Continuamente não tenho feito outra coisa senão dizer: amai a Santa Igreja Católica Apostólica Romana!

Reunião Extra, Eremo de Jasna Gora, 6 de junho de 1978

 

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

 

Meus caros, eu não poderia ouvir palavras mais bonitas, nem ditas de modo mais emocionante. O que vou lhes dizer? Foi tocada uma fibra que é uma fibra sumamente emotiva dentro de minha alma, foi falada em termos de tanta fidelidade daquela de quem eu sou filho.
Pois bem, devo confessar aos senhores que vejo isto com serenidade, não com indiferença, dando apreço a cada uma das palavras que ouvia. E creio que dando todo o apreço merecido, o que equivale a dizer um grande e até muito grande apreço. Mas, não senti em nenhum momento aquela vibração, aquela crispação de todo o meu ser, que indica a emoção profunda daquilo que tomou o ser nos seus últimos fundamentos e que realmente o tocou.
Entretanto, inesperadamente para mim, e a despeito de minha placidez habitual, essa emoção veio, veio inteira, a tal ponto que tive que me conter, quando ouvi referência ao “varão católico apostólico romano”…
[Aqui embarga-se a voz de Dr. Plinio]
… Porque é o que quero ser… é filho da Igreja. E se eu amo tanto a mamãe é porque ela me conduziu à Igreja. E se amei a ela até o fim, foi porque até o fim a examinei e até o fim notei que tudo conduzia à Igreja Católica….
[a voz embarga novamente]
Mas, meu amor…
[silêncio de meio minuto – Dr. Plinio está emocionado e não consegue falar]…
… é à Igreja.
E eu quereria dos senhores exatamente que – nesta festa, que é exatamente de comunicação de almas, uma festa que os senhores agradecem a Nossa Senhora o dom…
[embarga a voz novamente]
que eu amo desmedidamente e que é de pertencer à Igreja, recompensa demasiadamente grande que me foi dada antes de eu merecer – que os srs. quisessem a Igreja Católica como eu A quero…
[Dr. Plínio tem novamente a voz embargada.
Os tempos vão indo, a idade vai crescendo, a Bagarre vai chegando… meus caros, há vários daqui que eu conheço há trinta anos, que eu conheço há mais de trinta anos. Calculo mal os tempos e as distâncias, eu conheço talvez há 40 anos, a eles todos continuamente não tenho feito outra coisa senão dizer: “Amai a Santa Igreja Católica Apostólica Romana…
[Embarga a voz]
… aquela Igreja…
[Embarga a voz]
… a quem amo tanto, que fico até incapaz de falar sobre Ela. Simplesmente ao lhe pronunciar o nome, eu já sou incapaz de dizer depois o mundo de elogios e de amor que em minha alma existe.”
[Palavras sempre entrecortadas de emoção.]
Eu vos peço até que mudemos de assunto.
Meu pedido aqui fica a Nossa Senhora, apresentado a Nossa Senhora por meio de mamãe. Isto que os senhores viram neste momento de atitude de minha alma em relação à Igreja, não é atitude deste momento. Este é um momento de emoção. Mas esta é a atitude de minha alma em todos os dias, em todos os minutos, em todos os instantes: é procurar com os olhos a Igreja Católica e estar imbuído do espírito dEla, tê-la dentro de minha alma, ter-me inteiro dentro dEla. E se Ela for abandonada por todos os homens, na medida em que isto seja possível, sem que Ela deixe de existir, tê-la inteira dentro de mim. Mas viver só para Ela, de tal maneira que eu possa dizer, ao morrer: “Realmente, eu fui um varão católico e todo apostólico, romano! Romano e romano! Apesar de todas as misérias, de todas as tristezas que a palavra romano possa juntar.”
Se os senhores querem conhecer-me, querem me seguir, procurem ver de que maneira é que existe na minha alma isso, o espírito da Igreja. Eu ouço elogios – esses elogios são, às vezes, entusiasmados –, ouço perguntas a meu respeito, pedidos de descrição a meu respeito, vejo também que em nosso pobre teleférico às vezes se dorme. Também isto eu vejo.
* A graça batismal e a vocação da alma católica
Vejo também esquecimento, vejo também ingratidões, vejo toda espécie de coisas. Tudo isso eu vejo. Mas a mim, uma só coisa é o desejo fundamental, só uma coisa quereria dos senhores: que os senhores em mim procurassem ver o que tenho de católico; o que é a Santa Igreja em mim; esse batismo que recebi há tantas décadas, que marca deixou em mim; como foi desenvolvido ao longo da vida; por onde é que pertenço à Igreja; por onde reflito a Santa Igreja Católica Apostólica Romana; por é que eu a amo ao ponto que os senhores acabaram de ver.
Os senhores me viram nos momentos de maior aflição, os senhores me viram nos momentos que poderiam também ser chamados de triunfo. Os senhores me viram num mundo de momentos da vida quotidiana. Os senhores nunca me viram tão emocionado, nem de longe, – no dia da morte de mamãe não me viram tão emocionado, – como neste momento em que se celebra o meu batismo.
Porque as palavras que aqui foram ditas, porque o quadro dela aqui presente, mas sobretudo porque nossa comum pertencença à Igreja junto ao manto de Nossa Senhora de Fátima, isto me falou à alma de maneira tal que mais ou menos como um gêiser que, de repente explode, saiu esse amor da Igreja em mim.
Estes são todos os instantes de minha vida. E eu posso dizer que, com a graça de Nossa Senhora, não há um só instante de minha vida – mas instante, heim! eu entendo por instante fragmento de minuto – em que nem sequer dormindo meu amor à Igreja Católica é menor do que neste momento em que os senhores acabam de ver.
Agora, como poderia este amor ser como é, sem que eu visse a Igreja de um determinado modo? Aquilo que se ama, ama-se porque se viu; ama-se, porque se compreendeu. Ama-se, enfim, porque se aderiu de toda a alma. Mas de um modo tal que a palavra aderir é fraca; se entranhou, que penetrou, se deixou penetrar, se estabeleceu um conúbio de alma, tanto quanto a fraqueza humana permite, indissolúvel e completo para a vida e para a morte, para o tempo e para a eternidade. É isso que é a nossa pertencença à Igreja Católica.
E se pode dizer de algum modo, dessa pertencença, o que São Paulo falou a respeito de Nosso Senhor Jesus Cristo, ele disse: “Já não sou eu que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim!”
Em nós, nós somos chamados a que isso se realize desta maneira: “Já não sou eu que vivo, mas a Igreja Católica Apostólica Romana [que vive em mim].” E eu senti como um arranhão que faltava uma palavra: É a Santa Igreja Católica Apostólica Romana que vive em mim, como vive em cada um daqueles que quer se abrir para ela inteiramente. Este é o modo de Nossa Senhora viver em mim!
Nossa Senhora é a Mãe da Igreja Católica e se eu quiser que Nossa Senhora viva em mim, é fazer o espírito da Igreja viver em mim, e Nossa Senhora viverá em mim. Ela é o templo do Espírito Santo. Se eu quiser que Nosso Senhor Jesus Cristo viva em mim, é fazer com que o espírito da Igreja Católica Apostólica Romana viva em mim. E quando digo que já não sou eu que vivo, mas é a Igreja Católica que vive em mim, eu digo implicitamente que são Nossa Senhora e Nosso Senhor Jesus Cristo que vivem em mim.
Há um certo modo de ver as coisas; há um certo modo de fazer luzir, de fazer entender as coisas; Há um certo modo de ser que é o modo de ser católico, e por onde a Igreja se expande a nós, a Igreja se comunica a nós. Procurem, na medida do possível, ver isso em mim.
Os senhores me dirão: “Mas, Dr. Plinio é tão apagado, é tão pequeno…” Eu devo dizer que seria uma humildosa contrária ao espírito da Igreja eu dizer que é. Mas há uma qualquer coisa que rutila aos olhos dos senhores que não se explicaria sem isso.
Mas esta qualquer coisa eu quereria que os srs. identificassem inteiramente com a Igreja; os srs. compreendessem que não é o valor de um homem senão na medida em que o sol da Igreja incidiu nele, e fez brilhar alguma coisa dentro dele. Mas que o brilho, que a virtude, que tudo aquilo que nele os senhores possam querer admirar, tudo isto vem da Igreja Católica Apostólica Romana.
De maneira que, no momento em que isto tivesse deslizado, no momento em que declinasse essa união – simplesmente declinasse um pouco –, os senhores teriam estranheza e diriam: “Algo está mudado e algo está mudado naquilo que não deveria mudar. Eu não entendo mais nada!”
É assim que nós deveríamos tomar o assunto. E já que os senhores me têm pedido tantas vezes que eu falasse de mim mesmo, um modo de falar é dizer: “Pensem na Igreja e procurem nessa pessoa, que os senhores querem querer, querem admirar, procurem nessa pessoa os reflexos, as analogias com a Santa Igreja Católica Apostólica Romana”.
Eu insinuei um pouco isso no Êremo do Amparo de Nossa Senhora, quando foram passados slides da campanha em Paris, e quando vi que todos os senhores se emocionaram tanto aqui em Jasna Gora, e lá também, vendo nossos estandartes tendo como fundo a fachada da catedral de Notre-Dame.
Os senhores perceberam que havia uma correlação entre os estandartes e a fachada, de tal maneira que o estandarte era uma nova luz que saía da fachada e brilhava com vida. Isso os empolgou!
Cada um de nós deve ter um fundo de alma que é como a fachada de Notre-Dame: grande, lógica, forte, séria, materna, misericordiosa, estável como é a fachada de Notre-Dame. Isso deve estar no fundo de cada um de nós, e é Igreja Católica Apostólica Romana que simplesmente a fachada de Notre-Dame simboliza com uma magnífica precisão, com uma fidelidade extraordinária, de embevecer.
Nós, diante da Igreja, somos os estandartes que o vento toca, que chamam os homens, cujo brilho toma todo o seu significado em função daquela fachada de fundo.
Dois mil anos de vida, dois mil anos de história, que começaram no momento em que Nosso Senhor disse: “Pedro, tu és Pedro, e sobre esta pedra, Eu edificarei a minha Igreja, e as porta do Inferno não poderão prevalecer contra Ela”. E daí em diante, para a frente, para a frente, através de mil esplendores, mil glórias, mil magnificências, mil misérias que não fizeram senão lhe realçar a glória. Mil humilhações que não fizeram senão torná-la maior, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana vem vindo, vem vindo, vem vindo!
* “Meu filho, tu pelo menos Me queres?…”
E Ela se apresenta a nós hoje, como Nosso Senhor Jesus Cristo na Sua Paixão, quando Ele chegou gotejando sangue e cambaleando debaixo da Cruz ao alto do Calvário. Era um longo trajeto, era uma longa caminhada em que Ele tinha sofrido tudo, tinha sofrido até o sofrimento-consolação tão pungente – pungente enquanto sofrimento – de encontrar Nossa Senhora, e de perceber e ver a dor dEla, de receber o consolo dEla e de A consolar.
Ele ia cambaleando, Ele estava coberto do desprezo de todos os homens e quando Ele chegou ao alto daquela montanha, com uma multidão ululante, com o coração estraçalhado, com o peito ofegante, com a face divinamente bela cheia de marcas de bofetadas, de arranhões, de escarros e com todo o desprezo do mundo baixando sobre Ele como uma cascata pudesse baixar sobre um sol de glória, passando uma nuvem temporária sobre esse sol – e que nuvem para poder obscurecer um tal sol! –, nesse momento os senhores imaginem que nós tivéssemos ajoelhados e Ele dissesse:
“Meu filho, tu pelo menos Me queres?…”
E um de nós diria:
“Mas Senhor, que pergunta? Para que existo senão para isso? Que crime eu cometi diante de Vós, Senhor, para que Vós sequer formuleis essa pergunta? Não sou por ventura o “sim” constante, o “sim” contínuo, o “sim” ininterrupto de todas as horas do dia e da noite, pronto para receber tudo quanto vós quereis dar? Senhor, eu adoro a vossa humilhação; eu adoro vosso abandono; adoro vosso isolamento; adoro cada uma das chagas que desfiguram a vossa face. Senhor, eu sou inteiramente vosso.”
Ao longo de seu cambaleio de dois mil anos – dois mil anos de glória e de martírio – a Igreja chega a nós, neste momento, neste momento, agora que eu vos falo, no auge do desfiguramento. Quem é que haveria de ver nela a instituição que São Luís amou tanto, pela qual São Fernando lutou tanto, pela qual os cruzados fizeram o que fizeram, a instituição pela qual os mártires morreram etc.? Quem é que haveria de ver nela, desfigurada, o véu ignóbil do progressismo tapando a face dEla aos olhos dos homens?
Pois bem, ela está como Cristo no alto da Cruz. Falta a “Bagarre”, falta a crucifixão! Ela se põe perto de nós nesse horror e nesse esplendor. E é nesse horroroso esplendor, nesse esplendoroso horror que Ela se põe diante de nós, desejosa de que nós A conheçamos, saibamos como é a alma dEla, a amemos como verdadeiramente Ela é. É isso que nós devemos fazer neste momento.
E eu tenho a certeza que, quando Nosso Senhor, do alto da Cruz, viu esta cena e profetizou de Si para Si que neste momento de cambaleio, Ele nos teria a nós falando e ouvindo a respeito da Igreja, e querendo continuar a Igreja custe o que custasse, fazendo com que essa continuação fosse a confirmação da promessa de que as portas do Inferno não prevaleceriam contra Ela, porque fiéis haveria que haveriam de continuar até o fim do mundo – nós, hífen no meio da Revolução, hífen no meio da Bagarre e da vergonha, hífen entre o que resta de medieval, de católico no mundo e o que do Reino de Maria começa a transluzir para além de todas essas dores – então, meus caros, neste momento, a meditação tem de ser exatamente sobre a Igreja Católica.
E já que os senhores quiseram comemorar o meu batismo – eu lhes agradeço por isso, os senhores viram bem pelo que se deu aqui no começo da reunião, eu não poderia agradecer nada mais do que agradeço a comemoração de meu batismo, porque é meu perpétuo Magnificat é ter sido batizado, e daí ter saído o que saiu –, vamos nos sentar e falar um pouquinho a respeito da Igreja Católica.
E nessas condições nós podemos fazer uma meditação um pouco mais detida, uma pouco mais metódica. Me parece que é o que convém verdadeiramente fazer.
Eu lhes falei em se sentarem. Eu sou um que nunca consegui prestar atenção em algo que não fosse sentado, e tranquilamente sentado. Eu não quereria que alguém deixasse de prestar atenção no que vamos comentar aqui e que não sei bem o que é porque vou absolutamente improvisar.
De maneira que quem quiser sentar seja inteiramente livre. Especialmente meu querido Dom Luiz, meu querido Dom Bertrand e os mais velhos que estão aqui…
* * *
Eu vou improvisar inteiramente. Eu não pensei que a coisa tomasse esse rumo, que as palavras ditas aqui convidassem a isso desta maneira. Também não pensei que eu me emocionasse de tal maneira diante dessa referência a mim como “varão católico e apostólico”. Mas, vamos agora retomar as coisas e dar o curso à nossa exposição.
Se os senhores quiserem saber das perplexidades sacrais, admirativas e primeiras que eu tive com a Igreja Católica – mas primeiras que tive e que nunca mais acabaram… ao longo do tempo a doutrina as foi explicando, gradualmente, mas desde os primeiros momentos em que conheci a Igreja e me dei conta da Igreja isso começou a existir em mim.
Notem que eu era uma criança, talvez, de três anos ou quatro anos ou cinco anos, os senhores conhecem minha má memória e sabem bem até que ponto essas datas se diluem na minha lembrança.
Eu diria que uma criança nessas condições não estava absolutamente em condições de saber qual era o verdadeiro ensinamento da Igreja a respeito do Corpo Místico de Cristo. Não tinha a menor ideia. Eu só vim a saber a respeito do Corpo Místico de Cristo, creio eu – mas com possibilidades de engano – mais ou menos por volta dos meus trinta anos.
A expressão começou a me chamar a atenção, comecei a aprofundar a coisa, mais ou menos pelos trinta anos. Os senhores compreendem, portanto, como eu estava longe disso quando essas primeiras impressões me vinham.
A impressão se punha para mim, assim: eu olhava qualquer coisa da Igreja – vamos dizer, por exemplo, não sei, eu me vejo a mim pequenino, saindo fortuitamente da sacristia – quer dizer, por acaso – da sacristia do Coração de Jesus e entrando na nave da Igreja e olhando por exemplo um vidro, que não é vitral, e que é até um vidro desses transparentes, ordinários, que existem nos dois lados da capela-mor da capela do Coração de Jesus. São algumas cores: vermelho, verde, amarelo… o que há de ordinário, que não coincide com a boa qualidade do resto do material com que é construída a igreja.
Olhando para aquilo e, tendo tanto quanto uma criança podia ter a seguinte impressão: “Como eu vou bem com aquilo. Como aquilo diz alguma coisa na minha alma que eu sinto, mas sinto até o fundo, sob a forma de uma harmonia. Quer dizer que aquilo é harmônico, são várias cores harmônicas entre si e eu sou harmônico com aquela harmonia.
Há uma coisa no fundo de mim que canta, que musica, que se distende, que se alegra em confronto daquilo, como eu não sei explicar como. No contacto com ninguém, nem mesmo com mamãe – e era dizer tudo – eu sinto o que eu sinto aqui”.
Daqui a pouco olhava, vamos dizer, para uma imagem que tem lá de S. Pedro, imitação da imagem do Pescador em Roma, com aquela chave, aquele pé de bronze na frente, tudo pequenininho. Olhava para aquilo [e pensava]: “Mas, como ele é severo! Como ele é sério! Essa barba dele posta num caracol tão ordenado, que parece uma imagem das idéias dele, como vão, como vão e como vão! Olhe o “olharzão” dele e como ele segura esta chave aí. É para segurar para valer! Esta é uma chavona, que abrir, abre mesmo, e a fechar, fecha mesmo! Olhem como ele a segura, um pouco estendendo-a para os outros, um pouco dizendo: “Para vocês é um pouco, para mim é o tudo!”
E olhem este pé aqui discretamente posto, de maneira que a gente não sabendo que é para beijar, não desconfia. Mas sabendo que é para beijar, acha tão natural: osculo.
[E pensava] mas é curioso, como há uma qualquer coisa nesta imagem com naquele vitral que forma um todo… Não sei que todo é, mas é um todo dentro de mim também. Como eu fico contente de ver que estas coisas emendam uma na outra.
Passo diante da imagem do Sagrado Coração de Jesus: nobre, em pé, sorridente. Com um sorriso ligeiramente triste, mas imensamente convidativo e tocando com a mão no Coração, e olhando para quem está em baixo, um pouco como quem diz: “Você não quer? Você não quer um lugar aqui dentro para si? Você não me aceita? Olhe que tesouro! Isto é para você!”
Eu olhava e dizia: “Sei que isto é uma imagem e não um homem. Sei bem! Mas esta gente que montou esta igreja, quer que Deus seja visto assim. Por isso, eles compraram uma imagem que exprime isso. Ora, como é verdade que Deus deve ser visto assim! Como está certo! Deus visto assim… mas é completo!
Depois, olhe a cara dEle! Olhe como Ele é bonito! Isso é que é beleza! Bonito, que eu ouço falar por aí, é doce de confeitaria, não vale nada! Ele tem propriamente beleza!
Se um dia eu quisesse analisar a ideia de beleza, eu viria aqui olhar para a cara dEle, porque bonito é só Ele. Mais nada é bonito! Este é o padrão, é um bonito mais de alma do que de corpo. Mas que corpo! E por dentro desse corpo, que alma! Que maravilha!
Eu não me atrevia a dizer “que colosso”, porque a palavra colosso parecia diminuir, parecia ser pequena diante desse quilate e dessa categoria de grandeza.
Eu ficava assim [estupefato]… Vagueava um pouco pela igreja diante da imagem de Nossa Senhora. [E pensava:] Aquele ter uma mãe, poderia ser outra? Como isto está bem achado! Como está bem arranjado! A Mãe dEle tinha que ser isto!
E quer que eu diga uma coisa? Eu me sinto melhor e mais próximo dEle aqui junto a Ela. Olhe, meu arranjo é aqui! A entrada é por aqui. Lá, ponto terminal; a entrada, aqui. Eu não entro a não ser por aqui. Chegar-me a Ela, como me achegaria a mamãe. Pegar… é isto, para mim é isso…, assim é que deve ser!
De repente, tocava o órgão… De repente era um sussurro de beatas rezando um terço. Eu olhava para elas… Serenidade! Não oculto isto. Roupas tão surradas que já não tinham idade; caras tão sofridas, que também já não tinham idade; nas caras, nenhuma beleza; nas roupas, nenhum gosto; a limpeza podendo ser maior.
Mas no sussurro uma coisa completamente diferente! “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amen”. Uma vozinha mais fina: “Glória ao Padre, ao Filho e ao Espírito Santo”. O coro: “Assim como era no princípio agora e sempre pelos séculos dos séculos. Amen.”
Era uma espécie de nina-nana… Como isso berça a gente! Ouçamos. Há aqui qualquer coisa de uma doçura aveludada de alma; há qualquer coisa de uma retidão entristecida, envelhecida, mas que nada conseguiu macular; há aqui qualquer coisa de intensidade de vida de alma, de vida espiritual, de vida humana, que vale muito mais do que cem saracoteios bonitos que eu ouvi…
Como é isto tudo?
Eu tinha a impressão que isto eram outras cordas de minha alma que tocavam. Mas tocavam intensamente. Eu dizia: “Isto é assim e assim deve ser!”
“Sed contra”: “Um homem não deve ser assim. Deve ser forte, destemido, audacioso, corajoso, empreendedor. Deve ter iniciativa até no ataque. Deve ser herói!”
… como aquelas velhotas.
E eu, se quiser ser um homem na plenitude do termo, tenho que ser como eles.
Não! Não, não e não!
Eu não percebia que nesse “não”, estava a varonilidade. Ali é que estava! E dizia: “Não, isso não!” A outra coisa é que sim.
Até que a figura do cruzado me passou pela cabeça. Eu disse: “Aqui está! Afivelou todas essas delicadezas que eu amo com essa força que me entusiasma. É na ponta daquela lança, como na ponta daquela torre, estão os meus ideais. Agora, está bem. Para a frente!”
* A Igreja, reflexo visível de uma alma sobrenatural
Mas vendo todas essas coisas da Igreja, me vinha às vezes uma impressão curiosa, eu dizia: “É uma coisa curiosa, mas a Igreja parece uma pessoa. Não parece uma instituição, mas parece uma alma imensa, que se exprime através de mil coisas, e que tem movimentos, que tem grandezas, e que tem santidades, e que tem perfeições como se fosse uma só alma que se exprimiu através de todas as igrejas católicas do mundo. Que se exprimiu através de todas as imagens, de todas as liturgias, de todos os toques de órgão, de todos os dobrares de sino, de todas coisas… Em algo aquilo se exprimiu.
Essa alma chorou nos requiens, ela se alegrou com os bimbalhares dos sábados de aleluia e das noites de Natal; ela chora comigo, se alegra comigo. Coisa curiosa: parece uma só alma, uma só alma imensa. Eu mais vejo na Igreja uma alma do que uma instituição. Como eu gosto dessa alma; como eu tenho a impressão em relação a essa alma que minha alma se põe de tal modo, que é uma pequena ressonância dela. Que é uma pequena repetição dela. Algo no qual essa alma entra inteira como dentro de um templo material e vive inteira como dentro de um templo material. De maneira tal que tudo de que eu gosto é como aquilo, e aquilo é como tudo de que eu gosto.
Eu só gosto daquilo e das outras coisas não gosto, porque não valem nada. Mas esta alma, isso à maneira de alma – pensava eu; que eu sei que não é alma, porque pensei que não fosse – isso é o ideal da minha vida. Para isso que quero viver, assim eu quero ser. E há uma coisa curiosa que faz com que toda minha consonância seja inteiramente com aquilo e não seja senão com aquilo. E que eu me sinta naquilo um pouco como um sol se espelhando numa gota de água. Eu sou a gota d’água, ali é o sol! Mas a gente olha para a gota d’água e pode ver o sol inteiro se espalhando na gota d’água.
Aquela como que alma eu contenho à maneira de miniatura e de reflexo – não substancialmente –, eu contenho inteira.
* O Espírito Santo, alma da Igreja
Depois eu vim a saber que era o Espírito Santo. A alma da Igreja Católica é o Espírito Santo. E é o Espírito Santo que está presente em todas essas manifestações da Igreja. Ele que sugeriu aos homens da Igreja ao longo dos séculos que selecionassem aquilo tudo, daquela forma. Ele é que fez nascer – daqui a pouco digo uma coisa que é lindíssima na Igreja, não lindíssima enquanto concebida por mim – mas lindíssima na Igreja.
O Divino Espírito Santo é que fez nascer na Igreja essas coisas todas, que são o reflexo dEle. E pela doutrina católica, Ele, depois, atua na minha alma, que é um templo dEle em razão do Batismo que eu recebi há sessenta e tantos anos, perto de setenta. Ele é que atua na minha alma de maneira à minha alma ser tão receptiva para o que Ele fez.
De maneira que Ele é um cantor magnífico que canta e me dá o senso artístico para apreciar o canto dEle. De maneira que, quando eu O louvo, eu O louvo pela luz dEle a maravilha que Ele fez. Eu louvo as obras dEle pela luz que Ele fez em mim. Tudo, em última análise, se reduz a Ele. Ele enquanto tendo feito a Igreja e Ele enquanto tendo me criado, e enquanto dando a mim o lumen de alma para vê-lo a Ele e para amar a Ele.
Este louvor dEle por si próprio é que é o louvor do católico à Igreja Católica. É o amor dEle a Si próprio. É Ele como que debruçado sobre Si mesmo, olhando a Si mesmo e amando-Se a Si mesmo e cantando a sua própria glória, é cada um de nós enquanto fala palavras de amor e palavras de louvor a Ele.
Aí nós temos Pentecostes, a constituição definitiva da Igreja. E como os Apóstolos eram incapazes de conhecer e compreender bem o que Ele dizia – incapacidade culposa, é verdade, mas incapacidade efetivamente existente. Essa incapacidade foi rota, foi quebrada pela vinda do Espírito Santo, primeiro sobre Nossa Senhora, e depois sobre todos os Apóstolos e como a partir desse momento a Igreja viveu neles de outro modo.
Propriamente, poder-se-ia fazer uma comparação: apesar de tudo quanto Nosso Senhor até então tinha feito pela Igreja, de alguma modo – não quero fazer uma comparação exata – mas de algum modo se poderia dizer que Igreja era, antes do Pentecostes, o boneco de barro, e que o sopro de vida que recebeu de Deus foi o Pentecostes com o Divino Espírito Santo. Ali tudo mudou, tudo passou a viver e tudo passou a pegar fogo no mundo, a contagiar o mundo, até o apogeu dos dias de hoje, em que a Igreja é ensinada a todos os povos, o Evangelho é pregado a todos os povos.
* O dever de fidelidade na hora da desolação
Era propriamente isto que eu quereria que os senhores sentissem nas suas almas a respeito da Igreja. Era este propriamente o ideal de vida espiritual, de vida intelectual, de vida apostólica, o “arrière fond”, o “trasfondo” – que eu tenho visto às vezes os castelhanos dizerem – dessa parte que fica atrás da alma, e que é tão idêntica à verdadeira Igreja que a gente se embevece, que a gente olha, a gente não cansa de considerar, a gente não cansa de falar sobre ela e diz o seguinte:
“Enquanto houver Ela na Terra, a minha vida tem razão de ser. Se algum dia, Ela tivesse que morrer, eu morreria amando a Ela de um amor que participa de algum modo, tem uns fios de adoração. Mas quando eu A visse morrendo, eu me poria a morrer porque vida já não era mais nada. Os meus ossos se desligariam, toda a minha vida se desarticularia, o sol dela não está mais presente: a Santa Igreja Católica Apostólica Romana!
Quantas e quantas vezes em minha vida eu tenho sentido isso, por exemplo nas cerimônias da Semana Santa. Aquelas cerimônias de Quinta-Feira Santa, a bênção dos óleos, por exemplo, quando vinham os padres – estou falando da Igreja constantiniana – vinham os padres das mais variadas paróquias de São Paulo, seculares, depois jovens religiosas – a cidade já era bem grande, com dois ou três milhões de habitantes –, de todas as nações vinham trazendo seus vasos sagrados. A cerimônia ia cantando, aquela liturgia… Depois ajoelhavam, levantavam… Chegava um Bispo que dava um bênção…
Eu olhava para o povinho de uma douta ignorância, o poviléu mais rasteiro de São Paulo, porque as pessoas que eu conhecia, não iam. As pessoas que me conheciam não iam. Eu era ali como Robinson Crusoé de entre os meus… e sem “Sexta-Feira”, sem o pretinho. Era eu só!
Mas eu olhava para aquela gente e via aquele povinho que chegava no começo. Não havia ninguém que lhes explicasse o que era e ficava até o fim. E eu me lembrava de um elogio escrito no teto da igreja de São Bento falando: “Doctor indoctus” – o doutor não douto. Eu dizia: “Doctores indoctos” são estes aqui que sabem ficar horas sem entender, entendendo o porquê ficam e se deixando embalar pelo imponderável, sabendo que o que eles tinham na cabeça era maior do que entender. E que aquela degustação era melhor do que um doutor em teologia tíbio poderia ter.
Eu dizia: “como isto forma uma coisa só! Há dois mil anos praticamente que gente faz isto, em todos os lugares, em todos os pontos, neste momento na Igreja Católica no mundo inteiro todo o mundo está fazendo isto que está se desenrolando aqui. E quando, pela defasagem das horas, não for isto, é porque o mundo não girou bastante. Quando o mundo tiver girado bastante, aquela liturgia idêntica começa… E são essas multidões nascidas da Cruz que vão por toda a parte fazer isso… ó Igreja Católica!”
Sóbrias delícias de sua alma. Ela está por dentro, vendo coisas, ungindo, pondo no horizonte coisas como as que há na minha alma. Esta alma tem consonância com a minha. O resto é nada!
E era a pura verdade! Era pura verdade!
Bem, meus caros… eu cheguei à idade em que eu estou. A TFP chegou ao tempo de vida que ela tem. E Jasna Gora festeja… meu caro Dom Luiz chegou aos seus 40 anos, não é meu filho? Há uma encíclica de Leão XIII, muito comentada por nós, chamada “Parvenu à la 25ème année”. Dom Luiz poderia escrever à la “40ème année”. Há uma encíclica de Pio XI: “Quadragesimmo Anno”.
É o tempo que vai correndo para todos nós!
Eu me pergunto o seguinte: até que ponto, nesse longo conhecimento nosso, eu consegui ser instrumento de Nossa Senhora para que os srs. vejam a Igreja assim. Até que ponto eu consegui que pelo menos olhando para a gota d’água, os senhores vejam o sol, e não se ponham a fazer elogios da água, mas elogios do sol? Até que ponto essa ideia de que a Igreja é uma alma enorme, fabulosa, que não é nem um pouco a alma coletiva inexistente que a compõe, mas é o Espírito Santo, lá do alto, portanto a Santíssima Trindade, a pericoresis trinitária que está pairando – “planant”, como se diz em francês – sobre tudo isto e se refletindo ali?
E até que ponto, já que os senhores me têm tantas vezes perguntado pelo meu processo intelectual, por isto e por aquilo e por aquilo outro… Um ou outro me tem dito: “Me espanta que se fazem ao Sr. sobre certos temas as perguntas mais inesperadas, e o senhor tem a resposta pronta. Como é que o senhor sabe tudo?”
Eu sei tudo, nesta linha, porque no primeiro momento eu vi tudo e ininterruptamente amei tudo. Inteiramente amei, amando inteiramente tudo! E querendo cada vez mais amar mais, amar mais, amar mais, de maneira tal que só morrerei feliz se eu souber que terei amado tanto quanto era possível a minha alma amar. Se não for isso, eu morro triste e com um Confiteor nos lábios. Porque eu não me contentarei de ter amado muito, eu quero ter amado até os últimos limites em que a minha alma poderia amar. É isso que eu quereria mesmo!
Bem, meus caros, faça cada um dos senhores a pergunta: Como os senhores se impostam diante disso? Como se impostam diante da gota d’água, já que seria demais perguntar a respeito do sol? É uma pergunta que se poderia fazer.
* O eco do Batismo nas almas fiéis
[Eu gostaria] que o Batismo dos senhores bimbalhasse dentro dos senhores de alegria, na festa do meu batismo, como mais ou menos como uma igreja de paróquia bimbalheia quando até lá chega o toque de sino da catedral.
Na igreja de São Pedro em Roma há isso: quando a igreja em certas solenidades toca, depois as quatrocentas igrejas de Roma se põem a tocar.
Como eu quereria que fosse assim a nossa TFP! Quer dizer, até que ponto bimbalhamos nós? O que eu acabo de dizer quer dizer algo para cada um de nós? Esta é a pergunta que eu lhes faço.
Não faço como quem cobra contas; não faço como quem está recriminando. Eu faço como quem encontra um modo de abrir-se mais a fundo, sem “megalar”, porque afinal de contas tudo o que estou dizendo é uma ação de graças a Nossa Senhora pela Igreja Católica Apostólica Romana. Os senhores viram bem isso. De começo a fim o que está presente é isso. Os senhores sabem bem que se eu me afastasse dela um instante, neste instante eu seria como um leproso moral. Esta é a verdade! Ela é que é o foco! Ela é que é o centro! Ela é que é tudo!
Está bem, depois de ter visto isto nEla, até que ponto os nossos ponteiros acertam? E até que ponto nós somos isso?
Eu fico na dúvida a respeito do modo até de continuar a reunião. Vejo que mais uns dez minutos ainda é possível tocar a nossa reunião, sem que entremos no “teleférico” ou que o “teleférico” entre em nós.
Eu nem sei bem como fazer, porque me parece ler em numerosas fisionomias aqui uma resposta assim: “Dr. Plinio, o que o senhor disse nos agradou muito. Achamos muito bonito, mas não conseguimos ver com precisão, nem na gota d’água, nem no sol. Gostamos muito de ouvi-lo, mas não sabemos bem do que o senhor falou. E não sabemos bem por causa disso, como dar a resposta à pergunta que o senhor está nos fazendo. Explique-nos, Dr. Plinio, como ver isso com maior precisão”.
Me parece isso… O que posso fazer? Me parece isso!
Eu poderia fazer uma pergunta que não faço, e que é a seguinte: “O que fizeram desse nosso longo convívio?”
Santo Afonso de Ligório diz: “Tudo o homem recupera, exceto o tempo!” Pode recuperar o dinheiro, pode recuperar a saúde, pode recuperar a fama. Pode recuperar tudo, o tempo ele não recupera.
Ora, meus caros, aos senhores eu dei o irrecuperável. Quanto tempo lhes dei! Se fosse só o correr do relógio, mas todos nós temos um ponteiro dentro de nós, um quadrante que marca as nossas horas internas, os graus de nosso esforço, os graus de nosso desgaste. Quanto disso eu dei!
Eu poderia perguntar: o que ficou? Eu não pergunto. Eu faço outra pergunta, de outro modo: o que eu poderia fazer se eu não sei fazer. Eu quebro a minha cabeça, perguntando-me o que fazer e não sei. Além do que eu tenho feito, eu não sei o que fazer. Rezar, é certo que eu faço! Mas, o que mais fazer? Também não sei.
E aí caberia a resposta a um dos senhores, caberia dizer algo, caberia dar-me uma resposta. E francamente, não vejo nem sequer essa resposta se esboçar. E se essa resposta se esboçar, tenho receio que ela seria equivocada. E que a pessoa que falasse não dissesse realmente o que sentiu. Sentiu algo, quis falar e disse outra coisa.
Me parece que é isso. Ora, a nossa reunião só tem sentido se pudesse responder a essa resposta. Do que adianta eu ficar desenvolvendo [outras coisas assim], e os srs. vão me ouvindo, ouvindo… Quando eu der acordo de mim e os senhores também, os srs. estarão no “teleférico”, dormindo. É o resultado… Então, não pode ser! Não adianta! Um passeio de teleférico a mais, para quê? Não adianta nada!
Então, o que é que falta? Como quebrar esse equívoco, por onde eu os vejo e os senhores não me veem?
É uma pergunta que tem o seguinte corolário: no fundo dos senhores, está a graça que os srs. receberam no Batismo e que imprime caráter. Os srs. serão batizados por toda a eternidade. Bons ou maus, por toda a eternidade a qualidade de batizados existe nos senhores. E esse Batismo fala na alma dos senhores, as graças dele falam nas almas dos senhores.
E a presença desse Batismo se exprime através de algo nos senhores que vaga e brumosamente se regozijou quando eu falava. Esse regozijo é o Batismo cuja ação foi retemperada pela Crisma; por quantas confissões, por Comunhões quotidianas durante anos!
Mas o que é que dentro dos senhores faz com que os srs. não ouçam também a voz do próprio Batismo? Na festa do meu Batismo, não tem propósito eu perguntar aos senhores que festa fazem por seu Batismo? Esse Batismo não está como uma espécie de Anjo preso numa enxovia? Se é que as enxovias pudessem prender anjos, calabouços, nas prisões obscuras…
O que fazer para libertá-los? Eu não sei. Eu sei que não estou só, eu sei que dentro de cada um dos senhores algo há e que faz com que, no momento, eu não esteja notando ninguém no “teleférico”. De momento eu sei que se viesse alguma coisa para interromper a nossa reunião, os senhores plutôt [mais bem] prefeririam que ela continuasse. De momento. E que é algo do Batismo dos senhores que através desse véu deixa passar alguma coisa que toca isto que estou dizendo aos senhores.
Mas o que é esse véu? Qual é ele? Esse véu tem bordado com letras “punk” uma palavra: Revolução. É evidente. Trata-se de liquidá-lo. Os senhores já sabem disso! Mas como fazer para liquidar esse véu?
No dia em que os senhores tivessem liquidado, os senhores seriam capazes de liquidar fora dos srs. É a realidade.
Mas como acabar com a Revolução fora dos senhores, se dentro dos senhores ainda existe esse fator que se chama Revolução?
Notem, meus caros, eu não estou censurando. É impossível falar com mais afeto do que estou falando aos senhores, com mais consideração. Estou medindo palavra por palavra para não contundir os senhores em nada. Eu, pelo menos, não sei fazer melhor! Portanto, não é disso que se trata. Os senhores não estão sendo censurados. Os srs. estão sendo levantados, a minha tentativa é de soerguê-los de todos os modos, e tocando nos lados em que não doa. Isso é que estou tentando fazer.
Mas, além dessas palavras, o que eu posso dizer? Não encontro o que dizer, e por outro lado, tenho encontro marcado para mim em São Paulo, onde tenho obrigações.
Eu termino a reunião fazendo com que o grosso sino do meu Batismo toque de maneira a ver se na “cathedrale engloutie” dos senhores alguma coisa [pegue], e alguma coisa toque o sino também. Que este louvor todo seja para Nossa Senhora.
* Sob o manto de Nossa Senhora: esperança e perseverança
Esta esperança, e quando dissermos a Ela daqui a pouco “Salve Regina, Mater Misericordiæ, vita dulcedo et spes nostra salve..”. seja o pedido para que Ela conserve íntegro e em contínuo desenvolvimento o que eu recebi no meu Batismo. E que Ela dê aos senhores essa plenitude, de maneira que quando este sino aqui tocar, os mil sinos dessas nobres paróquias que são os senhores bimbalhem também, e que sejamos um concerto só no alto das torres de nossas almas em louvor de Nossa Senhora.
É o que eu teria que dizer. Não teria outra coisa para dizer. A reunião termina nisto.

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