“Lembrai-Vos”: talvez a oração mais cheia de esperança que haja na Igreja Católica – Comentários ao canto “Ojos claros y serenos”

Sede do Reino de Maria, Palavrinha aos equatorianos – 22 de abril de 1992

 

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

 

Em primeiro lugar tomar a palavra “espera”. A espera é a esperança. É preciso a gente pôr-se bem diante do seguinte: se vocês rezarem o “Memorare” [Lembrai-Vos] com atenção e devagar, vocês vão perceber quanta esperança está nessa oração. É talvez a oração mais cheia de esperança que haja dentro da Igreja Católica.
Porque a afirmação que está na oração, é uma afirmação a mais categórica que pode haver: “Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer” – jamais – “que alguém tendo recorrido à vossa proteção fosse por Vós desamparado.”
Quer dizer, se nunca se ouviu dizer que alguém fosse desamparado, eu sou alguém e, portanto, pedindo a proteção dEla não serei desamparado. E, portanto, eu tenho o direito, mas também tenho a obrigação de não desanimar nunca. Por mais que a minha situação seja difícil, por mais que eu esteja aborrecido comigo e me faça censuras justas, se eu pedir para Ela que me ajude, Ela me ajudará. Pode demorar mais tempo ou menos tempo, mas a ajuda dEla vem!
Nós estamos muito habituados ao sistema moderno, por exemplo, com luz. Eu preciso de luz, aperto um botão, inundo a sala de luz; eu quero trevas para descansar, aperto o botão, a sala toda está nas trevas. Assim uma espécie de automatismo, onde a vontade de cada um se faz assim inteiramente.
Então ficamos com a idéia que uma oração é assim também: eu aperto aqui o botão e peço a Nossa Senhora para me ajudar. Ela imediatamente fica obrigada a me ajudar, e tem que ajudar na hora, e se não ajudar na hora em que eu pedi ou que eu estou esperando socorro dEla, se não ajudar nessa hora, está tudo perdido, eu desanimei.
Errado! Nossa Senhora é Rainha, Ela é Senhora. A gente não trata uma Senhora como trata uma escrava. De uma escrava a gente pode querer dizer: “Me sirva um café”, ela tem que ir correndo para a cozinha, preparar o café e trazer. É o papel dela, de fazer a vontade do dono dela. Mas Nossa Senhora não. Nós é que esperamos a honra de vir a ser escravos dEla algum dia. É muito diferente, mas é profundamente diferente!
* Para o bem de nossa alma, Nossa Senhora pode tardar em nos conceder a graça que estamos esperando. Quanto maior for a demora, maior será a graça 
E Ela, portanto, pode – para o bem de nossa alma – tardar em conceder-nos a graça que nós estamos esperando. Mas quanto maior for a demora, maior será a graça.
Portanto, a pessoa nunca pode fazer um raciocínio assim: “Nossa Senhora está demorando muito a atender o meu desejo. Isto quer dizer que Ela não está com vontade de atender, então eu vou desanimar.” É o contrário! Isso quer dizer que Ela está querendo me provar para dar uma graça muito grande.
* Um fato narrado por Louis Veuillot: o diário de um pecador que lutava por se ver livre do pecado 
Eu costumo contar a esse respeito um fato muito bonito narrado na vida de Louis Veuillot, um grande escritor contra-revolucionário do século passado, francês.
Ele foi fazer uma visita a Roma e em seguida do quê ele escreveu um livro famoso, chamado “Os perfumes de Roma – Les parfums de Rome“. Era no tempo em que Roma ainda tinha como rei o Papa, o Papa era rei de Roma.
Todo o mundo vai a Roma, vai ver aqueles monumentos, igrejas etc., rezar e tal, foi o que ele fez também. Mas um dia ele viu uma igreja que agradou a ele de um modo especial. Então ele saiu, olhou a igreja de fora por todos os lados, e ficou com vontade de dar uma volta na igreja, até pela parte de trás que ficava encaixada numa “manzana”, num quarteirão. Ele arranjou um jeito e foi ver atrás, para ver como era a igreja.
Olhando assim, ele de repente olhou para uma pedra angular que tinha no chão, que fazia parte da parede da igreja, e notou que a pedra estava toda escrita a carvão. Ele teve vontade de ver o que é, então se inclinou para ver o que é que estava escrito. E era o diário espiritual de um anônimo, que estava lutando para corrigir-se… É evidente que o anônimo não dizia isso, mas percebia-se que era matéria de pureza, que ele tinha dificuldade, que ele estava lutando nessa matéria.
Então começava, ele se dirigia a Nossa Senhora:
“Dia tanto: Minha Mãe, hoje pequei, perdoai-me.”
No dia seguinte: “Minha Mãe, perdoai-me, está pior, pequei tantas vezes.” Depois tantas, depois de repente: “Tive uma graça, passei cinco dias sem pecar, mas, oh! tristeza, estou no sexto dia e já pequei de novo. Eu estava pensando que já tinha passado o período das tentações, elas vieram mais velozes do que nunca.”
Isso vai e vem, vai e vem, vai e vem, até que num lugar está escrito: “Minha Mãe, graças a Vós, há um ano que eu não peco. Hosana, magnificat.”
É um comentário vivo do “Memorare”: “Nunca ouvi dizer, etc., etc.” Aquele tomou ao pé da letra o “Memorare” e entendeu que ele rezando, rezando, rezando era indiscutível: ele um dia seria atendido. De fato, foi atendido.
Louis Veuillot copiou num pedaço de papel todo esse longo diário, que ele transcreve no livro dele. Sem dar nome, porque o homem era anônimo, o nome ele nunca daria. Mas ele tem esse comentário lindíssimo: “Se se tratasse de uma pedra que em lugar de estar com esse diário espiritual escrito tivesse sangue de mártir, ele não veneraria essa pedra mais do que veneraria essa pedra com o diário espiritual desse homem que lutou, lutou, lutou, mas a quem, em determinado momento, Nossa Senhora estendeu a mão e o salvou.”
* O sentido das palavras do “Memorare” (“Lembrai-vos”, oração composta por São Bernardo de Claraval) 
De maneira que eu acho indispensável encorajá-los, mas de todo modo e a todo o preço, não desanimarem nunca, nunca, nunca! Pedir a Nossa Senhora que ajude, que ajude, que ajude e rezem o “Memorare”, que é tão bonito desde que a gente não galope o “Memorare”, mas diga palavra por palavra; é tão bonito…
“Lembrai-Vos o piíssima Virgem Maria…”
Chama logo de uma vez de misericordiosíssima Virgem Maria.
“… que nunca se ouviu dizer que tenha alguém recorrido a Vossa proteção, implorado a vossa assistência, fosse por Vós desamparado. Animado eu, pois, com igual confiança…”
Quer dizer, com a confiança daqueles que estavam no extremo do comprometimento com o pecado, mas que rezaram a Ela, que foram atendidos.
“… a Vós, Virgem singular…”
Quer dizer, Virgem como ninguém foi virgem, Ela é a Santa Virgem das virgens. É a alusão ao pecado contra a pureza, Ela é a Virgem das virgens.
“… a Vós recorro e de Vós me valho…”
Recorrer é atendei-me. Mas me valho de Vós, quer dizer o seguinte: eu alego perante Deus a Vós, dizendo a Deus: “Vós sois meu Pai, tendes o direito de estar zangado comigo, eu bato no peito. Mas Vossa Mãe é minha Mãe, e Ela tem para comigo as inclinações, as bondades, as paciências que todas as verdadeiras mães têm para com os seus filhos. Eu espero, portanto, na paciência de Vossa Mãe. Sede paciente para comigo, porque Vossa Mãe o é.”
“… e gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro a Vossos pés…”
Fique vendo bem que é um pecador tão pecador, que geme pelo pecados que cometeu.
“…me prostro a Vossos pés”.
Põe-se ajoelhado diante dos pés dEla.
“… não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do verbo de Deus humanado…”
Quer dizer, não desprezeis as súplicas deste miserável pecador.
“… mas dignai-Vos de ouvir propícia e de alcançar o que Vos rogamos. Assim seja.”
É uma oração lindíssima.
* Dizer a Nosso Senhor “miradme al menos“, porque o olhar dEle purifica e restaura uma alma completamente! 
Há um canto espanhol, que vocês podem pedir ao Sr. Juan Pablo Merizalde, se vocês não conhecem, para pedir a letra para vocês. É um canto muito bonito que canta aqui o coro de São Bento, e é o canto “Ojos claros serenos”. Eu vejo que conhecem.
Eu lembro as estrofes finais: “y pues moris por mi, miradme al menos“. Quer dizer, é um pecador que vê Nosso Senhor Jesus Cristo na cruz, olhando com aquele olhar claro e luminoso dEle. Mas ele é o pecador, não tem direito de estar perto de Nosso Senhor. Nosso Senhor é Nosso Senhor, e ele é ele. Mas uma vez que Nosso Senhor está cravado na Cruz por causa dele, “miradme al menos”, porque sabe que o olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo purifica e restaura uma alma completamente. Exemplo: São Pedro. Então pede um olhar dEle para continuar na luta.
Recitem esse “miradme al menos” por intermédio de Nossa Senhora, que Ela diga isto a Ele pelos senhores: “Mirad al menos este hijo que está acá.”

 

Ojos claros, serenos

Ojos claros, serenos,

si de un dulce mirar sois alabados,

¿por qué, si me miráis, miráis airados?

Si cuanto más piadosos,

más bellos parecéis a aquel que os mira, 5

no me miréis con ira,

porque no parezcáis menos hermosos.

¡Ay, tormentos rabiosos!

Ojos claros, serenos,

ya que así me miráis, miradme al menos.

*     *     *

Olhos claros, serenos,
se de um doce olhar sois louvados,
por que, se me olhais, olhais irados?
Se quanto mais piedosos,
mais belos pareceis a quem vos mira,
não me olheis com ira,
para que não pareçais menos formosos.
Ai, tormentos raivosos!
Olhos claros, serenos,
já que assim me olhais, olhai-me ao menos.

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