Sala Bandeirantes do Hotel Hilton, 17 de outubro de 1978

Minhas senhoras e meus senhores. Há mais de dez anos que a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família, Propriedade se prevalece do triste aniversário da Revolução Comunista na Rússia para promover alguma comemoração. Comemoração que sempre comporta a oração pelas almas daqueles que faleceram no campo da luta, na defesa da Civilização Cristã e da Igreja Católica, mas também a meditação que é indissociável da oração. Meditação minhas senhoras e meus senhores que se torna na hora presente e na conjuntura desse momento mais necessária do que nunca, porque é evidente que a luta contra o comunismo passa por uma de suas quadras mais agudas.

Ainda hoje refletia eu a respeito das circunstâncias que marcaram a derrocada do regime czarista na Rússia e me saltava aos olhos a desproporção entre o inimigo inicial e afinal vitorioso, que era um pequeno punhado de comunistas - é verdade que servido por uma rede, mas quão minoritária essa rede! -, de adeptos espalhados pelo imenso império russo. E, de outro lado, a mole considerável de estruturas de influências de tradições, de valores culturais, de forças armadas, de tudo enfim sobre a qual se apoiava o império dos czares e sobre a qual se poderia ter apoiado a república burguesa que se lhe seguiu.

Entretanto a desproporção jogou contra o mais forte, e o pequeno pugilo de insurrectos, de desordeiros, acabaram ganhando a melhor.

Mas se se procura a causa desse fenômeno histórico, se se procura ver de que maneira é que tanta fraqueza deu conta de tanta força, percebe-se que a razão profunda está em que os que tinham força, tinham apenas a aparência da força, eles tinham é verdade os instrumentos na mão, eles tinham é verdade o ouro diante do qual se supõe que ninguém resiste -, eles tinham é verdade as armas diante das quais tantos são obrigados a fugir, eles tinham é verdade a tradição, que tantos respeitam a TFP tanto quanto os que mais a respeitam , mas nada disso tem valor se é manuseado por pessoas sem convicções firmes, sem espírito varonil e combativo, pessoas que se deixam conquistar por um certo otimismo sistemático, mole, imprevidente, que foge da luta, como se a luta fosse necessariamente a vergonha, o sacrifício a derrota; que não enfrenta o adversário, que não tem para isso nem força nem presença de espírito, e que a cada concessão pensa ter satisfeito o adversário, de maneira que julga que cada recuo é uma condição para a vitória.

Está estratégia pessimamente formulada pelas palavras "ceder para não perder", como se cedendo, cedendo e cedendo pudessem chegar ainda a um resultado que não é perder tudo.

Se se estuda a República de Kerensky e como é que ela foi caindo, se se estuda o advento do comunismo e como é que ele se impôs, é porque de um lado havia homens intoxicados com esse espírito, quer nas fileiras da velha estrutura czarista aristocrática, quer nas fileiras da burguesia russa democratizada e republicana - pouco importa - uma e outra camada social muito fortes e muito influentes. Caíram porque tinham diante de sí adversários que não temiam a luta, que previam o perigo, que avançavam, que não se incomodavam com nenhuma espécie de ardil, que previam o pior e estavam dispostos ao pior. Esses foram os que venceram.

Ora patriotismo é patriotismo, minhas senhoras e meus senhores, essa convicção me veio contemplando também esse numeroso auditório, esse brilhante auditório que aqui está reunido, em que não só eu noto os meus caros companheiros de Diretoria, os srs. sócios e cooperadores também da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade e de entidades co-irmãs e autônomas de outros lugares do mundo, mas onde eu noto tantos elementos representativos da sociedade paulista.

Por este comparecimento, pelo brilho desta solenidade eu vejo afirmada mais uma vez uma convicção que eu tenho há muito tempo e é que a respeito do Brasil os comunistas se enganam. Eles tem talvez a impressão de que eles poderão tomar conta facilmente do Brasil e não é verdade. Há pujanças anticomunistas no Brasil muito maiores do que eles supõem e das quais os senhores são uma expressão. Uma expressão local, paulista, paulistana, de um fato imenso que se extende - para usar um hino das congregações marianas - "Do prata ao Amazonas, da serra às cordilheiras".

Realmente meus caros, o nosso povo é um povo muito inteligente, é um povo ao mesmo tempo muito cordato e muito pacífico, que tem no mais alto grau o senso da improvisação, e que muitas vezes vê vir de longe o perigo, e o vê chegar com o olho manso, com atitudes displicentes, com a cara despreocupada de quem não vê. Por causa disso dá a impressão de que nada fará, mas quando esse povo se sente de fato a ameaçado, ele sabe levantar-se como um só homem e sabe dar o revide à agressão comunista.

Nós vimos isso em [19]64, mas eu estou certo que por mais que se fale da Revolução de 64 e injustamente como nós acabamos de aqui ouvir, a fibra brasileira é a mesma e talvez o Brasil ainda seja mais anticomunista do que outrora.

E eu não o digo apenas por uma patriotada de salão, eu não o digo apenas da comodidade dessa poltrona, da qual eu tenho a honra de vos dirigir a palavra nesse momento, mas pela experiência das caravanas da TFP. Vós o tereis visto nesse mapa que está na entrada [do salão de conferências], jovens que consagram a sua vida, anos a fio, em kombis percorrendo o território nacional e que quando chegam me atestam a boa acolhida que tiveram por toda parte. Acolhida que é evidentemente a aceitação sôfrega do material de propaganda que a TFP põe à venda. Mas é muito mais do que isso, o oferecimento do auxílio, do auxílio desinteressado, do auxílio oferecido com aquela gentileza toda brasileira, toda espontânea, em que um oferece aos propagandistas anticomunistas o hotel onde pousar, outro oferece o alimento, outro oferece a gasolina de sua bomba e outros prestam a sua oficina mecânica, quando não dão o donativo de um pneumático que está gasto. E é por esta forma plebiscitária verdadeiramente, que é o escoamento enorme de edições de 100 mil e mais exemplares de certas obras. É com isso que vale não sei o que, que é o auxílio espontaneamente oferecido por solidariedade e por entusiasmo, que eu tenho meios de auferir pelo Brasil inteiro o que é a fibra anticomunista do Brasil.

Realmente meus caros, o comunismo se engana com o Brasil, mas eu devo acrescentar que o Brasil se engana com o comunismo. Porque se isso não é verdade, pelo menos muitos brasileiros se enganam com o comunismo se pensam que em relação a esse inimigo, ultra adestrado, solerte, falso, especializado em aproveitar as menores circunstâncias para desferir seu ataque, valem as velhas contemporizações cheia da simpática bonomia de outrora, isto, meus patrícios, acabou. Nós não estamos diante de um adversário qualquer, mas é de uma onça, de um onça ardilosa que nos pega na noite no meio das trevas, no meio da selva, para nos devorar; que nos pega talvez na ilusões de nossa bonomia e que nos cria em determinado momento certa situação consumada, que com previsão, com articulação, com energia, nós poderíamos ter evitado.

O comunismo não tomará conta do Brasil - eu creio nisso realmente - pela inteligência, pela força, pela fé do povo brasileiro. Mas quanto isto pode custar se o povo brasileiro não for previdente! Às nossas qualidades naturais falta a previdência, falta aquele senso de luta continuamente mobilizado e à disposição de intervir em todas as ocasiões difíceis, numa época dura e difícil como a nossa. É preciso estar de sobreaviso a respeito de tudo para não ser derrotado. A condição da vitória não é apenas a coragem, é mais do que a coragem: é a previsão, é a luta oferecida no primeiro momento, é a defesa oferecida na primeira circunstância que for necessária. É isto que é indispensável para que o Brasil vença o adversário enorme que tem diante de si.

Adversário que tem porte mundial, que está fazendo estremecer todas as nações da terra, generaliza-se entre nós um clima como se o perigo comunista não tivesse mais razão de ser, não existisse mais no Brasil. Como se houvesse uma razão para uma verdadeira desmobilização psicológica e intelectual, no momento em que o mundo inteiro se mobiliza. Ainda há dias recebi um telegrama de representantes da TFP na "Sala Stampa" do Vaticano, aonde jornalistas comentavam as vicissitudes da eleição Papal, e em que os representantes da TFP me mandavam dizer que era voz corrente dos jornalistas a gravidade atual do perigo soviético podendo desfechar até numa guerra mundial imprevista, de um momento para outro, isto é o que diziam homens informados.

Meus caros, nós devemos caminhar para esta perspectiva com mais audácia, com mais previsão, com mais senso de luta do que nunca, e é para esse senso de luta que eu vos conclamo associado a um ato de fé!

A imagem de Nossa Senhora de Fátima aqui está junto do estandarte da TFP, presidente de honra, sagrada e soleníssima desta reunião. A imagem de Nossa Senhora de Fátima que em 1917 apareceu em Portugal, na Cova da Iria, precavendo o mundo contra os castigos que viriam e, antes ainda da queda do tsarismo, prevendo que a Rússia espalharia seus erros por toda parte. Bem entendido, não eram os erros da Igreja cismática que se esboroava com a queda do tsarismo, mas era um aviso profético daquilo que viria, era logo depois do tsarismo o comunismo e com o comunismo a propagação desses erros pelo mundo. E disse Nossa Senhora em Fátima que se o mundo não tomasse tento e não se desviasse da estrada de erros em que se tinha atolado, na hora da punição, que Ela não conseguiria evitar, nessa hora até numerosas nações desapareceriam, o Pontífice romano teria muito que sofrer, etc., e eu não vos contarei o restante daquelas palavras que tantos de vós conheceis.

O fato concreto é que de 1917 a 78 nós temos 61 anos, há mais de meio século nós estamos avisados. Nós não podemos nos deixar tomar de improviso, nós temos que abandonar a nossa posição daquele "laissez faire" tradicional do bom temperamento antigo brasileiro. E a militância anticomunista tem que marcar cada vez mais a nossa presença por toda parte.

A fé prevê não só o que é terreno mas o que é extraterreno também, e faz nos prever títulos e razões de esperar e de vitória nas circunstâncias mesmo mais difíceis e mais penosas com que talvez nos defrontemos no futuro.

Eu não posso me esquecer a noite em que eu estava no Rio de Janeiro, noite em que a neblina levantada do mar cercava a estátua de Cristo Redentor no Corcovado, não posso me esquecer. Tinha os olhos fixados para aquilo: durante algum tempo era apenas um foco de luz no qual eu não discernia nada; em determinado momento, batia o vento, fazia-se um pouco de claridade, eu percebia um dos braços e uma das mãos do Cristo Redentor, iluminado com aquela luminosidade especial, que a pedra sabão de que é revestido o monumento absorve a luz que sobre ele se projeta.

Pouco depois o vento batia e era a face do Cristo Redentor que aparecia, era o seu peito onde pulsa o seu Sagrado Coração, mais adiante eram os seus pés divinos que todos nós gostaríamos de oscular, mas eu prestava atenção prestava atenção Em nenhum momento, por mais densas que fossem as névoas, a luz deixava de encontrar um certo ponto de apoio no monumento, de maneira que apenas sendo uma luz fixa sobre uma silhueta ou sobre uma mão que protege, uma mão que abençoa, um coração que palpita de amor, ou uma face que contempla com solicitude, em nenhum momento a neblina conseguiu apagar a figura do Redentor.

Esta é a fé com que nós caminhamos para o futuro, quaisquer que sejam as circunstâncias. Poderá ser que provações muito difíceis toldem dos nossos olhos as perspectivas da vitória, pode ser que circunstâncias imprevistas coloquem para nós problemas que hoje não são os nossos. Mas, para além das névoas, para além de tudo aquilo que pode tapar a verdade, no horizonte visual do brasileiro há algo que nada tira: é a imagem do Cristo Redentor, a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta fé há de nos salvar!

Meus caros, o Brasil há de vencer qualquer que seja a situação, e é rumo a esta vitória que todos caminhamos com o passo resoluto e a alma cheia de fé.

Eu vos convido, nessas circunstâncias, a encerrar a presente reunião dando junto conosco da TFP, o brado das nossas campanhas:

Pelo Brasil!

Tradição, Família Propriedade

Tradição, Família Propriedade

Tradição, Família Propriedade

Brasil, Brasil, Brasil!