Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

A Nota da Semana
 
A Atitude dos Católicos

 

 

 

 

 

 

O Século, 7 de agosto de 1932

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São Paulo está em luta. E, como toda a luta, a nossa tem seu êxito dependente, em grande parte, do ambiente moral em que os paulistas travam seus combates. De nada valerá a eficiência de nossa estupenda mobilização militar, civil e industrial. Será inútil a conjugação de todos os esforços dos defensores da lei. Fracassarão completamente os planos de nossos generais, se São Paulo não souber conservar a todo o custo o ambiente de energia viril, em que decorreram os primeiros dias da revolução.

É necessário, portanto, que os paulistas lutem energicamente contra um novo ardil dos partidários da ditadura, destinada a provocar em São Paulo a depressão moral, precursora certa de nossa derrota. Trata-se do boato otimista.

O boato pessimista tem uma ação essencialmente passageira. Seus malefícios apenas atuam enquanto os fatos não dão aos boatos um formal desmentido. Uma vez verificado tal desmentido, cessa o mal produzido pelo boato. E, no fim de certo tempo, a população acaba por se vacinar e imunizar contra os augúrios venenosos de uma derrota que, proclamada sempre iminente, nunca se aproxima realmente.

O boato otimista, pelo contrário, tem uma ação nociva remota e sutil, mas de caráter definitivo. Enquanto ele circula, estimula os sentimentos, mas ao mesmo tempo paralisa as atividades. Na perspectiva da vitória próxima, todas as abnegações desaparecem. Já se prelibam as delícias da vitória, da paz e da tranqüilidade. Só se pensa na volta dos que, no front, coroam de louros o nome de São Paulo. Distendem-se as energias. Desarticulam-se inevitavelmente as organizações civis e militares. Mas, uma vez verificada a falsidade do boato, há todo um trabalho de readaptação à realidade, a refazer. Todos os sacrifícios feitos, a resignação à separação entre pais e filhos, esposo e esposa, às privações, às apreensões de todos os momentos, se repete no íntimo de cada um, deixando em todos um sentimento de fadiga e de sonho, que dificilmente se vence. E a vitória que se antevira próxima, mais do que nunca parece distante, quase inatingível.

É necessária uma reação contra estas alternativas de otimismo e pessimismo. A situação de nossas forças em operações de guerra não autoriza outra coisa, senão um objetivismo sadio, que nos conduza ao exato conhecimento da realidade. Ora, esta realidade é que São Paulo só terá a vitória nas suas mãos, se não esmorecer no trabalho titânico que empreende em favor da Constituinte. E este trabalho só poderá prosseguir no seu ritmo atual, enquanto os paulistas souberem conservar um ambiente moral propício à luta.

Para tal é necessário que desprezemos quaisquer boatos.

Por enquanto, absolutamente nada nos autoriza a aceitar qualquer hipótese pessimista. Suponhamos, porém, que os revezes inesperados, sempre possíveis na luta, venham a colocar São Paulo em situação desfavorável. Será aí, mais do que nunca, que a têmpera de aço dos netos dos bandeirantes se deverá pôr à prova. O entusiasmo só é realmente grande quando se defronta com o perigo, e não se abate pela adversidade. Será então, mais do que nunca, que deveremos depositar na Providência Divina, e no indomável valor de São Paulo, as mais seguras esperanças. E, no meio das maiores adversidades, nos transes das mais inesperadas calamidades, deveremos sorrir indiferentes, como quem, seguro de seu valor, e confiante em Deus, não esmorece e nem se enfraquece pelo sofrimento.

Suponhamos, pelo contrário, que acontecimentos sobrevenham, de modo a aproximar muito de nós a vitória que todos almejamos. Deveremos, por isto, entregar-nos aos delírios de uma alegria descomunal? Não. É certo que a cessação de uma luta entre irmãos é sempre auspiciosíssima. É indiscutível que o triunfo de uma causa justa, e a derrota de uma camarilha iníqua, são sempre fatos que despertam o máximo regozijo. Mas nossa história já registra muitas vitórias. Tenhamos a certeza de que, assim como esta não será a primeira, também não será a última vitória de São Paulo. Recebamo-la como quem está habituado a vencer. Porque é na força do sofrimento e da vitória que se formou a história de Piratininga, e é retemperada neste mesmo ambiente de luta que a transmitiremos às gerações vindouras

Nota: Os destaques em negrito são deste site.


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