Como amar a Deus apaixonadamente? “Eis o Coração que tanto amou os homens”: o Sagrado Coração de Jesus

Sábado, 5 de março de 1994 – Santo do Dia 

 

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

 

Meu filho, o seu pedido é um pedido muito alto, é um pedido muito bom, mas é um pedido muito longo. O senhor pediu muita coisa, e eu infelizmente disponho de pouco tempo para dar tanta coisa quanto o senhor pediu.
Em outras reuniões, o senhor parcelando o seu pedido, eu espero ter atendido tudo. Mas no dia de hoje, nas condições em que eu falo, depois de ter feito uma longuíssima reunião aqui, mais uma longa reunião para os meus queridos “transenjolras” vai colidir com uma reunião para veteranos que eu tenho para fazer ainda hoje. De maneira que não estranhem que eu me refira ao assunto com um cuidado de conter muita coisa, mas deixando ainda margem para muita outra coisa que oportunamente será tratado.
* O homem é criado de tal maneira que, mesmo quando muito preguiçoso, tende a ser apaixonado no seu amor à inércia
Está no espírito do homem que ele, mesmo quando seja muito indolente, muito preguiçoso, muito sem paixão, ele seja apaixonado.
Por exemplo, um homem que seja muito preguiçoso, que quando se levanta de manhã, portanto, levanta sem vontade, vai trabalhar com mais horror ainda, que volta para almoçar e quereria passar o dia em casa depois dormindo. Um homem mole e, portanto, na aparência sem paixão, a gente diria que esse homem não é capaz de um amor apaixonado.
Mas quando a gente examina a fundo a situação, ele tem um amor apaixonado à inércia, ele tem um amor apaixonado à preguiça, e quando alguém o procura fazer trabalhar e sair da preguiça, ele pode ficar uma fera. É uma coisa certa isso.
De onde a gente vê que até o homem na aparência não apaixonado, tem a sua mente feita de tal maneira pelo Criador, que ele de fato tem paixões.
Essa é uma paixão péssima, a paixão da preguiça, mas é assim que é a coisa.
Eu me lembro que tive, no meu tempo de infância, um companheiro que era muito preguiçoso. Mas quando a gente tocava em algum ponto que tocava nele, ele se apaixonava. E, apaixonando naquela matéria, ele revelava uma capacidade de ação, uma capacidade de reação, da qual se diria que ele não era capaz de absolutamente nada.
* A paixão pode fazer com que um homem mole como uma arara, seja capaz de voar como uma águia
Assim, nós sabermos o que é a paixão, é algo que existe no mais fundo da psicologia humana, e algo de unitário, algo que o homem ama mais do que todo o resto, porque todas as suas apetências se dirigem para aquilo. E o homem ama aquilo apaixonadamente quando ele tem clareza de noção que aquilo de que ele gosta, e sobretudo quando ele sente, que aquilo está ameaçado. Aí a paixão pode pegar fogo e pode fazer de um homem mole como uma arara, um homem capaz de voar como uma águia.
* A alma humana se entusiasma quando encontra outra que lhe seja semelhante
Como é que nós podemos fazer com que nós amemos a Deus apaixonadamente? Como é que nossas almas se voltam para Deus de maneira a amarem-No apaixonadamente? Isto como é que é?
É da seguinte maneira:
O homem tem, pelo princípio da semelhança, ele tem o desejo de conhecer e entrar em contato com pessoas que tenham uma alma semelhante com a dele. E quanto mais a alma é semelhante, tanto mais ele gosta daquele; e se essa semelhança é uma semelhança notável, aquilo pode dar num verdadeiro entusiasmo. Pode dar numa amizade modelar quando é uma semelhança tão notável, que algum encontra no outro uma espécie de semelhança, de identidade com o ideal que ele mesmo tem. Eles se encontram, então se gostam.
* O Sagrado Coração de Jesus, nosso Divino Modelo, é feito para que todos se apaixonem por Ele
Acontece que a pessoa que conhece o Sagrado Coração de Jesus, que tem a noção do que a Igreja Católica ensina sobre o Sagrado Coração de Jesus, que conhece boas imagens do Coração de Jesus, por onde a pessoa tem uma idéia de como o Coração de Jesus possa ter sido – e existe uma imagem dessas que eu daqui a pouquinho vou mencionar aos senhores –, conhecendo ao Sagrado Coração de Jesus… Ele é feito para que todos se apaixonem por Ele. Porque como Ele tem todas as perfeições, todos os homens que O conheçam podem encontrar n’Ele o seu modelo divino e podem encontrar n’Ele a perfeição que elas gostariam de ter, que elas gostariam de manter em relações, como uma pessoa com quem elas tivessem relações cotidianas.
* Em Dona Lucília, um amor apaixonado ao Sagrado Coração de Jesus
Então a pessoa que chegasse a ter a felicidade de conhecer a Nosso Senhor Jesus Cristo, e Nosso Senhor Jesus Cristo no trato com ela fizesse essa pessoa notar quanto Ele é o arquétipo dela, quanto Ele é a plenitude dela, como o indivíduo sem conhecer o Sagrado Coração de Jesus não é nada, é uma poeira, e conhecendo a Ele, é tudo, ele naturalmente se volta para o Coração de Jesus com amor apaixonado.
Foi o que eu conheci em Da. Lucília. [Aplausos]
* Nosso Senhor a Santa Margarida Alacoque: “Eis o Coração que tanto amou os homens e por eles foi tão pouco amado”
Por curiosidade, eu pergunto: quantos dos senhores já estiveram na Igreja do Coração de Jesus, aqui em São Paulo? É quase a totalidade ou é a totalidade.
Está muito bem.
Se os senhores quiserem ter uma idéia de como Ele foi, podem, por exemplo, olhar para o teto. Não sei se chegaram a olhar para o teto da igreja.
Tem uma cena de Nosso Senhor dentro de uma capelinha aparecendo de dentro de umas nuvens, e dirigindo-se de dentro dessas nuvens, as quais pousam sobre o altar, dirigindo-se de lá a olhar de pé para uma freira ajoelhado aos pés d’Ele.
Essa freira é Santa Margarida Alacoque, uma camponesa francesa que se fez freira e que, em conseqüência, tinha uma cultura e uma inteligência maiores do que uma camponesa comum.
[Nosso Senhor está] aparecendo para ela e mostrando no peito d’Ele, aberto, o Coração d’Ele. E dizendo, mas com um gesto muito bonito, um gesto de um Rei que mostra a condecoração: “Minha filha, eis aí o Coração que tanto amou os homens e por eles foi tão pouco amado.”
É a censura que Ele faz, porque Ele amou os homens com amor infinito, e os homens amam tão pouco em comparação com esse amor infinito.
* Pelo princípio da semelhança, cada homem pode se compreender a si mesmo, contemplando o Sagrado Coração de Jesus, que nos ama com um transbordamento de afeto
Mas ao olhar a freira, a gente vê que Ele olha o gênero humano, que Ele tem pena da freira como tem pena de todos os homens, e que cada uma pessoa que olhasse para Ele, viria na alma d’Ele, no espírito d’Ele, uma compreensão perfeita de como Ele é, quer dizer, como cada homem é. E uma semelhança com Ele de maneira tal, que esse homem fosse querido por Ele de maneira tal a esgotar todo o desejo de ser amado e de ser querido que num homem possa haver.
Naturalmente isso não é assim com a amizade terrena. Na amizade terrena há apenas uma magra analogia com isso. Mas na amizade entre Deus e os homens isto é assim, e Deus olha para os homens com esse transbordamento de afeto, e os homens sentem que Deus tem para com eles todo o afeto que eles queriam receber da parte de todas as pessoas que os conhecem, e viverem inundados desse afeto.
Assim é que eu via que Da. Lucília amava o Sagrado Coração de Jesus.
Muitas vezes eu ia assistir a Missa lá, e ia com ela. Ajoelhava-me ao lado dela, é natural. A pintura ficava direto em cima, e eu percebia que ela rezava para Ele sem estar olhando para cima, que fica uma coisa que não tem muito propósito, mas tendo em mente aquele quadro e tendo em mente a realidade que aquele quadro representa.
Quer dizer, a serenidade, a elevação, a tranqüilidade, a santidade superior a qualquer louvor, mas também a compaixão, a paciência, o desejo de favorecer, o desejo de afagar a cada criatura humana que havia n’Ele, e que faziam-No por assim dizer absorver cada criatura humana.
* Nosso Senhor se compara à galinha protegendo seus pintainhos: lindíssima expressão do amor que Ele tem aos homens
Nós vemos uma expressão disso no Evangelho, uma expressão que eu considero lindíssima.
Quando Nosso Senhor, a caminho do Horto das Oliveiras, onde Ele ia começar a sua Paixão que O conduziria até à Morte, passou por Jerusalém, os discípulos e Apóstolos que estavam com Ele passaram junto com Ele. No caminho havia um ponto por onde se via muito bem a cidade de Jerusalém um pouco distante, e o Templo de Jerusalém. Os discípulos pararam e começaram a comentar entre si como era bonito o Templo, e Nosso Senhor se pôs a chorar. Eles perguntaram por que, e aí vem a expressão tocante.
Ele disse: “Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos debaixo das minhas asas como a galinha faz com seus pintainhos, mas tu não o quisestes. Agora vai cair sobre ti a desgraça, vai cair sobre ti o castigo, e eu choro por causa de tudo que vai te acontecer.”
Essa comparação d’Ele para com cada um de nós, em que Ele nos ama como uma galinha ama os seus pintainhos e nos quer receber debaixo de suas asas, isso é uma coisa tocante.
Não há amizade humana que se exprima nesses termos, porque o homem sabe que nós não acreditaríamos nessa amizade. É grande demais para o coração do homem, mas não é grande demais para o Coração de Jesus.
Então, o mais vil dos homens, o mais pecador dos homens, o mais inferior dos homens, sabendo que ele é amado assim por Nosso Senhor, fica agradecidíssimo, fica com vontade de estar junto com Ele o tempo inteiro para se regenerar, e para ficar como Jesus e amar Jesus com um reflexo do amor com que Jesus ama a ele.
Aí se dá aquela junção de almas que é propriamente ideal. E é essa junção de almas que faz com que os homens possam sentir tranqüilidade e possam sentir esperança.
* O apaixonado amor que Da. Lucília tinha ao Sagrado Coração de Jesus, fazia da alma dela um reflexo de Nosso Senhor
Eu via que Da. Lucília tinha isso em alto grau, que ela pela revelação conhecia perfeitamente como era o amor de Nosso Senhor a ela e que ela o retribuía com um amor parecido com o amor d’Ele. De maneira tal que ela tinha uma confiança sem limite n’Ele, uma confiança sem limite na misericórdia d’Ele, e que ela pedia perdão a Ele por si mesma, porque toda a criatura humana tem defeitos, mas também perdão por aqueles a quem ela amava, e até por aqueles que não amavam a ela, mas a quem ela queria fazer bem.
Isto tudo fazia da alma dela uma espécie de reflexo de Nosso Senhor de uma beleza incomparável, e que fazia com que se amasse a Nosso Senhor apaixonadamente. Quer dizer, acima de tudo, sem comparação com nada, mas de um modo a absorver inteiramente a nossa capacidade de adorar.
Isto se dava nela de tal maneira, que olhando para ela e percebendo como ela adorava Ele, a gente compreendia como é que Ele era digno de toda a adoração e passava a participar da adoração dela para com Ele.
Não sei se está muito complicado ou se está inteligível.
Daí vinha também o fato de que ela O amava mais do que tudo no mundo, e que ela O colocava acima de qualquer coisa que ela pudesse querer bem.
Eu acho que já contei aos senhores que ela tinha um irmão que em certo momento da vida política dele – ele era político – ocupou o cargo de Secretário de Estado aqui em São Paulo. É o primeiro cargo depois do Governador do Estado.
Quando ele era Secretário de Estado, arrebentou uma revolução aqui no Brasil e o governo começou a convocar os jovens para se inscreverem para lutar contra os revolucionários.
Nesse período ele foi à casa da mãe dela, onde nós morávamos, para o efeito comum de ver a mãe, ver a irmã, visita de família. Terminou a visita, ele sai, e minha mãe e eu fomos acompanhá-lo até à porta da casa.
Quando chegou junto à porta da casa… ela era mais bem baixa, ele era um homem de boa altura. Ele serviu-se disso, que ela não estava percebendo o que ele ia fazer, e me fez uma piscada assim como quem diz: “Eu vou me divertir gracejando um pouco com ela, e vamos ver o que é que ela vai fazer.”
Disse a ela:
– Lucília, você agora precisa preparar-se para um grande sacrifício, porque o governo está convocando todos os jovens para irem para a luta, para a manutenção do governo contra os revolucionários e, portanto, o Plinio terá que ir também. Você vai ter muito sofrimento com isso, mas não tem remédio.
No que ele dizia havia uma espécie de provocação jocosa, de brincadeira, porque ela tinha um filho só e ele tinha uns cinco ou seis filhos. Ele não falava em mandar os filhos dele, mas falava em mandar os filhos dela.
Era para agastá-la, não é? Depois, ele era membro do governo e os filhos do membro do governo têm mais obrigação do que um simples sobrinho.
Ele disse:
– Ele vai ter que partir e você se prepare para fazer o sacrifício de seu filho.
Ela estava falando numa atitude comum e não percebeu que ele estivesse gracejando. Ela levantou a cabeça e disse (ele chamava Gabriel):
– Gabriel, isto nunca. Sacrificar meu filho por essas revoluções de políticos em que não há nenhum interesse para ninguém, só para vocês políticos, isto eu não faço!
Eu quieto, porque eu estava vendo que ele estava brincando com ela e que ele depois ia desfazer a brincadeira.
– Você esteja certo de que não fará.
Ficou assim toda entesada e quase alta até.
– Olhe aqui, eu estou brincando com você, isso eu estou falando só para amolar você. Mas agora me responda você o seguinte: se o Papa convocasse o Plinio para ir para uma cruzada, você mandava o Plinio?
– Aí é tudo diferente, o primeiro a partir tinha que ser ele!
Ele disse meio entredentes assim, para ela não ouvir, o comentário para mim – ele não era católico praticante:
– Veja a força da religião. O que a política não consegue de uma mãe de nenhum modo, a religião querendo, vai.
Aí ele agradou um pouquinho a ela, todos demos risada e ele foi embora.
* Se era para o Sagrado Coração de Jesus e para Nossa Senhora, Da. Lucília sacrificaria até o filho muito querido
Mas o espírito dela se mostrou bem claramente. Se era para o Sagrado Coração de Jesus, para Nossa Senhora, para a Santa Igreja Católica, Esposa Mística de Nosso Senhor Jesus Cristo, tudo. Inclusive a um filho a quem ela queria muito bem, vá para a luta.
Isto é amar apaixonadamente.
Está respondida uma parte de sua pergunta, agora eu tenho que ir andando. De maneira que, senhores, meus filhos, Salve Maria.
Então rezarem todos os dias, logo depois da comunhão, no singular, não no plural: “Sagrado Coração de Jesus e Maria, fazei-me amar-Vos apaixonadamente.”
Por que Sagrado Coração de duas pessoas? Deveria ser dois corações.
Mas é que tal era a união de Nossa Senhora com o Divino Filho d’Ela, que a Igreja diz o “Sagrado Coração de Jesus e Maria”.

*  *  *

Notas:

Quanto a este assunto de tanta importância, sugerimos que se consulte a coletânea de documentos a tal propósito e que se encontram aqui.
Especificamente sobre o amor apaixonado a Deus Nosso Senhor, consultem-se as fulgurantes palavras do Fundador dos Sacramentinos, São Pedro Julião Eymard “Quem se limita ao que é absolutamente de seu dever não ama. Só se ama quando se sente interiormente a paixão do amor“, bem como os comentários de Dr. Plinio, basta clicar aqui.

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