14 de julho de 1990 – Sábado
A D V E R T Ê N C I A
Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.
Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.
As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.
Está muito bem. A devoção a Nossa Senhora de Genazzano eu conheci desde muito pequeno, e foi deitando raízes lentamente em minha alma, mas de um modo assim muito desigual, muito como são as coisas naturais, nada de artificial etc.
Quando eu era aluno dos Padres Jesuítas, aqui do Colégio São Luiz, na Avenida Paulista, eles tinham uma capela, e no altar-mor da capela tinha um quadro de Nossa Senhora de Genazzano. Os padres de vez em quando faziam cerimônias religiosas lá, os alunos todos eram obrigados a ir, e eu ia de bom grado.
Então, íamos em fila, enchíamos a capela e realizava-se a cerimônia. E eu ficava olhando, enquanto enchia aquilo. Levava muito tempo para encher com todos os alunos, e pôr tudo em ordem etc., etc. Depois, pôr em ordem aluno brasileiro, não é coisa fácil! Mexem-se o tempo inteiro, se agitam… Afinal, quando conseguiam pôr tudo em ordem, começava a cerimônia. Mas, quando começa a cerimônia eu já estava há tempo olhando para a Imagem de Nossa Senhora de Genazzano! Nossa do Bom Conselho.
Chamava-me a atenção que Ela tinha o Menino ao colo, e com muito afeto, muita intimidade, muita ternura, Ela parecia dirigir-se a Ele. E Ele parecia um criança que se deixava embeber pelo afeto materno, todo assim deliciado com a presença de Nossa Senhora, e com o afeto que Nossa Senhora estava dando a Ele. Eu achava aquilo muito bonito! Depois, era Nossa Senhora, o Menino Jesus… Eu, naturalmente, gostava muito.
E isso durante todo o meu curso secundário no São Luiz, isso se deu, e eu tinha muita devoção a essa Imagem.
Mas, depois saí do São Luiz, e comecei a freqüentar outras igrejas, outros oratórios etc., com outras imagens etc., e Nossa Senhora de Genazzano me saiu um pouquinho da memória. Saiu-me até bastante da memória.
Quando há uns dez anos, quinze anos atrás, eu estava sem ter o que ler, e me caiu nas mãos um livro grosso assim, de história de Nossa Senhora de Genazzano, escrito por um padre francês no século passado. Um livro do século passado. E eu, por não ter o que ler, eu peguei o livro e comecei a ler. E senti um interesse por aquilo, um gosto…
O padre contava muito bem, narrava muito bem, com muita vida. Sobretudo, o que ele contava era muito bonito. Uma porção de coisas de que eu tinha conservado uma vaga idéia depois do curso no Colégio São Luiz me veio ao espírito etc. E eu sentia uma coisa curiosa que eu não sabia definir, que é o seguinte: o livro do padre era um livro um pouco prolixo, quer dizer, desses livros que falam um pouco demais. Então, quando fala de Genazzano, conta a história de Genazzano antes de haver lá a imagem, que era um feudo dos príncipes Colonna, e que tais árabes assim estiveram lá etc. Umas coisas que não tinham muita coisa que ver com Genazzano.
E eu, inexplicavelmente, sentia uma consolação em ler aquilo, que eu não sabia por que é que era. E fui lendo o livro, deliciado com o livro. Até me impressionou tanto aquilo tudo, que eu mandei pedir, por meio de amigos que estavam em Roma, uma estampa de Nossa Senhora de Genazzano, que eu queria ter.
Nisso, eu, inesperadamente, caí doente de um modo grave, e estive vários dias bastante doente – não digo à morte, mas mais um pouco eu ficaria mal à morte – e a minha atenção saiu um pouco do assunto de Genazzano. Afinal de contas fui para o hospital, fui operado no hospital. Graças a Nossa Senhora a operação correu muito bem… Aconteceu-me uma coisa das piores que pode acontecer a um homem que está sendo operado: eu acordei durante a operação! Mas, imediatamente me deram um remédio para eu começar a dormir de novo, e não sentir as dores naturais da operação.
Eu estava no meu quarto no hospital, com alguns amigos da TFP etc., conversando. Mas aí eu já estava falando, já estava me sentindo bem melhor, a operação tinha feito bem. Estava me sentindo bem melhor.
Durante o período em que eu estive assim muito mal, naturalmente me veio ao espírito a idéia de eu podia morrer. Então, a pergunta: “E como é minha vocação? Será que eu fiz alguma coisa que desagradou Nossa Senhora, e pelo que Ela resolveu tirar-me dessa vida? Será um castigo? O que é que eu fiz? Eu preciso fazer um exame de consciência, para ver se eu fiz alguma coisa que desagradou a Nossa Senhora, se alguma coisa que está sendo feita na TFP está errada etc.” E refiz aquilo tudo, não encontrei.
Estava nessa perplexidade, quando entra um amigo me dizendo, com um rolo assim de papel: “Aqui está a estampa de Nossa Senhora de Genazzano que o senhor mandou vir da Europa. Chegou agora com fulano, e trouxe para o senhor ver”.
E eu, sem muita esperança, abri a estampa. Quando abri, e olhei para a estampa, se deu uma coisa inesperada, que eu nunca pensei. Não houve um milagre. Mas foi como se a estampa me olhasse, me olhasse com muito amor! O Menino Jesus… E alguma coisa me dizendo no interior da alma o seguinte: “Não se incomode, porque essa doença não vai lhe matar. Você viverá o tempo necessário para cumprir a sua vocação!”
Mas, é uma coisa curiosa, porque não foi uma aparição no papel do quadro – é um quadro – no papel do quadro tinha impressa a figura, é um papel. Nada se moveu dentro do papel. Mas, eu tinha inexplicavelmente a impressão de que Nossa Senhora estava me falando. Não falando, Ela não estava dizendo: “Plinio!” Ela estava se comunicando comigo por aquele intermédio, não sei como, mas Ela estava se comunicando comigo. E até hoje eu conservo a firme convicção de que Nossa Senhora estava se comunicando comigo.
Mas eu não disse nada a ninguém. Eu fiquei quieto. Fiquei quieto, pus o rolo de papel de lado, numa mesa, uma coisa qualquer, e continuei a conversar. De maneira que ninguém percebeu que tinha acontecido nada. Porque a minha primeira preocupação era manter aquilo em reserva, até eu ter tempo de analisar bem a questão.
Entretanto, Dr. Caio Xavier da Silveira, que alguns dos senhores talvez não conheçam, porque está trabalhando para nós em Paris há muitos anos, e Dr. Eduardo Brotero – que os senhores todos conhecem, porque dirige um organismo popularíssimo aqui, que chama DAFN [Diretoria Administrativa Financeira Nacional], bem-amado por todos os senhores… – estavam junto comigo, eram dois dos que estavam na sala quando eu desenrolei a estampa. Eles estavam assim em pé, um de um lado, e outro do outro, assim fortuitamente.
Eles disseram, mas muitos anos depois, dez anos depois, que os dois não tinham percebido que Nossa Senhora me tivesse dito nada, mas viam que Ela me olhava com muito amor! Um amor muito insistente, que confirma o que eu tinha visto. Porque eu não disse a eles, e eles viram alguma coisa do que aconteceu comigo.
Bem, os senhores compreendem, a partir desse momento, evidentemente, era um convite, entre outras coisas, para que eu praticasse a virtude da confiança, e da confiança tendo em vista a devoção a Ela. Quer dizer, rezando a Ela sob a invocação de Nossa Senhora de Genazzano, que eu receberia graças especialmente abundantes etc., no sentido do cumprimento da minha vocação.
E realmente foi o que aconteceu. A partir desse momento eu comecei a confiar em Nossa Senhora de Genazzano, e certo de que as coisas mais difíceis se desembrulhariam, se resolveriam etc., contra toda expectativa, e tal, tal. E assim veio acontecendo.
A doença que eu tive foi diabetes, que é uma doença que dá em certas pessoas por razões físicas, mas em outras pessoas por razões morais. E eu tinha tido um estrondo contra a TFP muito forte, e que me tinha desagradado e desgostado enormemente. E enquanto esse estrondo estava se desenrolando, um médico de minha família me encontrou, e disse: “Ué? Plinio, você está muito mais magro. O que é que você tem?” Eu disse: “Não sei, não sei o que eu tenho”. Ele me disse: “Você devia fazer um exame médico para ver se você não está com diabetes”. Eu disse: “É, vamos ver, e tal”. E não fiz nada, nem me passou pela cabeça que eu pudesse estar com diabetes.
Mas, de repente, houve certos sintomas que me levaram a ir ao médico, e o médico disse: “O senhor está com diabetes adiantadíssima!” E foi isso que tornou necessária a operação.
E a diabetes tem isso de próprio, que a pessoa não pode atormentar-se, não pode ter aflição. Se tiver, ataca uma glândula – o pâncreas – e por causa disso a pessoa não pode ter aflições. E exatamente eu tive tantos, tantos aborrecimentos, que se não fosse a confiança em Nossa Senhora de Genazzano, eu teria morrido. Mas com a confiança em Nossa Senhora Genazzano, me foi dado agüentar os aborrecimentos piores, os mais graves, com serenidade, certo de que Nossa Senhora ajudaria.
E foi isso: uma sucessão de coisas que dava para naufragar, e o barco foi atravessando, atravessando, e chegou até agora. De maneira que aí os senhores têm a explicação de minha devoção a Nossa Senhora de Genazzano.
Estive em Genazzano para dar ação de graças, quando eu fiz 80 anos. Portanto, há um ano e meio atrás. Nós fomos fazer um rápido giro na Europa, mas passando uma tarde inteira em Genazzano, e rezando muito etc.
Agora, eu aí acabei de ler o tal livro que eu não tinha chegado ao fim, porque adoeci. E o livro explica pura e simplesmente isto: que a imagem, o quadro de Nossa Senhora de Genazzano, qualquer estampa que se mande fazer, de vez em quando muda de fisionomia! E que, sem falar, comunica alguma coisa à pessoa que está rezando. Quer dizer, no livro vinha a narração do que aconteceu comigo! Um livro escrito muito antes de eu nascer, do século passado. Eu nascei em 1908, nesse século.
E o livro conta até de um pintor célebre do século passado, que uma senhora muito rica de Gênova, ou de Turim, uma cidade da Itália, devota de Nossa Senhora de Genazzano, quis ter um quadro bem pintado de Nossa Senhora, para a capela dela. E como ela era muito rica, ela mandou um muito bom pintor a Genazzano, para pintar o quadro. Esse livro conta isso: o pintor chegou a Genazzano, e viu que o quadro mudava de fisionomia constantemente!
Então ele disse ao padre que ele não poderia pintar bem o quadro, a não ser se o padre autorizasse a ele de tirar a toalha do altar, colocar o cavalete e a tela em cima do altar, e ele sentado em cima do altar também para fazer a pintura. O padre autorizou. E ele trabalhou longamente… Depois, deu um documento por escrito: ele, pintor fulano de tal, esteve no dia tal em Genazzano, para efeito de conseguir pintar um quadro que a Sra. tal tinha mando pedir, tá, tá, tá. Mas que a imagem mudou consecutivamente tanto de fisionomia, que ele não pôde fixar.
O título de Nossa Senhora do Bom Conselho indica que Ela está sobretudo, principalmente voltada a nos dar às nossas almas bons conselhos. Quando algum dos senhores estiver em apuro, não souber como fazer, dificuldade qualquer da vida interior, no apostolado, na vida exterior, não sabe como fazer, rezem a Nossa Senhora do Bom Conselho, para que Ela faça ver o que deve ser feito.
E para terminar, e para os senhores terem idéia disso, basta dizer o seguinte. Duas pessoas muito eminentes que estiveram em Genazzano em ocasiões que precisavam de um conselho. Uma dessas pessoas foi nada mais nem menos que o Papa Pio IX! A Igreja estava numa situação muito difícil, e ele muito preocupado com a situação da Igreja, ele foi até Genazzano, e pediu a Nossa Senhora um conselho. E saiu de lá resolvido a convocar o Concílio Vaticano I, que foi uma das mais augustas assembléias conciliares que se reuniram na história da Igreja.
E outro foi o grande São João Bosco, Fundador dos Salesianos, que apareceu lá. Ele não contou no quê, mas ele procurou os padres, ele era padre, procurou os padres, conversou. Os padres perceberam que ele estava muito aflito. Ele rezou longamente, e saiu com uma grande tranqüilidade de alma.
Então, quando os senhores precisarem de um conselho, peçam a Nossa Senhora de Genazzano!
Nota: Para a coletânea ESPECIAL sobre Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, clique aqui.