Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Nobreza: função social e sustentação religiosa

 

 

Catolicismo, n° 536, agosto de 1995 (*)

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Coroa Imperial da Áustria

 

Classe social modeladora do tipo humano, e cujo substrato reside na Fé católica

 

Imperador Francisco José (1830-1916), homem-símbolo do Império Austro-húngaro, e cuja memória e influência cultural são marcantes, mesmo na Áustria de hoje

Em suas alocuções, Pio XII empenha-se em acentuar que a nobreza - mesmo em nossos dias - não é uma classe que agoniza. Pelo contrário, ela deve permanecer, como tudo que tem seu fundamento na ordem natural das coisas. Se os tempos estão mudados, a nobreza tem novos encargos, ainda maiores e mais diferenciados. E se tem mais encargos, é porque tem maior atualidade. Cumpre notar que as alocuções não eram meros discursos de gentileza, mas sim diretrizes dadas pelo Papa depois de muita reflexão, com toda a responsabilidade de seu cargo, e tendo em vista as circunstâncias concretas da atualidade.

 

Palácio de Schonbrunn, Viena

A função social da nobreza

É preciso distinguir a atmosfera política da atmosfera social.

Após a instauração de repúblicas nos diversos países do Ocidente, a nobreza, onde ela existia, ficou excluída de sua função política. Restou-lhe porém a função social.

Esta função social consistia em que, sendo a nobreza reconhecida como a mais alta classe social, todo o restante da sociedade tinha suas atenções voltadas para ela no que diz respeito à moralidade, aos costumes, ao porte, às modas, enfim a tudo quanto é vida social e tipo humano.

Pois o tipo humano do nobre era aquele que todos julgavam dever imitar, na medida em que subiam na escala social até às camadas mais altas da burguesia, próximas à condição nobiliárquica. Quanto mais um burguês ia enriquecendo, mais se aproximava da nobreza, e sentia necessidade de ir assumindo o tipo humano do nobre, tanto masculino quanto feminino.

Esta influência da nobreza é de grande importância, no que diz respeito à moralidade pública e à mentalidade social. Uma nobreza consciente de tal influência pode modelar a mentalidade de toda uma classe de pessoas.

Assim, por exemplo, se nas reuniões sociais da classe nobre não se dança o rock, isto representa um freio para deter sua difusão na sociedade, e impedir assim que ela caminhe ainda mais no sentido revolucionário. Num ambiente de pessoas respeitadas e acatadas, onde não se dança o rock porque se considera que a mentalidade que ele exprime e acentua é uma mentalidade má, essa rejeição cria em todo o corpo social uma resistência não pequena à marcha rumo à decadência e à degenerescência revolucionárias.

E exercer tal influência é muito mais importante que ser deputado ou senador.

A função social da nobreza também se deve fazer notar no campo da moda, muito especialmente quanto aos trajes femininos. Preservando sempre a modéstia e o pudor, eles devem ter um ar de elegância e de leveza, que acentue o caráter feminino e dê a entender que não deve haver confusão entre os sexos. Pois à mulher convém uma delicadeza que não é própria ao homem. A leveza da conversa, da educação e dos sentimentos de uma senhora devem marcar sua agradável presença em qualquer ambiente.

O senso cavalheiresco do homem levou-o a tratar o sexo feminino quase como se fosse uma classe mais alta, dando às mulheres a precedência habitual no trato diário: nas entradas e saídas, em ocupar assentos, em serem servidas primeiro etc. E mil pequenas circunstâncias da vida respeitavam essa singular superioridade da senhora, fruto da elegantíssima atitude do mais forte que se inclinava diante da graça do mais frágil. Nesse sentido, o sexo feminino era tratado como uma verdadeira nobreza.

A influência da nobreza nas modas obrigava a uma atitude de linha, de correção e de cuidado, que o temperamento feminino habitualmente exige.

O movimento feminista desenvolveu contra o sexo feminino toda a revolução igualitária, à semelhança do movimento igualitário revolucionário contra a nobreza, trazendo como resultado um rebaixamento progressivo da mulher. Foi preciso uma longa evolução, uma longa decadência nas desigualdades proporcionadas, para levar a mulher à situação em que ela se encontra hoje.

Assim, embora seja relevante o comando político de um país, a direção social é muito mais importante. Porque a má direção social faz decair a moralidade, o que acarreta a decadência da religião. E a decadência da religião aniquila o país. Pelo contrário, se a direção social for boa, tudo fica em seu lugar próprio, e o país se mantém e progride.

Nobreza e Fé católica

Num país católico, quando um nobre perde a Fé ou passa a viver em concubinato, por exemplo, deveria ser destituído de sua alta condição.

Pois os que possuem a verdadeira Fé católica sabem que a principal nobreza do homem - no sentido mais profundo - é ser católico, é ser batizado. De maneira que, ao abandonar a Igreja, o nobre perde o caráter de nobreza nessa acepção plena. Ele e também seus descendentes, pois ninguém transmite o que não tem. A nobreza decorre de um caráter que o nobre possui. Pode, entretanto, um não católico possuir traços de nobreza, às vezes consideráveis, mas jamais enfeixará a plenitude da nobreza, a qual supõe a fé católica.

Há incontáveis modos de ser nobre. O universo é uma verdadeira corte repleta de elementos desiguais, porque uns têm mais nobreza no seu ser e outros a têm menos, compreendidos até os seres animais e vegetais. Neste sentido pode-se falar até de "nobreza" de um pavão ou de um cisne.

Não se pode dizer que Deus possui qualidades ou perfeições, mas teologicamente se diz que Ele é toda e qualquer qualidade ou perfeição. Os seres nobres receberam essa qualidade do Criador, porque ninguém tem algo no seu próprio ser que não tenha recebido dEle. Deus não é o nobre por excelência, mas é a própria Nobreza.

Exemplificações

O papel social da nobreza pedia também um certo esplendor na vida do nobre. Assim, no castelo havia festas, passeios, concertos musicais e, muito especialmente, caçadas a que todo o povo podia assistir. O que este fazia com agrado, pois o esplendor da vida social da nobreza era o espetáculo do povo.

As caçadas, por exemplo, constituíam para os camponeses um duplo benefício: não somente lhes distraiam, mas também lhes eram de grande utilidade prática.

Eles gostavam de ver o cortejo da caçada sair do castelo, com os nobres a cavalo, os cornos de caça que soavam em tom festivo, a ruidosa e aguerrida matilha de cães etc., tudo abençoado por um sacerdote, que dava uma certa nota sacral ao evento. Caçadas particularmente brilhantes se realizavam por ocasião da festa de Santo Humberto, padroeiro dos caçadores.

Mas a par de todo esse espetáculo, os camponeses bem sabiam que proveito iriam tirar do resultado da caçada. Pois nela eram eliminados javalis, lobos, raposas e outros animais malfazejos, que com freqüência danificavam seriamente as plantações, matavam animais de criação e ameaçavam a própria segurança dos camponeses.

Ficava o povo, assim, duplamente agradecido à nobreza: pelo espetáculo visual que lhe proporcionava e pelo benefício material que provinha daquilo que, para uma mentalidade igualitária, poderia parecer um passatempo supérfluo e dispendioso.

Mais um exemplo da harmonia entre as classes que existia na civilização cristã.


(*) Excertos da conferência pronunciada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP, em 6-11-1992, comentando, a pedido destes, a obra de sua autoria Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana (Editora Civilização, Porto, 1992). Sem revisão do conferencista.


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