja a responsabilidade que você toma. Porque vai haver uma diretoria e o Arcebispo quer pôr homens de bom nome, de boas famílias; quer pôr também alguns líderes católicos, todos já de cinqüenta anos para cima. Mas quem vai ter que escorar o trabalho é você. Você escora?

— Desde que ele pague as despesas. Porque boa vontade eu tenho, dinheiro eu não tenho.

Ele deu risada e disse:

— Não, não! A Cúria paga as despesas e você fica sendo o pé de boi que arca com a carga do trabalho.

— Pois não, então vamos fazer [35].

Dom Gastão Liberal Pinto me expôs então o seguinte:

— Dom Duarte espera então de você, com as relações que você tem no meio mariano e no meio católico em geral, que seja realmente um elemento propulsor dessa campanha e organize a inscrição eleitoral dos católicos. A LEC abrirá um escritório para facilitar essa inscrição. E nós todos, do Clero, vamos trabalhar para que o maior número possível de católicos, e sobretudo de católicas, se inscrevam como eleitores. Esse serviço vai ser feito, através da LEC, sob sua responsabilidade [36].

2. Escolha do presidente da LEC: Estêvão de Souza Rezende

Aí ele me perguntou quem eu propunha para compor a diretoria da Liga Eleitoral Católica, e me disse: [37]

Precisamos de um homem representativo, que tenha um grande nome, para ser presidente [38].

Lembro-me de ter proposto dois homens de família tradicional de São Paulo, e dois líderes católicos de famílias mais novas, mais modestas, mas católicos praticantes e verdadeiramente beneméritos do Movimento Católico [39].

E sugeri como presidente um senhor cujo nome ele agarrou de imediato, e do qual eu me recordo com saudades: Estêvão Emmerich de Souza Rezende [40], um velho gentil-homem dos antigos tempos [41], neto do Marquês de Valença, e ele mesmo um marquês perfeito [42]. Era um homem de muita projeção em São Paulo [43].

Dom Gastão:

— O Estêvão Rezende está excelente! [44].

Estêvão Emmerich de Souza Rezende era da Ordem Terceira do Carmo e reconhecido por todos como pessoa muito direita. Não era especialmente rico, mas tinha o suficiente para viver com decência, com dignidade.

Levei muito tempo para entender o que queria dizer Emmerich. Pensei que fosse algum antepassado alemão ou húngaro. Não era. Emmerich era o nome do filho de Santo Estêvão, Rei da Hungria. Emmerich em alemão é Américo em português [45].

A respeito dele, lembro-me ainda hoje do seguinte: eu comungava todos os dias às 10 horas, na igreja de Santa Cecília. E via sempre comungar também neste horário um senhor de meia altura, com um bigode de estilo português, algo alourado, olhos claros, muito bem penteado, muito limpo, muito bem arranjado e com ares afidalgados. Eu não o conhecia pessoalmente, mas observava-o e pensava: “Que homem simpático, que homem composto, que homem fino, distinto, tranqüilo e plácido! Como deve ser fácil tratar com esse homem!” [46] Agradava-me ver a ausência de respeito humano com que ele comungava, num tempo em que nenhum homem de representação o fazia [47].

Não posso me esquecer de um fato [48]. Comungava também, à mesma hora, uma mulher já de idade, mulata, que tinha uma perna inchada ou algum outro problema assim, coitada!

E na igreja de Santa Cecília, a capela do Santíssimo Sacramento ficava dois ou três degraus acima do nível do chão.

Ela então tinha que subir, comungar, e depois descer e sair. Subir, ela subia: agarrava-se à grade da capela, que permanecia aberta. Mas, descer era muito difícil para ela.

Nessa hora, Dr. Estêvão Rezende, com muita bondade, com muita distinção, dava-lhe a mão [49], como se fosse ajudar uma marquesa. Ela se apoiava nele e descia [50], meio gemendo, meio sorridente diante da atitude em relação a ela daquele fidalgo. Ela agradecia. E ele voltava para as orações dele [51]. Era bonito ver a caridade cristã com que ele fazia isso todos os dias [52].

Não houve gentilezas que eu não fizesse para esse homem amabilíssimo. Não houve gentilezas que ele não me retribuísse. As nossas relações eram relações de conto de fadas. Ele acabou ficando muito meu amigo [53].

3. Demais diretores da LEC

Dom Gastão:

— Quem mais você sugeriria?

Eu tinha conhecido também, nas cerimônias da Ordem Terceira do Carmo da Ladeira, onde eu comparecia para as novenas, o Prior, que era também um homem de boa família de São Paulo, chamado Mário Egídio de Souza Aranha. Eu disse:

— Mário Egídio de Souza Aranha.

— Está bem: Mário Egídio de Souza Aranha [54].

Propus para vice-presidente um professor universitário, economista muito entendido na sua matéria, muito católico, chefe de família, muito direito, homem muito circunspecto. Era uma das inteligências do Movimento Católico de São Paulo. O nome dele talvez cause um pouco de estranheza: José Papaterra Limongi [55].

Por fim, indiquei o Dr. Vicente Melillo, advogado, católico muito fervoroso, bom orador [56].

Dom Gastão disse:

— Vou indicar dois.

— Pois não.

— Dr. Adolfo Greff Borba e Dr. Esdras Pacheco Ferreira.

Eu disse:

— Perfeitamente [57].

Esses todos constituíram a direção da Liga Eleitoral Católica [58].

4. A LEC em plena atividade

Com a colaboração de vários congregados marianos que passaram a trabalhar comigo na Secretaria Geral, constituiu-se uma rede enorme de núcleos da Liga Eleitoral Católica nas várias dioceses da Província Eclesiástica de São Paulo.

Estava a LEC bem organizada e estruturada [59]. E eu percebia que ela tinha diante de si um futuro imenso. E que, se o Episcopado soubesse aproveitar a força da Liga, poderia instaurar no Brasil uma sociedade verdadeiramente católica [60].

Tomamos três salões em um prédio da Cúria [61], na rua Venceslau Brás.

Havia a minha sala e, num canto dela, Dom Duarte mandou colocar uma boa mobília, com escrivaninha, tinteiro e demais apetrechos, para as reuniões da diretoria.

Havia também outra sala grande, destinada propriamente para o movimento eleitoral. No fundo, um salão de fotografias, onde se tirava fotografias para os títulos eleitorais. Facilitava muito ao eleitor já ter o fotógrafo ali.

Nós encaminhávamos depois os títulos para o Tribunal Eleitoral, e acompanhávamos o processo. Se alguma coisa encrencasse, mandávamos avisar [62].

Convidei Dr. Paulo Barros de Ulhôa Cintra para dirigir esse serviço de recrutamento eleitoral [63]. Ele trabalhou muito nessa ocasião, trabalhou como um mouro, verdadeiramente. Ele ainda era, nesse tempo, estudante de Direito. Eu já havia me formado [64].

O datilógrafo era um estudante católico da Faculdade de Direito, que depois ficou deputado pelo Estado de Goiás: Benedito Vaz [65].

Começamos a propaganda no meio católico, anunciando a todos os católicos que quisessem se inscrever como eleitores, que nós providenciaríamos os trâmites do título eleitoral deles. E eles ficariam comprometidos a votar em quem a Liga Eleitoral Católica indicasse.

Foi uma movimentação enorme, o elevador não parava. Entrava gente, saía gente, e o movimento encheu e floresceu [66]. Nós chegávamos de manhã e saíamos só à noite [67].

Em pouco tempo a Liga formou um movimento colossal! Em grande parte, isto se deveu ao apoio do Clero. Mas em alguma medida, também, à popularidade de que eu gozava junto aos católicos militantes, e que era uma popularidade enorme [68].

5. Chapa Única por São Paulo Unido

A propaganda eleitoral ia assim mar alto, quando um dia me chama Dom Gastão: “Eu quero contar a você uma novidade estritamente confidencial”.

Ele tinha uns olhos de verruma, cravados em mim. E ele completou: “A LEC não vai concorrer às eleições”.

Nós estávamos com um eleitorado enorme! Dominei o meu movimento de decepção e ele disse:

— O Arcebispo foi procurado por políticos de São Paulo que resolveram fazer uma chapa única de todas as correntes paulistas. Vão entrar quatro candidatos pelo Partido Republicano Paulista, quatro pelo Partido Democrático, quatro pela Associação Comercial, representando as classes conservadoras, e quatro pela LEC representando a Igreja”. E também dois ou três designados por outras entidades.

E completou:

— Agora você vai ter que trabalhar para os candidatos que forem designados para essa chapa.

— Pois não! Está muito bem. Se vão entrar quatro representantes da Igreja, está esplêndido. Eu não tenho outra coisa para desejar.

— Então guarde isto por enquanto para você. No momento oportuno vai ser dito a você quais são os candidatos da LEC [69].

Capítulo IV

Indicação para candidato a deputado

1. Dom Gastão comunica a lista dos candidatos

Algum tempo depois, veio um novo chamado de Dom Gastão: “O Senhor Arcebispo constituiu a lista dos quatro candidatos católicos”.

Ele era meio sério, meio brincalhão. Acho que ele tinha querido, na primeira conversa, pôr-me à prova e saber se eu estava torcendo para ser candidato ou não.

E me disse: “Os quatro candidatos são: Plinio Corrêa de Oliveira, José de Alcântara Machado, Rafael de Abreu Sampaio Vidal e Manuel Hipólito do Rego” [70].

Na qualidade de Vigário Geral de São Paulo, Dom Gastão era o primeiro homem abaixo de Dom Duarte. Tinha uma grande influência. E concorreu muito para que Dom Duarte me indicasse como candidato a deputado.

Também trabalhou muito para eu ser eleito. E mais ou menos até a sua morte, conservei muito boas relações com ele [71].

"... no ato de generosidade e confiança com o qual o Arcebispo deliberava pôr aquela responsabilidade sobre os meus ombros, entrava a idéia de que a minha presença na Chapa acarretaria um grande entusiasmo em todas as Congregações Marianas. " Na foto visita de Congregados Marianos do interior de São Paulo à sede da Congregação Mariana de Santa Cecília e redação do Legionário , em 1935

Bem, Plinio Corrêa de Oliveira eu conhecia... [72] E era visível que, no ato de generosidade e confiança com o qual o Arcebispo deliberava pôr aquela responsabilidade sobre os meus ombros, entrava a idéia de que a minha presença na Chapa acarretaria um grande entusiasmo em todas as Congregações Marianas. E que estas levariam atrás de si o laicato católico inteiro.

Portanto, o peso eleitoral da Liga Eleitoral Católica se afirmaria muito com a minha presença entre os candidatos [73].

Outro candidato era José de Alcântara Machado [74]. Homem de muita fama na São Paulo daquele tempo, bem rico, fazendeiro no interior [75], tinha sido meu professor na Faculdade de Direito [76]. Ele dava aulas muito interessantes numa matéria que eu julgava desinteressante, Medicina Legal [77].

Era um homem com um bom dote literário, e que acabara de ser eleito membro da Academia Brasileira de Letras.

Filho do Barão Brasílio Machado, nomeado barão pelo Papa São Pio X, fora um católico de grande expressão e era um político, creio eu, de importância média no antigo PRP (Partido Republicano Paulista). A projeção do pai enquanto expoente católico, a rigor podia ser interpretada como refletida também no filho.

Era um homem de vontade muito forte, com olhos entre cinzento e verde-claro. Ligeiramente alourado. Quando se tornava hostil, tinha qualquer coisa de fera; quando estava em seu estado comum, era de um trato agradável.

O terceiro candidato, Rafael Sampaio Vidal [78], era um antigo Ministro da Fazenda do governo Artur Bernardes, este antecessor de Washington Luís na Presidência da República.

Eu o conhecera razoavelmente em casa de um tio meu, de quem Rafael Sampaio Vidal era amigo. Ele ia aos domingos conversar com meu tio e eu fazia parte da algazarra dos filhos e dos sobrinhos. Nessas ocasiões, apenas passávamos pelos mais velhos, os cumprimentávamos e trocávamos com eles duas palavras. A esse título muitas vezes eu estivera com Rafael Sampaio Vidal.

Sua nomeação me espantou, porque nunca percebi nele qualquer nota de catolicidade.

Por fim, o quarto candidato, Manuel Hipólito do Rego, advogado de destaque no Fórum de Santos e muito amigo do Bispo local [79]. Líder católico santista, um bom homem. Fiquei amigo dele até o fim da vida [80]. Tinha sido indicado pelo Bispo de Santos. Mais tarde vim a saber que tinha haveres lá pelo lado do município de São Sebastião.

Estes eram os deputados indicados pela LEC.

*   *   *

Eu disse a Dom Gastão:

— Fico muito agradecido ao senhor, ao Senhor Arcebispo, é uma grande honra a confiança que depositam em mim.

— Não, não está tudo resolvido. Agora é preciso que você convoque uma reunião da Junta Arquidiocesana da LEC, e que eles aprovem esses nomes.

— Mas, Monsenhor Gastão, eu não posso estar presente na reunião, porque vai coibir a eles.

— Então esteja ausente.

Telefono, convoco a reunião, e digo:

— Estou incumbido, pela autoridade eclesiástica, de comunicar aos senhores esta lista de deputados, mas como sou candidato, não quero assistir aos debates, para dar liberdade aos senhores de inclusive vetarem meu nome. Eu me retiro.

Eles disseram: “Pois não, pode se retirar, que vamos deliberar” [81].

Retirei-me. E eles ficaram deliberando ali durante algum tempo. Eu fiquei andando pelo corredor, inteiramente vazio a essa hora, rezando as minhas orações do dia e pedindo ao mesmo tempo a Nossa Senhora que dispusesse o que quisesse a meu respeito [82].

Ao cabo de uma hora de discussão, na qual eu não sei o que se passou, eles mandaram me chamar. Entrei e eles disseram que eu podia comunicar ao Sr. Arcebispo que a lista estava aprovada por unanimidade [83].

Era uma oportunidade ótima para batalhar pela Igreja [84].

2. Católico-monarquista em chapa republicana: dificuldades

Procurei depois Dom Duarte, agradeci muito a gentileza, mas expus a ele uma dificuldade:

— Dom Duarte, eu sou monarquista. E não posso admitir sem mais que o meu nome seja posto dentro de uma chapa republicana.

— Oh! Vossemecê é monarquista?

— Sou.

— Bobagem de menino! Deixa disso.

— Não, Dom Duarte. Isto é uma coisa muito séria: eu sou monarquista e aliás não compreendo como não se possa ser monarquista. E só estou disposto a aceitar a inscrição do meu nome nessa chapa se o presidente da Liga me escrever uma carta em que fica atestado que foi a pedido da Igreja, para fazer bem à causa católica, que eu ponho entre parêntesis, no momento, as minhas idéias monárquicas e entro para o jogo político. Do contrário, não aceito.

— Bom. Pode escrever a carta, não tem nada, está bom.

Fui então me entender com Dr. Estêvão de Souza Rezende: não encontrei a menor dificuldade.

Dias depois, acordo de manhã, toco a campainha para a criada me trazer o jornal. E ela me diz:

— Dr. Plinio, recebi de madrugada um telefonema da casa do Dr. Estêvão de Souza Rezende (vejam até onde pode ser levada a amabilidade da gente de estirpe antiga) avisando para não acordar o senhor antes da sua hora de costume, mas quando o senhor acordasse, avisar que o Dr. Estêvão Rezende morreu”.

— Mas morreu o Dr. Estêvão Rezende?

Bem, houve o enterro, fiz todas as cortesias cabíveis e possíveis [85].

Novo presidente da Liga, quem? Vicente Melillo [86].

Vou, exponho a mesma coisa ao Dr. Vicente Melillo, que me diz:

— Todo esse problema é muito complicado, eu não entendo bem. Mas faça você a carta e me dê para assinar que eu assino. Ponha todo o seu caso de consciência ali, que eu resolvo como você quiser.

Eu fiz a carta, e ele me devolveu passada à mão com uma linda caligrafia vicentina e rigorosamente assinada [87].

3. Um escrúpulo de consciência

Na mesma ocasião em que fui visitar Dom Duarte para agradecer a indicação, ele, paternalmente, mas muito distante, me disse:

— Vossemecê foi indicado porque Monsenhor Gastão Liberal Pinto disse que Vossemecê arca com qualquer responsabilidade.

— Senhor Arcebispo, o que eu puder fazer, não tem dúvida nenhuma, eu faço.

— Bom, agora a questão é: Vossemecê mobilizará todos os congregados marianos nessa eleição?

— Mobilizo. Não tenha dúvida nenhuma que eu mobilizo.

— Porque a propaganda deve ser feita pelos “maríanos”.

Ele tinha a pronúncia um pouco peculiar. Ele não dizia marianos, mas “maríanos” [acento tônico no i], não sei por quê.

— Os “maríanos” é que devem fazer isto. E é preciso que Vossemecê ponha esses milhares de “maríanos” todos lutando pelo mesmo ponto.

— Senhor Arcebispo, nesse ponto eu garanto.

*   *   *

Quando cheguei à rua, veio-me um escrúpulo à consciência.

Eu pensei: "Dom Duarte está me pondo como candidato só para movimentar os marianos [88]. Se me nomeia só por causa de meu prestígio, é porque ele gostaria de nomear um outro. Não serei eu obrigado em consciência a procurar por ele e dizer o seguinte: ‘V. Excia. nomeie um outro que eu trabalharei por esse outro como trabalharia por mim, porque assim se faz a vontade do meu Arcebispo’?" [89].

Passei assim uns dois ou três dias na indecisão. E resolvi consultar o Padre José Danti, jesuíta do Colégio São Luís.

Eu me lembro de entrar no quarto do Padre Danti, ele sentado diante da escrivaninha, de perfil, olhando para a frente, e eu numa cadeira. Parecia uma figura de moeda.

— Então, Dr. Plinio, o que há?

— Padre Danti, tem isto assim, assim. Não seria mais perfeito eu procurar Dom Duarte, e dizer assim, assim? Ele não estará iludido a meu respeito, pensando que se ele não me der esse cargo, eu não movimento os congregados marianos? E, portanto, não estarei praticamente comprando esse cargo, quando na realidade ele tem o direito de dispor dele como Arcebispo? Não é uma espécie de roubo meu aceitar esse cargo, quando não é preciso?

Lembro-me até hoje da atitude do Padre Danti, olhando para o horizonte. Quando acabei de falar, ele não teve a menor reação. Parou um pouquinho e depois disse, inclinando um pouco a cabeça:

— O senhor pediu o cargo?

— Não.

— O senhor fez alguma pressão para ser nomeado?

— Nenhuma. Para mim isso caiu de surpresa.

— Pode ser que o Arcebispo tenha feito esse cálculo. Mas não foi o senhor que sugeriu o cálculo a ele. Isso é da cabeça dele e quem é responsável perante Deus pelos atos dele é ele, e não o senhor. O senhor não tem que se meter na cabeça dele para pensar o que ele pensou, para daí ver se nasce um dever para o senhor.

Depois acrescentou:

— Pode ser que ele lhe tenha dado esse cargo para o senhor levar os votos de todos os marianos [90]. Mas o senhor deve apresentar-se, o senhor mesmo, como candidato. Porque, se eu vejo que o senhor tem tanta vontade de obedecer ao Arcebispo e é tão fiel à Igreja Católica, a Igreja não pode ter melhor representante. E se o senhor deixar vago o lugar, de repente vem um que não tem a mesma fidelidade. Então, é melhor o senhor mesmo ficar [91].

Eu achei que estava muito bem pensado. Agradeci, desci e fui tratar de minha candidatura [92].

4. Comunicação da candidatura à família: surpresa e insegurança

Em casa eu não disse uma palavra.

Pensei com meus botões: “Eu só direi alguma coisa em casa ou na Congregação Mariana, ou em qualquer outro lugar, se sair pelos jornais. Porque acho uma coisa extraordinária, eu, com 23 anos, ser indicado a deputado federal, e isso pode fracassar. Então vou ficar quieto”.

Dias depois, os jornais todos [93] davam com manchetes: “Designados os candidatos etc. etc.”, e apresentavam a lista da Chapa Única por São Paulo Unido. Era a chapa antigetulista. E entre os nomes, em ordem alfabética, Plinio Corrêa de Oliveira.

Eu li os jornais e fui calmamente de bonde para jantar [94].

Quando cheguei em casa, eu disse: “Sabem que foi constituída a Chapa Única por São Paulo Unido?”

Todos perguntaram com curiosidade: “Quem são os candidatos?”

Mas ninguém ali supunha que eu fizesse parte da lista. Nem mesmo Mamãe.

Eu era dos mais moços e ficava, portanto, no fim da mesa. Mamãe, que era das mais velhas, ficava próxima à cabeceira ocupada por minha avó, que jantava prestando muita atenção, mas sem voltar a cabeça para ver o que eu dizia. Era nela um modo de ouvir e de se concentrar mais.

Eu disse: “Os candidatos são tais”. E nomeei os políticos indicados pelos outros partidos. E depois completei: “E eu também.”

— Ah! mas você é candidato?

— Eu sou candidato.

Eu notei uma espécie de perplexidade na mesa inteira [95], uma espécie de surpresa meio satisfeita e meio desolada. Eles não tinham idéia da força do movimento da LEC.

Notei também a insegurança de Mamãe, como quem diz: “Como foi que ele pulou dentro disso assim e aceitou essa candidatura?” [96].

Eu soube que depois correu o zum-zum entre os familiares de que era uma temeridade eu me apresentar como deputado: um rapaz com 24 anos, que conhecia pouca gente, de uma família que não era de políticos, há muito tempo não tinha mais fazenda no interior, não tinha base eleitoral nenhuma. Como é que eu ia me eleger? Portanto, na avaliação deles, a minha candidatura era muito honrosa, mas caminhava para um fracasso, e eles se perguntavam se não teria sido um erro.

Essa opinião era acompanhada por Mamãe com muita incerteza, porque ela não tinha nenhuma segurança sobre a vida política [97].

Mas, apesar disso, naquela hora procuraram me estimular:

— Oh! Muito bem, veja só. Agora trate de conseguir os eleitores, hein?

— Vamos ver. Eu não perco nada por correr o risco da eleição.

No jantar, durante a sobremesa, minha avó mandou servir uma champanhe em honra do futuro deputado. Mas eu vi que havia uma espécie de pena diante do meu próximo e irrefragável fracasso [98].

Terminado o jantar, vi minha mãe combinando com uma tia, irmã dela, algumas providências para arranjar votos para mim. Iam telefonar para Santos, para o Hotel Parque Balneário, onde a minha família ia passar os meses de inverno, e pedir a um diretor, senhor Fracarolli, para que os copeiros votassem em mim. Elas calculavam que isso alcançaria uns quinze votos.

Depois, confabulavam elas, havia as antigas criadas de casa, que estavam empregadas noutros lugares: mandariam avisar para votar em mim, e também falar com as amigas delas.

E ficaram combinando umas coisas assim, que no conjunto não dariam cem nomes. Mas era com lista feita, telefones, para começar uma propaganda. A meta delas era a de que eu não tivesse uma votação vergonhosa [99].

Eu estava achando graça no negócio e pensei: “É melhor que elas peçam do que não peçam. De repente, entram 5 ou 10 votos por aí que podem ser decisivos”.

À noite, quando fui me despedir de mamãe [100], notei-a muito reservada. Então perguntei a ela:

— Meu bem, o que a senhora achou dessa candidatura?

— Meu filho, eu não entendo de eleições. Mas o que os seus tios me dizem é que você não é conhecido de ninguém, só é conhecido em algumas sacristias. É verdade que você tem um nome tradicional, mas é tradicional em Pernambuco. Aqui em São Paulo ninguém conhece os Corrêa de Oliveira, não te adianta nada. E seus tios acham que você não tem condições de ser eleito. Você terá dado um passo bem judicioso?

— Meu bem, olhe: é melhor eu ser um candidato derrotado do que nunca ser candidato. Porque ao menos eu varei esta situação, e já é qualquer coisa. Então vamos para a frente!

— Está bem, e que Deus te ajude.

— A senhora reze também para as coisas correrem bem, eu acho que poderei prestar muito bons serviços à Igreja.

E continuei a trabalhar. Dr. Paulo Barros de Ulhôa Cintra continuou a trabalhar junto comigo. Fizemos viagens e tomamos várias providências [101].

Capítulo V

Primeiras encrencas

1. Alcântara Machado convoca o “benjamim”

Dias depois, à tarde, estava eu no meu escritório [102], numa roda de membros do pré-grupo do Legionário proseando (era para o que servia o meu escritório: prosear e fazer apostolado), quando toca o telefone [103].

Atendi. Era tão curto de dinheiro que não tinha office boy, atendia eu mesmo os telefonemas [104].

— Pronto.

— De onde fala?

— Do escritório do Dr. Plinio Corrêa de Oliveira.

Do outro lado respondem: “Aqui fala Alcântara Machado”.

— Ah! Dr. Alcântara Machado, como vai o senhor? Está passando bem? [105]

Eu queria avisar ao senhor que vai haver uma reunião na rua São Bento, número 19, num prédio da Ordem dos Advogados, às tantas horas, do dia tanto, para discutirmos os programas da Chapa Única. O senhor, como nosso mais jovem colega, está convidado.

Ele nem perguntou se eu podia. Era a hora marcada para o “benjamim”, para o pirralho.

— Pois não. O senhor esteja certo que eu estarei lá.

2. Separação Igreja-Estado, ponto não aceitável

Chegada a hora, compareci ao prédio da Ordem dos Advogados, no qual nunca tinha entrado na minha vida. Era um prédio antigo em que havia morado outrora o Conselheiro Antonio Prado*.

* Nessa época, o prédio tomara o nome de Casarão Elias Pacheco Chaves. A localização atualmente corresponde aos números 189, 195 e 197 da rua São Bento, no Centro Velho de São Paulo (cfr. http://www.oabsp.org.br/portaldamemoria/destaque/primeira-sede-da-oab-fica-na-sao-bento/).

A reunião realizou-se na antiga sala de jantar dele. O papel de parede era bonito, mas os móveis todos muito feios. Uma mesa enorme e um marcante ambiente de politicagem antes de começar a reunião, todos falando.

Entrei e veio logo ao meu encontro o Professor José Joaquim Cardoso de Melo Neto [106], grande amigo do Alcântara Machado e que fora meu professor de Economia Política.

Acontece que a família do Cardoso de Melo se dava muito com a minha família, de maneira que ele veio falar comigo assim como quem fala com um sobrinho.

— Oh! como vai você, Plinio? Vem cá, eu quero te apresentar para este, para aquele, para aquele outro.

E entre esses outros, eu conheci José Carlos de Macedo Soares [107], o qual, pelas razões que explicarei, estava indignado, furioso com a minha candidatura.

Começa a reunião, o Alcântara Machado toma a presidência. Sentei-me na última cadeira, porque era de longe o mais moço, mas bem em frente ao presidente, vis-à-vis do líder.

— Bem, vai ser feita a leitura do programa dos candidatos à Chapa Única por São Paulo Unido. Primeiro ponto: separação da Igreja e do Estado. Segundo ponto: isto, aquilo, aquilo outro.

E enumerou outras coisas de política que não vêm ao caso.

As reivindicações da LEC estavam contempladas: quebra do laicismo no Brasil; proibição do divórcio; ensino religioso nas escolas; capelanias nos hospitais, nas prisões do Estado e nas Forças Armadas.

Terminada a leitura, diz o Alcântara Machado:

— Os senhores querem fazer alguma objeção?

— Eu quero, Dr. Alcântara Machado.

Todas as cabeças se voltaram para mim [108]: como é que o pintainho de 24 anos se mete agora a discutir com o chefe? [109]

— Eu tenho um desacordo quanto ao primeiro ponto: separação da Igreja e do Estado. Eu sei que não é desejo do Episcopado restaurar a união da Igreja com o Estado. Mas nós não podemos afirmar que seja um regime bom. É um mal menor. Como está aqui, fica parecendo um regime ideal.

Um dos candidatos a deputado, o Dr. João Sampaio - naquele tempo ainda mocetão, de barba grisalha -, quando eu falei isto, nem se voltou para olhar o que eu dizia: fechou a carranca [110], empurrou a cadeira dele para trás, como quem se retira daquele circuito indignado e como que dizendo: “Está vendo? Admitiram esse carola aqui dentro e já vai criar complicação!”

Eu continuei [111]:

— Não que eu pretenda que a Chapa Única por São Paulo Unido deva restaurar a Idade Média...

Isto já era uma hipótese de eles caírem de costas...

— .. mas declarar que a separação da Igreja e do Estado é um bem, isso eu não declaro. É mais fácil eu desistir de ser candidato, sair da Chapa Única, do que o meu nome figurar nesse programa [112]. Eu devo dizer com toda a clareza que, se for aprovado isso, eu terei de consultar a Liga Eleitoral Católica, porque não fomos sondados antes sobre essa proposta. Estou, portanto, em desacordo, e peço que o senhor registre esse desacordo. A lealdade da articulação entre as correntes componentes da Chapa Única exigiria que fôssemos consultados antes.

Vários fizeram cara de tempestade [113].

Houve um suspense, pois estava para estalar a Chapa Única. E eles precisavam do eleitorado católico, que já sabiam colossal.

Enquanto eu falava, Alcântara Machado (eu me lembro dele com um lápis e um papel na mão) me olhava pensativo.

3. Componenda e distensão

Quando terminei, ele disse:

— Bom, vamos dar um jeito nisso. Vamos pôr assim: “Uma vez separada a Igreja do Estado, concórdia entre os dois poderes civil e eclesiástico”. É condicional, porque tanto pode dizer que deve ser separada a Igreja do Estado, quanto pode ser entendida noutro sentido. Caso seja separada, nem o senhor se compromete, nem nós [114].

Eu percebi a sagacidade dele e achei que estava muito bem jogado. Então logo eu disse [115]:

— Aí está bem, eu concordo. Pode ser.

— Ahhh! Distensão.

Daí a pouco estava terminada a reunião, abraços etc. etc. [116]. O João Sampaio se desmobilizou todo [117]. E a LEC tinha ganho esse primeiro tento. Pela mão do caçula, tinha dado uma freada no trem, e o trem tinha parado.

Quer dizer, ficou entendido perfeitamente que, quando fizessem a política deles, eu não criaria dificuldades. Mas quando se tratasse de um interesse católico, a coisa ia até qualquer conseqüência.

4. O susto de Dom Duarte

Dias depois estive com Dom Duarte e contei a ele a reunião [118].

Ele tinha uma dignidade episcopal extraordinária. Eu ia contando e ele ouvindo com um ar marmóreo (aquela estátua que há em frente à igreja Santa Cecília não dá nem de longe idéia do que ele foi).

Ele era muito magro e cruzava uma perna sobre a outra de tal maneira que a perna que cruzava ainda batia no chão também. Ele fechava a cara, mas não controlava o pé. E pela batida do pé eu percebia se ele estava gostando ou não. De maneira que eu, discretamente, tomava o pé como sismógrafo quando ele cruzava as pernas.

Eu narrei tudo desde o início da reunião: quem falou isso, quem falou aquilo, quem disse que conhecia minha família. Ele ouvindo tudo, achando normal, batendo o pé.

Quando chegou no tal assunto e eu disse: “O Alcântara Machado propôs assim”, ele aproximou as mãos do coração como quem pega a cruz (ele estava velho e morreria pouco tempo depois de doença cardíaca). Eu disse que não aceitei o ponto da separação da Igreja do Estado.

Ele disse:

Vossemecê disse isso?

— Disse. E o Alcântara Machado propôs isso assim e eu aceitei.

Ele deu um suspiro de alívio.

Quer dizer, era para a Religião uma vitória brilhante [119].

Como era a primeira vez que eu agia em nome da Cúria, como candidato, gostei que ele visse que eu dava prova de firmeza, mas não de uma firmeza estúpida. E que eu sabia ladear também as coisas. E já que o jeitoso Alcântara Machado tinha encontrado essa solução, eu tinha sabido ver que a solução era boa e tinha aceito a coisa [120].

5. Nova dificuldade: caso Macedo Soares

Nesse período tinha havido uma coisa verdadeiramente complicada.

Eu estava fazendo a minha propaganda eleitoral, ainda antes da morte do Dr. Estêvão Rezende, quando apareceu a querela do José Carlos de Macedo Soares contra a minha pessoa.

José Carlos de Macedo Soares era íntimo e fraternal amigo de Dom Duarte, desses de entrar na casa de Dom Duarte quando quisesse. De outro lado, ele era muito ligado ao Getúlio e levava a fama de católico praticante [121]. Até tinha o Santíssimo Sacramento na casa dele.

Ele estava na Europa quando foi formada a Chapa Única [122].

Voltando, encontrou-me candidato a deputado indicado pela Igreja [123]. E ele achou um desaforo o fato de ele, um “grande católico”, não ter sido indicado como candidato pela Igreja, mas pela Associação Comercial [124].

Foi procurar Dom Duarte e disse que ele fazia questão fechada de ficar presidente da Liga Eleitoral Católica, e a Liga Eleitoral Católica passar a ser dirigida por ele.

Dom Duarte reuniu a direção da Liga e disse: “Bem, os senhores resolvam”.

Nós nos reunimos e eu comuniquei a Dom Duarte que a Liga tinha resolvido que, se ele, Dom Duarte, quisesse, nós obedeceríamos e deixaríamos os cargos de direção da Liga. Eu mesmo iria trabalhar até como datilógrafo da Liga, para auxiliar o serviço. Mas ter participação na diretoria com um homem como o José Carlos de Macedo Soares, não.

Dom Duarte comunicou isto ao Macedo Soares. E o Macedo Soares pulou, injuriou Dom Duarte, disse as piores coisas, brigou e cortou relações.

Isto ocasionou até uma vinda do Tristão de Athayde do Rio de Janeiro para tentar consertar as relações de Dom Duarte com o Macedo Soares. Não adiantou nada.

De outro lado, tendo Dom Duarte ido a Itaipava passar alguns dias com Dom Leme, Macedo Soares ameaçou escrever um artigo contra Dom Duarte.

Eu então telegrafei para Dom Duarte avisando-o da ameaça. Dom Duarte veio para São Paulo. Foi uma estralada medonha entre os dois [125].

Mas a minha candidatura estava lançada. Não era mais retroagível [126].

6. Tentativa de impugnação da candidatura

Apareceu outra dificuldade. Eu estava vendo que havia quem trabalhasse para criar dificuldades [127].

Era o resultado do papel de espadachim que eu tinha feito na primeira reunião da Chapa Única, em que fui obrigado em consciência a tomar aquela atitude.

O fato é que, certo dia, apareceu no alto dos jornais diários: “Impugnada a candidatura do Senhor Plinio Corrêa de Oliveira”. Subtítulo: “Não tem idade suficiente para ser deputado.”

Pela lei eleitoral, era preciso ter 24 anos completos. E eu tinha ainda 23, quando fui indicado como candidato.

O problema era: um homem que tem 23 anos quando se registra como candidato a deputado, mas que terá 24 quando a eleição se realizar [128], pode ou não ser deputado? [129] Como se deve interpretar a lei? [130]

Eu estranhei, indignei-me muito, mas o que fazer?

Eu vi que precisava de um arrazoado, de um parecer jurídico a respeito de como interpretar a lei eleitoral, mas feito por um jurista de grande fama, de grande nomeada, para encostar o Tribunal Eleitoral na parede, e por esta forma obrigar o Tribunal a declarar que o meu direito era indiscutível [131].

Estava neste impasse, quando recebo um telefonema em minha casa: era de um dos candidatos a deputado, que me mandava dizer que, se eu quisesse, arranjava-me o parecer de um grande jurisconsulto a favor do meu ponto de vista.

Eu disse: “Sim, claro, de bom grado”.

Ele: “Passe pela minha casa às tantas horas que eu trato da questão com você”.

Eu passei pela casa dele, conversamos um tanto e perguntei:

— Bem, mas quem é o jurisconsulto?

— É o Professor Sampaio Dória, da Faculdade de Direito (tinha sido meu professor de Direito Constitucional): você quer o parecer dele?

— Quero!

Ele foi ao telefone e combinou com o Sampaio Dória [132] um encontro no dia seguinte, que era feriado, num café da rua XV de Novembro, quase em frente à Secretaria da Educação, perto do Pátio do Colégio.

O café se chamava, se não me engano, Café Guarany. Ele falaria lá comigo, explicando-me o caso.

Fui para o Café Guarany na hora certa. Cumprimentamo-nos, sentamo-nos. Sampaio Dória parece que se lembrava de mim.

E entramos no assunto.

Disse ele:

— Eu acho que você tem toda a razão. Eu vou fazer um parecer para você.

E depois acrescentou:

— Eu sou contrário à participação da Igreja na política. Mas, no caso concreto, como está o Brasil, eu sou favorável. E por isso eu me ofereço para dar um parecer a seu favor. Amanhã, passe a tal hora assim, e pegue o parecer.

Mandei pegar o parecer, que estava excelente, completamente a meu favor.

Tratava-se agora de mandar o parecer para o Tribunal Eleitoral no Rio de Janeiro. O Rio era a capital federal naquele tempo. Foi para lá o Dr. Paulo Barros de Ulhôa Cintra, que era um ano e meio mais moço do que eu, mas muito hábil.

*   *   *

Certa noite eu estava em casa jantando com um amigo, presidente da Congregação de Santa Cecília, de uma família dinamarquesa rica aqui de São Paulo. Ele se chamava Svend Kok. Estavam presentes também outras pessoas.

De repente, vem um telefonema do Rio:

— ‘Seu’ Paulo quer falar com o Dr. Plinio.

Disse eu: “É o assunto do Tribunal Eleitoral. Vamos lá ”.

Não me lembro quem era no Rio de Janeiro que estava levantando oposição à minha candidatura. Eu esbravejei no telefone, dizendo que se devia responder de tal e tal jeito.

O Paulo ia-me dando os argumentos levantados por aquela pessoa. Quem ouvisse a conversa, vendo a minha réplica, compreenderia quais eram os argumentos do meu adversário no Rio.

Minha mãe, perto do telefone, ia ouvindo com toda a atenção. O Svend Kok também.

E aqui aconteceu uma coisa curiosa em relação ao Svend Kok.

Quando na conversa telefônica transpareciam aquelas coisas contra mim, o Svend esfregava as mãos. Como eu estava atento àquele assunto todo, que era muito importante, nem prestei atenção ao que o Svend estava fazendo. Mas notei que minha mãe lhe tinha dito alguma coisa. Notei também que ele respondeu amavelmente.

No fim da noite, disse-me minha mãe:

— Você percebeu o que se deu com o Svend, enquanto você falava ao telefone?

— Não, não notei bem.

— Quando vinha a notícia do argumento que lhe prejudicava, ele esfregava as mãos como quem torcia contra você. Eu então eu lhe disse: "Svend, eu pensei que você fosse amigo do Plinio. Será que eu estava enganada e que devo reformar o meu juízo"? Ele então respondeu: "Não, Dª Lucilia, eu faço assim antegozando a resposta que Plinio vai dar".

Essa atitude dele já era prenunciativa da atitude triste que mais tarde ele iria ter, por ocasião do meu embate com os erros da Ação Católica.

Dias depois, notícia nos jornais: “Tribunal Eleitoral do Rio de Janeiro deu ganho de causa ao Senhor Plinio Corrêa de Oliveira” [133].

Capítulo VI

A campanha eleitoral

1. Primeira experiência eleitoral

Preparam-se as eleições e eu não tinha a menor idéia da votação que eu teria.

Eu percebia que o movimento católico era grande. Mas eu não sabia se aqueles eleitores, na hora de votar, seguiriam ou não a orientação da Liga Eleitoral Católica [134].

Além disso, não tinha nenhuma idéia de qual era o eleitorado real da Liga Eleitoral Católica [135]. Não tinha também a menor idéia da votação que conseguiria [136] e não sabia que parte do eleitorado levavam consigo os outros três candidatos indicados pela LEC [137].

Era certo que eu nunca havia feito a política dos homens. Mas já há tempos havia me adestrado no bom combate das lutas de Deus, fazendo parte das Congregações Marianas, fundando a Ação Universitária Católica e escrevendo há um bom tempo na imprensa católica.

Sobretudo eu tinha a convicção de que minha candidatura não era a candidatura de Plinio Corrêa de Oliveira, mas sim a de todo o laicato católico, que "non aestimator meriti, sed veniae" [138], eu representava no momento [139].

A única jogada política que eu fiz foi passar uma circular explicando para as nossas diretorias do interior que a Liga Eleitoral Católica tinha entrado na Chapa Única e dando os motivos.

Tudo isso deve estar nos arquivos da Liga Eleitoral Católica, na Cúria Metropolitana, pois quando a Liga fechou eu entreguei os documentos da LEC para a Cúria [140].

*   *   *

"Eu já manifestava nessa época dotes de orador..."

Nenhum dos candidatos indicados pela LEC para a Chapa Única havia me procurado para pedir apoio. E eu, que estava fazendo minha primeira experiência eleitoral, me julgava um candidato fraquíssimo, de 23 anos, não tendo quase tempo de fazer relações fora do meio católico.

Então pensei: Vou fazer a minha propaganda, e eles fazem a deles [141].

Eu já manifestava nessa época dotes de orador, pois tinha começado a falar por toda a parte há dois anos [142]. E fazia discursos mostrando que se deveria seguir a orientação da Liga Eleitoral Católica, mostrando que vantagens havia naquelas reivindicações para os católicos. E concluía dizendo que os católicos deveriam votar nos candidatos que a Liga indicasse [143].

2. Bispos apóiam

Os Bispos, com medo de sofrerem uma derrocada, encamparam a tal ponto a minha candidatura, que a reunião da Liga Eleitoral Católica era feita dentro das igrejas. Por respeito, corriam um pano para separar o Santíssimo Sacramento do povo, e a igreja ficava transformada num salão, onde então podiam falar os leigos. E eu, muitas vezes falava do próprio púlpito; ou então da mesa colocada na capela-mor.

Não compareciam padres, para marcar a não-intervenção do Clero, mas a propaganda se fazia dentro da igreja. Mais uma vez, bonomia brasileira. E enchia de gente.

Eu fiz campanha em vários bairros de São Paulo, igualmente em igrejas. Mas fiz campanha notadamente no interior, e a zona onde tomei mais contatos foi aquela zona em volta de Aparecida, então pertencente à Diocese de Taubaté.

O Bispo, Dom Epaminondas Nunes de Ávila e Silva [144], homem com fama de santidade, muito sagaz no bom sentido da palavra, era verdadeiramente muito meu amigo. Eu esperava de Dom Epaminondas um efetivo e dedicado apoio. Por causa disso, especializei minha campanha naquela zona.

Depois, Aparecida naquele tempo se irradiava muito mais. Era a capital daquela zona, porque as comunicações com São Paulo eram muito difíceis [145].

*   *   *

Eu detestava viajar - até hoje não gosto - e ainda mais viajar de trem. O que eu viajei nesse tempo de propaganda da LEC foi uma enormidade, em todas as direções. Algumas viagens Dr. Paulo Barros fez comigo [146].

Eu me hospedava na casa paroquial, fazia discursos, seguia viagem, mas era sempre discursos em igrejas.

Discurso em praça pública não fiz. Mas era absolutamente como se fosse discurso em praça pública, com tropos de oratória como se gostava naquele tempo. Muito menos conversado do que hoje, muito menos causerie do que hoje e muito mais discurso, porque naquele tempo se gostava desse gênero.

Terminado o ato, o povo batia palmas como para todo discurso [147].

Como eram meus discursos?

Eu chegava e falava. Eu nunca fui de preparar muito as coisas. O que na hora me parecia cabível, mais adequado de dizer, eu ia falando [148].

Capítulo VII

Durante as eleições

1. Dia tranqüilo

No dia da eleição, votei cedo. Era muito fácil votar, porque sendo candidato, tinha o direito de chegar na cabine eleitoral e furar qualquer fila.

Depois fui com o meu staff para o escritório, para estar à disposição do que desse e viesse. E passei o dia lá, até acabarem as votações.

Era feriado e um dia relativamente tranqüilo na Liga.

Apenas, a um certo momento, o telefone chama e eu ouço uma voz cava que me diz:

— Quem fala?

Pensei de mim para comigo: conheço essa voz, mas não estou reconhecendo...

Respondi:

— É da Liga Eleitoral Católica.

— O Dr. Plínio está?

— É ele quem está falando.

— É o Arcebispo que fala.

Eu pensei que fosse brincadeira de algum rapaz das congregações Marianas e disse:

— Deixe de brincadeira e diga logo o que é que você quer.

Ele disse:

— É o Arcebispo!

Aí, pelo tom de voz, reconheci que era ele.

Eu disse:

— Ah, Sr. Arcebispo, me desculpe.

Ele passou por cima do equívoco e disse:

— Acabo de receber a notícia de que estão faltando cédulas em Campinas (era intriga de alguém) e que eleitores que estão procurando cédulas para votar não encontram. Estou aflitíssimo por causa disso.

— Não, Sr. Arcebispo, a remessa para Campinas foi feita normalmente, como para todas as sedes de Dioceses do interior. Essas sedes de Dioceses distribuem para as outras cidades. E isto foi feito.

— Pois me dizem de fonte muito segura [149] que Vossemecê descuidou completamente do setor de Campinas, e que o setor de Campinas está sem cédulas, e que a LEC em Campinas fracassou. O que é que há de real?

— Sr. Arcebispo, um instantinho eu já vou lhe dar a informação.

Fiz uma ligação para Campinas e veio a notícia de que estava tudo normal. Era uma intriga [150].

Telefonei ao Sr. Arcebispo e disse:

— Sr. Arcebispo, acabo de receber telefonema de Campinas, de Fulano de tal etc. (era pessoa que ele conhecia, e pessoa de toda confiança) informando-me que tudo corre normalmente.

Ele me disse: — Ah bom, então está bem etc.

Foi o único incidente do dia.

Terminaram as eleições, terminou a votação com muita calma, e eu fui assistir o mês de Maria. Ainda deu tempo.

Depois fui para a sede da Congregação, e por fim para casa. Foi portanto um dia comum [151].

2. Primeiros sinais dos resultados

Dias depois eu encontrei com um candidato, Azevedo Marques [152], antes de começar a apuração. Ele era um senhor idoso. Veio ao meu encontro:

— Oh! aqui está o mais votado de nós, o candidato já eleito.

— Oh! Dr. Azevedo Marques, eleito é o senhor, um homem já conhecido, ilustre e não um novato como eu.

— Não, eu tenho informações. Todas as Filhas de Maria do interior do Estado votaram em você [153].

Bem, aparece em casa um primo que tinha sido mesário. Todas as seções eleitorais eram marcadas por uma letra do alfabeto: letra N é em tal prédio, letra tal em tal outro prédio etc. E ele era da letra M.

Ele entrou em casa e disse:

— Eu fui mesário, e tudo quanto é Maria votava lá [154]. Maria de Lourdes, Maria Aparecida, Maria Salete, todas votavam lá. E elas só queriam votar no Plinio! E quando acabavam os votos do Plinio, elas não votavam em outro: ficavam paradas dentro da cabina, até que eu mandasse vir mais cédulas do Plinio, do depósito em cima (vejam onde é que ele guardava isso). Aí recomeçava a votação. De maneira que, pela minha cabine, o Plinio está estrondosamente eleito [155].

3. Apuração das urnas e queixas dos outros candidatos da LEC

Começam a abrir as urnas, e foi aquela história: Plinio Corrêa de Oliveira, Plinio Corrêa de Oliveira. Todas as urnas Plinio Corrêa de Oliveira, de cá, de lá [156]. E de todos os lados do Estado, foguete: “Plinio Corrêa na ponta” [157]. E a votação foi crescendo.

Os três outros candidatos foram à Cúria interpor uma queixa: “A LEC não trabalhou por nós”.

Monsenhor Gastão Liberal Pinto me chamou e disse:

— Olhe, Rafael Sampaio Vidal vai ser derrotado. O Alcântara Machado está tendo a metade dos seus votos. Um homem ilustre, o Hipólito do Rego, está mal conseguindo a eleição por Santos. Como é que você fez essa distribuição dos votos?

— Monsenhor Gastão, vou ser inteiramente franco. Usei o seguinte critério: ninguém me procurou, ninguém me pediu um voto, nem o senhor pediu para trabalhar por ninguém. Eu julguei que os outros estavam muito seguros de sua votação. Seguro não estava eu, um candidato novo. Se o trabalho deu resultado, estou aqui para servi-lo.

— Está bem, está bom. E o Rafael Sampaio Vidal?

— Ele não se moveu! Quem não se move... Há um ditado romano: “Tarde venientibus ossa”“Para quem chega atrasado, os ossos” [158].

*   *   *

Uma coisa eu não disse para Monsenhor Gastão, mas era a pura realidade. Dos quatro candidatos, o único católico militante era eu. Os outros três eram políticos que, no seu foro privado, seriam ou não católicos. Os outros eu não conhecia, a não ser um deles, que eu via freqüentar a casa de um parente e que era dos tais católicos no mundo da lua.

Quando se tratou de pleitear os interesses da Igreja em face do Estado, o único que estava disposto a lutar pela causa católica até o sangue era eu.

O resultado é que toda a votação dos católicos se concentrou em minha pessoa. Se levei toda a votação católica era porque eu era católico e representante da Liga Eleitoral Católica. E o que se podia esperar de mim na minha idade, eu fiz. E assim fiquei na frente.

4. Primeira comunicação da vitória

A primeira notícia do reconhecimento oficial que tive de minha eleição não foi dado por minha mãe. Minha mãe acompanhou tudo muito serena, muito comprazida, manifestamente alegre, mas muito discreta, e muito desapegada, sobretudo.

E eu percebia que ela queria me ensinar que não nos devemos apegar a cargos, a coisas dessas; que acima de tudo está a consciência e o serviço de Deus. Ela recebia bem a notícia, mas comedidamente.

Eu sempre muito plácido, muito sereno, nunca me levantei mais cedo para pegar os jornais e ver qual era a minha votação. Eu dormia até passar a vontade de dormir, daí me levantava, me preparava para ir comungar (naquele tempo a comunhão era só de manhã e eu era obrigado a ficar em jejum desde a meia-noite); ia comungar e voltava para tomar café.

Antes de ir comungar, quando havia tempo (porque a partir de dez horas não se comungava mais), eu dava uma vista d’olhos nos jornais; se não, eu dava essa vista d’olhos quando voltava da comunhão.

Eu estava saindo para ir comungar, e minha irmã, que se encontrava na sala onde se expunham os jornais, deu um sorriso, simulou uma espécie de reverência e disse: “Senhor Deputado, meus parabéns”.

Eu não entendi a brincadeira e perguntei: “Como assim?”

Ela, muito viva, um espírito muito mais ágil do que o meu, disse:

— Você não viu? Você já passou o número de votos necessário para ser deputado. Você já é deputado.

Eu disse: “Eu não quero é perder a comunhão, está na hora”, e fui correndo comungar. Foi assim que eu soube que tinha sido eleito deputado [159].

5. Candidato mais novo e o mais votado

Eu já estava com a eleição garantida, mas ainda iam aparecendo todos os dias votos, votos e mais votos das várias cabines eleitorais, até chegar ao total, exorbitante para a época, de 24 mil votos para mim [160].

Indicado pela LEC na Chapa Única por São Paulo Unido, Plinio Corrêa de Oliveira foi o deputado mais votado do Brasil, obtendo o dobro dos votos do segundo colocado.

Isso representava, para a população de São Paulo daquele tempo, um resultado enorme [161]. Era o dobro do segundo deputado mais votado. Portanto, era prova do prestígio de nossa corrente, uma coisa fantástica. Uma Liga Eleitoral Católica organizada há dois anos alcançava um resultado sem precedentes [162]. Eu era o candidato mais moço do Brasil, e, ao mesmo tempo, o candidato mais votado.

Os jornais noticiaram esse resultado sem elogios, apenas constataram o fato. Mas o fato era sumamente prestigioso para as forças católicas. De maneira que comentassem ou não os jornais, dava na mesma.

*   *   *

Eu saía à rua e encontrava candidatos da Chapa Única, mas que não foram indicados pela LEC, que me diziam: “Oh! Plinio, como vai? Meus parabéns. Que vitória brilhante! Nunca ninguém pensou que você tivesse essa votação. Você sabe? Fulano, Beltrano e Mengano, que foram derrotados, estão até sentidos com você. Porque você devia ter repartido com eles os votos da Liga Eleitoral Católica. Aí teriam entrado também. Eles não entraram porque você tomou toda a votação da Liga” [163].

José Carlos de Macedo Soares não tinha sido eleito. Era da Chapa Única, candidato pela Associação Comercial, mas não conseguiu a vitória por causa do sistema eleitoral, que não admitia que o voto de legenda favorecesse outros deputados [164].

Nisto houve o caso de umas urnas anuladas, que levaram à convocação de uma eleição suplementar.

E o Jose Carlos de Macedo Soares tempesteando:

— Os católicos elegem esse meninote, esse franguinho... E eu, um homem célebre, fui derrotado. Eu faço questão que nessas eleições suplementares a LEC trabalhe por mim.

Dom Duarte chamou-me:

— Olhe, o senhor deve estar muito queixoso com o Soares, ele anda falando muito mal do senhor, mas eu queria pedir-lhe que o senhor trabalhasse a favor dele.

— Senhor Arcebispo, com todo o empenho. Vou me pôr na votação pelo José Carlos a fundo.

Trabalhei, e graças a Deus eu pude dar essa prova de disciplina: o José Carlos entrou para deputado, o que o distendeu um pouco em relação a mim [165].

6. Convite para ser diretor do “Legionário”

O Legionário foi fundado em 1927, bem antes de eu ser diretor dele [166], mas eu já era, há anos, desde 1929, seu colaborador [167]. Era no seu início um mensário paroquial, e nascera em um período ainda combativo, em que os inimigos da Igreja eram declaradamente inimigos, e os católicos eram declaradamente católicos, e as relações entre estes e aqueles eram polêmicas [168].

Tornando-me deputado, convidaram-me para ser diretor [169]. Convite compreensível, uma vez que o Legionário era um órgão de congregados marianos, e eu era um dos líderes mais conhecidos das Congregações Marianas [170].

Eu aceitei e disse: “Podem pôr o meu nome desde já. Mas só exercerei a direção quando acabar meu mandato de deputado, não é possível fazer tudo junto. Mas, quando deixar de ser deputado, exercerei o cargo” [171].

Capítulo VIII

Preparativos para a Constituinte

1. Papel providencial do livro de Dom Chautard

Passaram-se alguns meses antes de reunir-se a Constituinte, porque naquele tempo as coisas se faziam devagar [172].

Confesso que o livro chave para mim, nesse período, não foi só o de São Luís Maria Grignion de Montfort (sobre a sagrada escravidão a Nossa Senhora), foi também o de Dom Chautard, A alma de todo apostolado. Porque Dom Chautard serviu de muralha contra a grande, a tremenda tentação a que eu poderia estar exposto nesse tempo, que era a tentação do amor próprio [173].

Qualquer um coloque-se na minha situação: 24 anos, o deputado mais moço e o mais votado do Brasil, com toda a publicidade colocada em cima de mim como uma espécie de celebridade. E com uma possibilidade de carreira indefinida à minha frente.

De outro lado, sentindo em torno de mim o coro da bajulação que surgia, com fama de muito bom orador, isto, aquilo, aquilo outro [174].

O instinto humano leva o indivíduo a ficar vaidoso: “Que colosso eu sou! Como eu, moço, já consegui tantos milhares de eleitores!” [175]

E viria logo depois o demônio com um oferecimento: [176]

— Quem sabe você dar um jeito e se pendurar na política? Veja a vantagem de ser deputado: honras oficiais por toda a parte [177]. Não estou pedindo que você faça nenhuma ação má... Não, eu só lhe peço, para lhe dar isto, que você deixe o meio mariano no qual vive, e passe a viver nesse meio. Mas, claro! conservando seu vocabulário limpo, conservando seus costumes sem mancha, conservando o que você quiser, mas venha viver no meio deles, no meio deles, no meio deles! [178]

Nas ocasiões em que aquele aroma de importância me poderia subir ao espírito, eu me lembrava de Dom Chautard. Era o meu anjo da guarda que me fazia lembrar dele. E eu dizia: “Não, eu tenho que fazer o contrário. E se tiver que sacrificar a minha vida, a minha carreira política, eu a sacrifico a qualquer hora, para viver exclusivamente para a Igreja Católica!” [179].

Se eu não agisse assim, o resultado seria um embriagamento de mim para comigo mesmo. E na hora em que me fosse posta a alternativa: apostatar ou renunciar a ser reeleito, teria optado pela apostasia. Foi o livro de Dom Chautard que me auxiliou [180].

Dom Chautard punha os pingos nos "is": ou o apóstolo é completamente desapegado, não ambicionando carreira e visando exclusivamente o serviço da Igreja, ou a pessoa enterra a causa que ela quer servir.

Eu via bem que vitória da Igreja na Constituinte poderia encerrar a atmosfera de laicismo que tomava conta do Brasil, e poderia afirmar de um modo esplêndido a força da Igreja, quarenta anos depois de separada do Estado.

Mas essa vitória, no que tocava a mim, consistia em que eu não consentisse em nenhum movimento de vaidade, por menor que fosse. E em estar pronto a entregar meu cargo a qualquer momento, a renunciar a minha carreira, a voltar a ser zero, desde que a causa católica o exigisse.

Eu via, portanto, pela frente, um enorme apostolado a fazer. Mas sabendo que essa missão trazia consigo, em germe, uma bênção e uma maldição. Uma bênção se eu fosse inteiramente desapegado, uma maldição se eu fosse apegado.

E começou então a luta contra o amor próprio. Todo mundo concebido no pecado original tem impulsos de amor próprio. Era bem evidente que eu os tinha também [181].

2. Do ponto de vista polêmico: leituras

A capital do país era o Rio de Janeiro e a Constituinte se reuniria lá.

Eu estava certo de que, chegando ao Rio, eu deveria estar preparado para discussões, polêmicas a respeito dos pontos levantados pela Liga Eleitoral Católica.

E li então, nos meses que decorreram da eleição até a minha posse, muitos livros católicos a respeito do divórcio e outros temas, para ir com uma argumentação cerrada. A eficácia do mandato que me era confiado pedia isto.

Não podia imaginar que justamente nesse terreno eu iria ser cerceado e impedido de me manifestar, como direi adiante [182].

3. Apoio a Armando Sales por orientação de Dom Duarte

Mas aqui em São Paulo a política não parava.

Havia um governador militar não-paulista, o já referido João Alberto Lins de Barros, e era preciso substituí-lo por um governador civil, nomeado pelo Getúlio.

Começou a partir daí uma série de problemas a respeito da designação do governo de Estado.

O Getúlio queria a indicação de um paulista assinada por todos os deputados de São Paulo, para ter garantia de que esse governador representasse São Paulo.

Mas o documento deveria ser ultra confidencial, porque São Paulo oficialmente ainda estava rompido com Getúlio, e o primeiro passo da aproximação era o Getúlio nomear um governador civil paulista.

Então os políticos paulistas designaram Armando Sales de Oliveira [183], que depois foi candidato à Presidência da República e posteriormente foi expulso pelo Getúlio.

Como Dom Duarte queria o Armando Sales, eu assinei a lista também.

*   *   *

Pouco depois de nomeado, o Armando Sales deu um banquete aos deputados paulistas em um grande clube de São Paulo.

Eram restos da República aristocrática. Ele, aliás, era um homem de muita linha. Os deputados deviam comparecer de smoking.

Havia razões para eu ir, mas havia razões para eu não ir. Então mandei um telegrama agradecendo com urbanidade o convite, dizendo que me solidarizava com a atitude de simpatia de meus ilustres colegas em relação a ele.

Eu soube depois que, como ato inicial do banquete, um orador levantou-se e disse: “O deputado Plinio Corrêa de Oliveira, que não pôde comparecer por motivo de saúde, manda ao senhor Interventor Federal o seguinte telegrama ...”

E o telegrama foi lido e depois reproduzido por vários jornais [184].

4. A partida para o Rio: numeroso público na Estação

Nas vésperas da abertura da Constituinte, anunciaram que todos os deputados eleitos por São Paulo iriam juntos para o Rio de Janeiro, em um trem de luxo que fazia o trajeto São Paulo-Rio e se chamava Cruzeiro do Sul [185].

Acontece que nesse dia eu não poderia ir, pois um grupo de congregados marianos mais proeminentes me havia oferecido um jantar [186] marcado para dois ou três dias depois [187]. Era um jantar só de congregados marianos, que se realizou numa das melhores confeitarias de São Paulo. O dono era um velho senhor italiano, que a cedeu de muito bom grado.

Jantar com Congregados Marianos muito provavelmente semelhante ao narrado acima.

Foi um jantar que encheu a confeitaria [188].

Saiu notícia com fotografia dos oradores e pormenores. E nessa notícia se dizia que eu iria partir para o Rio da Estação do Norte dia tal, às tantas horas.

No dia aprazado (dia 13/11/33), fui para a Estação do Norte e, quando cheguei lá, a Estação estava cheia de gente. Na plataforma, vivas, palmas.

Embarcamos no trem minha mãe, meu pai, minha irmã e eu. Os membros de minha família se acomodaram na cabine, mas eu permaneci naquela entradinha do vagão, agradecendo com o chapéu às pessoas ali presentes, enquanto o trem se afastava. E logo depois fui dormir também [189].

Capítulo IX

Inauguração da Constituinte

1. Minha chegada ao Rio

Cheguei de manhã ao Rio de Janeiro, o Tristão de Athayde esperando-nos, muito amável, muito gentil. Ele era muito cavalheiro.

Descemos, ele logo apresentou-se, ofereceu o braço a minha mãe e saiu com ela como se estivesse numa sala de baile.

Eu olhava em volta para ver se aquela cena causava estranheza, porque em São Paulo causaria. No Rio de Janeiro não causou nenhuma. Mas ele fazia aquilo com muita elegância.

Para manter a representação, fui com Mamãe, Papai e Rosée (minha irmã) para o Hotel Glória, de grande luxo naquele tempo [190].

Para dar a minha mãe uma satisfação completa, arranjei para ela um quarto magnífico, dando de frente para a Praia do Flamengo. Naquele tempo, a água do mar chegava quase até o paredão do hotel.

Eram noites muito bonitas, e ela tinha um gosto enorme por panoramas. Jantava conosco embaixo e depois subia e permanecia no quarto vendo a lua prateada bater na praia, observando as palmeiras. Ela se enlevava muito com coisas desse gênero [191].

E eu queria proporcionar a ela a estadia a mais confortável possível, tanto mais que seria curta, porque a mãe dela (Dª Gabriela) estava muito mal de saúde. Morreu pouco depois. E ela era uma filha extremosíssima [192].

Meus pais e minha irmã permaneceram dois ou três dias comigo no Rio, e depois voltaram. E eu fiquei para trabalhar na Constituinte [193].

2. Episódio com Heitor da Silva Costa

Lembro-me de meu encontro com Heitor da Silva Costa logo depois de chegar ao Rio. Telefonei a ele dizendo que já estava no Rio e convidei-o a passar pelo Hotel Glória para nos vermos.

Era uma noite de calor medonho e ele propôs que fôssemos conversar nos bancos que havia numa espécie de jardinzinho, entre o Hotel Glória e o mar.

Eu me lembro do jeito dele se sentar e me dizer:

— Então, Plinio! Que criatura privilegiada é o Alceu! E como eu quisera ser o Alceu!

Eu, para ser amável, disse:

— Mas, Dr. Silva Costa, o senhor tem tanta coisa para se alegrar de ser o senhor mesmo!

Ele disse:

— Tanta não tenho. O Alceu e eu temos um jovem amigo Plinio, e o Alceu é de tal maneira uma criatura de eleição, que o jovem Plinio telefona ao Alceu avisando que ia chegar ao Rio e não telefona para mim.

Aí me lembrei que tinha me esquecido de avisar o Silva Costa: “Meu Deus! Como vou me sair dessa?”

Fiquei muito incomodado. E saí-me com aquelas desculpas que a gente diz numa emergência assim e que não querem dizer nada.

Eu vi que ele me olhou com afeto, teve pena do incômodo em que eu estava, e me disse:

— Não falemos mais nisso, vamos mudar de assunto, e tocou a conversa para outro lado [194].

3. Ambiente da sessão de abertura

No dia da inauguração da Constituinte, fomos todos para lá [195].

Chegando ao Palácio Tiradentes (prédio da atual Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), havia duas entradas diferentes, uma para os deputados e outra para as famílias dos deputados, as quais tinham lugar em tribunas de honra, junto com o corpo diplomático e outras personalidades de relevo, na parte mais alta, em uma espécie de camarote.

Entrei e me apresentei ao presidente da Constituinte, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada [196].

Dirigi-me para a bancada paulista e ali pude formar uma idéia da situação que, sob alguns aspectos, me esperava lá [197].

O paulista era naquele tempo (hoje já não é mais) muito cerimonioso, gostando do protocolo, da educação, da grande linha. E como era o Estado mais rico do Brasil, naturalmente todos se vestiam melhor, tinham os mais bonitos automóveis, hospedavam-se nos grandes hotéis, levavam uma grande vida.

E eu tinha recebido recado da liderança, ou seja, de Alcântara Machado, que eu deveria apresentar-me de fraque e cartola [198]. E me encontrei em dificuldade.

Eu nunca fizera questão de me vestir bem. Sempre fui desatento e não tinha a menor idéia sobre que modas, que roupas eu usava. Por exemplo, eu não tinha noção se uma roupa caía bem em mim ou não.

Então minha irmã se incumbiu de escolher as roupas, as qualidades de camisas e outros apetrechos. E, pelos comentários que ouvi, desempenhou-se eximiamente da tarefa, porque ela era ultra entendida nesse gênero de coisas, que são o domínio próprio das senhoras [199].

*   *   *

Naquela inauguração, todos os deputados paulistas estavam de fraque preto engomado, abotoaduras de ouro, gravatas prateadas como se usava naquele tempo, calças de casimira inglesa listradas de cinza e preto.

Sessão plenária da Constituinte. Acima, Plinio, com 24 anos, deputado mais jovem da Assembléia

Já os deputados dos outros Estados vestiam roupas mais comuns, de passeio [200] e usavam chapéu de feltro (naquele tempo, todo mundo usava chapéu). Os paulistas eram os únicos que tinham ido de cartola [201].

Aquele grupo paulista, todo alinhado, teso, de cartola, era o símbolo da antiga ordem de coisas. A bancada era constituída quase exclusivamente por membros da São Paulo antiga e pelo menos oficialmente antigetulista. Antigetulista até o fundo da alma era eu, em todo caso.

E mais ou menos todo o resto da Constituinte era getulista [202].

Para completar, deram as duas primeiras fileiras aos deputados paulistas. Era, portanto, a posição de máxima visibilidade, à direita do presidente da Constituinte [203].

Do outro lado, as outras bancadas. E na extrema direita, a bancada do Rio de Janeiro, com alguns homens célebres, muito educados, finos: Fernando Magalhães, Leitão da Cunha e outros, mas também de roupa comum.

A bancada paulista se cercava de certa importância, mas não comunicava simpatia. Sabemos o que é um aparecer de fraque e outros de paletó e roupa comum: o de fraque impõe-se mais, mas na hora da simpatia, é discutível... [204]

Eu compreendi tudo quanto isso poderia trazer consigo: prestígio, naturalmente. Mas uma certa ponta de ressentimento.

No entanto, seguindo a orientação do líder da bancada, eu coloquei fraque e cartola.

Por cima do fraque costumava-se pôr condecorações. Eu não as tinha, era novinho em folha. Nenhum governo havia me condecorado... Não tive dúvida: peguei o distintivo de congregado mariano e pus ali!

Bancada paulista na Constituinte de 1934

*   *   *

Eu trazia o meu diploma de deputado, dado pelo Tribunal Eleitoral de São Paulo.

Tudo naquele tempo era mais bonito. Esse diploma era feito de um pergaminho lindo, escrito com caracteres bonitos, em fórmula solene, com selo de lacre. Hoje seria um papelucho com um carimbo qualquer [205].

4. Holofotes, fotografias, aparece o Getúlio

A sala de sessões estava toda bem ornamentada, muito bem arranjada, florida.

De repente as luzes se apagam, começam a colocar holofotes de cinema, a fotografar a sessão, com o Antonio Carlos presidindo.

Afinal aparece o Getúlio.

Todos tivemos que nos levantar. Era o Chefe de Estado que chegava, e era natural que eu também me levantasse.

Ele fez um discursinho qualquer, em que nem prestei atenção, com uma mãozinha colocada no colete (era o sistema dele), numa voz incolor e olhando para tudo como quem não dava importância nenhuma ao que estava sendo feito. Em seguida retirou-se.

Aí as luzes foram acesas, o presidente da Assembléia, Antonio Carlos, disse ainda algumas palavras antes de encerrar a sessão [206].

Capítulo X

Constituinte: aperta-se o cerco

1. As esperanças de luta com que fui para a Constituinte

Já nos primeiros dias, verifiquei que havia deputados eleitos pela LEC mais ou menos de todo o Brasil. E que numa Assembléia Constituinte de 200 ou 300 parlamentares, seria possível formar uma bancada entre 30 e 50 deputados católicos [207].

Também me parecia que a minha eleição — numa idade tão precoce — representava evidentemente um caminho da Providência. E se a Providência quis essa eleição, eu haveria de me sair bem naquilo que Ela queria de mim.

Eu estava realmente decidido a meter o peito, ainda que ficasse sujeito a passar quartos de hora amargos. Seriam amargos na superfície, porque no fundo meu coração confiava [208].

Essa esperança da beleza da luta se desdobrava diante de mim magnificamente.

Por isso é que, como já disse, no intervalo entre minha eleição e minha posse, preparei-me e afiei-me, se não calculo mal, durante uns seis meses. E fui para a liça esperando encontrar batalha em campo raso, liso e aberto. Afinal, as esperanças se realizavam!

2. Ducha de água fria: proibido falar em plenário sobre as reivindicações católicas

Para minha decepção, cedo compreendi que a batalha começava a se engajar em condições com as quais eu absolutamente não contava [209].

Alceu Amoroso Lima - (Tristão de Athayde)

O Alceu de Amoroso Lima, que usava o pseudônimo de Tristão de Athayde, era o homem de confiança do Cardeal Leme. Por outro lado, tinha muitas relações comigo. Mas muitas. Eu já tinha estado mais de uma vez em casa dele, e ele na minha. Dávamo-nos muito bem. Ele era o líder católico máximo do Brasil.

Por sua vez, Dom Leme tinha uma espécie de liderança sobre todo o Episcopado Nacional, porque era naquele tempo o único Cardeal brasileiro. Ele punha e dispunha como bem entendia.

Quando eu chego ao Rio [210],  sou convocado pelo Tristão de Athayde para uma reunião dos deputados católicos na sede do Centro Dom Vital, na qual funcionava a LEC do Rio, e que ficava perto da Câmara dos Deputados [211], num prédio pertencente à Cúria [212].

Apareço lá, vejo muitos deputados que eu nem conhecia. Cumprimentos, apresentações etc. e por fim sentamo-nos todos.

Diz o Alceu:

- O Sr. Cardeal Leme resolveu que, primeiro, não vai haver uma bancada de deputados católicos. Os Srs. devem estar dispersos nas bancadas dos respectivos Estados. Por causa disso, não vai haver líder católico. O líder católico dos deputados vou ser eu, do lado de fora da Câmara. Os Srs. venham aqui receber as diretrizes do Cardeal Leme, por meu intermédio [213].

E nos comunicou a seguinte palavra de ordem do Cardeal: [214]

- Nenhum deputado católico deverá fazer discurso a respeito das reivindicações católicas [215]. O Cardeal Leme faz questão que vocês não façam nenhum discurso nessa linha, porque, por detrás dos bastidores, já está tudo combinado com o presidente da República (Getúlio Vargas), que tem de seu lado a maioria dos votos. Este assegura que, se não houver debates, na hora da votação manda todos os deputados dele votarem em todos os pontos que a Liga Eleitoral Católica quisesse. Portanto, os deputados católicos que queiram falar, falem sobre outras coisas que nada tenham a ver com as reivindicações católicas. Sobre estas não devem dizer uma palavra. Isto Dom Leme espera da dedicação de vocês [216].

Por fim, ele acrescentou:

- Ah! outra proibição: os senhores estão proibidos de contar que estão proibidos de falar [217].

Eu senti nisso um baque medonho. Pois esta proibição criava para mim uma dificuldade insolúvel, porque o eleitorado que tinha votado em mim, tinha-o feito por causa da razão religiosa. E eu não podia contar em público que eu estava proibido de falar por Dom Leme.

Assim, ficava impossibilitado de justificar esta coisa incompreensível: um deputado que tinha sido eleito para fazer passar as emendas católicas, e que não fazia nenhum discurso a respeito [218].

Eu me senti posto em uma situação semelhante à de um guerreiro que entra no campo de batalha, puxa a espada à espera do adversário, e recebe de um estafeta do primeiro ministro a seguinte ordem: “Ponha a espada na bainha e fique aí em pé, de couraça e tudo, tomando sol no campo de batalha, até vir um recado em sentido contrário. Por enquanto não se mova” [219].

*   *   *

Minha atuação ficou assim limitada a lutar nos bastidores para a bancada apoiar unanimemente as emendas católicas [220].

De manhã, participava da reunião dos deputados por São Paulo, para discutir os assuntos que seriam tratados à tarde na Câmara [221].

À tarde, ia para a reunião plenária da Câmara dos Deputados.

À tardinha, reunião dos deputados católicos na LEC do Rio, no prédio da Coligação Católica [222]. Nessas reuniões, tínhamos que nos entender com o Tristão de Athayde e receber as diretrizes que vinham de Dom Leme. No dia seguinte, era apenas executar aquilo. Não se podia nem sequer ter contato com Dom Leme, porque estava dado a entender que não fôssemos amolá-lo, uma vez que ele tinha um representante ali [223].

Percebi então, desde logo, que no Rio de Janeiro as coisas não iriam correr como em São Paulo se esperava, porque eu não tinha nenhuma possibilidade de falar [224].

Eu tinha a impressão de estar murado vivo [225], eu me sentia atarraxado [226].

3. Zum-zum desleal: gago, com medo da tribuna e com falta de coragem

Pouco tempo depois, percebo dentro do movimento católico um zum-zum de que eu não falava na Constituinte porque não tinha coragem, porque era muito moço e ficava intimidado. Chegaram a dizer que eu era gago [227]. Mais ainda: que eu não ia quase à tribuna porque tinha medo de falar de público: eu era muito tímido!

Ora, contra mim pode se fazer muitas acusações. A de que eu sou tímido, não! Meu natural é ser muito desembaraçado, muito falante. Talvez meu sangue nordestino ajude nisto. Eu digo o que eu tenho que dizer, e logo [228].

Além do mais, dos muitos defeitos que se possam atribuir a mim, o de ser gago, positivamente não possuo [229].

"...eu tinha falado em público em quase todas as grandes igrejas de São Paulo durante o período eleitoral. E falava abundantemente, torrencialmente..."

Aí medi em toda a sua extensão a má fé de quem espalhava isto, porque eu tinha falado em público em quase todas as grandes igrejas de São Paulo durante o período eleitoral. E falava abundantemente, torrencialmente.

Eu havia também falado em várias outras cidades do interior e era muito conhecido como orador. Como então espalhar uma coisa dessas?!

Mas eu não tinha saída. Não podia dizer de público que Dom Leme proibira os deputados católicos de falarem. Sairiam por cima de Dom Leme e isto me queimaria junto a ele.

E eu não podia me queimar com Dom Leme [230]. Dom Leme tomaria isto, aliás a justo título, como uma traição, porque ele tinha pedido confidência. Portanto, eu não podia dizer nada [231].

Assim, não pude absolutamente sair desse cerco. Era um cerco fechado.

A única coisa que eu poderia fazer era tomar uma atitude de quem não percebia. Não dizer nada e agüentar firme a história

Foi a primeira vez que eu percebi um trabalho à maneira de boato organizado contra mim. E os que espalhavam esses boatos eram em geral pessoas com simpatias pelo nazismo e pelo fascismo, e que tinham entre si uma ligação política. Como eu colaborava no Legionário, que era contra o fascismo e o nazismo, percebi que era uma vindita [232].

4. O cerne do problema: embate interno entre espírito de luta e espírito de acomodação

Nos meios católicos eu não encontrava hostilidade, mas comecei a notar, nos seus mais altos escalões, um vazio esquisito que ia se fazendo em torno de mim.

Percebi desde logo que me isolavam, por eles quererem o contrário do que eu desejava. Eu queria lutar e dedicar-me a eles, mas esperava em contrapartida que eles também entrassem na luta comigo.

No fundo, eles não queriam a luta. Pelo contrário, queriam permanecer inseridos dentro de uma época histórica como aquela, que não convidava ao excepcional. O desejo deles era manter-se numa vida comum, na vidinha de todos os dias, e não entrar nas batalhas, na cruzada e na luta heróica que eu desejava empreender — luta com aventuras, por certo, mas que era propriamente vida! [233]

À vista dessa situação que se delineou em torno de mim no Rio, eu me dei conta de que havia um estado de espírito e um conjunto de circunstâncias radicalmente opostos a irradiar aquilo que poderíamos chamar o espírito da Congregação de Santa Cecília, ou o espírito do Legionário.

Ficou claro para mim que, ainda que eu começasse a freqüentar assiduamente alguma Congregação Mariana no Rio, dificilmente poderia se formar ali um grupo combativo afim com o que havia em São Paulo.

Esse grupo não teria nenhuma possibilidade de expansão, nenhuma possibilidade de irradiação, porque o curso das coisas no Rio rumava num sentido oposto ao de São Paulo. Daí o esforço que eu fazia de não deixar de vir a São Paulo, porque, se deixasse de vir, isto representaria a imolação do que em São Paulo estava estruturado.

Se eu ficasse no Rio de Janeiro alguns fins de semanas consecutivos, eu perderia o fio da meada em São Paulo.

Como eu poderia sacrificar uma coisa promissora, que estava em franco desenvolvimento, por uma coisa que não era promissora e não tinha nem sequer um começo de desenvolvimento?

Assim, fui obrigado a renunciar naquele momento à possibilidade de expansão de um grupo no Rio, eu que tanto queria ter um grupo ali [234].

Desta forma, como no sábado não havia sessão da Câmara, eu embarcava às sextas-feiras à noite para São Paulo*.

* Na época, o trajeto Rio-São Paulo era feito normalmente de trem. A aviação estava ainda pouco desenvolvida e viajar de avião era raro e caro.

Chegava sábado cedo, passava o sábado e o domingo, e às vezes a segunda-feira em São Paulo, partindo de volta para o Rio de Janeiro no trem noturno.

E, uma vez em São Paulo, absolutamente todas as noites eu freqüentava a sede da Congregação Mariana de Santa Cecília [235].

5. Novos sintomas de que o cerco apertava: comentários sem seriedade

Outro episódio mostra bem esse ambiente de surda hostilidade que ia se criando em torno de mim.

Certo dia, ao entrar na Constituinte, vários deputados vieram correndo falar comigo: “Você viu a reportagem do Ary Pavão?”

Eu perguntei: “Quem é Ary Pavão?”

— É um jornalista que costuma escrever sobre a Constituinte no diário tal, e que deu uma reportagem caçoando de você de todos os modos. Você não viu, não? [236]

Era um jornal do José Eduardo de Macedo Soares, deputado também, mas pelo Estado do Rio de Janeiro, e irmão de José Carlos de Macedo Soares, este, como sabemos, deputado por São Paulo [237].

Respondi: “Não, não vi”.

Ali perto estava o tal repórter, que logo me mostraram: “Ary Pavão é aquele”, como quem diz: “Se você quiser falar com Ary Pavão, vá”.

Eu pensei: “Não vou dar a menor importância a ele. Ele não tem nada de grave a dizer de mim, e se forem meras brincadeiras ou tontices, eu passo por cima como se ele não existisse. Não vou dar a ele a menor satisfação”.

E deixei para ler em casa o diário em questão: era de alto a baixo uma brincadeirada a meu respeito.

*   *   *

Quais eram as acusações, os temas da brincadeira?

Havia um hábito dos deputados abreviarem os seus nomes. Chamando-me Plinio Corrêa de Oliveira, eu deveria adotar um nome parlamentar: Plinio de Oliveira, ou Plinio Corrêa, ou Corrêa de Oliveira. Mas eu nunca dei o meu nome parlamentar.

Esse Ary Pavão então caçoava que só dois deputados mantinham o nome inteiro: eu e um indivíduo que ele dizia que era catraieiro no Estado do Rio de Janeiro (catraieiro era um homem que puxa barco; devia ser um deputado trabalhista). E que isto era muito ridículo.

Um comentário desses era uma banalidade, uma tontice a que não se dá a menor importância.

Outra coisa era caçoar porque eu era muito gordo. Eu cheguei a pesar cento e vinte quilos. Tinha realmente um apetite valentíssimo, que não perdi.

Outra crítica ainda era de que eu estava perdendo o cabelo prematuramente.

E ia dizendo coisas assim que não tinham qualquer significado sério. Eu absolutamente não me importei com ele.

Outra caçoada: certa noite eu estava indo para o Rio de trem, ou vindo de lá, e bati com toda a força com o dorso da mão numa trave. Na hora nem liguei, mas dias depois formou-se uma saliência feia e desagradável.

Ary Pavão então caçoou dizendo que eu era o único deputado que tinha uma pinta na mão [238].

Depois, notícias dessas: “Chegou mais uma vez atrasado à Constituinte o deputado Plinio Corrêa de Oliveira. Dava todos os sinais de sentir muito calor, e enxugava a sua fronte esfregando o lenço e indo açodadamente para o seu lugar. Teria ele esperança de que não percebessem que estava entrando a sua volumosa pessoa?”

Era verão no Rio, e isso era uma coisa que todo o mundo fazia, era até banal. Mas eu sentia nesses comentários todos mais um sintoma de que o cerco ia se apertando em torno de mim.

6. Bagatelas difamatórias

Outro fato na mesma linha.

Um deputado paulista que tinha relações muito cordiais comigo e que morava no mesmo hotel telefonou-me pedindo licença de ir até o meu quarto para falar comigo. Eu morava na parte dos fundos do Hotel.

Eu disse: “Pois não, venha, eu recebo”.

Logo ele chegou, eu ofereci uma cadeira e ele tratou de qualquer coisinha que precisava mesmo tratar. Mas notei que ele prestava muita atenção em todo o quarto.

Depois ele comentou: “Que esplêndido quarto esse em que você mora! É muito melhor e mais barato do que o meu”.

Eu achei que era dessas banalidades naturais em uma conversa e disse:

Realmente, aqui é mais sossegado, tem mais vantagens.

— É, da próxima vez que vier aqui, vou me hospedar com minha senhora nesta parte.

E depois completou:

— Você não imagina o que é que eu ouvi falar: que você morava num verdadeiro antro, num quarto sujíssimo, completamente sem categoria, mal arranjado, com cama revolta.

Ora, quem tinha feito circular isso?

Era a mesma história: não tendo o que falar contra mim, procuravam caluniar-me; não tendo o que caluniar, diziam bagatelas difamatórias dessas.

Quem tinha interesse em estar criando essas histórias de que eu sou gago, que moro num quarto sujo, que tenho ferida na mão, e outras bobagens dessa natureza, e a maior parte delas mentirosas?

7. Uma sondagem esquisita

Este cerco se definiu ainda mais quando, num domingo à tarde, a portaria do hotel me telefona avisando que o senhor “W” queria falar comigo.

Quem era esse senhor “W”? [239]

Era um homem de seus trinta e tantos ou quarenta anos [240], que Tristão tinha encontrado em estado de mendicância na porta de uma igreja, e o tinha levado diretamente para ser seu secretário, sem que o conhecesse antes.

Nos arredores do Tristão eu tinha ouvido dizer que ele havia logo de início depositado tal confiança nesse homem que o colocava a par dos assuntos mais reservados [241]. Este senhor se dizia católico, e eu não tinha razões especiais para duvidar disso [242].

Quando ele apareceu, eu pensei que se tratava de algum recado do Tristão. Desci, recebi-o em uma das salas do hotel [243].

— Oh, “W”, como vai você?

— Bem, e você como está?

E começamos a conversar a respeito de bagatelas. O tempo corria e não saía nada de sério.

Eu pensei com os meus botões: “Este homem veio aqui com a incumbência de alguém para me sondar. E não está tendo coragem de fazer essa sondagem.”

Era um dia de calor no Rio, desses de verão, uma coisa medonha!

Depois de falarmos muito, ele disse:

— Bem, Plinio, afinal chegou a hora de eu falar o que eu tenho que lhe dizer.

— Pois não, “W”.

— O que você pretende fazer de sua vida no futuro? Quais são seus planos? Você quer ser deputado ou não? Você, se não for deputado, que cargo você pretende em São Paulo? Seus planos de carreira quais são? O que você pretende fazer de sua vida? Você quer me contar? [244]

Ora, estas eram perguntas que se fazem entre amigos. Mas entre pessoas que se conhecem por alto, era uma pergunta muito esquisita [245]. Ninguém pergunta isso a um outro.

Eu disse:

— “W”, entram tantas incógnitas nesse assunto, que eu também não sei. Eu pergunto: você tem um conselho para me dar?!

— Absolutamente nenhum.

— Então, desassistido assim de quem me aconselhe, eu também não tenho o que responder.

— Bom, então, Plinio, me desculpe ter tomado tanto o seu tempo!

Não, absolutamente!

Eu o acompanhei até meio caminho, despedi-me e nunca mais nos vimos. Anos depois ele morreu. Mas isto me reforçou a idéia de que zumbia alguma coisa em torno de mim [246].

8. Abafamento de alma com o progressismo que desponta

Concomitantemente a esse cerco, comecei também a perceber o progressismo que estava entrando. Portanto, uma ofensiva terrível que era o contrário do que eu queria, mas exatamente o contrário.

E dei-me conta de que uma corrente inimiga maquinava toda espécie de calúnias, intrigas e combates contra minha pessoa, justamente porque eu não queria saber de modernização da Igreja, modernização esta que eu via como um vagalhão que ia destruir tudo quanto eu tinha esperado.

Porque eu só concebia a Igreja como Nosso Senhor Jesus Cristo fundou-a, e como Ela será até o momento em que a Igreja militante deixará de ser militante, uma vez que Nosso Senhor baixará à terra, acompanhado de uma legião de anjos e de justos, para declarar o fim da História do mundo e começar o julgamento final. Até lá a Igreja será a mesma.

E eu tinha a resolução de combater todas essas modificações que A desfiguravam de um modo inominável.

Era o quadro de um cerco completo e de uma coisa que se pode chamar uma tragédia, isto aos 24-25 anos de idade [247]. Não se pode calcular o abafamento de alma, o desnorteamento que essa situação me trouxe [248].

9. Alguns discursos fora dos temas proibidos

Em algumas ocasiões eu falei na Assembléia, mas sempre fora dos assuntos proibidos pelo Cardeal Leme.

Nas comemorações do IV Centenário de José de Anchieta, fui designado como orador oficial na Constituinte [249].

Fiz um discurso e a mídia de São Paulo publicou com bom destaque [clique aqui para ler o discurso] .

Fiz outros três ou quatro discursos do gênero. Mas esses discursos eram em número insuficiente para convencer as pessoas que esperavam uma atuação parlamentar brilhante de minha parte [250].

10. Interpelação veemente ao Zoroastro de Gouveia

Outras intervenções minhas se davam durante os debates.

Havia alguns deputados comunistas na Assembléia [251].

Um desses deputados comunistas havia sido eleito pelo Partido Socialista, em oposição à Chapa Única por São Paulo Unido. Seu nome era Zoroastro de Gouveia [252].

Era um homem de tez morena, mas ao mesmo tempo muito sanguíneo, e com cabelos já brancos e cortados à escovinha [253].

Certo dia ele subiu à tribuna numa atmosfera de tédio geral. Todos já tinham falado, estávamos fazendo os últimos discursos daquele dia [254].

De repente, ele fez um ataque à honra dos deputados católicos, dizendo que nós éramos homens que não tínhamos ideal de pátria, que éramos exclusivamente vendidos para o Vaticano [255]; e que, portanto, o Brasil não podia contar com o verdadeiro patriotismo dos católicos. Só deles, comunistas, podia.

Quando eu vi o homem sair-se com isto [256], pulei como um jaguar em cima dele [257]. Eu me levantei, e da primeira fileira que ficava a dois passos da tribuna, bradei com uma voz verdadeiramente tonitruante: [258]

- Senhor deputado, eu protesto! Protesto com toda a minha indignação! Em meu nome estão protestando contra V. Excelência 95% da população brasileira, que V. Excelência está insultando do modo mais vil etc.!

Foi um tal estouro, foi uma tal história, que o Zoroastro ficou pálido, me olhou assim como quem diz: "Dessa como é que eu escapo?!" E levei algum tempo descompondo a ele [259].

Os deputados que cochilavam, quando saiu aquele barulho todo, levantaram os ouvidos: “O que é isso aí?!” [260]

Ele quis interromper-me, mas a minha voz cobria a dele completamente. Ele percebeu que não tinha o que dizer, parou de falar e eu acabei de dizer o que queria.

No fim, ele escapou. E deixei o episódio morrer [261] [sobre o Zoroastro veja comentários do "Legionário" aqui e aqui].

Depois disso, nunca mais se ouviu dizer que eu era gago. Essa forma de maledicência acabou.

Se eu não tivesse feito essa intervenção, iam me difamar: “Quando Zoroastro falou a respeito dessas coisas contra a Religião, o Plinio estava lá e não disse uma palavra. Ele não está defendendo a Religião” [262].

*   *   *

Isto foi em 1934 [263]. Em 1963, portanto trinta anos depois, fui à Câmara dos Deputados, já então funcionando em Brasília, para entregar um abaixo-assinado de fazendeiros contra a Reforma Agrária* [264].

* Esse abaixo-assinado, iniciado em Bagé (RS), obteve a adesão de 27 mil agricultores de vários Estados brasileiros.

Fui com Dom Sigaud, Dom Mayer [265] e vários membros da TFP.

Abordamos lá o chefe dos funcionários e explicamos a ele do que se tratava.

Enquanto escrevia, ele às vezes parava, me olhava e continuava. Em certo momento ele perguntou: [266]

— O senhor é...

Eu pensei: “Vai sair algum negócio”. E fiquei quieto.

— ... o senhor é o deputado que fez aquela encrenca com o Zoroastro de Gouveia?

Eu dei uma risada e disse:

— O senhor ainda se lembra daquilo?

— Oh! lembro-me muito bem. Foi um trovão na Câmara!

11. Bom relacionamento com as outras bancadas

Os meus colegas paulistas, pelo jeito cerimonioso e quieto deles, mantinham pouco contato com as bancadas de outros Estados.

Eu, pelo contrário, de temperamento mais expansivo, falava muito e com isso fiz muito boas relações com deputados de mais ou menos todas as bancadas [267].

Cumprimentava-os, conversava com eles, ia ao café, falávamos longamente. Relacionei-me largamente com os meus colegas.

*   *   *

Lembro-me até hoje da primeira pessoa com quem fiz relações na Constituinte.

Na disposição dos deputados na sala da Assembléia, logo depois da bancada de São Paulo, vinha outra bancada que eu nem sabia qual era. As nossas cadeiras eram giratórias e distraidamente pus meu braço na escrivaninha do deputado que ficava atrás.

De repente vejo uma mão bater na minha e dizer com uma voz cantante: “Minha flor!” [268].

Voltei-me para atrás, pronto a me zangar. Tratar-me de “minha flor”, a mim?

Mas deparei-me com a fisionomia de um homem aproximando-se dos sessenta anos, fino, educado, olhar inteligente, benévolo, demonstrando estar muito cheio de simpatia e de estima, com ar mais ou menos malicioso, divertindo-se de antemão com o caso que estava criando. Era um deputado pela Bahia.

Aí eu percebi que seria uma verdadeira estupidez zangar-me, voltei-me para ele e disse:

— O senhor quer que eu tire o braço?

— Não, minha flor, não seja tão arisco assim.

Eu não tirei a mão. Aí ele começou a prosear comigo.

Ele falava sobre pequenas banalidades com uma tal inteligência, que eu pensei:

— Essa aí é a famosa Bahia! Numa palavra, é a Bahia do charme, da graça! [269].

*   *   *

E assim, de ponto em ponto, eu ia passeando pelas bancadas: na pernambucana, conversava sobre Pernambuco, eles conheciam parentes meus. E me relacionei com a Constituinte inteira [270].

12. Atuação numa crise espinhosa

Lembro-me de que uma noite fui acordado pelo telefone do Hotel [271]. Atendo. Ouço a voz habitualmente solene e afirmativa do deputado Alcântara Machado, falando desta vez com voz sumida: [272]

— Dr. Plinio, aqui fala Alcântara Machado.

— Pois não, Dr. Alcântara, o que o senhor deseja?

— Eu queria lhe pedir o favor de vir com urgência aqui em minha casa, porque a situação política se tornou muito grave, e eu vou precisar do senhor.

Fiquei espantado, porque a bancada paulista não ligava para as minhas relações fora da bancada.

Fui à casa dele. Ele, como meu líder, estava no direito de me chamar; depois, era um homem muito mais velho do que eu. Eu tomei imediatamente um taxi, fui à casa dele e encontrei-o apreensivíssimo [273].

Ele me disse:

— Dr. Plinio, preciso lhe contar o que aconteceu à tardezinha na Constituinte. O senhor ainda ignora, mas tive uma briga na comissão tal [274]. Eu queria uma certa coisa, os deputados do Nordeste não queriam. A discussão cresceu. De repente, eu perdi a paciência [275], e o deputado nordestino João Alberto Lins de Barros declarou [276] que assim não ia [277], que iria arrancar o Antonio Carlos Ribeiro de Andrada pelas orelhas do lugar de presidente, e que ia fechar a Constituinte à força junto com uma série de oficiais nordestinos que ele tinha [278].

Depois de explicar isto, ele me pediu:

— Como o senhor e o Dr. Macedo Soares são os dois deputados mais relacionados da bancada paulista, eu queria pedir a cada um dos senhores, ainda esta noite, percorrer o maior número possível de deputados não paulistas, e conseguir colocar do lado da bancada paulista esses deputados. Só assim conseguiremos fazer uma pressão forte amanhã para não ser dissolvida a Câmara.

Tomei imediatamente um automóvel, e fui percorrendo as casas dos deputados católicos com os quais eu era mais relacionado, contando o que havia.

*   *   *

No dia seguinte, abre-se a Câmara num ambiente de expectativa.

Antonio Carlos estava pálido como um castão de bengala de marfim [279]. E os olhos dele, grandes, passeando de um lado para outro com preocupação, esperando a todo o momento uma encrenca qualquer.

Ele mantinha um ventilador funcionando bem no rosto, porque era um desses dias de calor intenso no Rio de Janeiro, desses de acabar com qualquer um que não esteja habituado. Além do mais, trazia um aparelhinho, creio que para efeito cardíaco, do qual ele inalava algum remédio [280].

João Alberto andava com ares de soldadão pelo meio da Constituinte, e todo mundo apreensivo... Até que, afinal, a crise se aplacou [281].

O Antonio Carlos se levantou trêmulo. Tinha acabado o dia do perigo dele. Ele desceu quase apoiado, sumiu pela Câmara adentro, tomou um automóvel e foi-se embora. O seu dia D havia passado [282].

Perguntei ao Alcântara Machado como estava a situação.

Ele disse: “Foi possível, graças à ajuda do senhor e de outros, acalmar a situação. Sou-lhe muito agradecido.” [283].

Talvez por isso, quando ele, Alcântara Machado, escreveu um livro sobre os trabalhos da Constituinte, enviou-me com uma dedicatória, algo mais ou menos assim: “A Plinio Corrêa de Oliveira, cujo trabalho na Constituinte, reservado na aparência, foi notável na realidade. Alcântara Machado” [284].

*   *   *

Esse trabalho de articulação era tão intenso que vários deputados (Cardoso de Melo, Barros Penteado e outros), conversando com padres chegados à Cúria de São Paulo, diziam isso: “Olhe, vocês mandaram um representante esperto para lá, e ele luta mesmo pela causa católica!”

Certo dia apareceu o próprio Monsenhor Gastão Liberal Pinto na Câmara, creio que para observar meu trabalho. Eu não percebi que ele estava lá, pois sentara-se numa tribuna especial.

Quando terminou a sessão, ele me procurou e disse:

— Meus parabéns. Eu vi você trabalhar o dia inteiro, falando com uns, com outros, e estou muito satisfeito do deputado que nós pusemos neste lugar.

13. Vitória das emendas católicas

As emendas católicas foram sendo votadas uma a uma e todas entraram na Constituição. Entraram até duas outras que não constavam de nosso programa [285].

Enquanto a Constituição de 1891 não pronunciava o nome de Deus, a de 1934 começava por dizer: “Nós, os representantes do povo brasileiro, pondo a nossa confiança em Deus etc... [286]

Foi uma vitória católica enorme! *

* Votaram a favor da inclusão do nome de Deus 168 deputados constituintes, e contra apenas 57 deputados (v. Legionário n° 145, 13 de maio de 1934).

O panorama católico no País ficou largamente mudado: a Igreja aparecia como uma potência dentro do Brasil.

As leis brasileiras tinham perdido, não tudo, mas uma boa parte da carranca laicista que as caracterizava anteriormente.

*   *   *

Seria muito exagerado dizer que tudo isso se deveu ao deputado mais votado da Constituinte.

Nossa Senhora havia se servido de mim como instrumento para lançar a idéia da Liga Eleitoral Católica e para fazer com que andassem as negociações para o lançamento da LEC. E também Ela se serviu de mim como um dos propulsores do movimento mariano que estava na raiz da vitória da LEC.

Mas, de fato, havia muitos outros deputados católicos dedicados [287].

Lembro-me, entre eles, do meu amigo Barreto Campelo, deputado por Pernambuco e católico fervoroso, professor na Faculdade de Direito de Recife. Lembro-me também de outro amigo, Adroaldo Mesquita da Costa, pelo Rio Grande do Sul, que foi mais tarde Ministro da Justiça, e que durante toda a sua existência manteve uma atitude católica desassombrada. E lembro-me ainda de vários outros: Luís Sucupira, pelo Ceará; Furtado de Menezes e Polycarpo Viotti, por Minas Gerais, entre tantos outros de vários Estados [288].

Um deputado católico sozinho não teria conseguido o que foi conseguido.

Tenho, graças a Deus, a alegria de ter trabalhado muito para que isso se conseguisse e de ter alcançado uma larga rede de relações que serviriam enormemente, de futuro, para a causa católica [289].

Um dos que colaboraram estreitamente comigo, o tempo inteiro, e de um modo muito discreto mas sempre eficaz, foi um deputado que eu considero poder chamar de católico no sentido profundo da palavra.

Era um antigo professor meu chamado Moraes de Andrade, que depois foi deputado ainda por muitos anos, e que freqüentava a igreja do Imaculado Coração de Maria. Ele era um dos chefes da guarda noturna de orações.

Senhor de idade, de cabelos brancos, usando barba, ele se fez eleger porque tinha força eleitoral no bairro das Perdizes, fruto do prestígio político dele próprio, e talvez de alguns votos da paróquia, a que ele tinha bem direito, porque era um paroquiano exemplar.

Durante todo o tempo, sendo eu o deputado eleito pelos católicos, para efeito religioso ele sempre me considerou líder dele, embora eu tivesse sido seu aluno. E nunca deu um passo para a frente sem eu pedir; e deu para a frente todos os passos que eu pedi a ele [290].

14. Encerramento da Constituinte

A Constituinte tinha poderes para dispor se continuaria durante mais quatro anos, como legislativa, ou se seria dissolvida imediatamente. Veio ordem do Getúlio para todos os deputados getulistas votarem a favor da dissolução da Constituinte. Como tinham a maioria, ganharam. E deram apenas mais seis meses de vida legislativa a ela.

Chegou por fim o dia do encerramento da Constituinte [291].

A sessão de encerramento foi como na inauguração: sala toda enfeitada de rosas, com música tocando, Hino Nacional [292], corpo diplomático presente, altas autoridades etc. [293].

Aparece afinal o Getúlio pronunciando o seu discurso, com os holofotes percorrendo todos os ângulos da Câmara, isto para depois a propaganda dele ser passada nas salas dos cinemas de todo o Brasil (não havia ainda televisão).

E mais uma vez a bancada paulista foi a única que compareceu de fraque, cartola e tudo mais [294].

O Getúlio, pequenino, também vestido de fraque, sempre com a mãozinha no colete. Eu votei, junto com Chapa Única, contra a continuidade dele, mas a Constituinte o elegeu Presidente da República.

Nesse mesmo dia da promulgação da Constituição, recebi telegramas em separado de Dom Duarte, e também de todos os Bispos da Província Eclesiástica do Estado de São Paulo, agradecendo-me em termos calorosos os serviços que eu tinha prestado.

Capítulo XI

No pós-Constituinte, convites para carreira política

1. Necessidade de continuar a luta parlamentar e o fechamento da LEC

Antes mesmo de a sessão tomar um fim, eu me retirei: guardei o meu fraque, guardei a minha cartola e na noite seguinte embarquei para São Paulo [295]. Eu tinha naquele tempo 25 anos [296].

*   *   *

Uma semana antes de sair do Rio, eu havia escrito uma carta a Dom Duarte apresentando-lhe o balanço das atividades e as perspectivas futuras da Liga Eleitoral Católica* [297].

* Esta carta, datada de 9 de julho de 1934, dizia:

"É justo [...] que eu venha prestar contas a V. Ex. Revma. da situação em que a Liga vai enfrentar a segunda etapa, a da regulamentação das conquistas obtidas, por via da lei ordinária e da reconstitucionalização do Estado. [...] O total de requerimentos [de alistamento eleitoral] que deram entrada na Liga, quer na Capital, quer no interior da Arquidiocese, é de 16.296. Todos estes 16.296 requerentes assinaram um compromisso de disciplina eleitoral em relação à Liga. Cada um deles tem em nossa secretaria uma ficha própria, com o respectivo nome, idade, naturalidade, residência, estado civil etc. [...] Como vê V. Ex. Rev., é um eleitorado perfeitamente arregimentado e que conhecemos até os menores detalhes".

Em outra carta, comuniquei a ele uma estranheza: eu vinha notando com certa freqüência, mesmo da parte do Clero, a idéia de que a vitória das teses católicas na Constituinte havia representado o termo final das atividades da Liga. E que, dado o triunfo obtido, dificilmente se justificaria a continuação de sua atividade [298].

Ora, todas as reivindicações que havíamos conseguido introduzir na Constituição estavam dependentes de uma boa ou má legislação complementar [299].

Com o que eu não contava, era que o próprio Dom Duarte tivesse a intenção de paralisar as atividades da Liga. O fato é que, pouco depois, recebo uma convocação dele, que me comunica:

— Queria dar um duplo aviso a Vossemecê. A Liga Eleitoral Católica não tem mais que atuar, porque já obteve tudo quanto tinha que obter. Nessas condições, não precisamos mais da Liga. O senhor pode até fechá-la. Não havendo Liga, o senhor não vai poder ser candidato dela. Agora, dos dois partidos que há em São Paulo, Partido Republicano Paulista e Partido Constitucionalista, qual é que prefere? [300]

Ele sabia bem que eu não tinha afinidade com nenhum dos dois partidos. O prefere tinha, portanto, um sentido relativo, que seria “qual o partido que lhe desagrada menos?”

O Partido Republicano Paulista era dos velhos coronelões, fazendeiros do interior, portanto, com uma certa nota aristocrática [301], de centro-direita. O Partido Constitucionalista era de tendência centro-esquerda [302].

Espantado, respondi que não tinha simpatias por nenhum. Mas a ter que preferir um, preferiria o PRP, que era o Partido Republicano Paulista [303].

Ele insistiu:

— Vossemecê quer ter um cargo de deputado federal no Partido Republicano Paulista, ou no Partido Constitucionalista? Em qualquer dos dois, se Vossemecê quiser, eu falo para o convidarem como candidato.

Eu disse a ele:

— Senhor Arcebispo, agradeço o seu interesse, mas sou obrigado a dizer a Vossa Excelência que prefiro não entrar em partido nenhum [304].

Dom Duarte pediu-me que eu ainda pensasse.

Respondi:

— Não mudo de opinião [305].

Ele disse:

— Está bem. Não diga então que eu me desinteressei de Vossemecê.

— Eu agradeço o interesse que Vossa Excelência está tomando por mim.

E terminou nisso* [306].

* Em carta a Dom Epaminondas, Bispo de Taubaté, confidenciou: "Até o último momento, esperei que o Exmo. Sr. Arcebispo [Dom Duarte] mudasse de deliberação, segundo me parecia que exigiam as circunstâncias. Vendo, porém, que tal não se dá, vou agora sair a campo com minha iniciativa individual" (Carta a Dom Epaminondas, sem data, provavelmente de setembro ou outubro de 1934).

2. Pressões e convites de partidos políticos. Razões da recusa

Depois dessa conversa com Dom Duarte, comecei a receber pressões para me anexar à carreira política fora dos quadros católicos. A essas pressões eu respondi categoricamente não [307].

Essas pressões estavam sendo exercidas porque, de acordo com o mecanismo da organização democrático-representativa e federal no Brasil, o natural era que, terminada a Constituinte, o eleitorado fosse convocado para a eleição de uma Câmara Federal e de uma Câmara Estadual. Os políticos se entregaram empenhadamente a isso [308].

E então deputados do PRP e do Partido Constitucionalista começaram a insistir para que eu aceitasse candidatura em suas chapas [309].

Um dia recebo um telefonema: “O Partido Republicano Paulista quer falar com o senhor”.

Fui ao telefone e um deputado cujo nome não me lembro me disse: “Dr. Plinio, nós queríamos convidar o senhor para deputado estadual, portanto, queríamos que o senhor marcasse uma hora”.

Eu marquei na minha própria casa. Esse deputado foi até em casa, conversamos muito cordialmente. Ele me convidou com muita insistência para ser deputado pelo PRP.

Eu agradeci muito, disse por cortesia que ia pensar.

Deixei passar alguns dias e telefonei para ele: “Fulano, sou muito agradecido, mas não convém eu entrar no partido”. E descartei o convite.

Dias depois aparece o Dr. Antonio Cintra Gordinho, presidente da Associação Comercial de São Paulo, homem muito rico, muito influente, de um trato aliás muito simpático, dizendo que queria me falar [310].

Ainda me lembro dele na saleta da minha casa, na época situada na rua Marquês de Itu, n° 124, me dizendo: [311]

— Plinio, em nome do Partido Constitucionalista eu venho insistir junto a você para se eleger deputado federal em nossa chapa.

Eu respondi:

— Dr. Gordinho, muito obrigado. É muito amável de sua parte, mas eu não posso aceitar essa candidatura.

Levou muito tempo tentando me persuadir. E, no fim, disse:

- "Olhe, a convenção está reunida. E estão só esperando o “sim” ou o “não” de você para votarem a chapa. Estão todos lá fazendo discursos para entreter os convencionais [312], enchendo o tempo à espera da sua resposta [313]. Se o senhor aceitar, eu daqui telefono dizendo que o senhor aceitou. O senhor vai comigo de automóvel para a convenção e é aclamado candidato lá. Se o senhor não aceitar, será uma tristeza.

Eu voltei a dizer: “Dr. Gordinho, eu lhe sou muito agradecido, o convite me honra muito, mas não é minha intenção aceitar”.

Bom, afinal ele se despediu e foi comunicar que eu não tinha aceito [314].

É de se notar que o partido que eu preferia ofereceu-me um cargo de deputado estadual, menos bom do que o de deputado federal. E o Partido Constitucionalista, de centro-esquerda, fez insistência para eu ser deputado federal, portanto, uma situação politicamente melhor, mas que não me convinha.

São os eternos paradoxos [315].

*   *   *

Foram motivos imperiosos que me levaram a recusar as cadeiras que me ofereceram os Partidos Republicano Paulista e Constitucionalista.

De tais motivos, o mais imperioso se resumia no seguinte: se a ação católica devia ser desenvolvida fora e acima dos partidos, estaria em más condições para servi-la um católico filiado diretamente a uma corrente partidária qualquer, máxime se este católico, graças à carência de elementos melhores, estava destinado a ocupar como no meu caso cargos de grave responsabilidade no comando do laicato católico [316].

Enquanto eu me conservasse alheio a dissídios partidários, estaria em bons termos com ambos os grupos em que se dividia a representação paulista na Câmara dos Deputados. Pelo contrário, desde que eu assumisse qualquer atitude partidária, teria contra mim a facção hostil ao meu grupo. E só quem teria a padecer com isto seria a causa católica, pois que o grupo a quem eu hostilizasse tomaria suas represálias contra os princípios que eu encarnava [317].

3. Candidato avulso, sem partido

Tendo, pois, recusado os dois partidos, lancei a minha candidatura como deputado estadual independente [318].

Aluguei um escritório de uma sala só (sala 211), de bom tamanho, situada no segundo andar da rua Libero Badaró n° 10, quase esquina com a avenida São João. Ali montei meu comitê eleitoral.

Mandei imprimir cartazes, que mandei colar em vários lugares de São Paulo. E fiz toda uma montagem de envio de correspondência para o interior do Estado: cartas para padres, para congregados marianos, para listas de amigos e outros fichários de que eu dispunha. Tudo isso foi mandado em quantidade [319].

Mandei também uma circular a todo o Clero do Estado de São Paulo [320]. E ainda publiquei um manifesto anunciando a minha candidatura [321]. O escol da mocidade católica mariana de São Paulo apoiou-me, assinando o manifesto.

Ao mesmo tempo pedi ao Tristão uma carta a respeito de meu trabalho na Constituinte, para apresentar ao público como modo de prestigiar a candidatura. Ele mandou a carta mais fria e sabotante que se possa imaginar [322].

Organizei caravanas de cerca de vinte rapazes, congregados marianos, e evidentemente de membros do grupo do Legionário, que iam por essas paróquias afora pedindo votos, fazendo propaganda. Distribuí centenas de milhares de cédulas [323]. O consumo de cédulas foi fantástico.

Tudo indicava que a eleição correria bem [324]. Mas aí entraram algumas circunstâncias que atrapalharam a minha votação [325].

4. Uma circular inesperada prejudica a candidatura de Dr. Plinio

Dom Duarte, na conversa que tivera comigo, fez-me sentir que não combateria nem apoiaria a minha campanha eleitoral.

Outros elementos eclesiásticos com que eu contava também se desinteressaram completamente. Dos Bispos, a única exceção foi Dom Epaminondas Nunes D’Ávila e Silva, Bispo de Taubaté [326].

Um dia, apareceu em minha casa o vigário de Santa Cecília. Era o Padre Paulo de Tarso Campos, mais tarde nomeado Bispo de Santos e posteriormente Arcebispo de Campinas [327].

Eu tinha boas relações com ele, visto que era vigário de Santa Cecília e eu congregado ali também.

Ele chegou à minha casa vibrante, dizendo que tinha tomado contato com um grupo de padres e que estava simplesmente indignado com o que estava acontecendo.

E então me contou que Monsenhor Pereira Barros passara uma circular a todos os padres de São Paulo, dizendo que o Partido Republicano Paulista havia indicado para deputado estadual o médico Tarcísio Leopoldo e Silva, irmão de Dom Duarte. E alegava ele como ficaria muito mal para o prestígio do Arcebispo que esse médico não fosse eleito, ele pedia a título individual, a todos os padres, que fizessem votar no irmão de Dom Duarte.

O Padre Paulo de Tarso Campos então mostrou-me a carta e disse-me, vibrante de indignação:

— Se você quiser, nós vamos constituir uma comissão de padres e fazer um protesto junto a Dom Duarte. E vamos com você fazer esse protesto.

Eu tinha um grande respeito pessoal por Dom Duarte. E não queria fazer nada que representasse uma pressão sobre ele.

Então disse ao Padre Paulo de Tarso que ficava muito agradecido. E se eles quisessem fazer esse protesto, eu igualmente lhes ficaria grato, mas que eu não podia me associar.

E a coisa morreu como espuma. Mas a circular de Monsenhor Pereira Barros circulou... [328]

5. Atacado em coluna religiosa

Outro fato estranho aconteceu na mesma linha.

O Estado de S. Paulo publicava a seção Movimento Religioso, muito lida pelo público católico e redigida por um velho católico militante chamado Júlio Rodrigues.

E saiu um artigo desse Júlio Rodrigues, pouco antes das eleições, deblaterando violentamente contra os candidatos avulsos [329].

Essa seção era muito lida pelo público católico.

Eu li de manhã isso, e como sabia que essa seção era escrita por um particular e não exprimia a voz da Cúria, não liguei e saí para o meu trabalho eleitoral. Tudo isso antes das eleições [330].

Mas na realidade aquele artigo me prejudicou, e prejudicou-me não pouco [331].

6. Trabalho abnegado dos congregados marianos

Os congregados marianos que trabalhavam comigo eram pessoas de condições econômicas ainda mais deficientes do que a minha. Vários deles tinham pedido férias nos seus empregos para poder trabalhar pela minha eleição. E isso não se paga. Nem eu tinha dinheiro para pagá-los, nem eles quereriam. Era um trabalho desinteressado, de bons congregados marianos.

Eu procurava compensar isso rezando por eles e dispensando-lhes toda a minha amizade. Era só o que eu tinha.

Lembro-me que, quando foi encerrada a campanha eleitoral, à noite, já um pouco tarde, os congregados marianos afluíram para o escritório eleitoral para comentar as disposições do eleitorado [332].

E eu disse a eles:

A todos, muito obrigado. Foi uma luta que mantivemos pela causa católica e há muitas possibilidades de vencer. Se essas possibilidades se verificarem, nós teremos vencido para a causa de Nossa Senhora. Se não se verificarem, estou com minha carreira política quebrada. Estamos jogando o tudo pelo tudo. Se eu for reeleito, será por pouco; se for derrotado, será por pouco. Não foi, portanto, uma temeridade, eu não dei trabalho a vocês por uma tentativa vã. A tentativa tem todo o cabimento. Os números o dirão. Agora, se ela será coroada de êxito, não sei. É a Providência que sabe.

Despedimo-nos muito amistosamente e ficamos aguardando a apuração eleitoral.

7. Apurações suspeitas: urna aberta com chave de papelão

Estranhamente, a apuração não começou logo depois. Os votos ficaram empilhados em não sei que prédio do Parque Dom Pedro II, expostos: todo mundo podia vê-los através de uma grade [333].

Comecei a ficar preocupado: “Como é essa história? O que é que vão fazer com isso?” [334]

Começa a apuração. Os resultados são completamente diferentes do que todo o mundo esperava. Era esperada a vitória do Partido Republicano Paulista e esse partido recebeu votações muito menores nos lugares onde havia os melhores motivos para esperar grande vitória.

E começou a correr o boato de que as urnas tinham sido forçadas [335] e que tinha havido fraude nas eleições.

E um deputado oposicionista, inimigo do governo, homem rico, político importante de Limeira, o Major Levy [336], deu uma declaração pelo rádio de que o cadeado daquelas urnas era tão vulnerável, que ele se responsabilizava perante o público paulista de abrir qualquer uma delas com uma chave de papelão que ele cortaria na hora. E foi marcada essa demonstração.

Chega na hora, sensação em torno do caso: o Major Levy corta uma chave de papelão, mete dentro da fechadura e esta se abre.

Ele disse: “Agora me tragam outras urnas, eu abro todas”. E de fato abriu, diante das autoridades e outras testemunhas.

Imediatamente telefonaram para a Gazeta, que era naquele tempo o jornal audacioso de São Paulo, e que tinha uma sereia cujo som, na São Paulo pequena daquele tempo, cobria toda a zona onde morava o centro decisivo da cidade.

A sereia normalmente só tocava ao meio-dia e às seis da tarde. Desta vez, a sereia da Gazeta tocou, digamos, às dez da manhã.

Tocou, tocou, a cidade toda ficou em polvorosa: “As urnas foram abertas, as eleições estão fraudadas”.

Deveriam ter anulado as eleições, não anularam [337].

*   *   *

Antes de arrebentar esse escândalo, bem no começo da apuração, eu tive que tratar um negócio qualquer com o presidente do Tribunal Eleitoral de São Paulo, a respeito de meu título eleitoral.

Entrei numa sala cheia de gente e notei a fisionomia dele ser tomada de certa angústia ao me ver. Não dei importância ao fato, apenas o registrei.

Depois tive todas as razões para suspeitar que meus votos foram retirados das urnas em quantidade, por um fato indiscutível que vim a saber mais tarde: Dom Mayer, que eu ainda não conhecia e que na época era simples sacerdote, votara em mim, mas na sua seção eu não tive sequer um voto computado [338].

8. Prestígio intacto e até crescente

Nesse período pós-deputado, eu dava sempre as minhas noites ao cultivo daqueles amigos da Congregação Mariana e ao relacionamento com o movimento mariano em geral.

Era muito convidado para discursos e conferências no Movimento Católico. Quase todo mês havia duas ou até três conferências para fazer.

Fazia-as com grande aplica­ção, o mais bem feito que eu conseguisse. E isto naturalmente multiplicava os convi­tes.

Vinham convites também do interior, para as festas de Bispos e outras ocasiões.

Eu ia, comparecia, falava, discursava à vontade. Faziam de mim o que queriam.

Neste sentido, minha influência como líder católico cresceu ainda mais depois de ser deputado. E também porque estava um pouco mais velho, e, portanto, com mais respeitabi­lidade do que um moço de vinte e cinco anos.

Era muito freqüente haver reunião católica em teatros, lotando-os inteiramente. Quando eu entrava (não tinha mais cargo nenhum) a sala toda se levantava e batia palmas.

Não havia possibilidade de eu comparecer a uma reunião dessas sem ser convidado a fazer um discurso no fim. Não passava pela cabeça de ninguém.

Antes de ser deputado já era assim. No meu período de deputado, era e às vezes não era. Depois de eu ser deputado, não sei por que disposições da Providência, isto subiu muito mais [339].

Esse prestígio pessoal, humanamente falando, me valia muito pouco, dada a estrutura aristocrática de São Paulo naquele tempo. Mas como meio de apostolado era um meio excelente, e a esse título, naturalmente, eu o prezava muito e procurava cultivar, para dispor de influência junto aos católicos para os objetivos que eu tinha em vista [340].


NOTAS

[1] Um homem, uma obra, uma gesta, Edições Brasil de Amanhã, Artpress, São Paulo, 1988.

[2] SD 22/6/73.

[3] CSN 1/5/93.

[4] SD 22/6/73.

[5] SD 8/7/83.

[6] SD 27/8/88 — Noël Marie Joseph Édouard, Visconde de Curières de Castelnau (1851-1944), nascido de uma família da antiga Nobreza francesa, foi comandante do II Exército francês e chefe do Estado Maior do general Joffre na I Guerra Mundial.

Considerado por alguns um católico radical, recebeu o cognome de “capuchinho de botas”. Tendo comandado batalhas vitoriosas em Sedan, Soissons e Chaumont, foi chamado por Joffre ao Estado Maior, notabilizando-se pela defesa de Nancy e pela ofensiva da Champagne em 1915, o que lhe valeu a Grande Cruz da Legião de Honra. Foi ele também quem organizou a defesa de Verdun.

Suas ideias em matéria de religião e política, apesar de liberais, atraíram a hostilidade de numerosos políticos da laica e ateia IIIª República francesa, e por isso jamais lhe concederam o bastão de marechal. Fez oposição a Pétain no governo de Vichy, e foi presidente da Féderation National Catholique até sua morte.

[7] SD 22/6/73.

[8] SD 27/8/88.

[9] Palestra sobre Memórias (II) 7/8/54.

[10] SD 22/6/73.

[11] SD 27/8/88.

[12] SD 22/6/73.

[13] — Esta Revolução Constitucionalista, também conhecida como Revolução de 1932, foi o movimento armado ocorrido no Estado de São Paulo, entre os meses de julho e outubro de 1932, que tinha por objetivo a derrubada do Governo Provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova Constituição para o Brasil. Foi uma resposta paulista à Revolução populista de Getúlio Vargas de 1930, a qual acabou com a autonomia de que gozavam os Estados durante a vigência da Constituição de 1891.

[14] — João Alberto Lins de Barros (1897-1955) foi um militar e político brasileiro tenentista, e interventor federal em São Paulo de 26 de novembro de 1930 a 25 de julho de 1931. Sua gestão à frente do governo paulista foi marcada por medidas despóticas e revolucionárias, colocando-o em confronto direto com as agremiações políticas tradicionais do Estado. O tenentismo, de que ele era um dos líderes, foi um movimento que, reunindo oficiais de baixa e média patente do Exército, promoveu a partir de 1922 uma série de rebeliões e tentativas de revoluções, entre elas a Revolução de 1924, da qual nasceria a Coluna Prestes, de que João Alberto fez parte. O tenentismo tornou-se uma das bases de sustentação da Revolução getulista de 1930 e, após a vitória desta, quase todos os governos dos Estados brasileiros foram entregues a expoentes do tenentismo.

[15] — O insuspeito João Cabanas, líder revolucionário de 1924 e 1930, também ele tenentista, assim comenta, em seu livro Fariseus da Revolução (1932), a gestão de seu ex-companheiro João Alberto: "Se, como militar, merece respeito, como homem público não faz juz ao menor elogio. Colocado, por inexplicáveis manobras e por circunstâncias ainda não esclarecidas, na chefia do mais importante Estado do Brasil, revelou-se de uma extraordinária, de uma admirável incompetência, criando, em um só ano de governo, um dos mais trágicos confusionismos de que há memória na vida política do Brasil, dando também origem a um grave impasse econômico (déficit de 100.000 contos), e a mais profunda impopularidade contra a 'Revolução de Outubro'" .

[16] Entrevista publicada em Um homem, uma obra, uma gesta, cit.

[17] SD 27/8/88.

[18] SD 22/6/73.

[19] — Heitor da Silva Costa (1873-1947) foi o engenheiro brasileiro responsável pelo projeto de construção do Cristo Redentor, inaugurado em 1931.

[20] SD 27/8/88.

[21] SD 11/10/80.

[22] SD 22/6/73.

[23] — Alceu Amoroso Lima (1893-1983), cujo cognome literário era Tristão de Athayde, foi crítico literário, professor, pensador, escritor e líder católico brasileiro. Bacharelando-se em 1913 no Rio, viajou para a Europa, onde cursou a Sorbonne e o Collège de France. Agnóstico e liberal na juventude, foi convertido ao catolicismo por Jackson de Figueiredo, e após a morte deste (1928), sucedeu-lhe na direção do Centro Dom Vital e da revista A Ordem. Estreito colaborador do Cardeal Dom Sebastião Leme, foi escolhido por este secretário-geral da Liga Eleitoral Católica (1932), e posteriormente primeiro presidente da Ação Católica Brasileira (1935-1945). Foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 1935. Amigo de Plinio Corrêa de Oliveira até o momento em que, nos inícios da década de 1940, sob a influência do filósofo francês Jacques Maritain, voltou às suas antigas posições liberais, passando a sustentar as teses da corrente progressista, tanto no campo litúrgico como no político-social. Foi também um dos promotores do Partido Democrata Cristão (PDC), tendo participado em 1949 do assim chamado Movimento de Montevidéu. Foi escolhido em 1967 por Paulo VI para membro da Pontifícia Comissão Justiça e Paz (cfr. Roberto De Mattei, O Cruzado do século XX — Plinio Corrêa de Oliveira, Livraria Civilização Editora, Porto, 1997; e Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil — CPDOC (http://www.fgv.br/cpdoc, verbete Alceu Amoroso Lima).

[24] SD 27/8/88 — Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra (1882-1942) foi o segundo Cardeal brasileiro. Arcebispo de Olinda e Recife entre 1916 e 1921, nomeado em 1921 Arcebispo Coadjutor do Rio de Janeiro e, por fim, Arcebispo da mesma cidade em 1930, sucedendo ao Cardeal Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, sendo no mesmo ano elevado ao Cardinalato.

[25] SD 8/7/83.

[26] SD 27/8/88.

[27] SD 22/6/73.

[28] SD 27/8/88.

[29] SD 7/1/89.

[30] SD 27/8/88.

[31] SD 8/7/83.

[32] Palestra para Neocooperadores 26/2/95 — A LEC paulista foi instalada em reunião realizada na Cúria de São Paulo no dia 13 de novembro de 1932 (cfr. Legionário, n° 108, 20 de novembro de 1932, p. 1).

[33] Palestra sobre Memórias (II) 7/8/54.

[34] SD 7/1/89.

[35] SD 27/8/88.

[36] SD 22/6/73.

[37] SD 27/8/88.

[38] SD 22/6/73.

[39] SD 27/8/88.

[40] SD 8/7/83.

[41] SD 23/8/80.

[42] SD 8/7/83.

[43] SD 27/8/88.

[44] SD 22/6/73.

[45] SD 7/1/89.

[46] SD 22/6/73.

[47] SD 7/1/89.

[48] SD 23/8/80.

[49] SD 7/1/89.

[50] SD 23/8/80.

[51] SD 27/8/88.

[52] SD 7/1/89.

[53] Palestra sobre Memórias (II) 7/8/54.

[54] SD 22/6/73 Mário Egídio de Souza Aranha (1891-1977), neto da Viscondessa de Campinas, médico, professor da USP e prior da Ordem Terceira do Carmo da Ladeira.

[55] SD 7/1/89.

[56] SD 27/8/88.

[57] SD 22/6/73.

[58] SD 27/8/88.

[59] Entrevista à Rádio São Miguel de Uruguaiana, 21/6/90.

[60] SD 8/7/83.

[61] SD 22/6/73.

[62] SD 7/1/89.

[63] SD 22/6/73.

[64] SD 7/1/89.

[65] SD 22/6/73.

[66] SD 27/8/88.

[67] SD 22/6/73.

[68] Almoço EANS 23/11/90.

[69] SD 27/8/88.

[70] SD 22/6/73.

[71] SD 6/8/88.

[72] SD 22/6/73.

[73] Entrevista à Rádio São Miguel de Uruguaiana, 21/6/90.

[74] — José de Alcântara Machado de Oliveira (1875-1941), jurista, escritor, professor e político brasileiro, foi o líder da bancada paulista na Assembléia Nacional Constituinte de 1933/34.

[75] SD 3/9/88.

[76] SD 22/6/73.

[77] SD 23/8/80.

[78] — Rafael de Abreu Sampaio Vidal (1870-1941), advogado, político, fazendeiro e grande defensor da cultura do café como base da economia nacional.

[79] SD 22/6/73.

[80] SD 27/8/88.

[81] SD 22/6/73.

[82] SD 7/1/89.

[83] SD 22/6/73.

[84] SD 27/8/88.

[85] — Dr. Estêvão Rezende morreu no dia 14 de julho de 1933. Dr. Plinio fez o seu elogio fúnebre em artigo para o Legionário n° 24, de 16/7/33.

[86] — Vicente Melillo (1883-1969), imigrante italiano, tornou-se advogado, escritor, comendador, vicentino, casado e pai de onze filhos e, depois de viúvo, fez-se ordenar padre aos 80 anos.

[87] Palestra sobre Memórias (II) 7/8/54.

[88] SD 27/8/88.

[89] SD 23/6/73.

[90] SD 27/8/88.

[91] SD 23/6/73.

[92] SD 27/8/88.

[93] — Ver jornais de São Paulo do dia 25 de abril de 1933, v.g. a Folha da Manhã, O Estado de S. Paulo etc.

[94] SD 22/6/73.

[95] SD 23/8/80.

[96] SD 22/6/73.

[97] SD 23/8/80.

[98] SD 22/6/73.

[99] SD 7/1/89.

[100] Almoço EANS 23/11/90.

[101] SD 22/6/73.

[102] SD 7/1/89.

[103] SD 3/9/88.

[104] SD 7/1/89.

[105] SD 3/9/88.

[106] — José Joaquim Cardoso de Melo Neto (1883-1965), advogado, professor e político. Catedrático de Economia Política na Faculdade de Direito de São Paulo e diretor da mesma Faculdade entre 1941 e 1942; prefeito interino do município de São Paulo entre 24 de outubro e 5 de dezembro de 1930; foi também governador do Estado de São Paulo de 5 de janeiro a 10 de novembro de 1937; e interventor federal no mesmo Estado, de 11 de novembro de 1937 a 25 de abril de 1938.

[107] — José Carlos de Macedo Soares (1883-1968) foi um jurista, historiador e político brasileiro. Ocupou a Presidência do Centro Acadêmico XI de Agosto em 1905 e participou do comitê organizador da Semana de Arte Moderna de 1922.

Na condição de presidente da Associação Comercial de São Paulo, foi acusado de cooperar com a Revolução de 1924. Indiciado, ficou preso por dois meses, exilando-se depois em Paris durante três anos.

Em 1930, deu apoio à candidatura Vargas. Secretário de Justiça após o golpe que derrubou o presidente Washington Luís, foi mantido por Vargas nesse posto. Durante o ano de 1932 desempenhou missões diplomáticas na Europa.

Ao retornar ao Brasil, elegeu-se deputado federal constituinte na Chapa Única por São Paulo Unido. Nomeado por Vargas para o Ministério das Relações Exteriores em 1934, permaneu no cargo até janeiro de 1937, quando assumiu a pasta da Justiça.

Um dos seus primeiros atos foi decretar a libertação de 308 presos políticos acusados de envolvimento com a Intentona Comunista de 1935 (cfr. artigo 308, Legionário nº 249, 20 de junho de 1937), episódio que ficou conhecido como a "macedada".

Em 1937, tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras e foi seu presidente entre 1942 e 1944.

Interventor federal no Estado de São Paulo de 7 de novembro de 1945 a 14 de março de 1947, foi depois ministro da Justiça e de Negócios Interiores de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek (interino), e ministro das Relações Exteriores de Nereu Ramos. (Fontes: CPDOC da Fundação Getúlio Vargas e outras).

[108] SD 22/6/73.

[109] SD 3/9/88.

[110] SD 22/6/73.

[111] SD 3/9/88.

[112] SD 22/6/73.

[113] SD 23/8/80.

[114] SD 22/6/73.

[115] Almoço EANS 23/11/90.

[116] SD 22/6/73.

[117] Almoço EANS 23/11/90.

[118] SD 22/6/73.

[119] SD 23/8/80.

[120] SD 22/6/73.

[121] Palestra sobre Memórias (II) 7/8/54 — Apesar de seu renome de católico, José Carlos de Macedo Soares tomou atitudes francamente reprováveis que o Legionário viria posteriormente a deplorar, como a já referida soltura, quando Ministro da Justiça de Vargas, de 308 prisioneiros comunistas detidos no Rio por participação na Intentona Comunista de 1935. Durante essa Intentona, entre outros atos brutais de violência, foram assassinados na calada da noite oficiais e soldados das Forças Armadas por elementos comunistas infiltrados em quartéis de Natal, Recife e Rio. Ao serem libertados no Rio, alguns desses prisioneiros prorromperam em vivas a Luís Carlos Prestes e entoaram o hino da III Internacional Comunista (cfr. Legionário de 13, 20 e 27/6/37).

[122] SD 22/6/73.

[123] Palestra sobre Memórias (II) 7/8/54.

[124] SD 22/6/73.

[125] Palestra sobre Memórias (II) 7/8/54.

[126] SD 22/6/73.

[127] Almoço EANS 23/11/90.

[128] — Dr. Plinio foi indicado pela Chapa Única por São Paulo Unido com 23 anos de idade. Completou 24 anos em 13 de dezembro de 1932. A eleição realizou-se em 3 de maio de 1933, e a Constituinte foi instalada em novembro do mesmo ano. Os trabalhos se estenderam até 16 de julho de 1934, quando a nova Constituição foi promulgada.

[129] SD 23/8/80.

[130] SD 22/6/73.

[131] SD 3/9/88.

[132] — Antonio Sampaio Dória (1883-1964) foi um político, jurista e educador brasileiro. Diretor-geral da Instrução Pública (1920-1924), coordenou várias reformas de ensino. Foi professor de Direito Público Constitucional e de Direito Internacional Privado na Faculdade de Direito de São Paulo. Foi nomeado ministro da Justiça pelo Presidente da República interino José Linhares em 1945.

[133] SD 7/1/89.

[134] SD 23/8/80.

[135] SD 3/9/88.

[136] SD 23/8/80.

[137] SD 22/6/73.

[138] — Em tradução livre, "não por causa de nossos méritos, mas por condescendência". A frase latina é do Cânon Romano antigo, e se traduz habitualmente por "não conforme nossos méritos, mas segundo a vossa misericórdia".

[139] Carta aos Secretários das LECs do Estado de São Paulo, de 29/4/33.

[140] SD 23/8/80 — Este ofício é de 29 de abril de 1933.

[141] SD 22/6/73.

[142] SD 23/8/80.

[143] SD 10/9/88.

[144] — Dom Epaminondas Nunes de Ávila e Silva (1869-1935) era natural da cidade do Serro (MG). Ordenado a 17 de julho de 1892, foi o primeiro Bispo de Taubaté, tendo sua sagração episcopal se dado a 8 de setembro de 1909, portanto em pleno pontificado de São Pio X.

[145] SD 23/8/80.

[146] SD 22/6/73.

[147] SD 23/8/80.

[148] SD 10/9/88.

[149] SD 3/9/88.

[150] SD 22/6/73.

[151] SD 3/9/88.

[152] José Manuel de Azevedo Marques (1865-1943) era advogado, professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, deputado federal e Ministro das Relações Exteriores no governo Epitácio Pessoa. Foi também o primeiro presidente eleito da OAB de São Paulo.

[153] SD 22/6/73.

[154] SD 3/9/88.

[155] Almoço EANS 23/11/90.

[156] SD 22/6/73.

[157] SD 23/8/80.

[158] SD 22/6/73.

[159] SD 23/8/80.

[160] SD 7/1/89.

[161] Entrevista à Rádio São Miguel de Uruguaiana, 21/6/90.

[162] Palestra sobre Memórias (II) 7/8/54.

[163] SD 7/1/89.

[164] Palestra sobre Memórias (II) 7/8/54.

[165] SD 22/6/73.

[166] SD 18/3/89.

[167] Palestra sobre Memórias (III) 8/8/54.

[168] — O primeiro número do Legionário veio a público no dia 29 de maio de 1927. Seu diretor era Monsenhor Paulo Marcondes Pedrosa, seu redator-chefe Paulo Sawaya e seu redator-secretário Ruy Calazans. Era uma publicação mensal de quatro páginas, simples órgão paroquial da Congregação Mariana da Legião de São Pedro (da Paróquia de Santa Cecília). Sua sede funcionava no prédio n° 59 da Rua Imaculada Conceição, que futuramente seria também a sede do grupo do Legionário.

[169] SD 18/2/89.

[171] SD 18/2/89.

[172]— A eleição para a escolha dos deputados constituintes foi a 3 de maio de 1933. E a Assembleia Nacional Constituinte instalou-se em 15 de novembro desse mesmo ano. Portanto, mais de seis meses depois. Após mais oito meses de discussões, no dia 16 de julho de 1934 ela promulgou a nova Constituição. Teve ainda uma última sessão no dia 17, na qual elegeu Getúlio Vargas Presidente da República, por votação indireta dos parlamentares.

[173] — Dom Jean-Baptiste Chautard (1858-1935), sacerdote e religioso na Abadia de Aiguebelle, da Ordem de Cister, e mais tarde Abade da Trapa de Sept-Fons (França). Sua obra A alma de todo apostolado tem como pressuposto que a ação apostólica nasce do transbordamento de uma intensa vida interior, sem a qual qualquer obra de apostolado é estéril e até contraproducente.

[174] SD 22/6/73.

[175] SD 15/4/89.

[176] Chá 19/9/94.

[177] SD 28/1/89.

[178] Chá 19/9/94.

[179] SD 3/9/88.

[180] SD 15/4/89.

[181] SD 22/6/73.

[182] SD 3/9/88.

[183] — Armando Sales de Oliveira (1887-1945) foi um engenheiro e político brasileiro, interventor federal em São Paulo entre 21 de agosto de 1933 a 11 de abril de 1935 e governador (eleito pela Assembleia Constituinte) de 11 de abril de 1935 a 29 de dezembro de 1936. A seu tempo apoiou a Revolução de 1930, juntamente com o jornal O Estado de S. Paulo, do qual era sócio. Sob seu governo foi criada a Universidade de São Paulo (em 1934). Em 1937, deixou o cargo de governador para se candidar a Presidente da República nas eleições marcadas para janeiro de 1938, eleições estas que não ocorreram devido ao golpe de Estado dado por Getúlio, o qual implantou o Estado Novo em 10 de novembro de 1937. Passou cerca de um ano em prisão domiciliar, exilando-se em 1938 na França, depois nos Estados Unidos e por fim na Argentina. Só voltou ao Brasil em 1945, falecendo pouco depois.

[184] SD 23/8/80.

[185] SD 3/9/88.

[186] SD 23/8/80.

[187] SD 3/9/88.

[188] — Este jantar, realizado no Restaurante Elite no dia 10 de novembro de 1933, foi promovido pelos congregados marianos universitários da A.U.C. (cfr. Legionário n° 132, 12/11/33, p. 3).

Também a Cúria Metropolitana organizou no dia 12 uma homenagem a Dr. Plinio, na véspera de sua partida para o Rio de Janeiro, com a honrosa presença do Arcebispo Metropolitano, Dom Duarte Leopoldo e Silva, tendo discursado o Padre Cursino de Moura, diretor da Federação das Congregações Marianas (Idem, p. 4).

[189] SD 23/8/80.

[190] SD 22/6/73.

[191] SD 3/9/88.

[192] Chá 12/11/92.

[193] SD 14/1/89.

[194] SD 11/10/80.

[195] — A sessão de abertura deu-se no dia 15 de novembro de 1933.

[196] — Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (1870-1946) era bisneto de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, neto do Conselheiro Martim Francisco Ribeiro de Andrada e sobrinho de José Bonifácio, o Moço. Pertencia à terceira geração dos Andradas e era o quarto político deste nome. Seu pai, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, deputado geral e senador estadual por Minas Gerais, havia se mudado de São Paulo para a cidade de Barbacena (MG) na segunda metade do século XIX, constituindo assim o ramo mineiro dos Andradas.

Formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (1891), prefeito de Belo Horizonte em 1905, secretário de Estado de Finanças em Minas Gerais no governo Francisco Sales (1902-1906), presidente da Câmara dos Deputados nos anos 1917 e 1918 no governo Venceslau Brás, senador da República em 1925, ele chegou a ser o presidente do Estado de Minas Gerais, entre 1926-1930.

Pesa negativamente em sua brilhante carreira política o fato de ter contribuído de modo decisivo para a derrubada da ordem ainda aristocrática da I República brasileira, da qual era um ilustre representante. Ao se aliar com Getúlio, ele abriu caminho para o ambiente de populismo vulgar da era Vargas, que tanto mal fez ao Brasil. Nesse triste papel, ele carrega perante Deus e a História a responsabilidade de ter sido o principal articulador e organizador da Aliança Liberal e um dos líderes da Revolução de 30.

Presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 1933-1934, e depois presidente da Câmara dos Deputados até 1937, abandonou a política com o golpe do Estado Novo dado por Getúlio.

[197] SD 3/9/88.

[198] SD 14/1/89.

[199] SD 23/8/80.

[200] SD 3/9/88.

[201] SD 14/1/89.

[202] SD 23/6/73.

[203] SD 14/1/89.

[204] SD 3/9/88.

[205] SD 14/1/89.

[206] SD 3/9/88.

[207] SD 22/6/73.

[208] SD 14/9/91.

[209] SD 11/6/83.

[210] SD 14/1/89.

[211] SD 22/6/73.

[212] SD 14/1/89 — Esse prédio situava-se na Praça 15 de Novembro, próximo ao cais do porto. Era um velho casarão do tempo do Império, que abrigava em seu segundo andar, em várias salas ligadas pelo longo e amplo corredor de que se servia Dom Pedro para ir ao Paço, as diversas associações que compunham a Coligação Católica Brasileira. Uma dessas salas era destinada à LEC (v. Legionário n° 124, 16/7/33, coluna Notas de um repórter no Rio).

[213] SD 22/6/73.

[214] SD 11/6/83.

[215] SD 22/6/73.

[216] SD 14/1/89.

[217] SD 22/6/73.

[218] SD 14/1/89.

[219] SD 11/6/73.

[220] SD 22/6/73.

[221] SD 11/10/80.

[222] SD 22/6/73.

[223] SD 10/9/88.

[224] SD 22/6/73.

[225] SD 11/10/80.

[226] SD 22/6/73.

[227] Almoço 8/5/87.

[228] SD 10/9/88.

[229] Almoço 8/5/87.

[230] SD 10/9/88.

[231] SD 14/1/89.

[232] SD 10/9/88.

[233] SD 13/5/89.

[234] SD 11/10/80.

[235] SD 25/8/73.

[236] SD 28/1/89.

[237] SD 6/8/88 — Tratava-se do Diário Carioca, fundado no Rio de Janeiro em 17 de julho de 1928. Ary Pavão escrevia na coluna Panorama desse jornal.

[238] SD 28/1/89.

[239] SD 10/9/88.

[240] Jantar EANS 23/11/90.

[241] SD 10/9/88.

[242] SD 23/6/73.

[243] SD 10/9/88.

[244] Jantar EANS 23/11/90.

[245] SD 10/9/88.

[246] Jantar EANS 23/11/90.

[247] SD 25/4/92.

[248] SD 13/5/89.

[249] Esse discurso, muito aplaudido, foi feito em nome da bancada paulista no dia 17 de março de 1934.

[250] SD 10/9/88.

[251] SD 14/1/89.

[252] Entrevista à Rádio São Miguel de Uruguaiana, 21/6/90.

[253] Palestra para Neocooperadores 28/2/95 — Dr. Plinio assim completava o perfil desse parlamentar:

“S. Ex.a parece absolutamente resolvido a constituir eleitorado em São Paulo e procura, para isto, servir aos seus amigos e eleitores alguns quitutes parlamentares ao sabor de 1789 ou 1918.

“Provoca então, intencionalmente, os grandes incidentes parlamentares, atirando aos seus adversários insultos grosseiros, dominando com sua voz possante e desalinhada os próprios tímpanos com que a Presidência da Constituinte procura manter a ordem.

“Não há, para S. Ex.a, troca de apartes que não sirva de pretexto para tais ‘touradas’, em que procura ferir grosseiramente, ora através do Sr. Cardoso de Mello, ora através do Sr. Morais de Andrade, os deputados da Chapa Única” (As emendas católicas, Legionário n° 135, 24/12/33).

[254] SD 5/8/94.

[255] SD 22/6/73.

[256] Jantar EANS 23/11/90.

[257] SD 5/8/94.

[258] Palestra para Neocooperadores 28/2/95.

[259] Jantar EANS 23/11/90.

[260] Palestra para Neocooperadores 28/2/95.

[261] SD 14/1/89.

[262] SD 5/8/94.

[263] SD 14/1/89.

[264] Jantar EANS 23/11/90.

[265] — D. Geraldo de Proença Sigaud (1909-1999) pertencia à Congregação do Verbo Divino. Quando ainda simples padre conheceu Dr. Plinio e apoiou abertamente seu apostolado. Nomeado depois Bispo de Jacarezinho (PR), foi coautor do famoso livro concebido por Dr. Plinio, Reforma Agrária—Questão de Consciência (1960). Em seguida a essa publicação foi nomeado Arcebispo de Diamantina (MG). A colaboração com Dr. Plinio e a TFP continuou até que o governo militar, instalado no Brasil a partir de 1964, publicou um truculento projeto de Reforma Agrária para o País. D. Sigaud tomou posição favorável a esse projeto, enquanto Dr. Plinio e a TFP se mantiveram fiéis aos princípios expostos em Reforma Agrária—Questão de Consciência.

Quanto a D. Antonio de Castro Mayer (1904-1991), sua colaboração com Dr. Plinio, datada também do tempo em que era simples sacerdote, foi ainda mais estreita. Nomeado Bispo de Campos (RJ), não só foi coautor da obra citada, mas em numerosas ocasiões saiu em defesa de Dr. Plinio e da TFP face aos ataques de próceres progressistas. Quando já Bispo emérito, discrepâncias diversas o levaram a afastar-se da TFP. Participou das sagrações episcopais em Ecône (1988), juntamente com Monsenhor Marcel Lefebvre.

Até o fim de sua vida, Dr. Plinio manteve uma recordação saudosa e agradecida do tempo em que Dom Sigaud e Dom Mayer apoiaram sua obra.

[266] SD 5/8/94.

[267] SD 14/1/89.

[268] SD 3/9/88.

[269] SD 14/1/89.

[270] SD 3/9/88.

[271] SD 22/6/73.

[272] SD 14/1/89.

[273] SD 22/6/73.

[274] SD 10/9/88.

[275] SD 14/1/89.

[276] SD 10/9/88.

[277] SD 14/1/89.

[278] SD 10/9/88.

[279] SD 22/6/73.

[280] SD 10/9/88.

[281] SD 22/6/73.

[282] SD 10/9/88.

[283] SD 14/1/89.

[284] CSN 7/8/93.

[285] SD 22/6/73.

[286] Entrevista à Rádio São Miguel de Uruguaiana, 21/6/90.

[287] SD 22/6/73.

[288] Entrevista à Rádio São Miguel de Uruguaiana, 21/6/90

[289] SD 22/6/73.

[290] SD 23/6/73.

[291] — O encerramento oficial deu-se no dia 16 de julho de 1934, no qual foi promulgada a Constituição.

No dia seguinte houve ainda uma sessão em que ocorreu a eleição indireta para a Presidência da República. Venceu Getúlio Vargas (com 173 votos), derrotando Borges de Medeiros (com 59 votos). Este, desde 1931, fazia oposição a Getúlio.

A bancada paulista votou em Borges de Medeiros, contrariando a orientação do interventor federal Armando Sales de Oliveira.

[292] SD 28/1/89.

[293] SD 10/9/88.

[294] SD 28/1/89.

[295] SD 10/9/88.

[296] Entrevista à Professora Nádia Silveira, 13/6/90 — Dr. Plinio tomou o trem noturno no Rio na noite do dia 17/7/34, chegando a São Paulo dia 18 de manhã. Isto está registrado no jornal Diário da Noite (edição de 18/7/34), ao qual ele concedeu entrevista na tarde do dia em que chegou.

Na entrevista, ele critica o continuísmo de Vargas, considerando que "tinha o Sr. Getúlio Vargas o dever de tirar do cartaz político a sua candidatura" para o apaziguamento do Brasil. Esse continuísmo, afirmou, havia desagradado profundamente a oposição.

[297] Carta a Dom Duarte, 9/7/34.nn

[298] Carta a D. Duarte Duarte, datada provavelmente da primeira metadede julho de 1934.

[299] Carta de Dr. Plinio a Dom Gastão Liberal Pinto, de 1°/8/34.

[300] SD 28/1/89.

[301] SD 11/10/80.

[302] SD 11/2/89.

[303] Palestra sobre Memórias (III) 8/8/54.

[304] SD 11/10/80.

[305] Palestra sobre Memórias (III) 8/8/54.

[306] SD 11/10/80.

[307] Reunião com os mais antigos do movimento 8/6/86.

[308] SD 17/9/88.

[309] SD 11/10/80.

[310] SD 17/9/88.

[311] SD 11/10/80.

[312] SD 11/2/89.

[313] SD 11/10/80.

[314] SD 17/9/88.

[315] SD 11/2/89.

[316] Carta de Dr. Plinio a D. Epaminondas, Bispo de Taubaté, data desconhecida, certamente da segunda metade de 1934.

[317] Carta de Dr. Plinio ao Vigário Geral de Rio Preto, 6/10/34.

[318] SD 17/9/88.

[319] SD 11/2/89.

[320] SD 17/9/88.

[321] SD 11/2/89.

[322] Palestra sobre Memórias (III) 8/8/54.

[323] SD 17/9/88.

[324] Palestra sobre Memórias (III) 8/8/54.

[325] SD 17/9/88.

[326] Palestra sobre Memórias (III) 8/8/54.

[327] — Dom Paulo de Tarso Campos (1895-1970) foi nomeado em 1932 pároco da Igreja de Santa Cecília em São Paulo; em 1935 Bispo da Diocese de Santos e, por fim, em 1941, Arcebispo de Campinas.

[328] SD 11/2/89.

[329] SD 17/9/88.

[330] SD 11/2/89.

[331] SD 17/9/88.

[332] SD 11/2/89.

[333] SD 11/10/80.

[334] SD 17/9/88.

[335] Palestra sobre Memórias (III) 8/8/54.

[336] — Major José Levy Sobrinho (1884-1957): natural de Limeira-SP, foi comerciante, industrial, político brasileiro, coronel da Guarda Nacional e presidente do diretório do Partido Republicano Paulista. Foi também pioneiro na implantação da citricultura e da sericultura paulista.

[337] SD 23/6/73.

[338] Palestra sobre Memórias (III) 8/8/54.

[339] SD 18/2/89.

[340] SD 23/6/73.