Auditório Nossa Senhora Auxiliadora, 10 de dezembro de 1994
A D V E R T Ê N C I A
Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.
Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.
As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.
No momento quando o Sr. falou a respeito de impressões etc., me veio ao espírito um pensamento que eu precisaria examinar melhor para ver até que ponto ele pode ser afirmado, em toda a verdade, como eu vou dizer. Porque isso envolve pontos de doutrina muito sérios. Mas assim para… à primeira vista parece que isso, o que eu vou dizer, é inteiramente a realidade.
* Toda impressão é um pensamento em gérmen?
Toda impressão é um pensamento em gérmen. Quer dizer, o Sr. toma aqui esse copo d’água por exemplo. Eu ponho aqui à vista de todos. O copo d’água sugere uma primeira impressão agradável.
Agora, essa impressão agradável se compõe do agrado de que como é agradável cada parte do copo e como essa parte diz bem com a outra.
Em primeiro lugar aqui, essa parte é muito mais grossa, muito mais larga e mais pesada do que o cabo e há, portanto, uma espécie de desafio às leis da gravidade aqui. Porque dir-se-ia que é uma imprudência a gente ter um copo assim porque com qualquer peteleco o copo cai no chão.
Mas, na realidade o contrário é que é verdade. Quando o copo está com peso, com água portanto, ele põe mais raízes no chão. E como o natural de um copo é de estar cheio, quando ele está sendo servido o natural dele é de estar cheio, se a gente esvazia vem logo um copeiro para encher de novo, de água ou de vinho, conforme seja o copo.
Como o copo está cheio, ele cheio fica mais sólido e a impressão de fragilidade se resolve numa impressão contraditória de solidez. A gente não sabe por que, precisa fazer uma reflexão para atinar com o que é.
Mas depois, de outro lado, tem isso que há uma relação entre a cor da água e a cor do vidro. Ou seja, a água é incolor, o vidro é incolor e a luz penetrando no vidro executa um certo jogo de reflexos que penetrando na água ainda é um jogo de reflexos mais vivo e que dá uma impressão de coisa que se essa água for bebida, ela é muito própria a estancar a sede. E essa idéia agradável da sede que se estanca, torna bonita a água e torna bonito o copo.
Bem, agora, o copo é bem mais largo em cima e mais fino embaixo que dá uma idéia harmoniosa de flor que se abre.
E toda essa estrutura se baseia numa coluna que à medida que desce, em vez de ficar mais forte, fica mais fraca.
Aqui, essa parte da base é quase a parte mais estreita de todo o resto. De maneira que entre essa base estreitinha e esse tamanho aqui há uma espécie de contradição, mas de contradição bonita, de contradição agradável. Por quê? Porque dá uma idéia de elegância, o copo é elegante.
Os senhores que acham que isto é assim, levantem o braço para eu ter idéia.
Os senhores estão vendo que essa primeira impressão de agradável que o copo deu aos senhores continha no espírito dos senhores uma série de pensamentos que os senhores, como jovens que são, não estão habituados ainda a explicitar, a transformar essa impressão numa convicção que sabem depois dizer com palavras como é que é. É exatamente um dos pontos essenciais da cultura dada pela TFP aos seus membros é torná-los capazes de ter impressões dessas e transformar em palavras.
Se os senhores… Eu não sei se eu estou esticando um pouco a corda?
(Não!)
Mas, se eu consegui tornar bem claro o que eu estava dizendo, é provável que os senhores vendo explicitado o que tinha implícito na sua cabeça. Quer dizer, os senhores não tinham transformado em palavras para seu uso, não sabiam como dizer o que sentiam. Mas depois que alguém mais velho transformou isso em palavras, os senhores encontraram as palavras que dizem para os senhores o que os senhores sentiram. É provável que alguns dos senhores tenham sentido um alívio vendo essa descrição.
Aqueles que sentiram esse alívio levantem o braço para ter idéia. É praticamente a sala inteira.
* Embora transbordasse de afeto para com o “filhão querido”, Dona Lucilia nunca o elogiou
Bem, portanto, vendo Dona Lucilia, que tinha uma alma muito rica em impressões, mas também em pensamento, e que tinha muita harmonia entre os pensamentos dela e as impressões, o que é que Dona Lucilia teria de impressão e teria de pensamento diante do “filhão” dela?
“Filhão” não porque ela achasse que o filho era um grande homem, mas é que é um filho grande em comparação com ela pequenina. E desde menino, quando eu era pequeno, ela já me chamava de “filhão”.
Ela não diria nada, ela não diria nada para mim, nem diria nada diante de mim, nem diria nada atrás de mim porque não me chegaram quase aos ouvidos – durante a nossa tão longa convivência – elogios dela para mim ao meu respeito. Ela não falava quase a meu respeito.
E eu tenho a impressão de que o trato dela comigo, por exemplo, as cartas dela para mim eram cartas cheias de afeto e esse afeto continha – eu não sei se os senhores sentiram da mesma maneira – uma espécie de consideração, quase diria, de admiração. Mas ela não punha um elogio! Estava no modo de ela escrever “filhão querido”, depois dizer isto e aquilo, aquilo e aquilo outro, a gente percebia que a alma dela transbordava de contentamento de tratar comigo. E nesse transbordamento ela sentia, a gente vê que havia um apreço, que havia uma consideração, mas que ela não dizia.
Agora, por que é que ela não dizia?
Eu tenho a impressão – eu nunca perguntei a ela – de que ela achava mais grato em relação a Deus não dizer, para praticar a virtude da humildade e agradecer o filho que ela tinha.
* A profunda humildade e paciência com que a Senhora Dona Lucilia ouvia uma amiga contar os sucessos advocatícios de seu genro
Havia uma pessoa de nosso convívio, uma pessoa a quem ela queria muito bem e a pessoa queria bem a ela também.
Mas essa pessoa tinha um genro que era mais ou menos de minha idade, e que começou a advogar mais ou menos quando eu tirei o meu diploma de advogado. De maneira que entramos na profissão de advogado mais ou menos no mesmo tempo.
Mas eu tive uma certa dificuldade em desenvolver a minha profissão de advogado porque era muito boicotado. O outro rapaz não combatia ninguém, era até favorecido, de maneira que ele tinha facilidade de clientes e eu não tinha facilidade de clientes. Considero mesmo que não foi sem uma proteção especial que meu escritório, depois de alguns anos de muito pouco serviço, meu escritório se tornou um escritório muito movimentado e com a melhor advocacia eclesiástica de São Paulo. Mas, é uma coisa que a meu ver foi um favor da Providência.
O resultado é que na aparência o rapaz, o genro dela, ia para frente e que eu estava mais ou menos parado.
Essa pessoa ficava muito contente e quando ia a nossa casa começava a contar e fazia elogios do genro, o que é que tinha acontecido na advocacia dele, que resultados ele tinha tirado etc., etc., que davam a impressão de que essa pessoa gostava de realçar o sucesso que estava tendo o genro, e a dificuldade que eu estava encontrando em caminhar.
E numa ocasião eu disse a ela:
– Mamãe, a senhora não tem impressão que fulana age assim – eu disse com cuidado porque ela queria muito bem a essa fulana, estávamos almoçando e ela estava comendo o almoço dela com aquela distinção e aquela tranquilidade e aquela confiança na Providência que ela nunca abandonou e que nunca abandonou a ela.
Ela, assim comendo etc., me disse:
– Sim, eu acho que é assim.
Eu disse:
– A senhora algum dia não dá um “cutucão” nela?
Porque havia muitas outras coisas que minha mãe poderia responder. Ela disse:
– Coitada, ela fica tão contente assim, deixe ela fazer dessa maneira. Ao menos dá satisfação para ela.
Aí eu percebi bem toda a humildade dela, e como ela não gostaria de uma conduta de fanfarronada e de querer pisar a outra. Mas deixe a outra pisá-la um pouco desde que a outra fique contente. A bondade dela se prestava a isso.
Eu achei tão bonito e não disse nada. E ficou assim, até que a primeira das duas morresse.
[E os senhores veem aí que se ela me visse naquele traje, não diria nada. Ela sorriria] e olharia com muito afeto, olharia com muitíssimo afeto aos senhores e depois, no máximo, comentaria assim:
– Como esses rapazes gostam de você.
Nessas condições as perguntas que os senhores me fizeram ficam todas resumidamente respondidas.
* Nunca se deve pensar nas próprias qualidades, pois nossa fantasia tende a aumentá-las
Quanto a mim, eu devo também olhar-me como ela me olhava: não devo prestar atenção nas minhas qualidades – nas que eu tenha –, não devo prestar atenção senão nos meus defeitos, para combater, para corrigir etc.
Nunca devo me comparar com ninguém. Não devo perguntar se outro é mais inteligente que eu, se é muito mais inteligente que eu, se eu sou um pouco mais inteligente do que ele. Não devo fazer comparação minha com ninguém! E não devo estar prestando atenção em qualidades que eu tenha!
Por quê? Porque prestou atenção, a fantasia da gente tende a aumentar aquilo, é uma coisa automática!
Um dos senhores que escreva um trabalho para a respectiva escola, que o trabalho seja premiado nota dez e o professor até vem aos senhores dê um abraço etc., etc. Se os senhores não contarem em casa e na sede só contarem para o superior imediato dos senhores e mais a ninguém, os senhores farão uma coisa gratíssima a Nossa Senhora! Por quê? Porque farão o que Ela fez a vida inteira.
Os senhores não podem imaginar… Nossa Senhora é superior a nós de um modo que nós não podemos nem imaginar! Nossa Senhora é superior aos Anjos, eu não preciso dizer mais nada. Ela é Filha do Padre Eterno, Mãe do Verbo Encarnado, Esposa do Divino Espírito Santo… Os srs. imaginem Nossa Senhora aparecendo a um dos srs. com quanta bondade, com quanta ternura, com tanta simplicidade… com tanta distinção, com tanta nobreza, mas com quanta misericórdia, com quanta paciência, com quanta generosidade… Dando graças, dando graças, dando graças!
Assim nós devemos ser de nós para nós. Nós não devemos olhar absolutamente para nossas qualidades. Nós não devemos nos comparar com ninguém!
Se nós agirmos dessa maneira, o resultado vai ser sabe o que? As tentações contra a pureza decaem, ficam menores e mais fáceis de vencer. Porque há uma relação muito grande entre o orgulho e a sensualidade.
Quando o indivíduo é orgulhoso, começa a se imaginar muito mais do que é, extraordinário etc. etc… – e é preciso dizer, hein -, eu creio que 99% das pessoas imagina que é muito mais do que é. Não sei se os srs. acham esse cálculo exagerado, mas acho que no mundo de hoje é assim: a pessoa vai se gabando sobre si mesma interiormente, mas a la louco, quanto quiser!
Quando a pessoa desenvolve exageradamente a imaginação, começam entrar imaginações impuras.
Quando a pessoa é simples e domina a imaginação, as imaginações impuras são mais domináveis; elas se apresentam, e a gente sabe dizer “não”.
De maneira que se quiserem ser puros, façam assim.
Então se imaginar – por um minuto só! – revestidos do hábito e imaginar-se calmos, tranquilos como se estivesse revestido de uma roupa qualquer de todos os dias, e sem pensar em si! Pensando apenas no auditório e não no que o auditório está achando dos srs., mas no que Deus está achando do auditório, se o que os srs. estão dizendo aproxima o auditório de Deus e de Nossa Senhora, sim ou não. Se aproximar, está tudo ganho! Se não aproximar, é tudo inútil! O papel que nós façamos diante do auditório só tem algum valor na medida em que ajude a aproximar de Nossa Senhora, na medida em que ajude a aproximar de Deus Nosso Senhor.
Ponham-se assim e esses problemas todos se simplificam.
[A sugestão da semana é recitarem todos os dias uma vez a Ladainha da Humildade do Cardeal Merry del Val]
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