Semana Santa: consolação para quando sofrermos – Indignação por nossos próprios pecados e pelos dos outros

Sede do Reino de Maria, Domingo, 19 de março de 1989

 

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

 

 

A situação é a seguinte: Nosso Senhor Jesus Cristo é a cabeça do Corpo Místico da Igreja. Isso quer dizer em concreto o seguinte: a Igreja constitui uma sociedade, essa sociedade é  uma sociedade hierárquica que Ele fundou, São Pedro é o Chefe, os bispos são os príncipes locais da Igreja, enquanto o papa é o monarca da Igreja católica, manda nos príncipes, manda nos seus súditos diretos. É até um ponto muito importante da doutrina católica…

Castelhano ou “portulhano”? (…) Castelhano eu não sei falar. Português ou “portulhano”?

(português)

Está bem. Então vamos lá.

Este é um ponto muito importante da doutrina católica: o papa tem uma autoridade completa sobre todos os bispos e também sobre cada fiel, direta! Não é assim: o papa manda nos bispos e por meio dos bispos manda nos fiéis. Não, não é verdade. A autoridade do papa é direta sobre todos os fiéis. Se fosse indireta, o Papa dando uma ordem, o bispo não querendo, ele recusava e os fieis não ficavam obrigados a seguir a ordem do papa. Isso não é verdade.

O papa dando uma ordem, o bispo deve executar. Se ele não executar, do mesmo modo o fiel sabendo que o Papa mandou aquilo, o fiel deve fazer. A autoridade do papa é, portanto, direta sobre os bispos, e é direta sobre cada fiel, sobre cada um de nós. Essa é a estrutura jurídica da Igreja.

Mas além da estrutura jurídica da Igreja, constituindo um todo com Ela, existe o Corpo místico da Igreja .

O que é o corpo Místico da Igreja?

É o seguinte: Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz morreu e o sacrifício que Ele ofereceu da vida dele foi um tesouro de graças infinito, que não se pode calcular. E que se destina a todos os fiéis, em todos os tempos, em todos os lugares até o fim do mundo. Essas graças são, portanto, para salvar todos os fiéis.

Mais ainda: para atrair à Igreja aqueles que não pertencem ao grêmio dela e, portanto, heréticos, cismáticos, judeus, maometanos e tudo o mais que há por aí, ateus, atraí-los para a Igreja em virtude das graças que Nosso Senhor Jesus Cristo conseguiu no alto da Cruz.

Ele foi o Redentor. A Corredentora é Nossa Senhora. Pelas lágrimas dela, Ela concorreu para redimir o gênero humano. Então, é o sangue de Cristo, fundamentalmente. E porque Ele quis dar a Ela essa função nobilíssima, Ele quis que as lágrimas dela também fossem tomadas em consideração pelo Padre Eterno para remir o gênero humano, e como tesouro para o gênero humano.

Bem, mas Ele quis também que os nossos sofrimentos individuais sofridos por amor a Ele, esses sofrimentos também fizessem parte desse tesouro da Igreja. Então, é por isso que nós vemos que os santos sofreram tanto. É porque eles, com o sofrimento deles, também representavam algo, e representam algo para o tesouro da Igreja.

Isso se simboliza de um modo bonito na Missa. Os senhores já viram, quando chega na hora da  consagração, um pouco antes da consagração o padre recebe uma gota de água dentro do vinho que vai ser consagrado. Aquela água não pode ser consagrada, porque Nosso Senhor Jesus Cristo estabeleceu que a consagração é só com o pão e vinho. Se quiser consagrar só água não sai a consagração. Mas aquela água misturada com o vinho forma um só líquido com o vinho. E na hora da consagração ela é  consagrada também. De maneira que aquela gota d’água incapaz de ser transubstanciada no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, ela é, entretanto, transubstanciada enquanto misturada naquele vinho. É o símbolo do sacrifício dos fiéis.

Nosso sacrifício não vale nada. Mas unido ao de Cristo Nosso Senhor e às lágrimas de Maria, também ele vale alguma coisa. E é um lindo símbolo para  nos animar a sofrer nas nossas lutas, perseguições, trabalhos, incompreensões, dificuldades etc., sofremos e vamos para frente. Aumenta a gota de água simbolicamente, quer dizer, aumenta a contribuição que Nosso Senhor Jesus Cristo quis que fosse indispensável também para a salvação dos homens. Quer dizer, pelo critério, pelo gosto dEle, Ele podia dispensar isso, mas Ele quis dar-nos essa glória de nos associar a esse  tesouro.

Então quando algum dos senhores estiver sofrendo, lembre-se disso: o sofrimento dos senhores é a gota d’água. Mas essa gota d’água certamente vai ser misturada aos sofrimentos indizíveis dele, infinitos dEle, e os sofrimentos preciosíssimos de Nossa Senhora e  vai servir para redimir todo o gênero humano.

E por isso eu costumo dizer que não sei se alguém possa fazer melhor coisa pela Igreja do que sofrer por Ela. Porque quase ninguém quer sofrer. Eu falo debaixo desse ponto de vista: quase ninguém quer sofrer. Existem alguns que rezam e que  trabalham; sofrer, todo o mundo tem medo.

Então, Nossa Senhora nos manda um sofrimento, nós devemos aceitar com contentamento. Vamos ser mais úteis à Igreja do que se fizéssemos um lindo discurso, montássemos uma grande associação ou qualquer outra coisa: nós estamos sofrendo!

Não sei se essa explicação está clara? (Claríssimo). O conjunto desse tesouro é um tesouro que tem um conjunto de almas portanto, que sofre, Nosso Senhor Jesus Cristo com o santo sacrifício da Missa renova sempre a Sua Paixão de modo incruento, não derrama mais sangue, mas renova a Sua Paixão, e nós, em última análise, bem no fundo, bem embaixo, nós também aumentamos isso. Formam uma espécie de banco do sobrenatural.

Mas que Nosso Senhor Jesus Cristo é tanto mais do que todo mundo, e que Ele se chama a Cabeça desse tesouro. E os outros são o corpo desse tesouro. Esse é o corpo Místico de Cristo.

Agora, Nosso Senhor, do alto da Cruz, Ele viu porque Ele é Homem-Deus. Enquanto Deus, para Ele não há presente, nem passado, nem futuro, tudo é simultâneo. Presente, passado e futuro são próprios para nós que estamos metidos na matéria, temos um corpo material. A matéria tem presente, passado e futuro. Mas para as coisas do espírito não tem.

E Ele viu tudo quanto haveria de pecado até o fim do mundo. E Ele sofreu com esses pecados. Ele conheceu cada homem, conheceu cada alma. E durante a Paixão dEle, Ele rezou por cada homem que haveria de haver e cada alma até o fim do mundo, inclusive pelas almas que recusaram a graça, e que depois foram para o inferno. Ele rezou.

É uma coisa de uma generosidade, de uma abundância, uma coisa extraordinária, maravilhosa, naturalmente. Uma coisa maravilhosa!

Agora acontece o seguinte: durante a Semana Santa nós revivemos com Ele a Paixão dEle. Quer dizer, a Semana Santa celebra a Paixão dEle.

Então, Quarta-feira Santa começa propriamente a parte mais densa da Semana Santa. Rezava-se na Igreja – não sei se ainda rezam – o Ofício de trevas, Ofício que canta as trevas que vão enchendo o mundo, porque Nosso Senhor está sendo perseguido.

Depois, Quinta-feira tem a Missa que se reza, que celebra a instituição da sagrada Eucaristia. E depois o padre conduz o Santíssimo Sacramento até uma caixa bonita de madeira, dourada etc., etc., que é chamada “sepulcro”. Porque assim como Ele depois da Ceia sofreu a Paixão e depois morreu, então depois da Missa que celebra a Ceia, as  igrejas não tocam mais os sinos, faz-se a cerimonia tocante da desnudação dos altares: o padre vai de altar por altar, tira as flores, tira os vasos, apaga as velas, os altares ficam nus, como se o culto tivesse cessado, porque Nosso Senhor está “morto” naquela caixa. E todos os sinais de alegria da Igreja cessam. Nosso Senhor está morto.

Na Sexta-feira Santa se celebrava a morte dEle. Então nesse dia não se comungava, porque o corpo dEle, o sangue dEle, a  sagrada Eucaristia estava no Sepulcro. Era o dia em que se osculava a Cruz. Os padres colocavam junto ao altar, mas na parte onde estão os fiéis, junto ao presbitério portanto, colocavam uma cruz enorme, e os fiéis com uma música cantando coisas assim de dor, iam um por um oscular as chagas das mãos e dos pés dele, os que queriam osculavam também as chagas do sagrado lado, aqui, onde a lança de Longinus entrou. E se retiravam.

Quando chegava o bispo, tudo parava; o bispo descia, com um revestimento todo roxo, com uma capa roxa, descalço em sinal de penitência, e percorria a Igreja inteira descalço, com meias naturalmente, chegava até o crucifixo, osculava também. Depois saía pelo fundo da Igreja. E ficava tudo quieto, parado etc.

No Sábado de Aleluia, era o Sábado que comemorava, já começa a alegria da Ressurreição. E ao meio-dia então começava a bimbalhar: Cristo tinha ressuscitado.

E havia aqui no Brasil, não sei se nos países dos senhores é a mesma coisa, havia um costume muito bonito: os moleques – sabem o que é “moleque”, não é? – produziam  uns bonecos grotescos que eles chamavam de “Judas”. E nessa hora era a hora de “malhar o judas”. Eles esperavam o Judas etc., e todos os sinos das igrejas tocavam, tocavam, era a  ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo!

No Domingo a Igreja estava toda florida e vitoriosa. Cristo tinha ressuscitado, celebrava-se a Missa!

Bem, a gente deve viver cada um desses dias.

No dia de trevas [Quarta-feira Santa], a gente deve amar a Igreja enquanto sofrendo hoje em dia, deve-se aplicar para nossos dias, as trevas que vão enchendo o mundo, a escuridão do pecado, da desordem, a abominação que vai enchendo o mundo em todos os sentidos: trevas.

Depois, na Quinta-feira Santa nós devemos comemorar a resistência de Nosso Senhor diante de todas essas trevas. Ele constitui a sagrada Eucaristia para estar  conosco em todas as ocasiões. Então, devemos comungar com uma especial devoção, mas devemos começar a prantear a morte dele.

Mas prantear como pecadores, que sabemos que nós O ofendemos no passado, e que nós choramos os nossos pecados a vida inteira.

São Pedro, por exemplo, chorou a negação dele a vida inteira. Conta a tradição que quando ele morreu, ele foi – como os senhores sabem – crucificado de cabeça para baixo pelos romanos. Ele tinha chorado a vida inteira tanto de ter negado Nosso Senhor, que ele tinha dois sulcos no rosto, que eram das lágrimas que corriam…

Bem, então, também nós devemos ter na nossa alma dois sulcos: a tristeza dos pecados que cometemos, a  tristeza dos pecados que os outros comentem. Mas não é uma tristeza de velha chorona, não. É uma tristeza de varão! Quer dizer, a indignação contra nossos pecados. Não me adianta eu me indignar com o pecado dos outros e não me indignar com o meu! Primeiro é com o meu, quem pecou fui eu! E eu fui o autor do meu pecado! “Quia pecavi nimis cogitatione, verbo et opere”, está dito no “Confiteor”. Quer dizer, porque eu pequei muitíssimo pelos pensamentos, pelas palavras, e pelas ações, por minha culpa, por minha culpa, por minha máxima culpa! Portanto, peço e rogo à  Bem-aventurada Virgem Maria etc., vem o “Confiteor” todo.

Deve nos encher essa idéia dos nossos pecados e dos pecados dos outros.

No Sábado, devemos oferecer a Nossa Senhora todos os nossos trabalhos para apresentar a Ele, todos os nossos trabalhos para malhar a Revolução gnóstica e igualitária!

E Domingo, é a  esperança do Reino de Maria!

Foi um pouquinho comprido, está dito o que devia ser dito.

Os senhores conhecem mais uma frase latina, não é? Não conhecem, é? Então é bom que eu lembre: “fugit irreparabile tempus”!…

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