19 de maio
de 1983
Entrevista
sobre: a obra "Revolução e Contra-Revolução"; o movimento pacifista
("Peace Mouvement");
explanação a respeito da guerra psicológica revolucionária; a posição da Igreja
hoje em relação ao problema da Revolução e da Contra-Revolução
(Locutor:
Em 1959 o Dr. Plinio Corrêa de Oliveira publicou o livro Revolução e
Contra-Revolução, traduzido para o inglês, francês, italiano e
espanhol, inspirou a formação dos 15 grupos TFPs hoje existentes no mundo. A
respeito deste livro temos algumas perguntas a fazer a Dr. Plínio. O Sr.
poderia nos explicar o que seja a Revolução?)
A Revolução é uma longa concatenação de movimentos que
começou no século XVI com o Protestantismo e que continuou através das eras
subseqüentes até os nossos dias em que o aspecto mais recente dela é chamada
Revolução ou autogestionária, ou punk,
ou ecológica, conforme se queira denominá-la.
Esta Revolução é um movimento que fundamentalmente
tende a estabelecer a supremacia do homem sobre todo o universo, ignorando a
existência de Deus, transcendente e supremo. E, em vez disso, afirmando a
existência de um Deus panteísta, quer dizer, de um Deus que se confunde com
toda a natureza, que está disseminado em toda a natureza e que é não uma pessoa
mas é mais uma energia universal que teria originado todas as coisas. Energia
esta que habitaria em nós que portanto seríamos divinos, como é divino tudo
quanto existe.
Ao contrário disso – como nós bem sabemos – a doutrina
revelada, da qual a Igreja Católica é mestra infalível, a doutrina revelada nos
ensina que Deus é um ser supremo, puro espírito, eterno, infinito,
perfeitíssimo e inteiramente transcendente das criaturas, as quais Ele tirou
todas do nada e às quais Ele ama com um amor infinito.
Negando esta existência de um Deus extrínseco ao homem
e portanto superior ao homem, a Revolução passou dessa negação velada ainda no
Protestantismo, ela passou para uma afirmação no próprio Protestantismo ainda,
uma afirmação igualitária de outra ordem. Ela passou a estabelecer uma
alteração na forma de governo eclesiástico. Nós sabemos que segundo Santo Tomás
de Aquino a forma perfeita de governo é aquela que se compõe igualmente de
elementos monárquico, aristocrático e democrático. A Igreja – Leão XIII ensinou
muito bem – considera essas três formas
de governo justas. Nada há que se oponha a que elas se componham ou se combinem
para o bem comum. E Nosso Senhor Jesus Cristo instituindo sua Igreja, lhe deu
como forma de governo a composição dessas três formas. O elemento monárquico na
Igreja é representado pelo Papa; o elemento aristocrático é representado pelos
Bispos; e o elemento democrático é representado pelo povo. Os três: Papa,
bispos e povo constituem a Igreja católica.
Mas a Igreja católica, segundo o ensinamento de todos
os Papas, e eu me lembro aqui especialmente de São Pio X condenando erros
modernistas a esse respeito, a Igreja católica ensina que Ela mesma é dividida
em dois setores: um é da Igreja hierárquica e outro é da Igreja dicente. A Igreja docente, hierárquica, tem o poder de
ensinar, de governar, de santificar. A nós, leigos fiéis, toca sermos
ensinados, governados e santificados.
Há portanto essa divisão fundamental na Igreja, mas
depois na própria hierárquica eclesiástica há graus diferentes que chegam até à
suma pessoa de sua Santidade o Papa.
O protestantismo levantou-se contra isso. E proclamou
a não existência de uma diferença fundamental entre o laicato e o clero.
Proclamou depois, conforme as seitas, entre os episcopalianos
negou o Papa e proclamou uma espécie de república na Igreja, república
aristocrática. Entre os presbiterianos ela foi mais longe e proclamou uma
república aristocrática pequeno-burguesa, porque
admitia apenas a existência de eclesiásticos. Mas nos quakers,
nos niveladores e outros movimentos protestantes assim, ela negou até a
existência dos sacerdotes. E a igualdade completa se afirmou.
Este desejo extremo da igualdade completa, subjacente
e disfarçado – subconsciente é melhor
de que disfarçado – nas várias
confissões protestantes, esse desejo entretanto se exprime de modo mais cru e
mais radical na seita dos quakers. A qual seita é
como um pólo para o qual vão caminhando, sem perceber, as várias seitas
protestantes.
Quer dizer, se tomarmos uma igreja episcopaliana
em nossos dias e formos ver quais são os poderes de um bispo episcopal, de um
bispo anglicano hoje, e um bispo anglicano pouco depois da ruptura com a
Igreja, vê-se que o bispo anglicano hoje pode muito menos do que outrora. Na
aparência o cargo existe, mas foi erodido no seu
interior, está sendo erodido cada vez mais no seu
interior. Por que? Por causa da Revolução igualitária que tende a assimilar aos
quakers essa igreja, como a igreja presbiteriana,
como as demais. É uma tendência para a igualdade completa.
Essa tendência para a igualdade completa foi contida,
no que diz respeito à Igreja católica, pela Contra-Reforma, da qual tenha sido
talvez o maior vulto o grande Santo Inácio de Loyola.
O Concílio de Trento conteve pela Contra-Reforma esse
movimento igualitário dentro da Igreja. E muito habilmente barrado assim, e
querendo afirmar-se não apenas nos países protestantes, porém também nos países
católicos, o igualitarismo passou para a sociedade civil. E idéias igualitárias
começaram a correr a sociedade européia no século XVII e no século XVIII,
especialmente no século XVIII.
Afirmando de um ou de outro modo a necessidade de uma
sociedade temporal e civil inteiramente igualitária. À sombra do absolutismo
monárquico, então imperante na Europa, as idéias mais
radicalmente igualitárias livremente se disseminaram. Exemplo: a liberdade com
que os dois principais doutores do igualitarismo em matéria temporal naquela
época, Voltaire e Jean Jacques Rosseau, puderam fazer a
sua pregação igualitária e republicana, niveladora, quase sem ser perturbados
pela polícia dos reis absolutos de França, durante todo o tempo que quiseram.
Essas e outras circunstâncias prepararam a sociedade
européia para o grande abalo que foi a Revolução Francesa, a proclamação da
república na França, a decapitação do Rei Luís XVI e da Rainha Maria Antonieta, a extinção da
nobreza, a separação da Igreja e do Estado, a negação pela república francesa
do direito ao Sumo Pontífice de nomear os bispos, a dependência dos bispos de
uma espécie de consenso das autoridades republicanas indicadas por sufrágio
universal. Enfim, a instituição da igualdade política completa e uma tendência
para a igualdade econômica completa.
Quando a Revolução Francesa ia caminhando para o seu
ocaso, ela teve um estertor, e esse estertor foi uma revelação mais radical do
que a própria Revolução Francesa, gemido ou blasfêmia última da Revolução
Francesa moribunda: foi a revolução de Babeuf,
nitidamente comunista. Hoje, aliás, muitos historiadores reconhecem que a
Revolução Francesa em sua raiz era comunista, e o era mesmo.
Se nós formos admitir que todos os homens são iguais
por natureza e que toda desigualdade entre eles é uma injustiça, a pergunta se
impõe: por que é só injusta a desigualdade política e não é injustiça também a
desigualdade econômica? Ora, a desigualdade econômica é exatamente o alvo da
Revolução, filha dos princípios da Revolução Francesa, que vem a ser a
Revolução comunista.
Mais uma vez nós vemos que foi em terras de absolutismo
que a Revolução deu mais um passo. Ela derrubou em 1917 o tzarismo,
forma muito característica de monarquia absoluta, e implantou o comunismo. O
comunismo se afirmou pela concentração de todos os bens no Estado. O Estado é o
único proprietário de todos os bens. E de outro lado pelo ateísmo de Estado. O
Estado persegue todas as religiões, ou se as tolera é apenas por política, para
evitar perturbações populares muito grandes. Mas servindo-se da própria
religião para extinguir a religião.
Quer dizer, designando para a igreja greco-cismática russa, designando para ela bispos e
sacerdotes formados em seminários impregnados de doutrina comunista e que em
nome da religião greco-cismática pregam o comunismo.
Assim, portanto, a vitória do comunismo na Rússia foi uma vitória completa.
A Rússia vai se alterando aos poucos, como todos os
países detrás da Cortina de Ferro, tendem para uma nova forma de comunismo, e
aparece aí a IV Revolução.
No que consiste esta nova forma de comunismo?
No afã de igualdade, a existência de um Estado ainda é
algo que representa a desigualdade. Porque o Estado supõe um poder e um poder
que se exerce sobre outro. E essa desigualdade revolta o senso igualitário,
ateu, do comunismo. Donde uma tendência a não haver mais poderes e não haver
mais leis; nem leis morais, nem leis civis.
Esta tendência se exprime na IV Revolução de que
maneira? Do ponto de vista dos bens, mantendo a supressão da propriedade
individual, não haverá. Em regime autogestionário, que é o regime
sócio-econômico da IV Revolução, não haverá propriedade individual. Haverá
apenas grupos sociais, os quais são proprietários dos bens nos quais trabalham
os componentes desses grupos sociais: os operários proprietários da fábrica, os
trabalhadores rurais proprietários da fazenda onde trabalham e assim por
diante.
Cada grupo faz a lei para si mesmo. E, no fundo da
perspectiva autogestionária, não existe Estado. Estes
grupos são pequenos Estados que se entrerelacionam
uns com os outros por um consenso mútuo, mas não existe mais Estado. E os mais
modernos dos autogestionários afirmam que a única forma verdadeira de vida para
o homem é o tribalismo indígena.
O tribalismo indígena, que
por exemplo no Brasil é pregado pelo bispo missionário espanhol Dom Pedro
Casaldáliga, a cerca do qual eu escrevi
um livro. O tribalismo indígena que é
organizado dessa maneira (as tribos norte-americanas índias também o eram assim):
há um pajé que recebe comunicações das forças teluricas
universais e as polariza. E com isto indica aos membros da tribo o que deve
acontecer. Como essas forças universais da natureza estão em contato com cada
índio, cada índio impulsionado também ele por essas forças, quer o que o pajé
diz. O pajé é apenas o explicitador do que todos
querem. O pajé no meio de seus cânticos, suas embriagueses,
suas convulsões, explicita o que a natureza quer no interior de cada índio, e a
tribo vive no consenso. O regime tribal, com o primitivismo
tribal, é a meta de chegada da Revolução igualitária. É a barbárie.
Por isso mesmo a ausência de leis, inclusive da lei
moral. Os senhores vêem bem como a moralidade a todo momento é contestada,
diminuída e desprezada hoje. A própria lei moral deve desaparecer para ficar
apenas uma ordem de coisas em que o homem, atendendo a todas as suas
apetências, não destrói entretanto a pequena
coletividade primitiva na qual está inserido. É o índio. O índio não tem –
dizem eles, eu acho a afirmação falsa –
que o índio não tem moral, tem apenas apetências circunscritas e essas
apetências circunscritas não chegam até à explosão.
Então é o homem inteiramente livre, que faz aquilo
tudo que quer, que obedece não a um Deus pessoal, mas ao movimento geral da
natureza e este homem afinal atingiu a liberdade, a igualdade e a fraternidade
por inteiro.
O punk, o ecologista de
hoje, são isso. Ecologista não é o homem que aprecia a beleza da natureza (isso
qualquer de um nós aprecia); que quer proteger contra as depreciações da sociedade
moderna (todos nós o queremos). [Ecologista] é o homem que quer viver nessa
comunidade com a natureza, inteiramente isolado e numa espécie de culto ou
comunicação telepática com a natureza, governado por ela e arredio dos outros
homens.
Essas são as quatro Revoluções sucessivas, cuja
consideração de conjunto, dá aos meus caros ouvintes uma idéia global do que
seja a Revolução.
(Locutor: O
senhor fala na III parte no livro sobre a guerra psicológica revolucionária. O
sr. poderia explicar a relação disso com o fenômeno Revolução?)
De bom grado. A guerra psicológica revolucionária está
baseada num fato experimental que é o seguinte: Os homens não são governados
apenas por silogismos, mas eles são governados também por reflexos, por
movimentos de alma vários que os levam, os impelem de um lado para outro sem
que eles racionalmente se dêem conta do que estão fazendo. Isso é especialmente
claro na infância, é especialmente claro na outra extremidade da vida, quando a
pessoa imerge na senilidade.
Mas também é claro em muitos aspectos na alma do homem
contemporâneo, tão amigo de uma “espontaneidade” que se deveria pronunciar como
se estivesse escrito entre aspas, e que não é senão o realizar absolutamente
livre de todos os caprichos, mesmos quando irracionais. São reflexos de alma.
Ora, esses reflexos de alma podem ser influenciados
por circunstâncias externas. Isso é da experiência de todos os dias. A pessoa
está alegre, entra numa sala decorada com gravidade, pode por isso sentir-se
triste. Ou pode sentir convidada para a reflexão. Uma pessoa pelo contrário
está muito refletida e ponderada, passa por um jardim com uma apresentação
botânica muito agradável, seu estado de espírito pode mudar e ele sente-se
alegre. As circunstâncias estranhas condicionam a atitude temperamental do
homem.
Compreende-se também que a vontade de lutar ou a
vontade de descansar, a vontade de avançar ou a vontade de fugir, enfim, os mil
movimentos do instinto de conservação, ou do desejo de predomínio, esses mil
movimentos possam ser condicionados por fatores extrínsecos.
Compreende-se que um homem que tenha, por exemplo, em
seu escritório duas belas abarbadas cruzadas, tenha na visão desses objetos um
elemento para que seu espírito polêmico se desenvolva. Mas compreende-se também
que um outro que tenha um quadro representado um lindo cordeiro com uma fita
azul clara amarrada ao pescoço e que está dormindo languidamente junto ao
riacho, tenha nisso um elemento para se sentir propenso ao pacifismo.
Nós não podemos imaginar esse quadro presente na tenda
de um grande general durante a guerra, como não podemos imaginar também as
alabardas presentes num escritório de um grande diplomata perito em negociações
de paz. Essas coisas produzem estados de espírito diversos.
A partir disso, que é corrente, desenvolveu-se uma
ciência que visa o seguinte: conhecer quais são as circunstâncias que
influenciam a vontade da pessoa, do especialista, o estado de espírito de
terceiros, sem que os terceiros percebam. Esses terceiros podem ser 1, 2, 3
pessoas, que o especialista quer influenciar. Mas pode ser uma multidão também.
Influenciar as multidões por meio de estímulos desses, músicas, canções,
prédios, hábitos sociais – que sei eu! – até uma forma nova de sorvete, pode
condicionar em algo o estado de espírito de uma multidão.
Nessas condições a gente compreende que um país possa
ter eminentes especialistas que provoquem no país adversário, ou pelo menos
rival, as reações temperamentais que levam a opinião pública a atitudes
desanimadas, atitudes moles, atitudes frouxas, a um otimismo tolo, na hora da
luta e do sacrifício. Na hora em que uma guerra está para ser travada ou na
hora em que o país está batalhando mas precisa das suas últimas energias para
dar o passo decisivo e vencer a guerra. Pode ser que nessa hora que um estímulo
sagaz, vindo de fora produza uma diluição dos temperamentos e uma entrega do
país.
Guerrear tirando do adversário a vontade de fazer a
guerra é um modo ainda de guerrear. E a isto se chama hoje em dia uma arma a
mais. Todos os especialistas da guerra além da infantaria, dos tanques, da
marinha, da aeronáutica, da artilharia, reconhecem como nova guerra a guerra
psicológica destinada a fazer que um país vença outro país.
Agora o que é guerra psicológica revolucionária? Pode
ser que uma determinada corrente empenhada em fazer uma Revolução use esses
recursos contra as classes sociais ou contra as correntes ideológicas que se
oponham a essa Revolução. É o caso do comunismo. Ele usa contra a burguesia
toda a forma de recursos destinados a tirar da burguesia a vontade de resistir;
a tirar a classe popular a conformidade e boa amizade com a burguesia e a
jogá-la contra burguesia, subconscientemente, por meio de estímulos. Esta é a
guerra psicológica revolucionária.
Quando se lê a história, tem-se a impressão que certos
grupos históricos sempre conheceram
– como? também não sei – essa
arte. Porque quando vamos ver a expansão do Protestantismo no século XVI; da
Revolução nos séculos XVIII e XIX, da Revolução Francesa; e do comunismo em nossos dias, e agora do ecologismo, nós vemos que sempre tudo se passa como se essa
arma fosse utilizada por eles no próprio benefício e em detrimento ao
adversário. Donde essas vitórias em cadência dessas revoluções sobre os
adversários. É claro que não é o fator único dessa vitória, mas é um fator
muito poderoso.
(Como o
sr. vê a posição da Igreja hoje em relação ao problema da Revolução e da
Contra-Revolução?)
Se por Igreja se entende o que se deve entender, quer
dizer, o rebanho dos fiéis de Jesus Cristo, dirigidos pelos seus legítimos
pastores, eu sou obrigado, eu como católico apostólico romano – é o título que
eu mais prezo em minha vida é o de católico, apostólico, romano – eu sou
obrigado a reconhecer entretanto que a Igreja está trabalhada a fundo pela
Revolução.
A Revolução no que ela tem de lógico, de intelectual,
de científico, mas a Revolução no que ela tem também de psicológico e de
dependente e de manuseável pela guerra psicológica
revolucionária. Toda espécie de correntes revolucionárias a percorrem num
regime que nós poderíamos chamar pelo menos de meia impunidade. E este regime
de meia impunidade é sempre um bafejo para o mal. Porque quando o mal é meio
impune, o bom é escravo.
É mais ou menos como numa cidade onde o crime e o
roubo e o crime e assassinato são meio impunes. Os homens honestos são escravos
de uma malta de bandidos. Infelizmente na Igreja, os católicos verdadeiramente
ortodoxos vão sendo cada vez mais marginalizados, cada vez menos bem
compreendidos, enquanto cresce a área daqueles que são influenciáveis pela
Revolução.
(O Peace Mouvement está crescendo na
Austrália, como também na Europa e Estados Unidos. Qual a relação disso com a
Revolução?)
Eu acho que para não fazer digressões doutrinárias que
enquanto longas demais cansariam os ouvintes já fartamente objeto de uma
distribuição de doutrinas nessa entrevista, eu diria uma coisa muito rápida que
é a seguinte: a psicologia do “Peace Mouvement” se pode compreender perfeitamente na tese do
desarmamento unilateral. Os partidários do desarmamento unilateral são o pólo
de atração para o qual convergem quase todos – para dizer “quase” – todos os
partidários desse movimento de paz internacional. E a tese é de que ainda que a
Rússia não se desmobilize do ponto de vista atômico, as nações do Ocidente, não
comunistas, devem destruir as suas armas atômicas, inclusive as destinadas para
mera defesa. Porque a guerra atômica é uma coisa tão terrível que mais vale a
pena capitular ante a Rússia e aceitar o comunismo do que enfrentar a guerra.
Compreendem que essa tese só pode significar a entrega
do mundo inteiro ao domínio comunista, a entrega covarde do mundo inteiro ao
domínio comunista. Ora, há um princípio aplicado pelos penalistas
e que não falha. E’ o seguinte: quando acontece [algo] e se que saber qual é o
autor, é preciso ver a quem aproveita. Eu pergunto: A quem aproveita esse
movimento de paz? A um verdadeiro entendimento entre as nações ou é a Rússia
soviética que fica dominando o mundo?
A segunda hipótese é a hipótese evidente. Nós compreendemos
por aí que esse “Peace Mouvement”
não é senão um artifício de guerra psicológica revolucionária para que a Rússia
possa dominar o mundo sem os riscos de uma guerra. Eis aí o que me ocorreria a
dizer sobre o caso.
(Uma
última pergunta: o que se pode fazer contra a Revolução?)
Meu caro, a sua pergunta cai no momento em que ainda
estamos no período em que se pode rezar o Regina
Coeli, até 18:15 hs.
Uma boa resposta é esta: a primeira coisa que se deve fazer é rezar. Comecemos
portanto a rezar agora aqui o Regina Coeli, do tempo pascal.
Regina Coeli laetare alleluia...
Eu explicarei dentro de um instante porque é que se
deve começar por rezar. Eu quero inserir esta pergunta dentro de um quadro mais
amplo. É certo que a Revolução caminha tanto, porque em geral, por um artifício
da guerra psicológica revolucionária que em nossos dias chegou ao seu auge,
acontece que a maior parte das pessoas se manifestam muito desprevenidas em
matéria de Revolução, quer seja pelo desejo de gozar a vida e não ver o perigo,
quer seja pela natural inexperiência que tem nessas matérias as pessoas que não
se atém ao estudo direto – e eu quase diria especializado – desse grande
fenômeno coletivo.
Seja como for, um movimento que avança porque poucos
lhe dão atenção, e que emprega todo o cuidado para impedir que se preste
atenção em si, reconhece implicitamente que ele não é popular. Porque quem
avança escondido, entra onde não é desejado. Uma pessoa que é desejada não se
esconde. Os ladrões entram escondidos; os convidados entram pela porta
principal, não pulam a janela. O comunismo está pulando a janela do mundo
ocidental. Ele entra mais ou menos escondido. Ele transforma os costumes e as
mentalidades para o mundo contemporâneo vir a ser comunista sem que o mundo se
dê conta disso.
É claro que à medida que ele vai chegando ao seu alvo,
as pessoas vão notando e prestando atenção. E pessoas que viveriam de uma vida
civil comum, chamada a atenção, começam a se organizar.
Um excelente exemplo disso é nossa reunião. Nós todos seríamos
pessoas que numa época de paz nem nos conheceríamos, estaríamos cada um no seu
respectivo país, cuidando de sua própria vida, santificando sua alma e nos
preparando para o céu. Mas a evidência do perigo nos aglutinou. A quantos não
irá aglutinando à medida que o perigo ficar maior? Esses aglutinados constituem
um certo elemento de resistência. Esse elemento de resistência pode constituir
um certo elemento de vitória.
Um certo elemento de resistência, um certo elemento de
vitória... a modicidade de minhas expressões indica como esse aglutinação reúne
forças débeis e como essa resistência é de um êxito humanamente falando pouco
provável. E eu julgo que a expressão “pouco provável” é ainda uma expressão
otimista.
Humanamente falando, a meu ver, tudo o que se pode
aglutinar e que pode aumentar o número dos que pensam como nós é pouco diante
da imensa conspiração que está armada no mundo para entregá-lo ao comunismo.
Mas eu raciocino da seguinte maneira: é que há uma promessa de Nossa
Senhora em Fátima de que o comunismo se
espalharia pelo mundo caso os homens não emendassem a sua vida. Não só eles não
a emendaram do ano da aparição em 1917 para cá, não só são emendaram, mas os
costumes pioraram enormemente, a impiedade progrediu sob todos os aspectos. A
consagração a Nossa Senhora de Fátima não se fez como Nossa Senhora pediu, as
condições não estão preenchidas.
Naturalmente o castigo virá. Mas Nossa Senhora
afirmou: “Por fim o Meu Imaculado Coração triunfará”. Quer dizer, de um modo ou
de outro, se os homens não vencerem a Revolução, Ela vencerá a Revolução. Mas a
Revolução será vencida, nós temos a promessa
da própria Mãe de Deus, a Rainha da História, porque o cetro dos acontecimentos
do mundo Deus o pôs nas mãos de sua Mãe Santíssima.
Entretanto isso não nos dispensa a nós de nos
aglutinarmos e lutarmos, porque Deus se serve dos meios humanos. Muito
simbólico é nesse o sentido o que aconteceu por ocasião da multiplicação dos
pães. Todos os senhores a conhecem. A narração lindíssima do Evangelho nos está
presente no espírito de todos. Nosso Senhor pregando, levando atrás de Si as
multidões encantadas e empolgadas com Suas palavras e com a consideração de Sua
Pessoa. Chegando no deserto não tinham o que comer. Nosso Senhor teve pena da
multidão pela fome que sofria e mandou recolher todos os peixes e pães, todos
os alimentos que eles tinham. E foram encontrados em toda aquela multidão
apenas sete pães e sete peixes. Estes sete peixes e sete pães, Nosso Senhor se
serviu deles para multiplicar esses pães e esses peixes, e para atender com
sobra – mas com sobra enorme – todas as necessidades da multidão.
Esta ação Deus poderia tê-la praticado sem os 7 pães e
sete peixes. Ele criou o mundo por que Ele precisava daqueles sete pães e sete
peixes? Mas Ele queria que os generosos que tinham pouco desse tudo o que
tinham. Com isto, e para glorificar esses generosos, Ele multiplicou depois
esses pães e esses peixes.
Nosso tempo, nossa dedicação, se for preciso o risco
de nossa vida – nós somos poucos – esses são os sete pães e sete peixes que nós
podemos oferecer a Nossa Senhora e por meio dEla a Nosso Senhor Jesus Cristo,
nessa situação crítica da história. Lutemos com todo o empenho que Nossa
Senhora saberá obter de seu Divino Filho a multiplicação desses pães e desses
peixes. Será a vitória, meu caro Maurício.