2. A "nova Cristandade" de Jacques Maritain

 

A obra de Jacques Maritain (16), "Humanismo integral" (17), publicada em 1936, foi o manifesto de uma nova filosofia da História e da Sociedade e oferecia as bases para uma evolução da Acção Católica no sentido oposto ao programa traçado por Pio XI na Quas Primas.

(16) Jacques Maritain nasceu em Paris em 1882 e morreu em Toulouse em 1973. Discípulo do filósofo Henri Bergson, converteu-se ao Catolicismo em 1906, juntamente com a esposa Raïssa, judia de origem russa. Depois de se ter aproximado da Action Française, separou-se de Maurras, aparecendo como o novo maître à penser do mundo católico. Depois de ter passado o período da guerra na América, foi nomeado embaixador de França junto à Santa Sé (1944-1948), para em seguida voltar à América como professor na Universidade de Princeton. Foi a Maritain que Paulo VI dirigiu a "mensagem aos intelectuais" na conclusão do Concilio Vaticano II.

(17) Jacques MARITAIN, "Humanisme intégral. Problèmes temporels et spirituels d'une nouvelle chrétienté", Aubier-Montaigne, Paris, 1936, actualmente in Jacques e Raïssa MARITAIN, "Oeuvres complètes", Editions Universitaires, Friburgo, 1984, vol. VI, pp. 293-642. A obra é a compilação de uma série de conferências proferidas em Agosto de 1934 na Universidade de Santander. Louis SALLERON, na Revue Hebdomadaire de 22 de agosto de 1936, ("Après l'Humanisme intégral? M. Jacques Maritain, marxiste chrétien", in L'Ordre Français, n° 176, Dezembro de 1973, pp. 11-24), desde 1936 denunciava lucidamente como "puramente marxista" a dialéctica de Maritain (ibid., p. 21). Entre os numerosos artigos sobre Maritain de Plínio Corrêa de Oliveira, cfr. "Maritain e o dogma da sua infalibilidade", in O Legionário, n° 190 (28 de Novembro de 1943). Para uma análise crítica do pensamento do filósofo francês, cfr. ademais Julio MEINVIELLE, "De Lamennais a Maritain", Theoria, Buenos Aires, 1967 (1945); Leopoldo PALACIOS, "El mito de la nueva cristianidad", Speiro, Madrid, 1952; Rafael GAMBRA CIUDAD, "Maritain y Teilhard de Chardin", Speiro, Madrid, 1969; e os importantes artigos de Civiltà Cattolica do Padre Antonio MESSINEO, S.J.: "Evoluzione storica e messaggio cristiano", n° 102 (1951), pp. 253-263; "Laicismo politico e dottrina cattolica", n° 103 (1952), pp. 18-28; "L'uomo e lo stato", n° 105 (1954), pp. 663-669; "Umanesimo integrale", n° 107 (1956), pp. 449-463, traduzidos com o título "O humanismo integral", nos números 75 (Março de 1957), 76 (abril de 1957), 77 (Maio de 1957) de Catolicismo.

 

Com efeito, Maritain quis substituir a Civilização Cristã sacral pelo "ideal histórico concreto de uma nova cristandade" (18), uma civitas humana profana, entendida como "um regime temporal ou uma era da civilização cuja forma inspiradora seria cristã e que corresponderia ao clima histórico dos tempos em que entramos" (19). Na base da sua Filosofia da História, que procura uma hipotética "terceira posição" entre "o ideal medieval e o ideal liberal" (20), encontra-se a tese determinista da irreversibilidade do mundo moderno e o postulado marxista do "papel histórico do proletariado" (21).

(18) J. MARITAIN, "Humanisme intégral", cit., pp. 437-526.

(19) Ibid., p. 442.

(20) Ibid., p. 495.

(21) Ibid., pp. 552-554.

 

Em última análise, o humanismo integral faz seus os princípios da Revolução Francesa, condenados pelo Magistério Pontifício e destinados a infiltrar-se nos ambientes católicos de forma maciça, com toda a vantagem para o socialismo e o "progressismo". A obra do filósofo francês, como observa António Carlos Villaça, "teve enorme repercussão no pensamento católico do Brasil. Foi um divisor de águas. Separou profundamente. Suscitou divergências terríveis. A partir daí o pensamento católico brasileiro diversifica-se: os maritainianos e os antimaritainianos" (22).

(22) A. C. VILLAÇA, "O pensamento católico no Brasil", cit., p. 14.

 

Apesar da adesão declarada de Maritain ao tomismo, a sua filosofia da história e a sua sociologia convergiam com o neo-modernismo que despontava entre jovens jesuítas e dominicanos. Sacerdotes, como Yves Congar, desde então convenceram-se de que a sua geração deveria "recuperar e transferir para o património da Igreja qualquer elemento de certo valor que pudesse emergir de uma aproximação com o modernismo" (23).

(23) Aidan NICHOLS, "Yves Congar", tr. it. Ed. Paoline, Cinisello Balsamo, 1991, p. 12. O dominicano Yves Congar (1904-1995), aluno do Padre Marie-Dominique Chenu, foi um dos expoentes da "Nouvelle Théologie". Definido como "pai e inspirador do Vaticano II" (Bruno FORTE, Avvenire, 23 de Junho de 1996), foi revestido da púrpura cardinalícia, em Novembro de 1994, por João Paulo II. Cfr. Marie Dominique CHENU, "Une école de théologie. Le Saulchoir", Editions du Cerf, Paris, 1985 (1ª ed. Tournai 1937).

 

A Acção Católica foi, com o "movimento litúrgico", o sector privilegiado pela infiltração do modernismo, sobretudo político e social (24), que eclodiu, depois de uma surda incubação, no início dos anos 30.

(24) Sobre o modernismo, cfr. Cornelio FABRO, verbete "Modernismo", in EC, vol. VIII (1952), col. 1187-1196; Ramon GARCÍA DE HARO, "Historia teológica del modernismo", Universidade de Navarra, Pamplona, 1972 e, entre as obras favoráveis ao movimento: Emile POULAT, "Histoire, dogme et critique dans la crise moderniste", Casterman, Paris, 1962; Bernard M. G. REARDON, "Roman Catholic Modernism", Stanford University Press, Londres, 1970; Thomas Leslie LOOME, "Liberal Catholicism, Reform Catholicism, Modernism. A contribution to a New Orientation on Modernist Research", Matthias Grünewald Verlag, Mainz, 1979; Gabriel DALY, O.S.A., "Trancendence and Immanence. A study in Catholic Modernism and Integralism", Clarendon Press, Oxford, 1980.

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