São Pedro Nolasco, Fundador dos Mercedários: quando entre o Céu e a terra havia outro estilo de relações

Santo do Dia,  27 de janeiro de 1967

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

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São Pedro Nolasco (1189-1256), por Zurbarán

Hoje é festa de São João Crisóstomo, a respeito do qual falamos ontem, e amanhã teremos festa de São Pedro Nolasco, fundador, confessor; fundador da Ordem de Nossa Senhora das Mercês, para redenção dos cativos. Foi enterrado com sua couraça e sua espada.

A ficha, infelizmente, é muito longa, de maneira que vou me limitar a lê-la.

“Pedro Nolasco, nascido em 1189, no Languedoc (França), pertencia a uma nobre família dessa região.

“Serviu contra os albigenses no exército do conde de Montfort, que lhe confiou o filho do rei de Aragão. Pedro inspirou ao jovem príncipe uma fé profunda e fez dele um dos mais ilustres reis que a Espanha possuiu. Quando D. Tiago voltou ao seu reino, após a morte de seu pai, morto em batalha, São Pedro Nolasco vendeu seu rico patrimônio e abandonando seu país, rompido e devastado pelos albigenses, dirigiu-se à Catalunha para cumprir um voto que fizera a Nossa Senhora de Montserrat. Foi depois para Barcelona, onde o rei D. Tiago o acolheu com alegria. A Espanha, então, estava em grande parte sob o jugo dos maometanos. Muitos cristãos caíam deles prisioneiros e eram cruelmente torturados para renegarem sua santa fé.

“Muitos sucumbiam, mas outros resistiam encerrados em calabouços e eram reduzidos à escravidão. Pedro preocupava-se muito com esses últimos e com o perigo que corriam suas almas. Falava com frequência com o rei sobre esse problema. D. Tiago compartilhava sua opinião e combatia tenazmente para expulsar os mouros do país. São Pedro o encorajava nessa gloriosa e santa empresa e o ajudava com seus conselhos e orações. O rei reconhecia que lhe devia considerável parte de suas conquistas. Entretanto, como a guerra poderia demorar longos anos, era forçoso encontrar-se um meio para libertar os escravos cristãos. D. Tiago e São Pedro rezavam com insistência a Deus e a Santíssima Virgem, buscando uma inspiração, no que eram secundados por seu confessor, São Raimundo de Penaforte, homem ilustre pelo saber e virtudes.

“No dia 1º. de Agosto de 1218, sob o Pontificado do Honório III, por volta da meia noite, a Rainha dos Anjos desceu do Céu, acompanhada por um grande número de espíritos celestes e de santos, entre os quais encontrava-se o apóstolo São Pedro, São Tiago, patrono da Espanha, Santa Eulália e outros patronos de Barcelona.

“Ela apareceu a São Pedro Nolasco,  que estava em oração. ‘Eu sou, disse, a Mãe do Filho de Deus, que para a salvação e liberdade do gênero humano, morreu sobre a cruz. Eu venho procurar homens que a seu exemplo queiram dar a vida para a liberdade de seus irmãos cativos. É um sacrifício que lhe será muito agradável. Desejo que se funde em minha honra uma Ordem, cujos religiosos resgatem os escravos cristãos e se deem mesmo como penhor, se for necessário, para aqueles que não possam ser libertados de outra forma. Tal é, meu filho, a minha vontade. Enquanto me imploravas, com lágrimas, para aliviar o teu sofrimento, eu apresentava teus votos a meu Filho, que me enviou do Céu para ti Pedro, que eu escolhi para ser a pedra fundamental, sobre a qual repousará o edifício dessa nova Ordem’.

“São Pedro Nolasco respondeu humildemente: Creio com viva fé, Senhora, que sois a Mãe do Filho de Deus vivo, e que viestes a esse mundo para aliviar os pobres cristãos. Mas quem sou eu para cumprir uma tão difícil obra em meio aos inimigos de vosso Divino Filho, para tirar seus fiéis de suas mãos crudelíssimas?

“Nada temas, Pedro, respondeu a Rainha dos Anjos. Eu te assistirei e para que creias nas minhas palavras, verás logo a execução do que te anunciei. E meus filhos e filhas dessa Ordem se glorificarão se usar hábitos brancos como os que eu visto.

“E dizendo isso a Santíssima Virgem desapareceu. Sabe-se que no dia seguinte, indo São Pedro relatar o sucedido a São Raimundo de Penaforte, este também tivera visão semelhante, o mesmo acontecendo ao rei D. Tiago. A este último a Mãe de Deus recomendara que a nova Ordem recebesse o nome da Santa Maria das Mercês, ou da Misericórdia. O dia 10 de Agosto do mesmo ano foi escolhido para começar a grande empresa. O rei se dirigiu à catedral, onde uma enorme multidão se comprimia, pois, a notícia do milagre já se espalhara por todo o reino.

“Estava acompanhado de São Pedro Nolasco e de São Raimundo de Penaforte, dos conselheiros de Barcelona e de toda a nobreza. O bispo celebrou a Missa, e após o Evangelho, São Raimundo subiu ao púlpito contando a visão que tivera, com uma eloquência e fervor admiráveis. O povo, ouvindo, agradeceu publicamente a Santa Virgem a piedade que se manifestava pelos escravos. Terminado o sermão, o rei desceu de seu trono, seguido dos grandes do reino. O bispo, com a ajuda do soberano e de São Raimundo de Penaforte, deu o hábito a São Pedro, ajoelhando.

“Todos três choraram de alegria, ao vestirem o traje branco que se assemelhava ao da Rainha do Céu. O rei colocou, em seguida, com  suas próprias mãos, sobre o escapulário, o escudo das nossas armas, no meio do qual havia uma cruz branca, insígnia da catedral de Barcelona, onde a Ordem se iniciava. Depois, por sua vez, São Pedro deu o hábito a seis sacerdotes e sete cavaleiros, que já faziam parte de uma espécie de Congregação que se ocupava do resgate dos cativos. Após os três votos comuns de pobreza, castidade e obediência, todos fizeram um quarto voto, que era o de se empenhar a si próprios, se fosse preciso, para a liberdade dos cristãos.

“Fundado assim essa Ordem, iniciou-se o trabalho. Muito trabalhou São Pedro em sua missão, especialmente na Argélia, de onde voltou por milagre. Foi nomeado geral de sua Ordem, apesar de seus protestos. Todos os reis de seu tempo o tinham em grande estima, especialmente São Luís, que teve a consolação de vê-lo no Languedoc. São Pedro Nolasco morreu no dia de Natal de 1256.”

 

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Imagem de Nossa Senhora das Mercês, em Cádiz (Espanha)

Acho que basta, a título de comentário, mostrar a beleza que se depreende da conjugação desses três personagens tão admiráveis: do rei, de São Pedro Nolasco e de São Raimundo de Penaforte.

E depois, como um milagre dessa natureza repercutia no povo naquele tempo. Bastava uma pessoa idônea, digna de crédito contar, para que todo mundo acreditasse. Não se vinha com ceticismo tolo e míope de nossos dias, mas pelo contrário, todo o mundo dava crédito aquilo. E assim se  participava intensamente da cerimônia.

Os senhores veem os grandes do reino, o Conselho de Barcelona, a nobreza, o povo todo comovidíssimo assistindo uma reunião que tinha como base – afinal de contas – uma visão, uma revelação de caráter particular…

E os senhores veem aparecer aí uma Ordem religiosa admirável. Os senhores também observam nesses fatos um outro teor completamente diferente das relações entre Deus e homens. Hoje Nossa Senhora só aparece para chorar; Ela não fala mais. E, assim mesmo, parece que cada vez menos aparece para chorar. O Céu se torna cada vez mais distante da terra, e quando o Céu fala, os homens não dão crédito…

Pelo contrário, naquele tempo, como as relações entre o Céu e a terra eram! Quando Nossa Senhora queria qualquer coisa, Ela aparecia, falava, havia homens de Sua destra que ouviam, que recebiam Suas ordens, que as executavam, todo mundo colaborava e o povo se entusiasmava com essas coisas…

Era uma época completamente diferente da nossa, mas que nos dá um antegozo do Reino de Maria. Porque este será isso e alguma coisa de muito mais admirável que isso.

Então os senhores que terão – e, se Deus quiser, todos nós, na terra ou no Céu – a graça e a glória de ver o Reino de Maria, poderemos sentir o aroma dos dias de São Pedro Nolasco e muito mais do que isso!  Porque ninguém pode dizer o que será a maravilha da situação da Igreja, quando Ela tiver derrubado todos os seus adversários de hoje, e Nossa Senhora tiver implantado Seu Reino na terra.

 

Nota: A respeito de São Pedro Nolasco e a fundação dos Mercedários, consultem-se as matérias abaixo:

* Nossa Senhora das Mercês (24/9): Harmonia da ação com a vida contemplativa

* São Raimundo de Penaforte (7/1): a fundação da Ordem dos Mercedários

* São Raimundo de Penaforte (7/1): harmonia da alma católica e seus reflexos na sociedade

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