Lamentamos não possuir o texto completo da alocução
dirigida pelo Santo Padre Pio XII aos membros da
nobreza romana. Para conhecimento de nossos leitores, estamos reduzidos a publicar
tão somente um resumo telegráfico transmitido pela agência "Reuters", devido à falta de comunicações normais com o
Vaticano. Entretanto, esse simples resumo já contém pérolas inestimáveis.
Sobretudo nesta época em que o sopro gélido da guerra parece querer apagar as
últimas chamas da tradição cristã ocidental, as palavras do Sumo Pontífice têm
uma inestimável oportunidade.
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O Santo Padre começa por mostrar
a situação catastrófica em que nos encontramos. Não é difícil notar as calamidades
materiais que a guerra acumula. Antes, seria impossível não as notar. Não é
pois tanto sobre este aspecto da situação que o Santo Padre insiste. Ele fala
principalmente das ruínas morais das almas que se perdem, das instituições
representativas de milênios de cultura cristã e de civilização cristã que
soçobram, dos turbilhões de idéias falsas, de paixões em ebulição, de ambições
desregradas que de toda parte se levantam. Por isto, o Santo Padre não fala em
reconstruir vilas, aldeias, cidades, mas em "reconstruir a sociedade
humana". A sociedade humana é a maior de todas
as ruínas contemporâneas. Se Londres ou Nova Iorque - as duas maiores
cidades de nossos dias - ficassem arrasadas, constituiriam ruína menor do que é
a humanidade neste triste século XX.
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Não é outro o pensamento do Soberano Pontífice,
quando ele afirma que "atualmente estamos testemunhando um dos maiores
incêndios da História". Incêndio material? O Santo Padre desfaz qualquer
equívoco acrescentando imediatamente: "Estamos vivendo uma das épocas mais
cheias de distúrbios políticos e sociais jamais registrados nos anais do
mundo". Esse, o incêndio. Incêndio ideológico, que abrasa antes as idéias
que as doutrinas, e só conseguiu arrasar lares, cidades, províncias inteiras
porque havia posto previamente em delírio e em combustão o pensamento alucinado
do homem contemporâneo.
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De onde tamanha desgraça? Porventura não somos
filhos de Deus? Como então nosso Pai Onipotente assiste de braços cruzados a
essa imensa catástrofe? Dorme a Divina Providência?
Nunca. Deus é misericordioso até mesmo quando
castiga. Em certo sentido, poder-se-ia
dizer que a misericórdia de Deus transparece mais claramente sobretudo
quando castiga. Ai daqueles sobre quem tarda a vir o castigo de Deus! Ai do
pecador impenitente que vive feliz e despreocupado! Ai do homem iníquo, a quem
cercam todas as venturas da vida temporal! O homem que continua feliz no crime
é o maior dos desgraçados. Se não fosse tão grande sua degradação, talvez Deus
o visitasse por meio de sofrimentos, e lhe abrisse os olhos para sua
iniquidade. Mas chegou a cair tão baixo que nem essa desgraça amarga, mas
salutar, lhe é concedida. Rolará inconsciente de abismo em abismo até que
finalmente caia sobre ele o braço de Deus. Deus nunca falta com sua graça, nem
ao ímpio, nem ao pecador. Mas como crescem, se acumulam, se multiplicam os
castigos que Deus tarda em enviar!
Todo esse sofrimento é, pois, no fundo, um fruto da
Divina Misericórdia. Pelo amargor do remédio que experimentamos, podemos medir
a extensão da gravidade de nosso mal. Nada disso teria surgido "se cada um
tivesse cumprido o seu dever de acordo com a Divina Providência", diz o
Pontífice. Mas agora, o que nos resta é beijar a Mão que nos castiga, agradecer
o castigo que nos salva, e salvar-nos por meio da punição que nos é enviada.
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O LEGIONÁRIO publicou em sua última edição um
belíssimo artigo do Revmo. Sr. Pe. Valentim Armas, C.M.F. em que se fala
da Jacinta, a santa pastorinha de Fátima.
Vendo o Santo Padre expressar-se em termos tão
amargos sobre a situação contemporânea, não podemos deixar de nos lembrar que,
aparecendo em Fátima quando chegava a
seu termo a última guerra, Nossa Senhora advertiu ao mundo contemporâneo que se
convertesse a Cristo e à Igreja, sob pena de nova guerra que traria consigo
inenarráveis prejuízos e sofrimentos. Nossa Senhora profetizou um sinal celeste
que deveria prenunciar os castigos contra os quais premunia maternalmente o
mundo impenitente. Pouco antes da guerra, um fenômeno perfeitamente visível nas
principais cidades da Europa, e classificado pelos técnicos como uma singular aurora
boreal, se fez notar. Todos os telegramas, todos os jornais falaram do assunto.
Do fundo da Casa Religiosa em que vive apagada e piedosamente Lúcia, a última sobrevivente dos três pastorinhos
de Fátima, escreveu à Autoridade Diocesana, dizendo-lhe que era esse o sinal prenunciado
pela Santíssima Virgem. Pouco depois, sobreveio a conflagração. Confirmava-se a
ameaça, confirmou-se o castigo. Quanta razão tem o Santo Padre em dizer que
nada disso teria acontecido, se tivéssemos ouvido a voz da Igreja, se
tivéssemos obedecido à Lei de Deus!
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"Contudo, haverá um novo período de
reconstrução. O novo mundo reorganizado que surgirá não nos foi ainda
revelado". Que quer dizer o Pontífice? Não lhe foi ainda revelado como se
reorganizará o mundo post-guerra?
Mas como assim? Não é ele o Vigário de Cristo? Se
houver uma ordem cristã, a pedra angular dessa ordem, a chave de cúpula desse
novo edifício não deverá ser a Santa Sé? E se a Santa Sé não sabe ainda o que
se vai fazer, far-se-á com ela, à sombra
dela - sombra que é luz e é mesmo a única luz que há no mundo - com base nela,
para a glória de Cristo e de sua Igreja o mundo de amanhã? Se assim fosse, o
Papa já não estaria inteirado de tudo?
* * *
"Haverá um novo período de reconstrução",
diz o Pontífice. Ele não sabe como será essa reconstrução. Uma coisa há,
entretanto, que o Papa sabe. Desde que Jesus Cristo fez de Simão uma
Pedra, será essa a única pedra angular de tudo quanto se construa de sólido, de
estável, de glorioso no mundo. Construir fora dela é construir ruínas.
Quereis ver uma ruína que nenhum incêndio material
devastou, mas que as injúrias de dois ou três bárbaros arrasaram? Olhai para o
palácio ermo da Liga das Nações. Foi bastante que a fera nazista ali penetrasse, que um
punhado de aventureiros desse ali dentro alguns urros, que aquele conglomerado
de estadistas humanitários se desfez.
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Mas, reciprocamente, há
ruínas que ninguém consegue demolir até à última pedra. Os escombros dos
edifícios sociais e políticos erguidos nos séculos de civilização cristã estão
resistindo a tudo. Se o homem ocidental tivesse ficado integralmente católico,
estas instituições teriam sofrido até certo ponto as inevitáveis transformações
do tempo, mas não teriam caído em ruínas. Se estão em ruínas é porque sofrem o
justo castigo de sua tibieza, de seu egoísmo, do olvido dos princípios que
constituem o substractum de suas tradições. Mas, nesses velhos troncos corroídos
por tantos vermes, a seiva cristã não desapareceu de todo. Daí vem esse fato
verdadeiramente curioso: essas ruínas ainda conservam uma vitalidade que muita
obra nova em folha está longe de possuir. E como são ruínas de uma obra nutrida
com seiva divina, conservam não só mais vida, como mais glória e mais beleza,
que todas as obras humanas marcadas com
o estigma do laicismo, do ateísmo, do paganismo de
hoje.
Átila está em Roma. Suas legiões bárbaras dominam mais uma vez a Cidade
Eterna. Mas do século V para cá, Átila piorou muito. Ele era um bárbaro que
conhecia apenas alguns rudimentos da ordem natural. Hoje é um apóstata. Sua
ferocidade se fez maquiavélica, sagaz, técnica. No século V Átila matava muito.
Ele continua homicida. Suas mãos estão tintas de sangue. Mas no Século V, Átila
só matava corpos. Batizado, aprendeu que há almas. Hoje, Átila, apóstata,
prefere matar almas! No século V, Átila era sobretudo um bruto. Hoje, é antes
de tudo um demônio.
E este demônio, como
todos os seus congêneres, é igualitário. "Não serve", precisamente
como Lúcifer. Revolta-se. Detesta toda desigualdade, exceto a
hierarquia de suas milícias diabólicas. Por toda parte onde vai, marchando em
fileiras rijamente disciplinadas, ele destrói a
verdadeira disciplina; revolta as almas contra Deus, revolta os instintos
materiais contra o domínio racional da alma, revolta a força contra o saber,
revolta a barbárie contra a tradição, contra a civilização, contra a hierarquia
dos valores culturais, tradicionais, espirituais. Tudo progrediu no mundo.
Átila também. Hoje, Átila é assim...