Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Minha

 

Vida Pública

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Parte X

Livros e Campanhas de grande repercussão na década de 1970

 

Capítulo XII

Em 1977, atuação fraca da CNBB e vitória do divórcio

1. Não se poderia dizer menos nem pior

Na segunda metade da década de 70, uma derradeira investida divorcista redundou na aprovação do divórcio.

Em 1977, a CNBB entrou no assunto. Entrou de meio corpo na liça, melhor diríamos [186]. Os pronunciamentos feitos sobre o divórcio pela CNBB como um todo, e por alguns outros Prelados a título individual, me pareceram de uma pobreza lastimável. Ou pelo menos foi de uma lastimável pobreza o que sobre eles publicaram os jornais [187].

Naturalmente, a mentalidade dos católicos era levada a confiar na iniciativa dos seus Pastores, para enfrentar as crises religiosas. E essa iniciativa se mostrou exígua em inteligência, em know-how e plena vontade de vencer.

Através de tais porta-vozes - falo descontando as honrosas exceções de estilo - a voz do Brasil antidivorcista ecoou no recinto do Congresso pouco persuasiva, pouco empenhada.

O know-how mandaria que, nessa emergência, o Episcopado nacional publicasse, logo quando dos primeiríssimos rumores de perigo divorcista, uma grande Pastoral coletiva, assinada pela totalidade dos Srs. Cardeais, Arcebispos e Bispos do Brasil.

Uma grande Pastoral não é necessariamente uma Pastoral grande. Com concisão, o Episcopado poderia ter dado aos fiéis, nessa ocasião, uma síntese inteligente da doutrina católica contra o divórcio. Argumentação fartamente baseada na Escritura, na Tradição, no Magistério da Igreja. Linguagem simples, direta, viva. Exposição franca do pecado que comete quem vota a favor de candidatos divorcistas, ou de quem, sendo legislador, vota a favor do divórcio. Do pecado, também, cometido pelos casados que intitulam de "novo casamento" a união adulterina constituída sobre as ruínas do lar autêntico. As penas canônicas. O juízo particular e o juízo público post-mortem.

Esta Pastoral deveria ser lida em partes, por ocasião de todas as Missas em todas as igrejas, capelas, oratórios do Brasil. E seguida da comunicação de que, em consciência, no pleito, nenhum católico poderia votar em qualquer dos congressistas que se pronunciassem pró-divórcio. A lista destes seria lida de público em todas as Missas, logo depois da votação pró ou contra o divórcio, e repetida várias vezes da mesma maneira ao longo da seguinte campanha eleitoral.

Soando assim na Casa de Deus todas as tubas sagradas do alarme, o povo católico seria ademais convidado a inundar o Congresso de mensagens pedindo a rejeição da reforma constitucional divorcista.

Flagrantes da campanha de difusão da Carta Pastoral de D. Mayer. Dados publicados pelo "Catolicismo" de maio de 1975, informavam a venda de 30 mil exemplares em doze dias

Poder-se-ia alegar que seria difícil redigir com urgência a Pastoral que imagino.

Mas o caso é que essa Pastoral já existia há dois anos. E circulou com brilhante êxito quando da batalha pró e contra o divórcio em 1975.

Foi ela a chave que trancou as portas do Brasil ao divórcio naquela ocasião. Dom Antonio de Castro Mayer publicou-a sob o titulo Pelo casamento indissolúvel, com 64 páginas. A TFP vendeu-a em todo o Brasil (ver foto), alcançando a tiragem de cem mil exemplares.

Este incomparável instrumento de defesa, de já testada popularidade, o Episcopado poderia tê-lo endossado por simples decreto coletivo.

Muito mais modestamente, um claro e corajoso comunicado da CNBB já poderia ter surtido pleno efeito. Teria sido um tiro. E vitorioso.

Ora, desse texto, o que fez a CNBB? O que fez o Episcopado? Deixaram-no mofar na gaveta. E seguiram outras vias.

O Brasil tinha ao todo 267 Bispos. Destes, apenas 104 se pronunciaram contra o divórcio.

De outra parte, a quase totalidade dos que falaram - e alguns falaram muitas vezes - pouco disseram.

Em lugar de substanciosas e retumbantes Pastorais doutrinárias, deixaram cair sobre o público o chuvisco ralo e desconexo de meras entrevistas de imprensa ou breves comunicados, repetindo com uma desconcertante pobreza de argumentos que eram contra o divórcio [188].

Já a Assembléia da CNBB em Itaici, de fevereiro de 1977, se referiu de modo sumário e incolor a uma nota publicada em 1975, algum tanto mais dinâmica. De sorte que, para receber os salutares eflúvios desse dinamismo, o leitor de 1977 teria que ir buscar nos jornais de 1975 o que disse a CNBB...

Na nota não aparecia uma só citação do Antigo nem do Novo Testamento. Nem de Padres ou doutores da Igreja, nem de Papas ou de santos. Apenas a de "um dos nossos grandes jornais", que censurou a "pressa indecorosa" de setores do Congresso Nacional no sentido de fazer andar o divórcio.

Com a devida vênia, digo que sobre o assunto não se poderia dizer menos nem pior.

2. A CNBB não quis seguir a sugestão de Dom Mayer

Alta expressão da tendência diversa foi o Sr. Bispo de Campos, Dom Antonio de Castro Mayer.

No dia 28 de abril de 1977, este Prelado enviou um telegrama ao presidente da CNBB com sugestões sobre o projeto de divórcio em curso na Câmara.

Um confronto entre as aspirações do Prelado de Campos e o pronunciamento da CNBB mostra bem quanto divergiam as vias e as cogitações.

Transcrevo da Folha da Tarde de 30 de abril daquele ano o telegrama de Dom Mayer à CNBB. O telegrama cujos sábios conselhos o alto órgão episcopal deixou de lado, para fazer precisamente o contrário.

"Sendo os ilustres componentes do Senado e da Câmara Federal cônscios de que pela natureza de seu mandato, devem exprimir no Poder Legislativo os desejos e aspirações do eleitorado, estou persuadido de que não aprovarão o divórcio caso sintam que a maioria do povo brasileiro não o deseja.

"A repulsa dessa notória maioria se avivará e se tornará patente caso o órgão supremo da CNBB publique largamente, e com toda a urgência, um documento mostrando que a aprovação do divórcio viola gravemente a Lei de Deus, perturba a ordem natural, prejudica a fundo a moralidade pública e privada, abala a família e arruína a nação.

"Exprimo, portanto, a V. Emcia, meu desejo seja tal pronunciamento publicado pela CNBB em comunicado especial, consagrado só a essa matéria e desvinculado de considerações sobre quaisquer outros temas."

Se a CNBB tivesse atendido ao pedido, teria sido para ela um dia de glória, e para o divorcismo um dia de derrota na longa batalha.

Mas a CNBB não quis...* [189]

* Anos depois, o Cardeal Eugênio Sales, então Arcebispo do Rio de Janeiro, viria a reconhecer publicamente que o divórcio passou porque a CNBB não lutou para impedi-lo. Disse o Purpurado: "Se a Igreja no Brasil tivesse lutado como o cardeal Motta, o divórcio não teria sido aprovado" (O Globo, 21/9/82).

3. Aprovado de modo sorrateiro, o divórcio abriu caminho para o amor livre no Brasil

O andamento do projeto de divórcio se processou, em quase todas as suas fases, numa quietude que fazia esperar a derrota dele [190].

Em comunicado da TFP publicado em seção livre da Folha, bem como na imprensa diária de todo o Brasil, eu exortava os Srs. congressistas favoráveis ao divórcio a evitarem para o nosso País o trauma de uma tão grande transformação* [191].

* Esse comunicado tomou o título de Na iminência das votações divorcistas, e foi publicado na Folha de S. Paulo do dia 14 de junho de 1977, e depois na imprensa diária de todo o País. Nele Dr. Plinio, falando em nome do Conselho Nacional da TFP, alertava os antidivorcistas para algum imprevisto que pudesse saltar para dentro da liça e dar vitória ao divórcio.

Recebi de alguns parlamentares antidivorcistas pronunciamentos substanciosos. É possível que o senador Nelson Carneiro e outros divorcistas tenham feito pronunciamentos igualmente substanciosos.

Mas o que deles li nos jornais também era pobre [192].

O quorum parlamentar era de sóbrias proporções à vista das férias de meio do ano que se aproximavam. Parecia provável que, por falta de número, o projeto caísse.

Mas subitamente, e quase à ultima hora, afluíram dos quatro pontos cardeais congressistas inesperados. Os divorcistas em maioria. E a certeza que muitos tinham, de que o divórcio não passaria, se transformou numa cruel desilusão [193].

O resultado: num delírio de entusiasmo de galerias artificialmente superlotadas, o Legislativo aprovou o divórcio, enquanto a Nação continuava a cochilar junto ao quitute quente e envenenado que o Congresso lhe servira [194].

Desta forma, a gloriosa conquista da indissolubilidade na Constituição de 1934 rolava por terra, como um anel que se solta de um dedo que definhou. No lugar do anel, abriu-se uma chaga. Foi o divórcio [195].

A partir da abolição da indissolubilidade do casamento, o matrimônio pôs-se a deslizar processivamente rumo ao amor livre no Brasil.

 


NOTAS

[186] 34-75-77, Folha de S. Paulo, 25/7/77.

[187] Silêncio, a grande lição, Folha de S. Paulo, 25/7/77.

[188] Foguetório e não bombarda, Folha de S. Paulo, 25/6/77.

[189] Mas a CNBB não quis..., Folha de S. Paulo, 16/5/77.

[190] 34-75-77, Folha de S. Paulo, 25/7/77.

[191] 34-75-77, Folha de S. Paulo, 25/7/77.

[192] Silêncio, a grande lição, Folha de S. Paulo, 25/7/77.

[193] 34-75-77, Folha de S. Paulo, 25/7/77.

[194] Silêncio, a grande lição, Folha de S. Paulo, 25/7/77.

[195] 34-75-77, Folha de S. Paulo, 25/7/77.

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