Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO

 

1936

Colégio Universitário

Faculdade de Direito

Universidade de São Paulo

(sem revisão do Prof. Plinio)

 

 

ADVERTÊNCIA

 

 

O presente texto é cópia ipsis litteris das apostilas para o curso de "História da Civilização". Portanto, os erros de ortografia, falta de palavras, eventuais acréscimos ou omissões são da responsabilidade de quem taquigrafou e datilografou ditas apostilas.

 

Nota do revisor:

O trabalho de revisão, realizado por ocasião da nova digitação, teve, entre outras preocupações:

1 - Introduzir pequenas modificações para ajustar a linguagem falada à linguagem escrita, e assim tornar mais fluente a leitura do texto, guardando entretanto inteira fidelidade ao que quis dizer o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, e alterando apenas o mínimo necessário. Tais modificações afetaram apenas pequenos detalhes de construção de frases, pontuação, colocação de pronomes, etc. E foram evitadas quando se tratava de repetições de idéias, comuns em exposição verbal, mas que numa revisão escrita, a rigor, poder-se-ia suprimir.

2 - Acertar a grafia das palavras à recente reforma ortográfica (1995), com exceção da regra sobre o fim das consoantes mudas, pela dificuldade que há em definir qual é muda ou não, na pronunciação brasileira.

3 - Atualizar a grafia dos nomes de personagens, locais e fatos históricos, segundo os critérios usados pelo Dicionário Prático Ilustrado, Lello & Irmãos Editores, Porto, 1968. Entretanto, como esses critérios às vezes vinham modelados pela rigidez com que em Portugal se procura "aportuguesar" certas palavras — por exemplo, Roldão (Roland), Beltrão (Bertrand), Paternão (Páternon), Linguadoque (Languedoc), Lovaina (Louvain), Tanemberga (Tannenberg), Vormácia (Worms), Cantabrígia (Canterbury), Elizabetevila (Elizabethville) — procurou-se torná-los mais flexíveis, a fim de que ditos nomes não fossem sempre aportuguesados, mas conservassem um pouco do sabor e dos imponderáveis que têm na grafia dos países de origem. Para isso, recorreu-se ao Petit Larousse Illustré, edição 1979, ou, na falta de melhor, ao Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, MEC, 8ª edição.

4 - Reordenar a exposição da matéria, para aproximá-la tanto quanto possível da ordem cronológica.

5 - A presente revisão não é de responsabilidade da ilustrada cadeira.

 


 

I

METODOLOGIA HISTÓRICA

 

 

Metodologia histórica é um conjunto de métodos nos quais o historiador se baseia para os seus trabalhos.

Definição de História

História é a narração e explicação dos acontecimentos certos, passados e dignos de memória. Esta definição incompleta constitui uma noção preliminar para o estudo da metodologia histórica.

Na linguagem vulgar, dá-se o nome de história a narrações fictícias ou de fatos duvidosos e desfigurados pela imaginação popular. A História, entretanto, como ciência, só cogita dos acontecimentos a cujo respeito não se têm dúvidas.

Acontecimento passado - A História não cogita dos acontecimentos presentes, mas apenas daqueles que já figuram no passado.

Em via de regra, os acontecimentos passados só podem ser conhecidos pelo historiador depois de transcorridos alguns anos de sua realização. A dificuldade de obter a documentação exata e abundante sobre os fatos recentes torna-os geralmente muito difíceis de ser conhecidos pelo historiador. É o que se dá, por exemplo, com as causas da anexação da Áustria à Alemanha.

Portanto, não é qualquer acontecimento passado que deve ser registrado pela História, mas exclusivamente aquele que já se tenha verificado há bastante tempo, para poder ser conhecido com exatidão e julgado com serenidade.

Fatos dignos de memória - A História não cogita do acontecimento de importância mínima e de interesse meramente individual. Isto não obsta a que certos fatos, de si mínimos, sejam registrados pela História. Neste caso, não se atende ao fato em si mesmo, mas ao significado especial que ele traz consigo.

É o caso, por exemplo, de Luís XVI ter dormido placidamente durante toda a noite que precedeu a sua decapitação. O curso da História não teria sofrido alteração se o sono do rei tivesse sido agitado, e não plácido, mas essa circunstância, mínima em si, é tão útil para definir o caráter do monarca e explicar outras atitudes anteriormente adotadas por ele, que a História julga oportuno registrá-la.

Certas ações que apresentam, não propriamente um grande interesse político, mas um interesse humano poderoso, pelo que têm de expressivo para o estudo da alma humana, também são registradas pela História. É o caso, por exemplo, de muitos feitos, extraordinários pela sua nobreza ou por sua baixeza, que não tiveram influência notável no curso dos acontecimentos, mas que interessam a fundo às pessoas que gostam de observar a humanidade.

Por feitos dignos de memória não entendemos exclusivamente aqueles de importância política, econômica, científica, artística, mas de quaisquer fatos dignos de recordação pelo interesse que ofereçam, não apenas sob o ponto de vista acima mencionado, mas ainda sob quaisquer outros pontos de vista capazes de atrair a atenção dos estudiosos.

A História é uma narração dos acontecimentos passados, mas ela não se contenta em narrá-los. Procura descobrir as relações que esses fatos tiveram entre si e o modo pelo qual uns decorreram dos outros, ou reciprocamente se influenciaram.

Fontes históricas - São todos os vestígios materiais de um fato, mais ainda a recordação que este fato tenha deixado nas narrações orais dos povos.

Nesse sentido, deve-se reconhecer a tradição oral como uma fonte para o conhecimento certo de fatos passados. A tradição oral é uma narração verbal de fatos passados, conservados com exatidão na memória dos povos. Tal tradição se distingue da lenda, que é a narração desses mesmos fatos em sentido poético, geralmente alterados pela imaginação de diversas gerações sucessivas. A grande longevidade dos antigos permitia freqüentemente ao autor de um fato que o narrasse diretamente aos seus trinetos ou tetranetos. Com isso, tornava-se muito mais direto o conhecimento do fato.

Por outro lado, os povos que não se serviam da escrita tinham o maior cuidado em conservar a narração oral isenta de deformações introduzidas pela imaginação. São freqüentes os casos de tradições orais cuja verdade pôde ser rigorosamente comprovada.

Documento arqueológico - Pode ser distinguido do documento histórico, porque é um monumento ou um objeto deixado pelo passado, e do qual a História se utiliza. Conquanto não tragam sinais escritos, interessam evidentemente ao estudo da História.

Heurística - É a ciência auxiliar da História que estuda a pesquisa das fontes. Para que o trabalho de heurística seja possível, é necessário que os documentos históricos sejam conservados, centralizados, classificados e, além disso, postos à disposição das pessoas que desejarem examiná-los.

Circunstâncias as mais diversas podem ocasionar a destruição de documentos históricos. Em primeiro lugar a vontade do homem. O homem destrói documentos antigos, quer porque sejam nocivos a seus interesses, às suas vaidades ou às suas comodidades.

Além do homem, mil outros fatores também concorrem para a perda de documentos, desde as traças até a umidade e os incêndios, razão pela qual quase todos os Estados contemporâneos têm arquivos oficiais, onde os documentos públicos são conservados contra todos esses agentes de destruição.

As condições para a conservação do documento histórico são muito variáveis. Variam, por exemplo, segundo o material de que se constituem. Certos pergaminhos antigos, pela durabilidade do próprio pergaminho e pela espantosa indelebilidade de sua tinta, podem ser conservados com mais facilidade do que os documentos modernos, escritos em papel de qualidade freqüentemente inferior, com tintas que se apagarão dentro em breve.

A conservação dos arquivos compostos por documentos contemporâneos será, senão impossível, ao menos muito trabalhosa para a posteridade. Exemplo: ato de abdicação de Eduardo VIII, que, ao contrário de todos os atos importantes da vida inglesa real, foi escrito à máquina e assinado com uma tinta qualquer, em vez de ser feito em pergaminho e assinado com tinta especial.

Centralização - A pesquisa histórica é imensamente facilitada pelo hábito tomado pelas administrações públicas contemporâneas, de constituir grandes arquivos públicos. Com essa providência, não só se facilita a conservação do documento, mas todos os documentos interessantes são centralizados em um mesmo lugar, o que facilita enormemente o trabalho do historiador. Estes podem efetivamente pesquisar documentos de procedências muito variadas sem se verem obrigados a sair do próprio prédio do arquivo (arquivo do Estado, do Município, da Cúria Metropolitana, etc.)

Com esse intuito de facilitar as pesquisas, certos Estados recebem o arquivo dos documentos antigos e interessantes que particulares não queiram mais guardar consigo, e chegam mesmo a comprar de particulares documentos antigos e interessantes.

Classificação - A classificação dos documentos históricos nos arquivos importantes constitui uma tarefa capital. Dada a imensidade dos documentos que se encontram nos antigos arquivos, se não houver classificação, todo o trabalho histórico se torna inútil, pela impossibilidade em que estaria o pesquisador de compulsar pessoalmente milhares e milhares de documentos, até encontrar o que lhe interessa.

O modo de classificação é variável, utilizando-se em geral fichas e catálogos. A última condição é que os arquivos sejam postos à disposição dos interessados.

Antigamente não era fácil a consulta dos arquivos oficiais. Hoje em dia todos os arquivos oficiais costumam ser franqueados ao público no que se refere aos documentos menos recentes. Quanto aos mais recentes, costumam ser mantidos em segredo. Na França, por exemplo, os documentos diplomáticos, políticos e militares, de 1870 para cá, não são franqueados ao público.

Documentos impressos - Quanto aos documentos impressos que já foram editados, seu aproveitamento no trabalho da heurística é muito mais simples. As grandes bibliotecas oficiais e particulares se incumbem de conservar, centralizar e pôr ao alcance dos interessados os livros de que elas se compõem. De mais a mais, há revistas bibliográficas que trazem a relação periódica de todas as obras publicadas sobre os vários ramos da ciência. Finalmente as bibliotecas de maior importância publicam, em geral, catálogos admiravelmente classificados de todos os livros que elas possuem.

Ciências auxiliares da História

Em rigor, não há ciência que não possa prestar à História certo auxílio, mesmo as naturais, que à primeira vista parecem as mais distantes do estudo da História. Podem, portanto, prestar a esta auxílio valioso. É o que se dá, por exemplo, com a Física e a Química, cujos conhecimentos atuais podem ser de grande interesse para a elucidação de fatos históricos da mais remota antiguidade.

Em linguagem corrente, chamam-se ciências auxiliares da História certas disciplinas que prestam a esta um auxílio mais imediato:

Paleografia - Tem por objeto decifrar e estudar os caracteres dos documentos antigos. Sem que se possa decifrar um documento, seu aproveitamento pelo historiador é impossível.

Quanto à análise dos caracteres gráficos, esta tem a maior importância nos estudos históricos. Efetivamente, a data e a proveniência de um documento podem ser reveladas pela paleografia, em virtude do fato de terem existido antigamente diversas regiões com caligrafia própria. Conhecendo-se o modo de escrever de uma determinada região, pode-se facilmente verificar se um determinado documento procede ou não dessa região. As diferenças dessa natureza podem existir de povo para povo ou de região para região. A data do documento também pode ser descoberta pelos caracteres, uma vez que certas épocas escrevem de modo diverso de outras.

Finalmente, os caracteres com que se escreve um diploma raramente são os mesmos com que se escreve uma carta particular. Os livros comerciais costumam ser escritos de um modo diverso dos próprios caracteres dos livros de contas comuns.

Epigrafia - Presta à História serviços idênticos aos da paleografia, no que se refere à escrita em metal.

Sigilografia - Presta à História idênticos serviços quanto aos selos.

Além da sigilografia existe a heráldica, que estuda os brasões, e além desta a numismática, que estuda as moedas e medalhas antigas. A arqueologia costuma ser mencionada entre as disciplinas auxiliares da História, e o seu objeto já foi definido anteriormente.

Uma das mais importantes disciplinas da História é a filologia. Os idiomas falados pelos povos evoluem. O latim clássico, por exemplo, em virtude de várias circunstâncias, se transformou aos poucos no latim bárbaro. Deste vieram outros idiomas, que através de variações chegaram até os nossos dias.

Crítica externa: Autenticidade - A crítica externa tem por objeto elucidar, a respeito de determinado documento, se ele é original ou se é uma cópia ou falsificação.

É evidente a importância desse trabalho crítico. Enquanto um documento original pode ter grande valor, uma falsificação só em casos muito especiais pode apresentar interesse histórico.

Também apresenta capital interesse para o historiador a verificação de que se está em presença de um original ou de uma cópia. O original, por ser escrito pelo próprio autor, é evidentemente de uma fidelidade absoluta. A cópia, pelo contrário, pode apresentar diversidades às vezes muito grandes com referência ao original. Tais diversidades decorrem do descuido, da incompetência ou da má fé do copista.

Convém tomar em consideração que, às vezes, a maior perplexidade do historiador não incide sobre a autenticidade de um documento inteiro, mas de determinado trecho que ele receia ter sido introduzido ou retirado por um terceiro. A autenticidade das interpolações constitui um delicado problema para a crítica externa.

Para a elucidação dessas questões, a crítica externa procura apurar:

1 - Quem redigiu o documento;

2 - Quando foi ele redigido;

3 - Onde foi redigido;

4 - Em que forma foi redigido;

5 - De que modo se verificou a sua transmissão.

Os casos concretos diante dos quais se pode encontrar o historiador para a verificação da autoria de um documento são extremamente variáveis. Às vezes a assinatura é incompleta, não bastando para saber quem foi o autor real do suposto documento. Outras vezes o documento, conquanto autografado, nem sequer leva assinatura. Outras vezes ainda, o documento não é autografado, e traz apenas a assinatura presumível do autor. Finalmente, certos documentos oficiais são às vezes escritos em nome de soberanos, que na realidade não têm dele conhecimento. Essas diversas hipóteses são de uma importância capital para a verificação da autenticidade de um determinado documento.

Dá-se ainda freqüentemente o caso de ser um mesmo documento escrito por diversos autores sucessivos, os quais, entretanto, não assinalaram a parte que lhes tocou. Além dessa verificação, cumpre apurar a data em que o documento foi escrito. Nem sempre pode ser apurada a data exata, mas com certa freqüência chega-se à verificação de uma data aproximativa. Essa verificação pode ser feita por meio de vários processos, como o exame do material, da letra ou da linguagem.

Tem também importância capital a verificação do lugar onde o documento foi escrito. O exame do material, da língua e da letra pode ser também, neste caso, de grande utilidade.

Cumpre analisar ainda o modo pelo qual o documento chegou até nós, pois essa análise conduz, quando não à certeza, ao menos a preciosas hipóteses. É pouco provável, por exemplo, que ainda hoje possam ser encontradas nos arquivos europeus as obras desconhecidas de certos autores latinos, e das quais apenas se tem uma certa referência em obras conhecidas dos mesmos autores. A razão é que foram tantas e tais as pesquisas feitas em todos os arquivos para encontrar tais obras, que é quase inadmissível que elas existam, e um historiador, antes de as aceitar como autênticas, deveria verificar rigorosamente como é que se conservaram até hoje.

Finalmente a forma de um documento pode também indicar a sua autenticidade. Certos documentos oficiais, como diplomas ou documentos que concedem títulos honoríficos, revestem-se sempre de formalidades especiais, cuja análise cabe à diplomática, uma das disciplinas auxiliares da História.

Quanto às cópias, podem dar-se casos diversos: ou há uma só cópia, por meio da qual queremos chegar ao conhecimento do texto original que se perdeu, ou há, para o mesmo fim, mais de uma cópia. No primeiro caso o trabalho é extremamente difícil. No segundo caso o confronto de diversas cópias pode permitir a reconstituição do texto. Essa crítica chama-se reconstituição.

Crítica interna: Credibilidade - A crítica interna cogita da verificação da credibilidade de um documento histórico. Um documento autêntico não deve ser crido pelo simples fato de ser autêntico. É necessário um exame de credibilidade, para que o historiador possa depositar fé naquilo que o documento narra. Esse exame é o que se chama, em metodologia histórica, crítica interna.

Para que um documento histórico contenha uma narração verídica, é necessário que seu autor tenha feito uma observação exata dos fatos, e que tenha sabido narrá-los bem. Essa dupla operação pode ser controlada pela crítica interna mediante as seguintes investigações:

1 - Quanto à interpretação exata daquilo que o autor disse;

2 - Quanto à qualidade da constatação por ele feita;

3 - Quanto à competência do narrador para observar o fato;

4 - Quanto ao grau de exatidão da narração;

5 - Quanto à sinceridade do autor.

A crítica de interpretação deve revelar:

1 - O que o autor do documento disse;

2 - O que o autor do documento quis dizer.

Algumas vezes o autor se serve de termos cujo significado não podemos apreender à primeira vista. Efetivamente, certas palavras desaparecem às vezes do vocabulário, e com isto se tornam esquecidas. Outras vezes elas não desaparecem, mas mudam de sentido. É o caso da palavra indústria, que, perto de cem anos antes da Revolução Francesa, começou a ser empregada no seu sentido atual, mas antigamente queria dizer atividade. Em um documento do século XVI, por exemplo, a palavra indústria precisa ser devidamente interpretada para ser bem entendida.

Às vezes as palavras foram devidamente interpretadas, sem que com isto a interpretação do documento esteja concluída. Não se trata apenas de saber o que ele quis dizer. A maior parte das fórmulas de cortesia têm um sentido próprio muito claro. Nem por isso se sabe exatamente o que o autor de um documento quis exprimir, quando as empregou.

Qualidade de constatação - Em princípio, pode-se afirmar que quanto mais direta é uma observação histórica, tanto mais segura ela será. E que efetivamente, à medida que a observação se torna indireta, ela se torna imprecisa, e por isso mesmo precária e menos digna de fé.

Grau de exatidão - A exatidão de uma narração histórica pode ser de importância capital para o historiador, que deve dar grande importância habitualmente a certos pormenores que faltam muitas vezes em descrições pouco exatas. Por outro lado, o excesso de minúcias pode constituir motivo para que um historiador levante uma dúvida genérica em relação a todas elas.

Um vício de narração muito freqüente é o de certos autores que se preocupam em realçar o colorido de suas narrações por uma forma literária muito apurada. Não conseguindo obter tal realce pelo simples emprego de recursos literários lícitos, tendem eles a alterar ligeiramente a narração.

É também muito importante nesse trabalho crítico verificar se o historiador fez a narração imediatamente após o fato ou não.

Além dessa questão, é preciso saber como foi feita a narração, isto é, consultando tanto quanto possível outras narração mesmo autor: verificar se ele é habitualmente cuidadoso, exato e criterioso ao narrar; se ele se serviu de notas colhidas no decurso dos fatos, etc.

A crítica da sinceridade do autor de um documento histórico é de capital importância. Nem todas as narrativas merecem crédito, e dentre as que merecem, nem todas são críveis em todas as minúcias. Assim é que, de um modo geral, devemos desconfiar das narrativas em que o autor relata fatos lisonjeiros à sua vaidade ou favoráveis ao seu interesse. Há casos freqüentes em que a narrativa não se refere diretamente ao seu autor, mas a um partido político, a um clube, a uma classe ou ao país ao qual ele pertence, e em benefício do qual se pode supor que ele falseou a realidade.

Ao contrário, devem ser considerados dignos de fé os depoimentos que o autor faz em sentido contrário a tais interesses. Pois é um princípio de bom senso que a pessoa merece fé quando narra fatos contrários às suas vaidades ou conveniências. Mesmo assim, cumpre verificar se o fato narrado na época em que este se passou era tido pelos contemporâneos como realmente desabonador.

Crítica comparativa dos depoimentos

Sucede que um historiador, empregando com diligência os processos da heurística, consegue mais de um depoimento sobre o mesmo fato histórico. Se os depoimentos coincidem, devem ser tidos como verídicos, principalmente se se provar que os respectivos autores não entraram em prévio entendimento quanto ao assunto, e representavam interesses opostos.

Se os depoimentos se contradizem, a boa crítica histórica deve preferir um ao outro. O processo comparativo tratará de averiguar, em determinadas circunstâncias, qual o depoimento que preenche melhor as exigências da crítica interna, e atribuirá a esse depoimento um valor maior. Portanto, entre duas narrações, preferir-se-á o testemunho direto ao indireto, o do mais competente ao do menos competente; o de quem teve maiores razões para ser sincero ao de quem teve razões menores, etc.

Síntese histórica

Feita a pesquisa da documentação por meio da heurística, feita a verificação de sua autenticidade por meio da crítica externa, feita a verificação da veracidade por meio da crítica interna, o historiador conclui a tarefa preliminar de seu trabalho.

Pela documentação devidamente examinada, chegou ele ao conhecimento de fatos passados, certos, que lhe servirão para o trabalho que tinha em mente fazer. Resta-lhe agora escrever o trabalho, para o que deverá proceder às seguintes operações, que constituem a síntese histórica: 1) a ordenação dos fatos; 2) sua interpretação e inserção na História; 3) e finalmente sua explicação.

Ordenar os fatos é dispô-los de acordo com o fim que o historiador teve em vista ao coligir os documentos. Essa primeira tarefa de síntese histórica exige portanto que o historiador tenha em mente o objeto de seu trabalho, com toda a clareza; que ele saiba excluir os fatos que não se refiram ao assunto sobre o qual pretende fazer seu trabalho; e confrontar os fatos a ele referentes, de modo a registrar no seu trabalho apenas os mais significativos, portanto mais dignos de memória.

É óbvio que o assunto sobre o qual escreve o historiador deve ser por ele bem conhecido, e que as dimensões de um bom trabalho histórico devem variar segundo a natureza do assunto. É evidente também que, dos muitos documentos históricos que em via de regra o historiador deve compulsar, muito poucos são por ele aproveitados. E, mesmo dentre estes, raros são aproveitados na íntegra, servindo-se em geral o historiador de algumas informações contidas no documento, e desprezando as demais.

Finalmente, quanto aos assuntos sobre os quais pode versar um trabalho histórico, são evidentemente os mais variados possíveis. Sendo objeto da História as ações humanas, não há setor da atividade humana que não possa constituir objeto de um trabalho histórico. Por isso mesmo, há Histórias sobre as mais transcendentais manifestações da atividade humana, como por exemplo a História das religiões, da filosofia, ou das instituições políticas, bem como a história da arte dos cabeleireiros, da arte culinária.

Por outro lado, a História pode ser de um só assunto, de vários ou de todos. Pode referir-se a um período da vida da humanidade, ou a toda essa vida. Finalmente, pode combinar tudo isso.

Divisão da História em períodos

A História Universal cogita da História de todos os povos, em todos os tempos. Para maior facilidade de exposição, costuma ser a História dividida nos períodos usuais:

1 - Antiguidade, que durou até a queda do Império Romano do Ocidente;

2 - Idade Média, que durou, conforme certos historiadores, até a queda do Império Romano do Oriente, conforme outros, até a Renascença, ou, conforme outros ainda, até o Protestantismo e a Pseudo-Reforma protestante;

3 - Tempos Modernos, que duraram até a Revolução Francesa;

4 - Período Contemporâneo, que data da Revolução Francesa até os nossos dias.

Nesta classificação, introduziu-se certa preocupação etária. Seria mais lógico dividir a História da humanidade em duas eras, que correspondem ao modo pelo qual fazemos a contagem dos anos: antes de Cristo e depois de Cristo.

Freqüentemente, com o intuito de fazer um estudo mais pormenorizado, os historiadores costumam especializar o seu trabalho, fazendo-o versar sobre a História, não de toda a humanidade, mas apenas de um continente, ou de um só país, ou de uma só província, ou de um só município, ou de uma só família, ou de um só indivíduo, ou de um só período de um só indivíduo. Há finalmente os estudos especializados sobre um só episódio histórico, ou ainda mesmo uma só circunstância de um só episódio histórico.

Aos estudos de História feitos com grande especialização de assunto, dá-se o nome de monografia. Aos estudos sobre a vida de um indivíduo, dá-se o nome de biografia.

Às vezes, para melhor delimitação do assunto, escolhe-se como critério de ordenação dos fatos o critério local. Exemplo: história da família dos Bourbons no reino das duas Sicílias. Outras vezes soma-se ainda, ao critério delimitador constituído pelo assunto, o que é constituído pelo tempo. Exemplo: história da família dos Bourbons nas duas Sicílias, no século XVIII.

Essa ordenação supõe evidentemente o concurso de duas disciplinas reputadas, chamadas "os dois olhos da História": a cronologia e a geografia.

Depois do trabalho anterior, deve o historiador ampliar, com os dados de que já dispõe, a sua narrativa histórica. Esses dados podem ser: 1) certos; 2) prováveis; 3) possíveis.

Certos são os fatos históricos a respeito dos quais a metodologia histórica nos permitiu formar uma convicção absolutamente firme. Às vezes, um documento não nos permite o conhecimento direto do fato, mas a interpretação e análise do documento nos permitem deduzir com toda certeza a existência passada desse fato.

Um documento do século XVI, por exemplo, pode não mencionar o modo de locomoção usado por um determinado fugitivo. Mas, se mencionar o número de dias que o fugitivo levou para chegar até a fronteira; se esse número for por demais exíguo para ter sido percorrido a pé; se, por outro lado, o documento informa que as estradas não podiam ser transitadas por veículos de tração animal, pelas circunstâncias do lugar; deduzir-se-á daí, com certeza plena, um fato que o documento não mencionou: o fugitivo serviu-se de um cavalo.

Ao par das deduções feitas com certeza absoluta, há ainda o processo das hipóteses baseadas em analogia. Não dispondo de elementos para o esclarecimento completo de um determinado fato histórico, o historiador examina fatos análogos a esse, ocorridos em outros lugares ou em outras épocas, pois que há probabilidade de que o fato ora estudado tenha tido analogias com outros fatos da mesma natureza.

Um historiador encontra, por exemplo, em pesquisas arqueológicas na Caldéia, a notícia de que o rei de um determinado país foi derrotado, preso e conduzido à capital vencedora, onde foi morto. Se deseja saber qual foi o modo por que a pena de morte se aplicou, deverá procurar em outros fatos análogos da História caldaica quais os processos de execução adotados para com os reis vencidos.

Freqüentemente o historiador tira conclusões do argumento do silêncio, isto é, argüindo o que foi omitido. Quando uma narrativa histórica silencia, isto é, deixa de narrar um determinado fato, chega-se por aí à conclusão de que tal fato não se deu. É evidente que esse argumento precisa ser empregado com uma grande dose de bom senso, para não conduzir às mais ridículas conclusões.

História como ciência

Retomando a definição dada no início do Curso a respeito de História, e completando-a convenientemente, pode-se definir a História como a narração dos fatos passados, certos e dignos de memória, e a explicação desses acontecimentos por suas causas.

O caráter científico que os estudos históricos comportam provém de uma dupla circunstância:

1 - Chama-se ciência o estudo das coisas pelas suas causas. Nesse sentido, quando a História estuda as causas dos acontecimentos, ela realiza um trabalho científico;

2 - Por outro lado, o método histórico é realmente científico, o que dá um caráter científico ao estudo da História.

Progresso dos estudos históricos do século XIX até nossos dias

O século XIX marcou o início de uma verdadeira era de ouro para os estudos históricos, conquanto os trabalhos de História já estivessem muito longe das simples narrações ou crônicas do passado. Foi realmente no século XIX que os estudos históricos tomaram um desenvolvimento extraordinário. Um dos maiores fatores para esse desenvolvimento foi a crescente facilidade das vias de comunicação, que tornou normais os contatos de caráter comercial, político e cultural entre todos os continentes.

Em primeiro lugar, a facilidade das comunicações com o Extremo Oriente, por exemplo, permitiu o contato dos historiadores ocidentais com civilizações ainda vivas, como as do Japão, China, Indochina e Índia, tornando possível — quer pela conservação direta das instituições milenares ainda vivas nesses povos, quer pelo conhecimento de suas línguas, seus documentos e suas lendas — o conhecimento do passado desses países.

Em segundo lugar, a facilidade das vias de comunicação tornou possível também o contato dos europeus com as civilizações mortas. Efetivamente, durante o século XIX a Europa estendeu pelo mundo inteiro sua hegemonia política, o que lhe permitiu garantir, aos arqueólogos que partiam em demanda de regiões distantes, um ambiente de tranqüilidade e relativa comodidade, imposta muitas vezes pela força aos povos em cujos territórios tais pesquisas se verificavam. Foi ainda esta situação de hegemonia política que permitiu às potências européias fazer, com mais ou menos honestidade, o transporte para a Europa de riquezas arqueológicas inestimáveis, constituindo museus onde a História das civilizações antigas e de outros continentes poderia ser estudada sem incômodo pelos cientistas que não pudessem ir ao Oriente.

A terceira conseqüência do desenvolvimento das vias de comunicação no século passado foi o contato mais assíduo com as populações primitivas da América, da Oceania e, sobretudo, da África e Ásia, o que permitiu, por analogia, um estudo muito mais perfeito da pré-história.

Finalmente, em quarto lugar, os estudos pré-históricos foram largamente facilitados pelas escavações que em vários lugares se realizaram, permitindo, com a cooperação da geologia e de outras disciplinas, o conhecimento bastante extenso da pré-história.

 

Os grandes historiadores

Na mais remota antiguidade a narração histórica tinha termos muito elementares, pois que constava apenas de catálogos contendo os nomes dos soberanos e festas nacionais. Mais tarde colocaram nestes catálogos breves informações sobre terremotos, eclipses e outros fenômenos naturais de grande importância, bem como breves referências a personagens notáveis. A esse trabalho dá-se o nome de anais ou décadas, conforme abrangem o período de 1 ou 10 anos. Eram apenas um rudimento da História, mas ainda não merecem o nome de História.

As crônicas, que eram registros sucintos de acontecimentos importantes, feitos cronologicamente, foram os primeiros trabalhos que mereceram o nome de História. Em geral eram feitas por particulares. As efemérides eram uma espécie de diário, em que dia a dia se anotavam os acontecimentos dignos de menção. As memórias eram descrições ou retratos de alguma personalidade mais ou menos saliente. O que os antigos chamavam "histórico" eram narrações de acontecimentos contemporâneos do próprio narrador, e nos quais ele tinha geralmente tomado parte.

Na Idade Média e nos Tempos Modernos, como em nossos dias, esses gêneros existem. Hoje em dia atribui-se um valor grande às monografias, que são os trabalhos históricos feitos especialmente sobre determinado tema histórico. São importantíssimos, pois não há recurso mais seguro para que um historiador possa conhecer um conjunto de fatos históricos, para um grande trabalho de síntese, do que algumas monografias bem feitas, sobre cada um dos aspectos ou fatos que ele tenha em vista estudar.

Nem todos os povos se dedicaram muito à narração dos fatos passados. Os egípcios, que eram um povo muito tradicionalista, dedicaram-se muito à História. Os arianos do norte também cultivaram a História. Sabe-se que os reis persas tinham grande cuidado em construir arquivos e promover a elaboração de biografias, que servissem aos historiadores para o conhecimento da época em que viviam.

A História entre os assírios e babilônios parece nunca ter passado de uma relação pomposa dos feitos dos principais reis, relação esta em que predominava a preocupação de contar os fatos gloriosos, silenciando ou deturpando os fatos pouco lisonjeiros para o orgulho nacional. Os chineses cultivaram muito a História: Confúcio, que foi o maior intelectual chinês, teve para os estudos históricos um caminho todo especial.

Entretanto, entre os gregos e romanos a História teve cultores de mais valor do que em todos os países da antiguidade, se excetuarmos a Bíblia. Entre os principais historiadores gregos devem ser mencionados Heródoto, Tucídides, Xenofonte, Políbio e Plutarco. Dionísio de Halicarnasso, Deodoro da Sicília e Diógenes de Laércio também foram historiadores gregos de valor.

Em Roma a historiografia só começou a ser cultivada, por cultores de importância, no último século da república. Além de César, Salústio, e Cornelius Nepos, que foram os 3 maiores historiadores de Roma, podemos citar Trogo Pompeu, Floro, Plinio, Valério Máximo, Valério Patérculo e Eutrópio. Dois historiadores cristãos notáveis foram Paulo Orósio e Santo Agostinho.

Na Idade Média a historiografia entrou em declínio, por razões que daremos quando fizermos o estudo dessa época da História. Einhard escreveu uma biografia muito boa de Carlos Magno. Beda, o venerável, foi um historiador digno de apreço. Oton de Freising escreveu uma história do mundo, de certo valor. Froissart e Joinville também foram historiadores dignos de apreço, nos quais a narração deixou muito a desejar do ponto de vista literário, mas em que se podem notar qualidades reais sob o ponto de vista da sinceridade e da inteligência com que eram tratados os temas históricos. Na Espanha, ainda na Idade Média, notamos Ayala e Peres del Pulgar, bem como D. Pedro de Aragão.

Com o Renascimento e o humanismo, os estudos históricos adquiriram valor novo sob o ponto de vista da pesquisa histórica. A forma literária, com que os historiadores do Renascimento escreveram as suas obras, é mais apreciável que a dos historiadores medievais. Nessa época editaram-se coleções de livros históricos, nos quais se nota uma preocupação muito grande de apelar sempre para os documentos, para fundamentar todas as afirmações. Entre os historiadores do humanismo, teve valor extraordinário Maquiavel, que foi talvez um dos mais profundos pensadores que a História registra. No século XVII, ainda é de se notar o Cardeal Barônio, bem como Muratori e Vico.

No século XVIII os estudos históricos tiveram grande desenvolvimento. Voltaire na França, Gibbon e Hume na Inglaterra, deram aos métodos históricos um grande desenvolvimento. Fundou-se nesta ocasião em Londres a famosa "Sociedade dos Estudos Históricos", que muito cooperou para o desenvolvimento da História.

A característica que se vê nos trabalhos históricos dessa época consiste em apelar para a História como meio de estabelecer o debate das grande teses filosóficas ou religiosas. Voltaire serviu-se da História como meio crítico das instituições políticas e idéias religiosas preponderantes no seu tempo. Se a História lucrou com isto, sob o ponto de vista da largueza dos conceitos introduzidos nela, é certo também que ela perdeu neste período muito da sua imparcialidade. Sob o ponto de vista histórico, a obra mais notável de Voltaire foi a história de Carlos XII.

Bossuet foi um notável filósofo da História, tendo escrito para o uso do Delfim o famoso "Tratado sobre a Filosofia da História". Foi inferior a esta obra outro livro que ele escreveu, intitulado "Ensaio sobre o Espírito e os Costumes dos Povos". Os beneditinos da Congregação de São Mauro distinguiram-se muito pelos imensos trabalhos de cronologia, arqueologia, lingüística e diplomática que fizeram. Mabillon e Dom Bouquet podem ser citados, quanto a este particular.

Melanchton e Helvetius ocuparam-se da História. Na transição entre os séculos XVIII e XIX nota-se Goerres, grande historiador alemão, que com Lessing reagiu contra o espírito faccioso das obras de Voltaire, que fez da História, muito freqüentemente, uma coletânea de afirmações gratuitas e infundadas, para justificar as suas idéias atéias e anárquicas.

O século XIX foi de reação contra esse espírito anti-científico, introduzido no domínio da História pelos enciclopedistas e seus sequazes. Carlyle, Grote e McAulay na Inglaterra; Prescott e Washington Irving, nos Estados Unidos; em Portugal, Herculano e Oliveira Martins; Taine, Thierry, Guizot, Mignet, Lamartine e Michelet, na França, foram notáveis historiadores desse período. Na Itália distinguiu-se mormente César Cantu.

Resumo ditado para exame

A tarefa do historiador - Antes de examinarmos se a História é ou não uma ciência, convém fazer um exame prévio da tarefa a que se entrega o historiador, para fazer História. Uma vez visto isto, ser-nos-á possível verificar se esse trabalho é ou não científico.

A palavra história provém do grego, uma vez que neste idioma havia as palavras "histas" e "histeron", que querem dizer passado e anterior. Essas palavras deram a palavra grega história, que passou para a linguagem latina e depois para a nossa. Em nossa língua ela tem um significado corrente, que se lhe atribui em linguagem familiar, segundo o qual história quer dizer narração de acontecimentos passados, sejam eles verdadeiros ou imaginados. Assim é que se diz história de fadas, história da carochinha, história de Napoleão. As histórias de fadas ou da carochinha são imaginadas. A história de Napoleão pode ser verdadeira.

Em sentido mais rigoroso, deve-se examinar a história, se é a narração de acontecimentos certos. Mas a história como História é uma ciência — a narração certa de casos passados dignos de memória. Cada um dos termos desta definição tem um sentido próprio. É necessário que os acontecimentos sejam narrados verdadeiramente, sob pena de não serem da História. É necessário também que sejam dignos de memória, porque do contrário não merecem o interesse do historiador.

O trabalho do historiador consiste: 1) em narrar os acontecimentos com verdade, isto é, em narrar só o que aconteceu; 2) em analisar, interpretar e relacionar entre si estes acontecimentos; 3) em registrar os casos que não são dignos de memória.

O primeiro trabalho do historiador consiste em ver as fontes de que dispõe, para saber o passado, recolhendo criteriosamente os registros da atividade humana, de maneira a poder relatar o fato na sua íntegra. É necessário porém ir em busca de documentos contidos em arquivos, bibliotecas, museus, etc. O historiador deve levar em conta também a historiografia, o testemunho, a tradição, etc.

Antes de basear a sua narração nessas fontes, o historiador deve fazer a crítica da sua autenticidade, isto é, deve verificar se as fontes (documentos, etc) realmente são de autoria das pessoas a que elas são atribuídas.

Para esse trabalho são necessários uma grande acuidade de espírito e um grande preparo técnico. À vista de documentos antigos, é necessário saber determinar, por meio de exame, o material de que eles se compõem e com que estão escritos, o lugar e data de que procedem. Pelo estilo do documento, é necessário ver se ele é realmente atribuível ao seu indigitado autor.

É preciso fazer um exame de tudo quanto o documento narra, para ver se a narração não contém contradições que façam duvidar da autenticidade do documento. É necessário ainda verificar se o documento não sofreu interpolações intencionais ou casuais de determinados personagens.

Feito o trabalho necessário para garantir a autenticidade do documento, é preciso conferir a veracidade da narração. Não basta que o documento seja autêntico para que nele se possa basear o historiador. É necessário ainda que ele seja verídico, isto é, que relate fatos como realmente eles se passaram. Este segundo trabalho é muito delicado, é talvez mais delicado do que o anterior.

De um modo geral, para que a redação de um acontecimento passado contido em algum documento seja aceita como verídica, é preciso que o historiador tenha a certeza de que o autor do documento quis dizer a verdade, pôde dizer a verdade e soube dizer a verdade.

Há certos documentos que são muito suspeitos, para serem aceitos como prova da veracidade de um fato. Por exemplo, uma carta da Marquesa de Santos contendo graves censuras à Imperatriz Da. Leopoldina. Dado o caráter da Marquesa de Santos, cuja vida desregrada é muito bem conhecida, dada a natural animadversão que se pode supor na Marquesa contra a Imperatriz, é muito lícito duvidar da sinceridade da Marquesa, ao fazer tais acusações. Um historiador nunca poderá aceitar um documento desses como prova suficiente, por si só, para provar qualquer afirmação desairosa a Da. Leopoldina.

Em segundo lugar, é necessário que o autor do documento histórico tenha podido dizer a verdade. Muitas vezes uma pessoa presencia um ato sem poder dizer a verdade a seu respeito, ou porque estivesse materialmente tolhida de fazê-lo, ou porque não se encontrava nas circunstâncias necessárias para fazê-lo, ou porque não dispunha dos recursos intelectuais necessários para ver a situação devidamente. Por exemplo, um soldado que narra uma batalha só poderá ser aceito como testemunha histórica digna de crédito se ele escreveu longe da vigilância dos seus superiores, e se estava em circunstâncias que lhe permitissem fazer uma observação exata do combate.

Finalmente, é necessário que o autor do documento tenha sabido dizer a verdade. Certos fatos são tão complexos, que, para que a sua narração seja digna de crédito, é necessário que seja feita por um observador capaz de penetrar nos mais sutis detalhes do acontecimento que presenciou.

Sem que concorram estas circunstâncias, o documento não pode servir de base segura para qualquer trabalho histórico.

Entretanto, não basta isto. É necessário fazer também um exame do documento para ver se ele não contém contradições com relação a informações contidas em outras fontes históricas, ou se ele não se contradiz a si próprio. Uma destas duas falhas poderá prejudicar gravemente a credibilidade do documento, no seu conjunto ou em parte. O que acaba de ser dito, quanto aos documentos escritos, aplica-se também à crítica dos depoimentos feitos, ainda que verbalmente ao historiador, para testemunho do fato histórico.

Ao cabo dessa avaliação, o historiador entra em outra fase do trabalho histórico. Depois de ter reconhecido devidamente nos documentos todos os elementos necessários para conhecer o fato tanto quanto possível, ele vai relacionar este fato com outros que se deram na mesma época, ou que o antecederam ou lhe sucederam.

Assim, justapondo esses diversos fatos ao fato que ele estuda, poderá esclarecer acontecimentos que lhe permitem um conhecimento ainda mais perfeito do fato que o interesse. Freqüentemente faltam detalhes importantes a respeito de certo fato; às vezes, a falta desses detalhes impede que o fato seja inserido na História. Pode-se, por exemplo, avaliar o lugar em que o fato se deu; pode-se, ainda mais, saber a época em que o fato se verificou. Um historiador deve pôr-se a campo para relacionar este fato com outro, a ver se consegue esclarecer essas circunstâncias.

O estudo comparativo de um fato histórico com os demais é também muito importante, porque, pela analogia que os fatos de uma mesma natureza comum apresentam entre si em diferentes épocas, é possível elucidarem-se certas partes obscuras de um fato histórico.

Finalmente, o estudo em conjunto de vários fatos históricos é necessário para que o historiador possa recompor o funcionamento de instituições, o ambiente de certas sociedades passadas, os hábitos de alguma coletividade (cortes, exércitos, etc.), não apenas em fatos isolados, mas em toda uma vida social, no conjunto dos fatos de que eles se compõem.

Feito este trabalho, o historiador é naturalmente levado a examinar as causas do fato histórico que estuda, as conseqüências que este fato produz. Este trabalho exige o maior rigor científico, para que a fantasia não lhe tire todo o seu valor. É necessário que o historiador distinga rigorosamente as causas, que ele conhece como certas, das que ele pode imaginar como prováveis ou simplesmente possíveis. No estudo dessas causas ou conseqüências, é necessário que ele se aparelhe dos mais variados recursos que a técnica especializada de várias ciências lhe pode oferecer.

Fazendo a história de uma batalha, ele deverá examinar as causas da vitória, servindo-se dos recursos que lhe dá a arte militar. Fazendo a história de um envenenamento, ele tem de examinar as causas da morte, com todos os recursos que a medicina e a química lhe podem dar. Fazendo a história de uma instituição social, ele tem de socorrer-se de todas as facilidades que a sociologia moderna pode pôr ao seu alcance. O âmbito intelectual de um historiador é, portanto, imenso. E pode-se dizer que não há uma única ciência que não deva ser mobilizada pelos historiadores, para fazerem um trabalho consciencioso.

As controvérsias têm grande importância, principalmente nesta fase do trabalho do historiador. Um livre-arbitrista, um determinista ou um materialista utilizam-se de prismas inteiramente diversos, para ver as causas e conseqüências dos fenômenos históricos, e por isto é necessário que um historiador fixe bem as suas convicções filosóficas antes de empreender qualquer trabalho histórico.

Estudado o fato, verificadas as causas, estabelecidas as suas conseqüências, examinado o fato em conjunto com outros fatos históricos, para a reconstituição dos grandes quadros da História, resta ao historiador ainda outro trabalho, que é o agrupamento dos fatos segundo certo critério, para facilitar aos leitores a sua compreensão.

Os critérios utilizados para estabelecer o agrupamento dos fatos históricos são muito variáveis. Em primeiro lugar, há as grandes divisões da História, nas partes conhecidas como Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna, Idade Contemporânea. Há outras divisões com base cronológica: história de um século, história de uma geração, etc. O critério, porém, pode ser outro: agrupamos os fatos históricos, às vezes, pela sua natureza. Assim, há histórias militares, onde só são relatados fatos militares; histórias diplomáticas, em que só são relatados fatos da vida diplomática; história interna de um país, em que só se relatam os acontecimentos da sua política interna, das suas instituições, costumes, etc.

Terminada esta fase, o historiador se defronta com outro problema, que é o da narração. A narração pode ser mais ou menos literária, conforme a índole do historiador. Nas narrações literárias o historiador se preocupa em revestir a sua narração de forma brilhante.

Há porém historiadores que, ou por julgarem que essa preocupação literária prejudica a objetividade da narração histórica, ou por não terem talento literário, procuram dar à sua narração um cunho lacônico, fazendo sobressair principalmente a objetividade do seu trabalho e a perfeição dos seus elementos informativos, com uma despreocupação quase completa no que concerne à forma em geral.

Os historiadores clássicos de todos os países foram grandes historiadores e estilistas, ao mesmo tempo. Foi o que se deu com Heródoto, Tucídides, Xenofonte, Políbio e Plutarco, na Grécia; Tácito, Tito Lívio e Salústio, em Roma.

Isto posto, pergunta-se se a História constitui uma ciência. Não é fácil dar-se uma solução a quem, como os senhores, não tiveram um curso de filosofia, porque essa noção de ciência varia de acordo com as diversas escolas filosóficas, e mesmo entre filósofos de uma mesma escola pode haver divergência neste assunto.

Não posso, por falta de tempo, fazer uma exposição da imensa controvérsia que há a respeito do verdadeiro conceito da ciência. Temos uma definição clara e corrente entre muitos filósofos modernos, no que diz respeito à ciência: ciência é o conhecimento certo e sistemático das coisas pelas suas causas. Admitido este conceito, pode-se dizer que a História é uma ciência, porque ela estuda os fatos de maneira a conhecê-los de maneira certa, a investigar as suas causas e descrever os seus efeitos.

Esta questão, de se reconhecer à História um caráter científico, é bastante recente, porque os antigos consideravam a História uma pesquisa de informações sobre fatos passados, e não consideravam a possibilidade de haver na História a explicação sistemática dos fatos por ela narrados. Este conceito se conservou até muito recentemente. Não se admitia a História como ciência, dizendo que os conhecimentos se dividem em históricos, filosóficos ou poéticos, conforme predominem neles a memória, a razão ou a imaginação. Na História não havia lugar para o trabalho da razão, e a História não era pois uma ciência.

Entretanto, hoje em dia pronuncia-se cada vez mais a tendência de reconhecer-se à História um caráter científico. O desenvolvimento cada vez maior que têm os estudos de sociologia, que se entrelaçam intimamente com a História, fez com que freqüentemente verifiquemos que eles até se confundem. Como estes estudos têm caráter científico, cria-se a tendência de atribuir à História este caráter.

Fontes históricas - Fonte histórica, em última análise, é tudo aquilo que serve ao historiador para ter conhecimento de um fato passado digno de memória. Além dos documentos escritos, os depoimentos orais e testemunhos, bem como a tradição, podem ser fontes históricas de maior importância. Nos seus estudos, também não deve o historiador desprezar a análise dos objetos deixados pelas gerações que nos precederam, e que podem ter um poderoso interesse para o conhecimento do passado.

A crítica externa de uma fonte histórica se faz quando o historiador procura analisar a autenticidade de um documento. É a parte do trabalho histórico a que eu já me referi, quando falei do exame do material de que o documento se compõe, etc.

A crítica interna de um documento histórico se faz quando se analisa o conteúdo deste documento. Esta fase também ficou bem destacada na exposição que fiz do trabalho do historiador, quando me referi às indagações necessárias para estabelecer a verdade dos fatos históricos.

Ciências auxiliares da História - A expressão "ciências auxiliares da História" designa todas as ciências de que o historiador se serve para fazer o seu trabalho histórico. Em regra, pode-se dizer que todas as ciências são auxiliares da História, pois todas as ciências são de interesse ao historiador. Uma vez que o homem é o principal objeto do estudo do historiador, o que interessa o homem interessa ao historiador.

De um modo mais especial, diz-se entretanto que as ciências auxiliares da História são aquelas que facilitam ao historiador o trabalho com as fontes históricas. Entre essas ciências se destacam: a arqueologia, que é o estudo dos monumentos da antiguidade; a abigrafia, que fixa o conjunto de regras necessárias para decifrar, traduzir e examinar as inscrições do passado, deduzindo delas todos os ensinamentos filológicos e históricos que elas têm; a paleografia, o conhecimento da escrita dos tempos passados e dos elementos necessários para ler e interpretar textos antigos.

Diplomática é o estudo e a crítica dos documentos, cartas, códigos, e muito particularmente dos auto-autênticos e de todos os feitos históricos. É preciso não confundir esta ciência com o que se costuma chamar comumente diplomacia, que nada tem com ela.

Sigilografia é a ciência auxiliar da História que trata da descrição e estudo dos selos, particularmente dos medievais.

Heurística é a arte de exarar a matéria de que o historiador se deve servir no seu trabalho.

A geografia e a cronologia fornecem importantíssimos elementos ao historiador, porque a primeira nos torna possível conhecer os fatos e o lugar onde se passaram, e a cronologia nos torna possível conhecer o tempo em que eles se passaram. Sem elas não é possível inserir o fato na História.

Genealogia também é importante para a História.

Antropogeografia estuda as relações que há entre o homem e o meio físico, e tem como diferentes aspectos a geografia política, a economia, etc.

Antropologia é a história natural do homem.

Etnografia é o estudo e descrição das diversas nações, sob o ponto de vista das manifestações materiais da sua atividade.

Etnologia é a ciência que trata da formação e dos caracteres físicos das raças humanas.

A psicologia, a sociologia, a filosofia e a lingüística são muito boas para um conhecimento exato da História.

A filologia tem por objeto compreender e fazer a interpretação crítica, gramatical ou retórica dos diversos idiomas. Evidentemente a linguagem é um dos índices mais seguros para se saber a mentalidade, as tradições, o valor intelectual, etc, de um povo. É tão grande a série de recursos que a filologia dá ao historiador, que uma enumeração seria coisa impossível. Entretanto, basta que se note de passagem a possibilidade que há de se estabelecerem, pela afinidade das línguas que eles falaram, os parentescos raciais entre povos já mortos há muitos séculos, para que se tenha uma idéia do valor da filologia para os estudos históricos.

A síntese histórica é o trabalho de reconstituição do passado por meio da justaposição e confronto dos fatos históricos já conhecidos.